Quando Marx chorou

21/12/2024 by in category Capitulos, Moneycórnio tagged as , , with 0 and 0

— Vai doer? — Marx pergunta ao enfermeiro.
— Vai sim, — responde o enfermeiro — não vou mentir para você.

Um minuto depois ele começa a berrar:

— Paaaaara! Por favor! Paaaara!

Se não fosse um hospital dava para imaginar um estupro. Se bem que essa interpretação não estaria errada. A agulha é fálica e penetra sem consentimento da carne, o que caracteriza estupro.

A agulha endurece o músculo da perna de Marx. Ele sai da sala de injeção andando duro, como se tivesse uma perna de pau.

— Ouvi você gritando com a injeção — diz o próximo na fila.
— Nossa, achei que ia morrer — Marx responde.
— Foi injeção do que?
— Benzetacil — responde Marx.
— Porque não senta e espera melhorar?
— Sou motoqueiro do ifood e essa é a perna do desembréio. Quero só ver como vou conseguir mudar de marcha. Mas o enfermeiro disse que só vai passar daqui duas horas. Não dá para ficar duas horas esperando — diz Marx.
— Primeira vez que toma Benzetacil?
— Primeira e última! — diz Marx — Perguntei ao enfermeiro qual era o medicamento que fazia efeito mais rápido. Ele disse que era Benzetacil, então, decidi tomar, pois tenho que trabalhar amanhã cedo.

Marx sai mancando do hospital. Apressado para chegar em casa, para dormir, para acordar cedo e bater o cartão em uma máquina de inox absolutamente indiferente ao seu estado de saude e caracteristicas pessoais.

Marx chega em casa se arrastando. Deita no sofá e liga a televisão. Ouve as mesmas notícias de sempre: guerras, corrupção, roubo, violência, luta por igualdade social. Levanta, vai até a cozinha. Abre a geladeira. Assim que inala o cheiro do yaquisoba, sente ânsia de vômito. — Não aguento mais comer isso — ele fala em voz alta.

Enquanto come o yaquisoba, pensa na sua vida na cidade. Que vida é essa? Como isso pode ser chamado de vida? Lembra do amigo João Cabral, o único que ganhava dele no jogo de pebolim. Abre o youtube e procura pelo trecho do filme do amigo. Assite chorando.

© 2025 • 1FICINA • Marcelo Ferrari