*Os livros estão na ordem de leitura recomendada.

QUATROLÊNCIA

17/09/2015 by in category Livros with 0 and 0

PRIMEIRA PARTE

A palavra violência vem do verbo violar. Quando você está executando um ato de violência, você está violando o outro. Quando o outro está executando um ato de violência, o outro está violando você. Violência é violar, invadir, infringir, transgredir. A partir dessa definição, vamos aprofundar no entendimento do que é violência. Existe uma forma de falar de violência que é assim: “Fulano violou a integridade física de ciclano”. No estupro, por exemplo, uma pessoa viola a integridade física da outra. Quando uma pessoa esfaqueia a outra pessoa também está violando a integridade física do outro. Agora vamos deixar explícito o que está implícito no termo “violar a integridade física”. Vamos supor que você queira violar a integridade física de uma pessoa. O que essa pessoa precisa ter para que seja possível você executar a violência?

PARTICIPANTE: Um corpo.

Exato! Como você pode violar o corpo de uma pessoa sem corpo? Você não consegue. Óbvio que sem corpo não tem pessoa física, mas estamos aqui para entender o óbvio mesmo. Você só consegue violar o corpo de uma pessoa porque a pessoa tem um corpo, caso contrário, você vai violar o quê? Mas corpo é um jeito bem superficial de entrarmos no assunto. Tem outra palavra bem melhor e similar a corpo que esclarece mais o que é violência. Que palavra é essa?

PARTICIPANTE: Individualidade.

Isso! Para você poder violar a integridade física de uma pessoa é preciso que essa pessoa seja uma integridade física. Integridade = individualidade = unicidade. Uma pessoa é uma integridade, é uma individualidade, é uma unicidade. A palavra unicidade vai esclarecer e ampliar nosso entendimento do que é violência. Só existe violência porque existe unicidade. Unicidade física é entendida por corpo. Violência física é você violando o corpo do outro e vice-versa. Só que a unicidade de uma pessoa não é apenas física. Então, violência não é só física.

Ser humano não é só corpo (fisicalidade). Ser humano é um quaternário, tem unicidade física, sensorial, afetiva e intelectual. Então, assim como existe violência física, também existe violência sensorial, afetiva e intelectual. Só que a violência física é a única considerada violência e as outras três não são. Quando uma pessoa viola sua unicidade sensorial, ou afetiva ou intelectual, essa pessoa não considera que executou um ato de violência com você. E o contrário também. Quando você viola a unicidade sensorial, ou afetiva ou intelectual do outro, você também não considera que executou um ato de violência com o outro.

Por exemplo, quando você tenta enfiar seu critério de certo e errado goela abaixo no outro, você não considera que está executando um ato de violência com o outro, muito pelo contrário, você acha que está fazendo um bem para o outro, que está ajudando o outro. Afetividade é valor. Vamos supor que você se ache uma boa mãe. Só que seu filho não acha. O critério de valor dele é diferente do seu. Então, você começa a brigar e obrigar seu filho a te reconhecer como uma boa mãe. Ao fazer isso, você não vai considerar que está cometendo um ato de violência com seu filho, mas está. Violência afetiva. Quando você quer obrigar alguém a gostar de um estilo de música, você enche o saco da pessoa, faz ironia, guerra de nervos, só que você não considera isso um ato de violência. Mas é violência também. Quando o outro não gosta de algo, forçar a barra é violência sensorial.

Violência sensorial, afetiva e intelectual não são consideradas violências. Se não cortou o pescoço, não furou os olhos, não tem hematoma e sangue jorrando, não é violência. Mas é. Violência é violar. Quando você viola a unicidade do outro, seja fisicamente, sensorialmente, afetivamente ou intelectualmente, você está executando um ato de violência com o outro. Quando o outro viola sua unicidade, seja fisicamente, sensorialmente, afetivamente ou intelectualmente, o outro está executando um ato de violência com você. Violência não é só física, é quaternária: física, sensorial, afetiva e intelectual. Então, você viola e é violado de quatro maneiras. Só que apenas a violência física é considerada violência, as outras três não são. Mas isso é um equívoco. O que expliquei até aqui foi para desfazer esse equívoco. Ficou claro? Alguma pergunta?


SEGUNDA PARTE

PARTICIPANTE: Como um pai pode ser violento com um filho que ama?

O filme Sociedade dos Poetas Mortos dá um exemplo disso. O pai queria que o filho fosse médico. Colocou todo o amor dele naquele ato de obrigar o filho a ser médico. Os pais violentam os filhos por amor. Eles acreditam que estão fazendo bem aos filhos. É um equívoco sincero, bem intencionado, mas é um equívoco. Nenhum pai acha que está violentando o filho. Os pais acreditam que estão fazendo o melhor, que estão educando os filhos. Mas educação sem diálogo, na base da imposição, sem entender que o filho é outro, diferente, que tem unicidade própria, não é bom para o filho nem para os pais, pois gera má convivência. Não adianta você educar um gato para botar ovos. Por mais amor que você coloque nessa tentativa, você vai estar violentando o gato, pois gato não bota ovos, não é da natureza dele. A unicidade de cada um é a natureza de cada um. Se o seu filho tem natureza de gato, seu filho jamais irá botar ovos. Ele só vai fingir que bota e ainda vai ficar magoado com você.

PARTICIPANTE: Se ignoramos nossa unicidade, como saber da unicidade dos outros?

Exato! Violamos a unicidade dos outros porque ignoramos nossa própria. Percebe a sutileza? Violência nem é o assunto. É só auxílio ao assunto. O assunto mesmo é a ignorância. A ignorância é a raiz da violência. Se ignoramos nossa própria unicidade, como lidar bem com a unicidade do outro? Impossível.

PARTICIPANTE: A violência é uma bola de neve. Eu violento você, você me violenta de volta. E a bola de neve vai aumentando.

Isso mesmo! Mas não sabemos viver de outro jeito. Só sabemos jogar o jogo da violência, que é oscilar entre opressor e oprimido, violentado e violentador. Nossa mentalidade coletiva diz que liberdade é estar na posição de opressor, violentador, controlador, etc. Escravidão é estar na posição de oprimido, controlado, violentado. Quando você está sendo violentado, você é prisioneiro, o outro está te dominando, então, você deve buscar liberdade se tornando o opressor do opressor. E assim por diante, até o topo da pirâmide do controle, onde você pode controlar todos e ninguém pode controlar você. Daí você é absolutamente livre. Isso é um equívoco. Vamos estudá-lo em breve.

PARTICIPANTE: A solução é o respeito?

Não! A solução é lucidez. Respeito é desdobramento da lucidez. A palavra respeito só serve de gasolina para perpetuação da violência. Todo mundo quer ser respeitado, mas ninguém respeita ninguém. Respeito não se pede, respeito se dá. Quando você pede respeito, na verdade, o que você está pedindo é que o outro reze sua cartilha. Isso não é respeito, isso é violência. Quando você realmente respeita, você respeita inclusive o desrespeito. Mas ninguém respeita o desrespeito. Respeitar o desrespeito é a história de oferecer a outra face. Quem oferece a outra face?

PARTICIPANTE: Como inibir a violência do outro?

Olha aí o problema pintado de solução! Inibir a violência do outro é usar a violência para acabar com a violência. É tentar apagar o fogo jogando gasolina. É impossível inibir a violência do outro. Você pode tentar. Mas essa tentativa é você violentando o outro.

PARTICIPANTE: Por que o outro viola minha unicidade?

Porque o outro ignora sua própria unicidade (dele mesmo).

PARTICIPANTE: A violência está por todo lado.

A violência é o alicerce da nossa sociedade. Nosso sistema jurídico se chama “sistema penal”, ou seja, é a regulamentação da violência.

PARTICIPANTE: Acreditamos que estamos fazendo o melhor.

Exato! Não somos violentos por maldade. Somos equivocados sinceros. Todo pai e toda mãe, ao violar a unicidade do filho, acredita que está executando um ato de amor. Por isso que o problema não está na violência, mas no que vem antes, na ignorância de si. Quando você entende que você é uma unicidade, diferente do outro, automaticamente você entende que o outro também é uma unicidade, diferente de você. Entende também, que por serem diferentes, o que é melhor para você é diferente do que é melhor para o outro e vice versa.

PARTICIPANTE: No filme do super homem, ele fica em dúvida se deve interferir ou não na vida dos humanos. Eu acho que esse é o problema: interferência. A gente acha que é o super-homem e interfere na vida do outro, impõe para os filhos nosso modo, e assim segue uma geração após a outra.

O problema não é a interferência. O problema é que não consideramos o outro como sendo outro. Falamos em “outro”, mas só falamos, é só uma palavra vazia. Consideramos o outro como extensão de nós mesmos, feito um sapato, um garfo, uma mochila, um chaveiro. Ou seja, uma coisa sem vontade e sem unicidade. Pensamos no outro como um robô que só existe para satisfazer nossos desejos e expectativas. Então, o problema não é a interferência. O problema é a ignorância da unicidade. Se entendêssemos o outro como sendo outro, não haveria como existir violência. Vamos supor que você vai almoçar com seus colegas de trabalho. Você come feijoada. No caminho de volta a feijoada começa a borbulhar no seu estômago. Sua barriga vai ficando inchada. Você entra no elevador com a turma e você tem duas opções: peidar ou morrer. Para não morrer, você decide peidar. Seus companheiros de trabalho não têm para onde fugir. Elevador não tem janela. Pergunto: você interferiu na experiência dos seus companheiros de trabalho?

PARTICIPANTE: Sim, interferi.

Você acha que interferiu pouco ou muito?

PARTICIPANTE: Bastante.

Você acha que eles prefeririam a interferência do super homem ou a sua?

PARTICIPANTE: Do super homem.

Criei essa imagem para deixar bem explícito que interferir é inevitável. Não é opcional. A qualidade da sua interferência que é opcional. Foi exatamente o que o super homem entendeu. Não fazer nada é um tipo de interferência. Fazer alguma coisa é outro tipo de interferência. Autoísmo é um jeito de você interferir na convivência. Outroísmo é outro jeito. Interferir é inevitável. Se sua interferência é outroísta ou autoísta, isso sim é opcional.

PARTICIPANTE: Quando sou humilhado tenho que aceitar a humilhação. Isso é respeitar?

Respeito é desdobramento da lucidez, não da autoimposição. Respeito por autoimposição é fingimento. Você só é capaz de executar o respeito quando está consciente do ciclo vicioso da violência. Uma vez consciente, para não perpetuá-lo, você executa o respeito. Então, quando uma pessoa te humilha, não adianta você pensar assim: “Como aprendi que respeitar é a opção que quebra o ciclo vicioso da violência, vou aceitar essa humilhação”. Isso não funciona. Você continua no ciclo vicioso da violência. Você está se obrigando a fazer uma coisa que não quer e não entende. Você está violentando seu nível de consciência. Você não tem lucidez suficiente para executar o respeito, assim como um surdo não tem audição para cantar afinado. Então, assim como não funciona o surdo se obrigar a cantar afinado, também não adianta você se obrigar a respeitar. A solução para o surdo cantar afinado é recuperar a audição. A solução para você executar o respeito é despertar a consciência para sua unicidade.

Lembra da conversa sobre medicina preventiva e medicina curativa? É isso! Como não temos lucidez ainda, vamos para gangorra da violência quase sempre. 99% das vezes. Daí o jeito é praticar medicina curativa para sair da gangorra. Saímos. A lucidez aumenta 1%. Ótimo! Agora vamos para gangorra 98% das vezes. Melhoramos. Mas ainda caímos na gangorra. O jeito é praticar medicina curativa de novo. Saímos de novo. A lucidez aumenta para 2%. Ótimo! Agora vamos para gangorra 97% das vezes. Melhoramos mais um pouco. Porém, ainda caímos na gangorra. O jeito é praticar medicina curativa de novo. E assim por diante. Até ficarmos mestres em viver bem. Daí, ao invés de medicina curativa, passamos a praticar medicina preventiva.

PARTICIPANTE: Qual é a ligação da violência com o outroísmo?

Outroísmo é violência. Atenção! Não é que outroísmo gera violência. Outroísmo é violência. Outroísmo é tentar uniformizar o outro, fazer o outro igual a você e vice-versa. Um tentando uniformizar o outro é violência. Então, embora não tenhamos consciência disso, estamos a todo instante sendo estimulados e estimulando nossa coletividade a perpetuar a violência. E pior! Fazemos isso falando de amor, paz, respeito, educação e várias outras palavras que são apenas disfarces para violência.


TERCEIRA PARTE

Para terminar, vou esclarecer mais um ponto. Quando pensamos em violência, pensamos sempre em ataque. Ataque físico, ataque psicológico. O mais comum é pensarmos em ataque. Só que violência não é ataque. Se violência não é ataque, o que é?

PARTICIPANTE: É defesa.

Exato! Violência é defesa. Violência parece ataque porque a melhor defesa é o ataque. Você ataca o outro para se defender. O outro ataca você para se defender. A melhor defesa é o ataque. Entender isso possibilita você se investigar e sair do ciclo vicioso da violência. Você pode se perguntar: “Por que estou atacando isso ou aquilo no outro? O que estou tentando defender dentro de mim?”. Essa investigação vai produzindo autoconhecimento e retirando você do ciclo vicioso da violência.


RESUMINDO:

> Violência é violar a unicidade do outro.
> Violência pode ser física, sensorial, afetiva e intelectual.
> Você viola a unicidade do outro porque ignora sua própria.
> Violência é outroísmo.
> Violência não é ataque, é defesa.
> Violência parece ataque porque o ataque é a melhor defesa.
> Você sai do ciclo da violência se tornando consciente de que está dentro dele.


ESPINHOS DA CONVIVÊNCIA

Os porcos espinhos saíram do estado de isolamento e caminharam até a porta. Antes de entrarem, o guardião explicou: “Assim que atravessarem essa porta, começarão a experimentar uma coisa chamada “convivência”. Vocês irão interagir, trocar e cooperar uns com os outros. Mas também irão magoar e machucar uns aos outros muitas e muitas vezes. Lidar bem com o mal faz parte da aprendizagem da boa convivência. As brigas, as mágoas, os espinhos devem ser usados para aprendizagem. No começo é difícil porque dói muito. Aprendam a usar a dor como despertador e professor. Ao sentirem dor, olhem para o que está acontecendo dentro de vocês, nunca para fora. Bons estudos e podem entrar!”

PERGUNTAS

Imagine dois cegos jogando ping pong. Assim é sua convivência. Você ignora a causa do seu comportamento e o outro ignora a causa do comportamento dele. Como uma convivência baseada na ignorância pode ser de boa qualidade? Impossível. E não adianta força de vontade. Não adianta tentar resolver comportamento atuando sobre o comportamento. Fazer isso é como tentar curar febre atuando sobre o termômetro. Comportamento é efeito. Para resolver sua febre você deve descobrir a causa da sua febre. Para melhorar a qualidade da sua convivência você deve descobrir a causa do seu comportamento. Sendo que a causa do seu comportamento está em você, para descobri-la, só tem um jeito: praticando autociência. Eis como jogar bem o jogo da convivência.

Não! John Lennon errou. All you need is not love. Você deve despertar a consciência. Amor não é solução, amor é o problema. Quer ver? Por que o homem bomba faz kabum? Porque ama deus. Por que os alemães dizimaram os judeus? Porque amavam sua pátria. Por que os adoradores da ideologia A difamam a ideologia B e vice versa? Porque amam suas ideologias. Por que seu pai lhe obriga a usar um sapato 36 sendo que você calça 37? Porque seu pai te ama. Por que você aceita? Porque você ama seu pai. Por que você coloca uma coleira na sua namorada e a proíbe de ter outros namorados? Porque você ama sua namorada. E assim por diante. Percebe? É tudo por amor! Sempre! Inevitavelmente! Essa é a primeira obviedade para qual você deve despertar. A segunda é que você não sabe amar. Você ama em absoluta ignorância do que é, para que serve e como funciona. Mas o sonho não precisa acabar, apenas deve se tornar um sonho lúcido. Ou então, você vai continuar criando o problema e cantando “love, love, love…”.

Em se tratando de um ataque psicológico, não há necessidade de defesa. Não há nada que o outro possa fazer para ferir sua unicidade afetiva e intelectual. Vamos supor que você me ataque psicologicamente me chamando de feio. Qual é o problema? Nenhum. Você me chamou de feio. Só isso! Eu não preciso me defender do seu ataque. Eu sou o que sou e não tenho como deixar de ser. Quando você me chama de feio eu não deixo de ser o que sou. Se você me chamar de bonito, também não deixo de ser o que sou. Então, qual é a necessidade de me defender? Nenhuma. Mas se eu quiser que você me considere bonito, daí sim tenho que me defender. Mas só vou me defender por aceitar o rótulo de feio que você grudou em mim e tentar te manipular para que troque esse rótulo de feio para bonito.

Existem duas opções para o fim da treta humana:

OPÇÃO (A) Todas as pessoas devem ser fisicamente e psicologicamente idênticas. Não deve haver nenhuma desigualdade que sirva de motivo para inveja. OPÇÃO (B) Respeitar e apreciar as diferenças.

OPÇÃO (A) Todas as pessoas devem ser patrões, ninguém deve ser empregado. OPÇÃO (B) Quem quiser ser patrão, seja patrão, quem quiser ser empregado, seja empregado.

OPÇÃO (A) Todas as pessoas devem ser candidatas à presidência da república e todas devem vencer as eleições com 100% dos votos. OPÇÃO (B) Democracia.

OPÇÃO (A) Todas as pessoas devem ganhar no par ou ímpar. Nunca ninguém deve perder. Só deve existir ganhadores, nunca perdedores. Todas as seleções devem ser igualmente campeãs da copa do mundo. OPÇÃO (B) Aprender a perder.

OPÇÃO (A) Ninguém deve jamais frustrar ou decepcionar as expectativas dos outros. Todas as expectativas de todas as pessoas devem ser sempre e completamente satisfeitas. OPÇÃO (B) Aprender com a frustração e a decepção.

OPÇÃO (A) Todas as pessoas devem ser onipotentes. A vontade de cada pessoa deve ser absoluta e deve ser seguida por todos. OPÇÃO (B) Cada um com seu arbítrio.

OPÇÃO (A) Todas as pessoas devem estar certas. A crença de cada pessoa deve ser absoluta e deve ser verdade para todos. OPÇÃO (B) Cada um acredita no que quiser.

OPÇÃO (A) O que é melhor para cada pessoa deve ser absoluto e deve ser melhor para todos. OPÇÃO (B) Cada um faz o que achar melhor.

Escolha sua opção.

Você pode falar. Tanto pode, que fala, e fala, e fala… E você não é o único, todos podem e falam, diariamente, repetidamente e insistentemente. O que tem todo dia nas redes sociais? Seres humanos cagando regra. Seres humanos recitando o gabarito do que está certo e errado. Seres humanos dizendo o que pode e não pode comer, o que é bom e ruim, o que está na moda e o que é brega, o que é pecado e o que é virtude.

Somos oito bilhões de caga-regras dizendo uns aos outros como cada um deve viver sua vida. Não existem índios nesse planeta, só existem caciques. Mas é pior que isso!

Somos também oito bilhões de super heróis, todos tentando salvar o mundo. E salvar o mundo do que? Do errado. O cristão quer salvar o mundo do islamismo e o islâmico quer salvar o mundo do cristianismo. O ateu quer salvar o mundo da crendice e o crente quer salvar o mundo do ateísmo. Os heterossexuais querem salvar o mundo da homossexualidade e os homossexuais querem salvar o mundo da heterossexualidade. A esquerda quer salvar o mundo da direita e a direita quer salvar o mundo da esquerda. Os pais querem salvar os filhos e os filhos querem salvar os pais. Resultado, treta, guerra, soco, pontapé, facada, mágoa, inimizade, ódio, etc. E tudo em nome de ajudar o outro.

Ajudar o outro é piada! Ninguém quer ajudar o outro. Cada um quer ajudar a si mesmo. Cada um quer que o outro reze sua cartilha. Cada um quer que sua verdade seja absoluta.

Se não fossemos hipócritas e admitíssemos isso, daí sim, ajudaria. Mas não, somos todos certos e santos. O vilão é sempre o outro. A culpa é sempre do outro. O errado é o outro. O inferno é o outro. O capeta é o outro. Eu sou o salvador. Eu imponho meu certo ao outro porque são as bases da santidade, da verdade, do amor e da salvação.

Você pode cagar sua regra para o outro, assim como o outro pode cagar a regra dele para você. O que não significa que a regra que você caga para o outro, serve para o outro, assim como a regra que o outro caga para você, serve para você. E nem precisa despertar a consciência para perceber isso.

O outro calça 37, você calça 36, como seu sapato pode servir para o outro? Não pode. Impossível. O que serve para você, serve para você. O que serve para o outro, serve para o outro. Seu viver, suas regras. Viver do outro, regras do outro. Cada um optando pelo que serve para si e todos vivendo e convivendo bem.

Dito isso, você pode expor sua opinião e seu critério de valores ao outro sem ser um caga regras. Como? Exatamente como estou fazendo aqui: explicando. Estou lhe explicando como funciona a atual forma de convivência humana e porque resulta em mal viver. E só estou fazendo isso porque me perguntou. Se não tivesse me perguntado, não lhe explicaria nada, pois estaria sendo invasivo.

Expor é diferente de impor. Explicar é diferente de implicar. Expor e explicar é saudável e produz bem viver. Impor e implicar é violento e produz mal viver.

Expliquei?

Despertando a consciência para o que é ser humano e como funciona a experiência humana. Sem essa consciência é impossível conviver bem.

Interlocutor: Onde é que eu compro essa consciência? Vende no supermercado? Tem na internet? Entrega pelo correio?

É gratuito, mas você não encontra em lugar nenhum. Para adquirir essa consciência você deve praticar autoobservação existencial, psicológica e pessoal.

Interlocutor: Onde eu pratico isso? Na academia? Tem curso disso?

Você pratica em si, se observando existencialmente, psicologicamente e pessoalmente.

Interlocutor: Quando eu pratico isso?

Você tem duas opções:

(A) agora
(B) nunca

Não educando. Educação é o nome politicamente correto do outroísmo impositivo. Educar uma criança, no sentido de programá-la para seguir seus valores e crenças, não é diferente de domesticar um cachorro. Você bate palmas e a criança rola no chão. Você assobia e a criança fica em pé. Você balança a cabeça para direita e a criança pula. E assim por diante.

Então, se você não quer ser outroísta impositivo com uma criança, nem com ninguém, desista da educação. Tentar resolver a violência através da educação é igual tentar apagar fogo jogando gasolina.

Dito isso, vamos supor que você queira ensinar uma criança a falar russo. O que é necessário, fundamental e imprescindível para que isso seja possível?

Interlocutor: Eu preciso saber falar russo.

Exato! Como você pode ensinar algo que você mesmo não sabe o que é e não sabe fazer? Impossível! Então, como você pode ensinar uma criança a viver e conviver bem se você mesmo não sabe o que é isso e não sabe fazer isso? Impossível também.

Se você quer ensinar uma criança ou qualquer pessoa a viver bem, primeiro pratique autociência para ficar consciente sobre o que é ser humano e como viver bem uma experiência humana. Se concentre só e completamente nisso. Esqueça todo o resto. Abandone todo o resto. Conforme você for despertando a consciência para o que é ser humano e como viver bem uma experiência humana, você fará isso em sua própria experiência humana. Quanto mais você viver em si o que quer ensinar ao outro, mais o seu viver estará ensinando o outro sem que você precise falar nada.

Enfim, seja o exemplo do que você quer ensinar, caso contrário, a única coisa que você estará ensinando ao outro é a hipocrisia. É por isso, que a última estrofe da declaração da universalidade diz assim: “que meu viver confirme minhas palavras”. Pois de que adianta se por fora for bela viola se por dentro for pão bolorento? Não adianta nada, é tiro no pé.

Interlocutor: Eu tenho um filho e se for preciso que eu desperte a consciência primeiro para depois poder ensiná-lo, vou morrer e não vou fazer isso.

Sim, provavelmente você irá morrer e não irá conseguir ensinar seu filho a viver bem, pois você mesmo não despertou para isso. Mas você não precisa aprender o alfabeto inteiro do bem viver para começar a servir de exemplo. Se você pratica autociência, aprende a letra A e executa a letra A, você já estará servindo de exemplo aos outros para aprendizagem da letra A. Daí você pratica mais autociência para aprender a letra B e assim por diante. Até qual letra você servirá de exemplo para seu filho antes de morrer, eu não sei. Mas com certeza, se não praticar, não terá nada para ensinar.

Quer aceitar algo? Aceite esse conselho: desista de aceitar o outro. Você é incapaz de aceitar o que não entende. Você não entende o outro, por isso não consegue aceitá-lo. E pior! Você não tem como entendê-lo. É impossível. Você não tem acesso ao outro, as crenças do outro, valores, sentimentos, motivações, preferências, etc. O outro é outro justamente porque é inacessível a você. Então, desista da missão impossível. Use essa mesma disposição e tempo para aceitar a si mesmo. Isso sim é possível. Você tem absoluto acesso a si mesmo. Você está sempre a sua disposição. E você é totalmente capaz de se entender. Mergulhe no autoconhecimento. Você tem 24 horas por dia de oportunidade para se conhecer. Aproveite. Quanto mais autoconhecimento, mais autoaceitação, quanto mais autoaceitação, mais fácil e simples é aceitar o outro, até inevitável, mesmo sem ter acesso ao outro, pois o outro é outro-você.

Imagine que você está jogando futebol e toda vez que a bola vem para você o juiz apita e marca falta. Você não consegue sair desse ciclo, fica preso nele, dentro dele. Basta alguém passar a bola para você e o ciclo se repete, o juiz apita e marca falta. Então, você decide descobrir porque está preso no ciclo do apito. Você investiga o jogo e descobre que futebol se joga com os pés e você está usando a mão. Por isso que toda vez que passam a bola para você se repete o ciclo do apito. Você está pegando a bola com a mão. Ao ficar consciente disso, você para de pegar a bola com a mão e sai do ciclo do apito. Analogamente, o mesmo acontece com o ciclo da violência. Você fica preso no ciclo da violência porque combate violência com violência. Para sair, você deve ficar consciente que está dentro.

Fico triste. Acho ruim. Sobre como lido com isso, só sei na hora.

Dito isso, sua pergunta contém um equívoco que todo aluno de autociência comete no começo dos estudos, acreditar que existe receita de certo e errado, solução de bolo de caixinha para viver bem. Não existe. Tudo é circunstancial e uma circunstância nunca é igual a outra. Então, o que funciona numa circunstância pode não funcionar na outra, o que é melhor numa circunstância pode ser pior na outra, e assim por diante.

Um ser humano lúcido nunca usa uma receita de bolo de caixinha para lidar com uma circunstância, usa o raciocínio. Ele olha para sua realidade com atenção, analisa e pensa na melhor maneira de lidar com aquela realidade. É isso que faço de instante em instante, circunstância após circunstância. É isso que faria para lidar com a traição de um amigo. É isso que sugiro que você faça.

Você pode replicar: “Ah! Mas eu não tenho a mesma qualidade de raciocínio que você para lidar com minha realidade”. Sim, fato, cada um tem sua própria qualidade de raciocínio. A minha é diferente da sua, que é diferente do outro, etc. Cabe a cada um usar o próprio raciocínio para lidar com sua realidade. Um não tem como usar o raciocínio do outro. Mas você pode fazer do limão uma limonada.

Você pode e deve usar circunstâncias desagradáveis como oportunidades para exercitar e melhorar a qualidade do seu raciocínio. Quanto mais você exercita seu raciocínio, mais você desenvolve a qualidade dele, quanto mais desenvolve, melhor você opta, quanto melhor você opta, melhor você vive.

Resumindo: Honre ter um cérebro: pense!

Você é culpado pelas suas opções. Os outros são culpados pelas opções deles. Ou seja, todos os culpados são culpados, cada um com sua parcela. Assuma sua parte da culpa e deixe com os outros a parte deles. Por exemplo, uma vez eu estava dirigindo um buggy nas dunas de Fortaleza e o buggy bateu de bico. As duas moças que estavam sentadas atrás, meteram a cabeça no santo antônio (ferro de contenção do buggy). Quase racharam a cabeça e quase morreram. De quem foi a culpa pela má direção? Foi do motorista. Quem era o motorista? Era eu. Então, de quem foi a culpa pela má direção? A culpa pela má direção foi minha. As moças não morreram, mas um delas ficou com uma cicatriz na testa. Eu tenho culpa pela cicatriz dela? Parcialmente sim. E a moça é vítima? Não, pois foi ela que optou passear de buggy. Essa opção é culpa dela. E o dono da empresa que aluga o buggy tem culpa também, pois optou por alugar os buggies. E assim por diante. Cada um tem sua parcela de culpa. Assuma sua parcela de culpa e bola pra frente.

Observe como grande parte do meu trabalho aqui com vocês não é responder, mas retirar os equívocos contidos nas perguntas. Pergunta equivocada não produz resposta esclarecedora. Então, primeiro retiro os equívocos, só depois respondo. E como eu faço isso? Andando para trás. Eu leio a pergunta e ao invés de andar para frente, rumo a resposta, ando para trás, identificando cada suposição assumida como verdadeira na estrutura da pergunta. Muitas vezes basta um pequenino passo para trás e a questão já se esclarece. Sugiro que façam o mesmo. Pratiquem andar para trás antes de sairem correndo para frente em busca da resposta.

Tem uma suposição falsa na estrutura da sua pergunta, mas que você assume como verdadeira. Vou explicitá-la. Você parte do princípio que o homem é mau. Primeiro você assume isso, depois você questiona: “O homem é mau por natureza ou é a sociedade que o torna mau?”. Ao fazer isso, você parte em busca da resposta esclarecedora, mas que está construída em cima de uma suposição equivocada. Então, tudo que irá encontrar pela frente será mais equívocos.

No direito, existe uma teoria chamada “fruto da árvore envenenada”. Diz que se uma prova for falsa, tudo que deriva daquela prova (qualquer fruto) é falso (envenenado). É o mesmo que estou explicando aqui. Sua pergunta é uma árvore envenenada. Se você andar para frente em busca de uma resposta, tudo que encontrará será frutos envenenados (mais equívocos). Para esclarecer sua questão você deve andar para trás, você deve investigar a raiz da árvore (da pergunta), você deve investigar as premissas que você está assumindo como verdadeiras na estrutura da sua pergunta.

Nessa sua pergunta, seu equívoco é assumir como verdadeira a premissa de que o homem é mau, quer por natureza, quer por influência social. Isso é um equívoco. O homem não é mal, nem bom, o homem é homem. Só isso. A árvore é árvore. A gaivota é gaivota. O fogo é fogo. E o homem é homem. Simples assim.

Bem e mal não dizem respeito ao que o homem é, dizem respeito ao comportamento do homem. O comportamento de um homem pode gerar bem viver (boa convivência) ou mal viver (má convivência). Mas daí sua pergunta não faz mais sentido. Corta a árvore envenenada e planta uma nova árvore. Joga a pergunta equivocada no lixo e produz uma nova pergunta, uma que traga esclarecimento. Vou fazer isso por você. Por que o homem se comporta de maneira a produzir mal viver e má convivência? Ou melhor ainda:

PERGUNTA: Por que o ser humano se comporta de maneira a produzir mal viver e má convivência?

Observe como a pergunta correta produz resposta esclarecedora: O ser humano se comporta de maneira a produzir mal viver e má convivência porque o ser humano ignora o que é ser humano. A má convivência entre os seres humanos não é produto de uma maldade intrínseca, nem de uma corrupção social, é produto da ignorância dos seres humanos sobre o que é ser humano.

Retirada a ignorância, a má convivência desaparece automaticamente, pois nenhum ser do universo jamais opta pelo pior, opta sempre pelo melhor. Um ser só opta pelo pior quando está equivocado, ou seja, quando está em estado de ignorância. Por isso só o despertar da consciência produz bem viver e não precisa de mais nada.

Dito isso, para não perder a viagem, tem outro equívoco implícito na sua pergunta que vou explicar, pois é um equívoco recorrente seu e de toda coletividade humana. Trata-se do equívoco do vitimismo. Sua pergunta busca encontrar um culpado. Sua pergunta é tipo assim: “Quem é o culpado por essa má convivência que experimento todo dia?”.

Se você está buscando um culpado, então, é porque você é vítima. Só que não! O culpado pela má convivência humana é a ignorância de todos os seres humanos, o que inclui você. Então, você não é vítima, você é parte integrante da criação da má convivência. A culpa é sua também.

Você pode argumentar: “Mas não tenho culpa de ignorar uma vez que ignoro”. Sim, perfeito, é isso mesmo. Mas você permanece na ignorância por opção. Você pode optar por sair. E como sair da ignorância? Essa é a pergunta que vale o paraíso, o nirvana e 10 mil litros de cerveja em Valhalla. A resposta é: praticando autociência. Que tal começar agora mesmo?

Exato! Você só tem duas opções. Você pode:

(A) Viver AUTOísta (viver em universalidade – viver respeitoso)
(B) Viver OUTROísta (viver em uniformidade – viver violento)

Não tem terceira opção. Então, sua opção por viver de forma outroísta resulta em você executar atos de natureza outroísta (atos violentos).

Exatamente! Viver em universalidade é viver consciente da unimultiplicidade. Unimultiplicidade significa que toda unidade é feita de múltiplas unidades igualmente diferentes. Por exemplo, todos os órgãos do corpo são igualmente o corpo e cada órgão do corpo é um órgão diferente. Aplicando a unimultiplicidade na coletividade humana, todos os seres humanos são igualmente a coletividade humana e cada ser humano é um ser humano diferente. Ou seja, o que separa você dos outros seres humanos, não é que você é diferente, mas que você tenta ser igual. Você vive tentando ser igual os outros ou tentando fazer os outros serem iguais você. Os outros tentam fazer o mesmo. Mas sendo que uniformidade é impossível, devido a universalidade do universo, você só consegue fracassar. Sendo que fracassar é dolorido, você sofre. Ao sofrer, culpa o outro e o outro culpa você pelo sofrimento que estão causando por si mesmo e em si mesmo. Como solução ao sofrimento, excluem uns aos outros socialmente, ou moralmente, ou afetivamente, ou fisicamente. Vivem juntos e separados.

Primeiro você acredita que algo que possuí está sendo ameaçado, então, com o intuito de proteger esse algo, ataca o outro, pois a melhor defesa é o ataque. Essa é a lógica da guerra. Matar para não morrer. Destruir para não ser destruído. Entender a lógica da guerra ajuda você a viver melhor, pois gera autoconhecimento. Quando você está atacando o outro, com palavras ou granadas, pode e deve se perguntar: “Estou atacando o outro para proteger o que em mim?”. A descoberta do que você está tentando proteger ajuda você a lidar melhor com as circunstâncias, ou seja, viver melhor.

Guerras têm lados, bandeiras, brasões, hinos, enfim, verdades (ideologia). Cada lado ataca para defender suas verdades. Quando um não quer dois não brigam, mas enquanto dois querem, o pau come. Gregos e troianos, judeus e muçulmanos, petistas e bolsominions, são alguns exemplos disso.

Claro que, diante de um conflito, você pode simplesmente vestir sua verdade e sair atirando no inimigo até matá-lo. Depois de muito sangue e sofrimento, sua verdade pode finalmente ganhar da verdade do outro. Mas você terá perdido a oportunidade de autoconhecimento. Te garanto que não vale a pena viver assim. É fácil perceber porquê. Basta observar que embora você mate e morra por uma ideologia, jamais uma ideologia fez ou fará nada por você, a não ser te separar e te impedir de viver em paz com os outros.

Sim, você ataca para se defender. Ou seja, você ataca porque está se sentindo vitimizada, prejudicada. Só que o fato de você estar se sentindo vítima, não significa que está sendo vítima.

Quando você está andando na rua e começa a chover, por exemplo, a chuva te molha e te prejudica. Você pode até ficar resfriada e morrer. Só que a chuva não está querendo te prejudicar, a chuva só está sendo chuva. O mesmo acontece na sua convivência com outros seres humanos. O outro não está querendo te prejudicar, o outro só está sendo outro. Você não é vítima. Mas você pode se sentir vítima se acreditar assim. E você pode se sentir vítima por qualquer coisa que o outro fizer. O outro respira e você acredita que ele está querendo roubar seu ar. O outro comemora o gol do time dele e você acredita que ele está menosprezando o seu. E assim por diante.

Culpa é responsabilidade. Responsabilidade não dói. O que dói é desejo insatisfeito. Vc deseja mudar o passado. Não consegue. Desejo insatisfeito. Dói. E vai doer até desistir da missão impossível.

Você está focando no comportamento e não na intenção. Quando a intenção do seu ataque não é controlar o outro, mesmo sendo um ataque, não é outroísmo. Um time de futebol, quando está atacando o outro, não tem intenção de controlar o outro, tem intenção de fazer o gol e ganhar o jogo, logo não é outroísmo. O mesmo acontece com a fuga. Se a intenção da fuga for controlar o outro, como por exemplo, mentir para fugir da culpa, daí sim, é outroísmo. Se a intenção da fuga não for controlar o outro, como por exemplo, fugir de um bandido armado, isso não é outroísmo.

Primeiramente, ficando consciente que é exatamente assim que funciona a brincadeira de convivência e não tem como ser diferente. Tudo que você faz prejudica alguém e vice versa. Tudo que você não faz também prejudica alguém e vice versa. Se não quer brincar não desce no play. Entrou na brincadeira da convivência, não tem para onde fugir. Frustrar e ser frustrado, prejudicar e ser prejudicado, desagradar e ser desagradado, contrariar e ser contrariado, é inevitável na convivência.

Segundamente, ficando consciente que assim como você não nasceu para satisfazer as expectativas dos outros, os outros também não nasceram para satisfazer as suas.

Uma vez que você e o outro estejam conscientes do primeiramente e do segundamente, vocês podem conversar e encontrar um terceiramente: uma opção que beneficie ambos simultaneamente.

Quem enfia a faca não sente a dor. Por isso é importante gritar quando dói, ou seja, falar sobre a facada recebida para quem enfiou a faca. Senão, o outro não tem como tomar consciência do efeito do seu ato e, consequentemente, não tem como mudar de comportamento. Geralmente é impossível e improdutivo falar na hora. O outro está de cabeça quente, você também está de cabeça quente e não tem comunicação de fato. Qualquer palavra é como jogar gasolina no fogo. Espere a tempestade passar para que o barco da comunicação possa navegar com eficiência. Quando seu agressor estiver receptivo, abra seu coração e comunique sua dor para ele, sem medo de ser feliz. Provavelmente seu agressor irá lhe entender e pedir desculpas. Mas pode ser que seu agressor não se importe. Pode ser que ele enfie outra faca no seu coração. Tudo bem! Você estará diretamente se curando e, indiretamente, curando seu agressor e sua coletividade inteira.

É ficar alternando entre outroísmo submisso e impositivo. Por exemplo, durante um relacionamento, você está numa posição submissa e o outro numa posição impositiva. Nessa posição, você fica em autonegação para evitar que o outro te rejeite, por exemplo. Passado um tempo, você não aguenta tanta autonegação. Só que ao invés de você sair da posição submissa e ir para a posição autoísta, você vai para o outro lado da gangorra, você vai para a posição impositiva, você parte para a vingança e se torna o opressor do opressor. Só que com isso, o outro começa a te rejeitar, tal como você não queria. E mais uma vez, ao invés de você ir para a posição autoísta, você vai para o outro lado da gangorra, você volta para posição submissa para recapturar o afeto do outro. E assim você segue vivendo, nunca optando pela posição autoísta, apenas subindo e descendo na gangorra do outroísmo.

Se submeter não, mas é preciso cooperar com a vontade do outro. Por exemplo, você quer usar o banheiro e o outro também quer usar o banheiro. Não dá para vocês dois sentarem na mesma privada ao mesmo tempo. Um precisa esperar o outro. Vamos supor que você decida esperar. Você não se submeteu a vontade do outro, você está cooperando com a vontade do outro. E você não está cooperando em benefício apenas do outro, mas em benefício próprio. Pois enquanto um não cooperar com o outro, ambos só conseguirão bloquear um ao outro e nenhum dos dois conseguirá realizar o que quer: usar o banheiro. Essa foi a descoberta de John Nash, conhecida como equilíbrio de Nash: a melhor opção é a colaboração, pois com colaboração todos tem seus desejos realizados.

Mãe não é um ser humano. Você já viu mãe que faz coco? Mãe que faz sexo? Já viu mãe que faz qualquer coisa mundana? É difícil entender que a mãe é um ser humano igual você. Tem um 1ficineiro antigo, que sofreu violência dos pais e que tinha mágoa da mãe. Só que ele não gostava de fingimento. Ele não fingia amar a mãe dele. Ele assumia o desafeto com a mãe, inclusive na família. O resultado era que sempre o consideravam errado, o filho ingrato que não amava a mãe. E porque estou contando isso? Porque ele falava assim: “Aos olhos dos outros, filho falando mal da mãe está sempre errado, mesmo estando certo”. Ele via a mãe dele como um ser humano igual ele e era considerado um filho ingrato pelos outros.

Vou lhe dar alguns dados para reflexão. O maior evento de adoração brasileiro se chama romaria, que é um evento de adoração da mãe de deus. Se é pecado odiar deus, que dirá a mãe! O único amor verdadeiro no universo, puro, cristalino, incondicional, imaculado, é o amor de mãe. Como você vai odiar quem te ama de forma tão imaculada? Por fim, quem te deu a vida? E que dinheiro paga essa dívida? Nenhum! Entende? Você não nasceu, você foi colocado dentro de uma dívida eterna e está condenado a pagar um boleto até morrer, pois segundo a mentalidade materialista, sem sua mãe você não existiria.

Um náufrago estava caminhando por uma ilha deserta quando viu uma pessoa se afogando no mar. O náufrago se jogou na água, salvou a pessoa e a levou para ilha. Chegando na ilha, descobriu que a pessoa era a Sharon Stone. Muito agradecida, Sharon Stone disse ao náufrago para pedir o que quisesse em retribuição ao salvamento. O náufrago não hesitou e disse: “Quero fazer sexo com você!”. Durante dois mês eles transaram todos os dias e o náufrago ficou muito feliz. No terceiro mês o náufrago começou a ficar deprimido. Sharon Stone percebeu e perguntou se podia fazer algo mais para deixá-lo feliz. Sem hesitar, o náufrago pegou um velho baú de roupas e vestiu a Sharon Stone de paletó e gravata. Depois disse: “Faz de conta que essa parte da praia é a empresa em que eu trabalhava e você é meu colega de trabalho. Eu vou ficar parado aqui como se estivesse no elevador lotado. Você chega e me cumprimenta”. Sharon Stone achou estranho, mas concordou. Ela entrou no elevador fictício vestida de homem e disse: “Olá, tudo bem com você?”. E o náufrago respondeu entusiasmado: “Raaaaapaaaaz, você não vai acreditar! Tô comendo a Sharon Stone!”.

Entendeu o fundamento da treta? Por isso você jamais recebeu e jamais receberá uma mensagem no privativo dizendo que tem pinto pequeno ou que é gorda balofa. Glorificação e difamação só funcionam quando tem platéia. Quem joga flores ou tomate é o público. Difamação privada vai direto para privada. Não tem poder nenhum. Difamação só funciona quando é feita na rede globo em horário nobre. Difamação privada não é difamação, é conversa. Você envia uma mensagem descrevendo o desafeto com a intenção de conversar e resolvê-lo, não de piorá-lo.

Porque não somos todos um, somos todos uns. Não é a mesma coisa, são as mesmas coisas. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Eu sou outro você. Você é outro eu. Mas eu não sou você, nem você sou eu. Eu sou eu e você é você. A luz de uma estrela é luz, igual a luz de outra estrela, mas a luz de uma estrela é a luz de uma estrela e não de outra. Um dedo é a mão, outro dedo é a mão, os cinco dedos são a mesma mão, mas retirado os dedos, que mão tem? Universo não é unidade, é UNImultiplicidade. Coexistimos e convivemos, mas isso não significa que somos todos um, significa que somos uns, pois como poderia haver coexistência e convivência sem alteridade?

Seres humanos pisam uns nos outros para se sentirem por cima. Ironia e tiração de sarro servem para isso. Xingamento também. Maledicência e injúria também. A estratégia muda, mas o objetivo é sempre o mesmo: ficar por cima. E funciona. Principalmente entre aqueles que temem serem pisados também ou que querem pegar carona na subida. Só que pisar nos outros não produz boa convivência, produz mágoa e sentimento de vingança. Além do que, depois de esmagar todas as cabeças para chegar no topo da pirâmide, o que você descobre é que o vencedor está só. Vale a pena viver assim? O que está feito, feito está. A merda não volta para o cu. O que você pode fazer é usar as cagadas do passado como adubo para melhores opções. Você pode trocar os pés pelas mãos dadas. Que tal?

Violência física é violar a unicidade física do outro. Você tenta forçar um BEM para o outro, mas o seu BEM resulta em um MAL. Ex: Você me obriga a beber suco de laranja. Vai me fazer MAL. Coisa ácida faz MAL para mim. Violência sensorial é violar a unicidade sensorial do outro. Você tenta forçar um BOM para o outro, mas o seu BOM resulta em um RUIM. Ex: Você me obriga a escutar funk. Vai ser RUIM. Ouvir funk é um desprazer para mim. O suco de laranja é prazeroso, mas a acidez me faz mal. Percebe que uma mesma interferência pode ser violenta em uma dimensão e não em outra? Não é fácil ser quaternário.

Só tem uma única coisa que você pode fazer. Ou você faz essa única coisa, ou não faz. Ou você faz essa única coisa, ou estará apenas fingindo que está fazendo alguma coisa. Essa única coisa é praticar autociência, despertar a consciência existencial, psicológica e pessoal e assim, ser MENOS UM em estado de ignorância.

— Por que você mata seu vizinho no videogame, mas não mata na realidade?
— Porque na realidade tem consequências, no videogame não.
— No videogame tem consequências também.
— É verdade.
—Então, qual é a diferença?
— Nenhuma!
— Se não tem diferença, por que você se comporta diferente?
— No videogame, se coloco a mão no fogo, não dói, na realidade dói.
— Sendo assim, qual é a diferença?
— Minha realidade não é a mesma do meu avatar.
— Por que você diz “meu avatar” se é você que está jogando?
— Meu avatar me representa no videogame, mas não sou eu, meu avatar é outro-eu. Eu estou do lado de fora, controlando meu outro-eu.
— Exato! Seu avatar é outro. Você controla esse outro com o joystick. Você opta pelo outro. Você manda o outro colocar a mão no fogo e ele obedece. Mas quem experimenta a dor é o outro, não é você. Sendo assim, qual é o paralelo entre isso e outroísmo?
— Não sei. Qual é?
— Outroísmo impositivo é jogar vídeo game com o outro ser humano. Outroísmo impositivo é quando o outro é seu avatar. Você controla o outro para que ele faça sua vontade, para que ele opte pelo que você supõe que é melhor para ele. Mas quem experimenta a opção é ele, não você. Então, é fácil ser outroísta impositivo, você obriga o outro a meter a mão no fogo e quem sente a dor é o outro, não é você.
— Nossa, é mesmo!
— Outroísmo submisso é vídeo game ao contrário. Você é avatar do outro. Você deixa o outro te controlar. Você opta pelo que o outro diz que é melhor para você. Mas quem experimenta a opção é você, não é o outro. Ou outro não sente nem uma gota da dor que você está experimentando. Daí, você fica se sentindo vítima, como se não estivesse optando por obedecer.
— Verdade também!
— Viver autoísta é colocar o controle na mão do próprio avatar. Você que experimenta sua opção, então, você que opte pelo que é melhor para você. Eu que experimento minha opção, então, eu que opto pelo que é melhor para mim. Play and let play!

Praticando autociência e ficando consciente que a pessoa falecida que você chamou de mãe era um ser humano igual você, ignorante igual você, que fez merda igual você. E ficando consciente da função espelho que o comportamento da sua mãe teve para você.

Quando alguém interfere no meu arbítrio…

Isso é impossível. Se fosse possível não era seu arbítrio era de quem executasse primeiro. Arbítrio é feito mouse de computador. Vc está usando o seu. Eu estou usando o meu. Cada um no seu arbítrio. A interferência é na realidade. Você está lendo minha mensagem nesse momento porque usei meu arbítrio para interferir na sua realidade. Arbítrio é particular e ninguém tem acesso ao do outro.

Então, refraseando sua pergunta…

PERGUNTA: Quando o outro interfere na minha realidade para me convencer das ideias dele, mesmo com a minha aceitação, isso é violência?

Se o outro está tentando violar sua unicidade intelectual, sim. Essa é a definição de violência. Só que o outro não tem acesso a sua unicidade intelectual, então, ele não sabe que está violentando você. Muito provavelmente, o outro acredita que está fazendo um bem, igual quando as mães obrigam os filhos a isso e aquilo convictas de que estão fazendo uma coisa boa. Por fim, se você discorda das ideias do outro, mas decide viver em acordo com elas, daí você está se submetendo intelectualmente, está sendo outroísta submisso intelectual.

PERGUNTA COMPLETA: Responder agressão física com agressão física é outroísmo? Como seria ser autoista nesse caso?

Cada caso é um caso. E a análise deve ser da intenção e não do ato. A lógica geral para não viver outroísta é não jogar o jogo do controle. Se defender não é controlar o outro, é cuidar de si. Considere isso.

Respeitar o outro é dar permissão ao outro de ser outro. Só que o outro não precisa da sua permissão para ser outro. Se isso não é óbvio para você, faça um teste. Proíba o tomate de ser tomate. Proíba a laranja de ser laranja. Proíba o fogo de queimar. Proíba a água de ser molhada. Proíba o açúcar de ser doce. Proíba a galinha de botar ovos. Proíba o sol de brilhar. Faça isso e você ficará consciente que o outro não precisa da sua permissão para ser outro. O outro não precisa do seu respeito. Quando você dá permissão ao outro de ser outro, você não está libertando o outro, você está libertando a si mesmo dessa missão impossível. O outro é outro e vai viver sendo outro independente de você respeitar isso ou não. Mas quando você não dá liberdade ao outro, quem fica preso é você.

Praticando autoobservação psicológica 25 horas por dia, oito dias por semana, até morrer. Mas como provavelmente você não tem prática com a prática da autoobservação psicológica, vou facilitar para você lhe dizendo o que especificamente você deve observar no seu funcionamento psicológico. Você deve observar sua intenção. Viva em constante observação sobre o motivo de suas manifestações. Quando o motivo da sua manifestação for controlar o outro, essa manifestação é outroísta. Quando o motivo da sua manifestação for se expressar, for você sendo você, essa manifestação é autoísta.

Interlocutor: Como fica isso no exemplo do pum no elevador?

Se sua intenção com o pum for controlar o outro, por exemplo, expulsar todos do elevador para ficar sozinha lá dentro, seu pum foi outroísta. Se sua intenção for se aliviar antes que você exploda, seu pum foi autoísta. Percebe? Quem olha de fora não tem como saber se sua manifestação foi outroísta ou autoísta, pois quem olha de fora não tem acesso a sua intenção. Só você tem acesso a sua intenção. Então, só você pode saber se está sendo autoísta ou outroísta.

Sim, também é outroísmo. Para entender o malefício, vamos fazer um experimento análogo.

Dê a si mesmo o seguinte comando mental: “Eu não posso pensar em abacate!”. Se logo após esse comando, você pensar em abacate, repita o mesmo comando: “Eu não posso pensar em abacate!”. Se após repetir, você ainda estiver pensando em abacate, repita novamente e assim por diante.

Se você fizer isso a vida inteira, você passará a vida inteira pensando em abacate. Se você passar a vida inteira pensando em abacate, quando terá oportunidade de pensar em si? Nunca!

O outro é um abacate. Quando você é outroísta em pensamento, quando fica tentando mudar o outro na sua imaginação, tudo que você consegue é ficar pensando no outro. Se você passar a vida inteira pensando no outro, quando terá oportunidade de pensar em si? Nunca!

Esse é o malefício do outroísmo mental.

Não necessariamente. Qual é sua intenção com esse comportamento? Você quer machucar o outro? Se sim, então, é violência. Mas pode ser que você expresse afeto através de atos físicos. Muitas pessoas fazem isso, expressam afeto beliscando o outro, mordendo, etc. Investigue sua intenção. E depois, tem o lado de quem recebe. Você bate no outro para expressar afeto e o outro se sente agredido. Daí, você pode e deve encontrar um outro tipo de ato físico para expressar o afeto, ou pelo menos, avisar o outro que você não bate para agredir, é apenas seu jeito de expressar afeto.

Comparação em si não é outroísmo. A comparação em si é um processo mental natural e inevitável. O processo mental da comparação acontece para que você possa diferenciar características dos objetos observados. Por exemplo, sem a comparação e diferenciação entre um sabonete e um cactus, você acabaria tendo problemas na hora de tomar banho. O outroísmo acontece quando você se compara e se obriga a ser igual ao objeto ao qual está se comparando, ou seja, quando se obriga a ser igual ao outro, ou quando você obriga o outro a ser igual a você.

Então, para sair do outroísmo, devo investigar a obrigação e não a comparação?

Sim, para ficar consciente do outroísmo, você deve observar e analisar essa obrigação de ser igual o outro ou de obrigar o outro ser igual você.

Para saber isso você precisa saber da intenção do psicopata. E você não sabe. Por isso, só o psicopata pode saber. Se a intenção da ação de um psicopata for controlar o outro, sim, está sendo outroísta. Se não for controlar o outro, se for se manifestar sendo o que é, então, está sendo autoísta.

Interlocutor: Mas a manifestação autoísta do psicopata pode me violentar.

Sim, por isso é preciso ficar consciente que a violência é resultado do estado de ignorância de um indivíduo. Já ouviu a frase “De boas intenções o inferno está cheio”. É por isso! Um ignorante bem intencionado pode fazer um estrago tão grande ou até maior do que um mal intencionado. Esse é o caso de muitos pais e mães. Que pai e mãe querem violentar seus filhos? Nenhum. Mas quantos não fazem isso todos os dias em nome do amor? A maioria, senão, todos.

Você acha que Hitler era mal intencionado? De forma alguma, ele queria um mundo melhor, exatamente como você, como Jesus Cristo e como todos os super heróis. E qual foi o problema? Por que a boa intenção de Hitler não produziu o paraíso na terra? Por que de boas intenções o inferno está cheio. Boa intenção não é suficiente para viver e conviver bem, é preciso lucidez. É preciso estar consciente sobre o que é ser humano e como viver bem uma experiência humana. Mesmo com lucidez é impossível extinguir completamente a violência, mas sem lucidez, daí sem chance sequer de minimizar a violência.

Quando fica óbvio que tentar controlar a opinião dos outros sobre você só serve para te fazer escravo desse ofício, você desiste. O outro pode te criticar, te caluniar, te difamar, foda-se! Você não se proíbe mais de viver do seu jeito só para receber emoji de coração e curtida no facebook. Você desiste de parecer e se permite ser. Você caga para opinião dos caga-regras. Só que os caga-regras começam a te criticar como nunca. É muita merda no seu ventilador. Muita pedra no seu telhado de vidro. A dor fica insuportável. Então, como a melhor defesa é o ataque, ao invés de você continuar cagando PARA os outros, você começa a cagar NOS outros. Você ataca merda para não ser atacado. Você voltou para mesma escravidão da qual havia saído: tentar controlar a opinião dos outros. E pior! Você se transformou no que odiava: um caga-regra.

Talvez você e a outra pessoa estejam falando a mesma coisa de jeitos diferentes. Você é 100% culpado pelo que você opta. O outro é 100% culpado que ele opta. Então, quando você e o outro se relacionam, sendo que você é 50% do relacionamento e o outro é 50%, está correto dizer que cada um é 50% culpado pela produção do relacionamento. E assim por diante. Num time de futebol, por exemplo, cada jogador do time tem 9,09% de culpa no resultado do jogo, pois são 11 jogadores. Se somar com os 11 jogadores do outro time, cada um tem 4,5% de culpa, pois foram os 22 jogadores que produziram o resultado do jogo, cada um com 100% de culpa por suas opções.

Vingança é uma estratégia de convivência. Mas é uma estratégia de convivência outroísta (violenta), então, geradora de atos violentos.

Culpa é responsabilidade. Você é único culpado pelas suas opções. Fugir da culpa é entrar no vitimismo, talvez por isso a depressão. Não resolve fugir da culpa, só mantém você preso no vitimismo. Eu, por exemplo, fiz muita merda na vida. E tudo culpa minha. Uso as merdas que fiz para adubar o jardim das melhores escolhas. Cagou está cagando. Não adianta chorar o leite derramado, nem a cagada. Limpa o leite, usa merda de adubo para melhores escolhas. Mas isso só é possível se você entender que é culpado por suas escolhas, senão, vai viver fugindo da sua responsabilidade e inventando bodes expiatórios para colocar a culpa.

Não. Vou contar uma experiência. Não gosto de falar sobre o que não é óbvio, mas nesse caso vale o desconforto. Certa vez, fizeram a seguinte pergunta a um extraterrestre que estava se manifestando através de um médium: “Como será quando os ETs chegarem?”. O extraterrestre respondeu: “Vocês se sentirão envergonhados!”. Uma pessoa no grupo perguntou: “Envergonhados com o que? Com vocês? Com a forma como vocês vivem?”. O extraterreste respondeu: “Não, vocês ficarão envergonhados com vocês mesmos, com a forma como vocês vivem e convivem!”. Poucos entenderam a resposta do extraterrestre. Até porque era preciso já estar envergonhado para entendê-la. Descendo na escala astronômica, recentemente um rapaz da minha cidade se suicidou. Ele foi a médicos, psiquiatras, tomou os remédios recomendados, fez terapia, por fim, se matou. O motivo do suicídio foi vergonha. O rapaz se envolveu com corrupção na prefeitura, a corrupção foi descoberta, veio à tona nos jornais, o rapaz não suportou a vergonha e se suicidou. O motivo do suicídio me fez lembrar dos ETs: “Vocês se sentirão envergonhados!” Ora, só mesmo com a consciência muito adormecida para não sentirmos vergonha da forma como vivemos e convivemos. Hipocrisia, recalque, violência, vingança, luta pelo poder. E seguimos sem remorso! Como? Que nível de inconsciência é esse que acha isso normal? Como disse, não gosto de falar sobre o que não é óbvio, mas se extraterrestres não são evidentes para você, o que um deles explicou é mais do que evidente, é extra-ululante.

Culpa é sinônimo de responsabilidade. São duas palavras diferentes para dizer a mesma coisa. Responsabilidade é sinônimo de arbítrio. Também são duas palavras diferentes para dizer a mesma coisa. Então, culpa é arbítrio. Você é o único culpado por tudo que você opta. Logo, você é 100% culpado por suas opções. Por exemplo, você decide comer feijão. Quem é culpado por você estar comendo feijão? Você. É 100% culpa sua, pois foi você e só você que optou por comer feijão. Você decide se casar. Quem é culpado por você estar casado? Você. É 100% culpa sua, pois foi você e só você que optou por se casar. E assim com tudo. Você é sempre 100% culpado por tudo que você opta. Se não, quem é?

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