Quatrolência
Marcelo Ferrari
Marcelo Ferrari
Imagine dois cegos jogando ping-pong.
Assim é sua convivência.
Você é ignorante de si. O outro é ignorante de si.
Como uma convivência entre dois ignorantes pode ser boa?
Não pode. É impossível.
E não adianta força de vontade. Não adianta tentar resolver a convivência atuando sobre a convivência. É como tentar curar febre atuando sobre o termômetro.
Convivência é efeito.
Para resolver sua febre, você deve eliminar a causa da febre. Para melhorar a qualidade da sua convivência, você deve eliminar a causa da má convivência.
Sendo que a causa é ignorância de si, só tem um jeito de eliminá-la.
Praticando autociência.
Esse livro é um auxílio nessa prática.
A palavra violência vem do verbo violar.
Quando você executa um ato de violência, você está violando o outro. Quando o outro faz o mesmo, o outro está violando você.
Violência é violar, invadir, infringir, transgredir.
O mais comum, ao falar de violência, é pensar na violação da integridade física.
O estupro. A facada.
O que está implícito nisso?
Suponha que você queira violar a integridade física de uma pessoa. O que essa pessoa precisa ter?
Um corpo. Como violar o corpo de quem não tem corpo?
Você só consegue violar o outro porque o outro tem corpo.
Caso contrário, violaria o quê?
Mas corpo é um jeito superficial de tratar da violação da integridade física. Existe uma palavra melhor, mais precisa.
Individualidade.
Para violar a integridade física de alguém, é preciso que essa pessoa seja uma integridade física, seja um indivíduo, seja uma unidade.
Integridade = individualidade = unicidade.
Todas essas palavras são sinônimos.
Conclusão. Só existe violência porque cada um é um.
Cada um é um indivíduo.
Cada uma é uma unicidade.
Violência quaternária
Violência quaternária
A unicidade de uma pessoa não é apenas física.
Então, violência não é só física.
Ser humano não é só corpo. Ser humano é um quaternário — tem unicidade física, sensorial, afetiva e intelectual. Assim como existe violência física, existe violência sensorial, afetiva e intelectual.
Só que a violência física é a única considerada violência. As outras três, não.
Quando alguém viola sua unicidade sensorial, afetiva ou intelectual, essa pessoa não considera que cometeu um ato de violência.
E o contrário também.
Quando você viola a unicidade sensorial, afetiva ou intelectual do outro, você também não considera que cometeu um ato de violência.
Quando você tenta enfiar seu critério goela abaixo do outro, você não considera que está executando um ato de violência. Muito pelo contrário: acha que está fazendo um bem, que está ajudando.
Vamos supor que você se ache uma boa mãe. Só que seu filho não acha. O critério de valor dele é diferente do seu. Mas você quer, a todo custo, que ele te considere uma boa mãe. Faz chantagem emocional. Tenta convencê-lo.
Ao fazer isso, você não considera que está cometendo um ato de violência com seu filho. Mas está. Violência afetiva.
Vamos supor que quer obrigar um amigo a gostar do mesmo estilo de música que você. Passa os dias enchendo o saco dele. Faz ironia com o gosto dele. Guerra de nervos.
Você não considera isso um ato de violência. Mas é.
Quando o outro não gosta de algo, forçar a barra é violência sensorial.
Violência sensorial, afetiva e intelectual não são consideradas violências. Se não cortou o pescoço, não furou os olhos, se não tem hematoma e sangue jorrando, não é violência.
Mas é. Violência é violar.
Quando você viola a unicidade do outro — fisicamente, sensorialmente, afetivamente ou intelectualmente — você está executando um ato de violência.
Quando o outro viola sua unicidade — fisicamente, sensorialmente, afetivamente ou intelectualmente — o outro está executando um ato de violência com você.
Violência não é só física. É quaternária.
Física. Sensorial. Afetiva. Intelectual.
Você viola e é violado de quatro maneiras.
Só que apenas a violência física é considerada violência.
Isso é um equívoco.
Por mais paradoxal que pareça, a motivação da violência é o amor.
O filme Sociedade dos Poetas Mortos exemplifica isso.
O pai ama o filho. O pai quer que o filho seja médico. Por conta disso, o que o pai faz? Coloca todo o amor dele no ato de obrigar o filho a ser médico.
Ninguém, ao violar a unicidade do outro, acha que está violentando o outro.
Quando você violenta a unicidade do outro, você acredita que está fazendo um bem ao outro. Acredita que está fazendo o melhor para o outro.
Você está equivocado.
Você não acha que está violentando seu filho. Acha que está educando ele.
Violência é um equívoco sincero, bem intencionado.
Mas é um equívoco.
Educação sem diálogo, imposta, sem entender que o filho é outro, diferente, com unicidade própria, não é bom para o filho nem para os pais.
Gera má convivência.
Não adianta educar um gato para botar ovos. Por mais amor que você coloque nessa tentativa, você estará violando o gato, violando a natureza dele.
A unicidade de cada um é a natureza de cada um.
Quem tem natureza de gato jamais vai botar ovos.
Você viola a unicidade dos outros porque ignora a sua.
Percebe o ponto?
A violência não é a raiz. É a árvore.
A raiz da violência é a ignorância.
Se você ignora sua unicidade, como lidar bem com a unicidade do outro?
Impossível.
A violência é o alicerce da nossa sociedade.
Nosso sistema jurídico se chama "sistema penal".
É a regulamentação da violência.
Não sabemos viver de outro jeito. Só sabemos jogar o jogo da violência: oscilar entre opressor e oprimido, violentado e violentador.
Sucesso é ser o opressor.
Fracasso é ser o oprimido.
O tabuleiro tem o formato de uma pirâmide.
Os fracassados estão na base. Os bem-sucedidos, no topo.
Ganhar é sair da base e chegar ao topo.
E como se chega?
Através da violência.
Quando você está sendo violentado, você é oprimido, fracassado. O outro te domina. Então você deve buscar o sucesso se tornando o opressor do opressor.
Você sobe na pirâmide pisando na cabeça dos outros, até o topo da dominação, onde pode oprimir todos e ninguém pode oprimir você.
Essa é a lógica da liberdade.
Mas é um equívoco.
Embora o violentador não perceba, essa lógica não o liberta, o mantém preso ao ciclo de violência e manutenção da opressão.
— A solução é o respeito — você pode pensar.
Não! A solução é o despertar da consciência.
Respeito é desdobramento do despertar da consciência.
Na verdade, a palavra respeito só serve de gasolina para a perpetuação da violência.
Todo mundo quer ser respeitado, mas ninguém respeita ninguém.
Respeito não se pede, respeito se dá.
Quando você pede respeito, o que você está pedindo é que o outro reze sua cartilha.
Isso não é respeito, é violência.
Quando você realmente respeita, respeita inclusive o desrespeito.
Mas ninguém respeita o desrespeito.
Respeitar o desrespeito é oferecer a outra face.
Quem oferece a outra face?
— Precisamos acabar com a violência — dizem as "pessoas de bem".
Isso é violência pintada de ouro.
Acabar com a violência é usar gasolina para apagar o fogo.
Toda vez que você usa violência para acabar com a violência, alimenta com uma mão o mesmo monstro que tenta destruir com a outra.
Usar violência para acabar com a violência é apenas uma estratégia violenta de sair da posição de oprimido e virar opressor.
Você não considera o outro como sendo outro.
Você fala em "outro", mas é só isso: fala. Palavra vazia.
Você trata o outro como extensão de si. Como um sapato, um garfo, uma mochila, um chaveiro.
Pensa no outro como um robô, uma coisa sem vontade e sem unicidade, que só existe para satisfazer seus desejos e expectativas.
Se você entendesse que o outro é outro, não haveria violência.
O problema é a ignorância da alteridade.
Você só é capaz de executar o respeito quando está consciente do ciclo da violência.
Respeito por autoimposição é fingimento.
Uma vez consciente, para não perpetuá-lo, você executa o respeito.
Quando uma pessoa te humilha, não adianta pensar assim: "Aprendi que respeitar é a opção que quebra o ciclo da violência, então vou aceitar essa humilhação".
Isso não funciona.
Você continua no ciclo da violência.
Está se obrigando a fazer uma coisa que não quer e não entende.
Está se violentando.
Você não tem lucidez suficiente para executar o respeito, assim como um surdo não tem audição para cantar afinado.
A solução para o surdo cantar afinado é recuperar a audição.
A solução para você respeitar é recuperar a lucidez.
E para recuperar a lucidez, a solução é praticar autociência.
Respeito é efeito.
Respeitar o outro é dar permissão ao outro de ser outro. Só que o outro não precisa da sua permissão para ser outro.
Se isso não é óbvio para você, faça um teste.
Proíba o tomate de ser tomate. Proíba a laranja de ser laranja. Proíba o fogo de queimar. Proíba a água de ser molhada. Proíba o açúcar de ser doce. Proíba a galinha de botar ovos. Proíba o sol de brilhar.
Faça isso e você ficará consciente que o outro não precisa da sua permissão para ser outro.
O outro não precisa do seu respeito.
Quando você dá permissão ao outro de ser outro, você não está libertando o outro, você está libertando a si mesmo dessa missão impossível.
Respeitar o outro é dar permissão ao outro de ser outro.
Só que o outro não precisa da sua permissão para ser outro.
O outro não precisa do seu respeito.
Se isso não é óbvio para você, faça um teste.
Proíba o tomate de ser tomate.
Proíba a laranja de ser laranja.
Proíba o fogo de queimar.
Proíba a água de ser molhada.
Proíba o açúcar de ser doce.
Proíba a galinha de botar ovos.
Proíba o sol de brilhar.
Seu fracasso lhe mostrará que o outro não precisa da sua permissão para ser outro.
Quando você dá permissão ao outro de ser outro, você não está libertando o outro. Está libertando a si mesmo dessa missão impossível.
Outroísmo é violência.
Atenção! Não é que outroísmo gera violência.
Outroísmo é violência.
Outroísmo é tentar uniformizar o outro, fazer o outro igual a você. E vice-versa.
Isso é violência.
Embora você não tenha consciência disso, está a todo instante sendo estimulado e estimulando o ciclo da violência.
E está fazendo isso falando de amor, paz, respeito, educação, e várias outras palavras que são apenas disfarces da violência.
Outroísmo é violência.
Atenção! Não é que outroísmo gera violência.
Outroísmo é violência.
Outroísmo é tentar uniformizar o outro, fazer o outro igual a você. E vice-versa.
Isso é violência.
Embora você não tenha consciência disso, está a todo instante sendo estimulado e estimulando o ciclo da violência.
E está fazendo isso falando de amor, paz, respeito, educação, e várias outras palavras que são apenas disfarces da violência.
Quando se pensa em violência, se pensa sempre em ataque.
Ataque físico. Ataque psicológico.
O mais comum é pensar em ataque.
Só que violência não é ataque.
Violência é defesa.
Violência parece ataque porque a melhor defesa é o ataque.
Vamos supor que você me ataque me chamando de feio.
Qual é o problema?
Nenhum.
Você me chamou de feio. Só isso!
Eu não preciso me defender da sua opinião.
Eu sou o que sou e não tenho como deixar de ser.
Quando você me chama de feio, não deixo de ser o que sou. Se você me chama de bonito, também não deixo de ser o que sou.
Mas se eu quero que me considere bonito, aí sim, tenho que me defender.
Você ataca o outro para defender algo em você.
Entender isso possibilita você se investigar e produzir autoconhecimento.
Você pode e deve se perguntar:
— Por que estou atacando isso no outro?
— O que estou tentando defender dentro de mim?
Esse tipo de questionamento abre a violência. Ao abrir, você descobre o que está tentando defender através do ataque. Ao descobrir, entende que não há necessidade de atacar. Que é contraproducente. Fonte de mal viver.
Isso retira você do ciclo da violência.
Não somos todos iguais. Somos todos igualmente diferentes.
Eu sou outro você. Você é outro eu.
Mas eu sou eu. Você é você.
A luz de uma estrela é a luz de uma estrela, e não de outra.
Um dedo é a mão. Outro dedo é a mão. Os cinco dedos são a mesma mão. Mas retirados os dedos, que mão sobra?
Universo não é unidade. É unimultiplicidade.
Convivemos, mas isso não significa ausência de individualidade. Significa coexistência. Afinal, como poderia haver convivência sem coexistência?
Guerras nunca nascem da diferença, mas da tentativa de apagá-la, de tornar o outro igual a você, ou você igual ao outro.
Mas o universo não admite cópia.
Uniformidade é impossível, devido à universalidade do universo.
Essa guerra já nasce perdida.
Você só consegue fracassar. E fracassar dói. Você sofre.
Ao sofrer, você culpa o outro pelo seu sofrimento.
O outro faz o mesmo.
Como solução, você exclui o outro — socialmente, moralmente, afetivamente, fisicamente.
O outro faz o mesmo.
Resultado: seres humanos vivendo juntos e separados.
Violência é violar a unicidade do outro.
Violência pode ser física, sensorial, afetiva ou intelectual.
Você viola a unicidade do outro porque ignora a sua própria.
Violência é outroísmo.
Violência não é ataque. É defesa.
Você sai do ciclo da violência se tornando consciente de que está dentro dele.
A gênese humana é sanguínea.
No princípio era o sangue.
Caim sangrou Abel. Deus pediu para Abraão sangrar o próprio filho. Jesus tentou lançar o movimento hippie fora de época e foi mais sangrado que bife. Tem fila na igreja até hoje para beber o sangue dele.
Somos criaturas amotinadas com marretas.
Temos sede de destruição.
Queremos sangue.
Mas não podemos admitir nossa tara em público. Muito menos saciá-la. Leis civilizadas estão sempre prontas para sangrar os infratores.
O que fazer?
Sangue virtual.
Em vez de hemácias e glóbulos brancos, bytes e pixels. Não tem a mesma sinestesia, mas facilita a vida — ou melhor, a morte. Ninguém vai preso e podemos sangrar uns aos outros via internet. Se há sangue em alguma parte do mundo, podemos vê-lo, ouvi-lo, cortá-lo, espalhá-lo pela rede.
Eu sei, desconsiderei a compaixão humana.
Se ela existe mesmo, me perdoe.
A violência recebida justifica a violência entregue?
Vingança corrige erros?
Essas são perguntas que o filme Coringa coloca na tela e dentro da nossa cabeça.
Por um lado, concordamos com a vingança do Coringa.
Olho por olho, dente por dente.
Quem nunca quis matar seus algozes?
Quem não os mata mentalmente todo dia?
Quem nunca esfaqueou o chefe?
Quem nunca torturou o pai, a mãe, a esposa, o marido, os filhos?
Quem nunca metralhou os inimigos?
Quem nunca apertou o botão da bomba atômica e explodiu a porra toda?
Quem? Quem? Quem?
Somos vingativos.
Mesmo fingindo santidade, secretamente queremos vingança.
Por isso o filme do Coringa é perturbador. Projeta na tela o que desejamos em segredo e não temos coragem de admitir nem para nossa sombra.
Somos Coringas por dentro.
Batman por fora.
Mas nem mesmo o Coringa é Coringa no começo do filme.
Como ocorre a mudança?
O que faz um indivíduo decidir colocar a vingança em prática?
Necessidade inadiável de sair da posição de agredido.
Sim, claro! Necessidade natural, saudável e justa.
Mas será que a vingança é uma estratégia capaz de atingir o objetivo do vingador: o fim da violência?
O grupo de super-heróis mais famoso do cinema se chama: Vingadores.
O super-herói Batman nasce sob o juramento de Bruce Wayne de vingar a morte dos pais.
Dito isso, pergunto: por que o Coringa é vilão e o Batman é herói?
Quer aceitar algo?
Aceite esse conselho: desista de aceitar o outro.
Você é incapaz de aceitar o que não entende. Você não entende o outro, por isso não consegue aceitá-lo. E pior: você não tem como entendê-lo. É impossível.
Você não tem acesso às crenças do outro, aos valores, sentimentos, motivações, preferências. O outro é outro justamente porque é inacessível a você.
Então desista da missão impossível.
Use essa mesma disposição e tempo para aceitar a si mesmo.
Você é a única pessoa disponível. E é totalmente capaz de se entender.
Mergulhe no autoconhecimento.
Você tem 24 horas por dia de oportunidade para se conhecer.
Aproveite.
Quanto mais autoconhecimento, mais autoaceitação. Quanto mais autoaceitação, mais fácil e simples aceitar o outro — até inevitável, mesmo sem acesso a ele, pois o outro é outro-você.
Matar o outro não resolve. Você mata um e vem outro.
O mato, por exemplo.
Não adianta matar o mato. O mato é imatável. O mato é eterno. Você corta o mato e o mato já ressuscitou. A eternidade do mato sempre vence você.
Em vez de revólver, experimente diálogo.
No caso do mato, não em português. Converse no idioma da jardinagem.
Por exemplo: se você quiser dizer ao mato que o jardim está uma bagunça, o mato crescendo de novo é ele te respondendo.
Pegue o tesourão e prossiga na conversa.
Bater papo é uma ótima maneira de matar o tempo e cultivar relacionamentos.
Dialética serve para isso. Dialética é o oposto do revólver. Dialética resolve.
O revólver mata qualquer possibilidade de relacionamento.
Dialogue com o mato. Você vai descobrir que nem o mato precisa matar você, nem você precisa matar o mato.
Depois expanda seu relacionamento dialético para outros outros, muitos outros, até que não sobre nenhum outro para você matar.
Caso resolvido!
Você matou o revólver.
Está pronto para viver em paz.
O oposto de violência não é paz. É religião. E não me refiro a doutrinas religiosas — me refiro ao verbo religar, origem da palavra religião.
Violência é violar, separar, excluir. Religião é religar, reunir, incluir.
Violência é tesoura. Religião é cola.
Não é preciso ter uma religião para ser religioso. Ateus e deístas podem ser religiosos, desde que pratiquem o religar.
O maior religioso da história, Jesus, não era cristão. Nem religioso. Nunca rezou missa, nunca pregou a bíblia. Só explicou a fórmula da cola:
— Se alguém te bater, ofereça a outra face.
Claro que é mais fácil decorar a bíblia do que oferecer a outra face.
Claro que é mais fácil fazer caridade do que oferecer a outra face.
Claro que é mais fácil rezar por um mundo melhor do que oferecer a outra face.
Claro que é mais fácil atingir a iluminação do que oferecer a outra face.
Contudo, nada disso resolve a violência.
Assim como só o calor evapora a gota d'água, só a prática da religião dá fim à violência.
Você se considera religioso?
É seguidor de Jesus?
Ótimo! Que tal praticar o cristianismo?
Ofereça a outra face.
Quando você pratica violência, está tentando eliminar o outro. É como se proibisse o outro de existir. Como se dissesse: desapareça!
Você quer excluir o outro do universo.
Só que o universo é tudo. É o sistema total. Não dá para excluir nada.
Como excluir um ser universal do universo?
Não há para onde expulsar. Não há lado de fora do universo.
A exclusão não funciona. É impossível.
"Do ponto de vista do planeta, não existe lixo", diz uma frase do Greenpeace.
Quando você quer excluir o lixo, pega o lixo e põe para fora de casa, põe na rua. Mas esse lixo não deixa de existir. O lixeiro pega seu lixo e leva para o aterro sanitário. O aterro sanitário fica cheio de lixo. E o aterro sanitário é o planeta.
Por isso é tão importante a reciclagem.
Ou você recicla, ou fica esse monte de lixo amontoado no mundo.
Na Idade Média as pessoas emporcalhavam os castelos até não aguentar mais. Daí, em vez de limpar, se mudavam para outro castelo.
Isso ilustra bem a mentalidade da exclusão.
Do ponto de vista do planeta, não existe lixo.
Do ponto de vista do universo, não existe exclusão.
Por isso, na declaração de universalidade, tem um trecho que diz: "Toda forma de exclusão e desrespeito que em mim chega de mim não passa".
Exclusão é impossível.
E quando você tenta fazer algo impossível, você vive mal.
Desrespeito é você tentando mudar a unicidade do outro.
O outro é verde e você quer que ele seja azul.
— Fica azul! Verde eu não gosto. Fica azul.
Quando você faz isso, está desrespeitando a unicidade do outro. Está cometendo um ato de violência. E está colaborando para a perpetuação do ciclo da violência.
"Toda forma de exclusão e desrespeito que em mim chega de mim não passa" é uma declaração de compromisso com o fim do ciclo de violência.
Você diz essa frase. Acha bonito ouvir.
Mas na hora que o outro te violenta, o que você faz?
Você revida.
Imediatamente.
Bateu, levou!
Usando a metáfora cristã: na hora que o outro te dá um tapa na cara, você não pensa em oferecer a outra face. Pensa que é justo revidar.
E você está certo.
Justiça é igualar os lados.
O outro te deu um tapa.
É justo revidar.
Só que um erro não justifica o outro.
Quando você revida, está tentando dar fim à violência perpetuando a violência.
É igual tentar apagar um incêndio colocando mais fogo.
— Ah, mas é justo — você pensa.
Sim, é justo.
Mas quando você planta violência, colhe violência.
— Não fui eu que comecei — você justifica.
Sim. Mas imagine que você é um soldado no meio de um tiroteio.
De que importa quem começou a guerra?
Se ninguém parar, a guerra continua e todos morrem.
Não importa quem começou com a violência.
O que importa é levá-la ao fim.
Você leva um tapa na cara.
A violência chegou em você.
A guerra chegou em você.
Não foi você que começou.
Mas você tem arbítrio.
Pode optar por dar fim à violência.
Ou pode perpetuá-la.
"Toda forma de exclusão e desrespeito que em mim chega de mim não passa" expressa a decisão de dar fim à violência.
Ser menos um.
Em vez de mais um.
E para isso, basta decidir.
E pronto!
Fim da violência.
Só que receber violência e optar pelo respeito é perdoar a dívida.
A tentação de revidar é quase irresistível.
Imagine que o outro te dê dez tapas consecutivos na cara.
Pá, pá, pá, pá, pá.
Você se questiona:
— Não vou dar nem um tapa de troco? Vou perdoar a dívida?
Quer ser menos um no ciclo da violência?
Então, a resposta é sim.
Vingança ou perdão?
Eis a questão. Eis a decisão a ser tomada.
Vou ilustrar com um exemplo meu.
Estou jogando futebol. Faço uma coisa errada. O outro grita:
— Seu retardado, se não consegue nem chutar uma bola, vai embora!
A violência foi executada.
A exclusão e o desrespeito chegaram em mim.
Dois minutos depois o agressor faz uma cagada pior que a minha.
É a minha chance de vingança.
É a minha hora de montar em cima da cabeça do outro e cagar grosso.
Ele merece, porque gritou comigo.
E é justo, porque foi ele que começou.
Só que consulto a minha consciência.
E ela me diz que se eu optar pela violência, embora o outro mereça retaliação, embora seja justo, estarei perpetuando o que quero que termine: a violência.
Então, perdoo a dívida.
— É melhor revidar que engolir sapo — você pensa.
Tem uma sutileza aí.
Dar fim ao ciclo de violência não é engolir sapo.
É ser inteligente.
É a única opção que produz boa convivência.
Reforço o alerta: perdoar é efeito.
Só funciona quando você está consciente de que precisa perder para ganhar.
Perder na guerra da violência para ganhar no bem viver.
Começou como coisa de nenê.
Uma facilidade moderna.
O bebê estava com fome? Bi-bi.
Queria colo? Fon-fom.
Os pais agradeceram a praticidade das buzinas.
Ninguém imaginava que ali, entre um chocalho e uma mamadeira, estava sendo assinado o fim de todas as línguas.
Logo o negócio escalou.
Apareceram versões para crianças maiores.
Depois para idosos.
Depois as versões executivas, em titânio escovado, para reuniões de diretoria.
Por fim, para qualquer pessoa que descobrisse que apertar uma buzina era mais fácil do que falar.
E, num piscar de olhos, abrir a boca para articular uma vogal tornou-se algo tão cafona quanto usar pochete ou escrever cartas à mão.
Falar virou coisa de dinossauro.
No começo, era um charme.
Um toque para dar bom dia, outro para agradecer, dois para pedir licença, coisa fina. Parecia apenas uma novidade inofensiva.
Mas novidades crescem.
Ninguém se contentou com o básico.
Buzinar virou vício.
As conversas viraram brigas de trânsito.
As interações sociais viraram um engarrafamento na Marginal Pinheiros. Um buzinava "estou certo", o outro retrucava com "estou mais", e o assunto morria atropelado pelo som de caminhão de lixo dando ré.
A lógica? Esquece. O que mandava era a potência.
O volume tomou o lugar dos argumentos. A verdade virou uma questão de decibéis. Foi decretada a democracia do tímpano estourado.
As vitrines se encheram de nomes pomposos. Buzinas que prometiam transformar qualquer um em autoridade máxima.
Mega Vox — Fale mais alto que qualquer argumento.
Imperial X — Estar certo não basta. É preciso ser ouvido.
Absoluta — O silêncio é para os derrotados.
Os lançamentos provocavam filas que dobravam quarteirões.
O espírito natalino foi substituído pela obsessão por decibéis.
Crianças deixaram de pedir brinquedos.
Adultos deixaram de pedir relógios.
Idosos deixaram de pedir chinelos.
Até o Papai Noel abandonou o trenó e começou a voar de trio-elétrico.
Durante algum tempo, aquilo pareceu resolver o problema.
Mas problemas também crescem.
Logo todos possuíam buzinas igualmente poderosas.
E a disputa recomeçou.
As empresas, sempre espertas, desenvolveram buzinas que faziam o corpo tremer, que causavam vertigem, e algumas que prometiam até dor física em qualquer um que ousasse discordar.
Os argumentos ficaram menores. As buzinas, maiores.
O cotidiano virou um engarrafamento existencial.
Um pai buzinava para o filho comer o jiló; o filho respondia com uma frequência que fazia a dentadura do velho vibrar.
Um vizinho buzinava por causa de uma festa. O outro respondia com uma buzina mais alta que pedia silêncio.
O "eu te amo" virou um som de navio petroleiro, e as brigas de casal pareciam o teste de sirene de usina nuclear.
As campanhas eleitorais deixaram de apresentar propostas. Vencia o candidato cuja buzina fosse capaz de causar labirintite nos adversários.
A vida virou um inferno sonoro.
As pessoas passaram a dormir em quartos com isolamento acústico. Os hospitais dobraram a espessura das janelas. Os arquitetos passaram a vender apartamentos pelo índice de isolamento, não pela vista.
Ninguém mais via passarinho, nem ouvia cigarra.
Quando lançaram a "Titan Prime", capaz de atingir cento e cinquenta decibéis, o negócio degringolou.
O governo tentou estabelecer limites.
As campanhas diziam:
— Buzine com responsabilidade.
Claro que ninguém ouviu a propaganda.
Os cientistas berraram — literalmente — avisando sobre a perda irreversível da audição coletiva.
Ninguém ouviu também.
O clímax veio na virada do ano.
A humanidade, entupida de espumante, decidiu celebrar da única forma que sabia. À meia-noite, bilhões de buzinas "Titan Prime" soaram em uníssono. Foi um estrondo magnífico, absoluto, uma nota única que abraçou o planeta.
Foi também a última nota escutada.
Ficaram todos surdos.
Seguro a espada com as duas mãos.
À minha frente, de joelhos sobre a terra batida, está Sasaki, o homem que matou meu filho.
Ele mantém a cabeça baixa.
O pescoço, nu e curvado, está inteiramente exposto.
O vento, com cheiro de terra molhada e incenso queimado, percorre a clareira, fazendo balançar as grandes bandeiras de seda da tribo.
Ninguém fala.
As crianças foram levadas para longe, para trás das cabanas.
Os velhos samurais observam da sombra, sem mover um único músculo do rosto esculpido pelo tempo.
A decisão já foi tomada.
E não há apelo.
Olho por olho.
Dente por dente.
Filho por pescoço.
É a tradição.
Levanto a espada acima da cabeça.
O aço reflete o sol pálido da tarde.
Sinto o peso da lâmina no centro da minha gravidade.
O cabo de madeira e couro conhece o formato dos meus dedos como a água conhece o leito do rio.
Sasaki inspira uma última vez.
Meu braço desce com a força da gravidade e do ódio.
São poucos segundos de movimento vertical vingando o fim de uma vida horizontal.
Conto a descida da espada nos anos de vida do meu filho.
Dez, nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três, dois…
O mundo trava.
O vento não sopra mais.
Um pássaro fica suspenso no ar, as asas abertas, imóvel como um desenho.
A poeira paira em pequenos pontos dourados, sem cair.
E a lâmina afiada da minha espada fica a um fio de cabelo de tocar o pescoço de Sasaki.
Até minha respiração fica presa dentro do peito.
Só meus olhos continuam vivos.
Então, sou puxado para trás.
Não ando.
Não é um passo físico.
Não é um salto.
É a visão se descolando do corpo.
Como se meus olhos fossem arrancados de dentro da minha cabeça e arremessados um metro e meio para trás.
Vejo minhas costas, minha espada parada no ar e o pescoço curvado de Sasaki.
Estou atrás de mim.
Olhando para a iminente decapitação de Sasaki como se estivesse olhando para uma fotografia.
Me afasto mais um pouco.
Percebo que Sasaki e eu não estamos sozinhos na fotografia.
Na visão ampliada da decapitação, vejo um samurai ajoelhado diante de Sasaki, tal como ele está ajoelhado diante de mim.
A espada de Sasaki também está congelada a fio de cabelo do pescoço desse outro samurai.
E na frente desse outro samurai, existe outro.
E mais outro.
E outro.
É uma fila.
Que se estende para além da aldeia, para além da colina, para além do que os meus olhos deveriam alcançar.
Todas as espadas congeladas no ápice do golpe.
Todos os pescoços esperando a lâmina.
Sinto um choque mudo.
São centenas de eus e centenas Sasakis.
Todos de dentes cerrados, acreditando piamente que está encerrando uma história de dor.
Nenhum deles percebe que apenas segura a ponta de outra.
Olho para a frente, tentando achar a origem.
A fila continua. Não alcanço o fim.
Morte. Vingança. Pescoço.
Morte. Vingança. Pescoço.
Morte. Vingança. Pescoço.
Me afasto um pouco mais para trás.
A fila, que eu via reta, se curva.
Dobra sobre si mesma como uma cobra que morde o próprio rabo. Forma um arco imenso. Depois, um círculo perfeito.
Agora consigo ver tudo.
Não existe começo. Não existe fim.
Cada espada aponta para um pescoço; cada pescoço pertence àquele que, em algum momento do tempo, levantará outra espada. Cada golpe produz o seguinte. Cada vingança alimenta a próxima.
O círculo gira sem se mover.
Na velocidade do pensamento, vejo o homem diante de mim cortar o pescoço de outro.
Esse outro, em um tempo anterior ou posterior, corta outro.
Outro. Outro. Outro.
As cabeças caem sobre a clareira como abóboras podres. O sangue espirra e desenha um anel escuro sobre a terra.
O círculo completa a volta e encontra o meu próprio pescoço, curvado, esperando a lâmina de um homem que ainda não nasceu, ou que já morreu, ou que sou eu mesmo…
Minha cabeça cai. Mas o círculo não para.
Recomeça toda vez que termina.
Um golpe chama outro. Outro chama outro. Outro chama outro. Quando percebo, em uma fração de segundo, minha cabeça já está rolando pela terra novamente.
O tempo implode.
O ciclo de vingança se repete tantas vezes que não consigo mais distinguir qual das decapitações é a primeira.
Talvez nenhuma seja.
Talvez todas sejam.
Volto para o meu corpo.
Minhas mãos ainda seguram a espada a um fio de cabelo do pescoço de Sasaki.
Olho para a lâmina.
Vejo o reflexo do meu próprio rosto nela, distorcido e cansado.
Minha espada não irá parar na carne do pescoço de Sasaki. Continuará viajando, invisível, de mão em mão. Atravessará filhos, pais, netos, ancestrais. Viajará pelo tempo e retornará sempre para mim.
Minha mão não fará justiça, fará o motor da vingança continuar girando.
Se eu prosseguir, estarei cortando minha própria cabeça, de novo e de novo, em uma decapitação sem fim.
A vingança abandona meus músculos.
Solto a espada.
O mundo volta a respirar.
Ouço novamente o sussurro do vento nas copas das árvores.
A folha seca finalmente toca o chão. O pássaro conclui o voo e desaparece no horizonte.
Levo as mãos ao meu próprio pescoço e desamarro o lenço que carrego ali. O vento, que volta a soprar, balança o tecido.
Um aroma suave invade o ar da clareira.
O lenço ainda guarda o perfume das flores de ameixa que crescem atrás da casa onde meu filho costumava brincar na primavera.
Sasaki continua esperando o aço da espada chegar.
Eu me inclino.
Passo o lenço no pescoço dele — não a lâmina.
Um gesto suave, sobre seu pescoço tenso.
Deixo o lenço ali — pendurado.
O perfume das flores da infância do meu filho se misturam com o suor sobre a pele daquele que o matou.
Sasaki ergue lentamente a cabeça.
Nossos olhos se encontram.
Em seu rosto não há surpresa, nem alívio, nem gratidão, há reconhecimento.
Ele leva a mão trêmula ao pescoço.
Toca o lenço.
Retira-o dali com um cuidado quase sagrado.
Anda até Akechi, um dos samurais que está na clareira. Coloca o lenço no pescoço dele.
Akechi deixa sua espada cair. Depois repete o gesto de Sasaki com Maeda, outro samurai que também está na clareira.
Gesto que é repetido de novo.
E de novo.
Até a última espada cair.
Até o último samurai.
O sol se move.
As sombras trocam de lado.
Quando já não há mais samurais no mundo, e estou saindo da clareira, sinto um tecido leve tocar minha nuca.
Alguém amarra, atrás de mim, um lenço.
Tem o cheiro das flores de ameixa.