Pensaê | Porque minhoca caga terra

13/08/2020 by in category Podcasts tagged as with 0 and 0

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Tem uma pegadinha infanto-juvenil que é assim. Um moleque pergunta para o outro: “Por que minhoca caga terra?”. Como disse é uma pegadinha, então, a pergunta é a minhoca no anzol que tem o propósito de fisgar o outro para o grande desfecho.

O moleque que recebe a pergunta, morde a isca. A resposta é óbvia. Então, o moleque nem pensa duas vezes. Ele responde de bate pronto: “Minhoca caga terra porque come terra!”. E o outro moleque, gargalhando vitorioso, indaga mais uma vez usando a mesma lógica: “Quer dizer então que você come bosta?”.

Essa pegadinha pode parecer infantil, boba e escatológica, mas contém uma sabedoria profunda. Eu até já pensei em escrever um livro intitulado “Por que minhoca caga terra?” para explicar a profunda sabedoria implícita na lógica dessa pegadinha. Enquanto não chega o livro, vamos de podcast.

Viver é traumatizante. A palavra trauma é popularmente usada para se referir as experiências ruins do passado, mas quando digo que viver é traumatizante, não estou usando a palavra trauma da mesma forma que ela é popularmente usada e provavelmente da forma que você usa essa palavra. Quando digo que viver é traumatizante quero dizer que viver produz memórias.

A palavra trauma significa marca, cicatriz, registro. É assim que estou usando a palavra trauma quando digo que viver é traumatizante. Viver é trombar com a vida, instante após instante. A cada trombada um novo trauma é produzido dentro de você. O nome popular que se dá aos traumas produzidos dentro de você a cada trombada com a vida são as memórias.

Dentro de você existe uma biblioteca gigantesca de traumas chamada memória. São milhões e milhões de livros, cada livro com o registro detalhado de cada experiência vivida, desde seu nascimento até o momento atual.

Memória de quando você estava aprendendo a andar. Memória dos tombos. Memória da sua casa na infância, dos seus pais, dos seus irmãos. Memória da escola, dos colegas, dos professores. Do primeiro beijo. Das férias. Do emprego. Da demissão. Do novo emprego. Do casamento. Dos filhos, etc…

Enfim, você é um HD cheio de memórias, igual um computador. Isso é fácil de entender. Agora vamos entender o que PENSAR tem a ver com isso. Por que é tão importante pensar? E o que tudo isso tem a ver com o fato da minhoca cagar terra?

O que acontece é que memória é igual comida e seu cérebro é igual uma minhoca. Então, seu cérebro basicamente caga o que você come. Seu comportamento é você cagando o que engoliu, é você devolvendo ao mundo o que comeu do mundo, igual a minhoca.

Se você comeu terra, você caga terra (seu comportamento é terra). Se você comeu violência, você caga violência (seu comportamento é violência). Se você comeu afeto, você caga afeto (seu comportamento é afeto). Enfim, se você comeu A, você caga A (seu comportamento é A). Se você comeu B você caga B (seu comportamento é B). E assim por diante.

Isso também é fácil de entender. Só que essa analogia com o sistema digestivo da minhoca não é uma boa analogia para você entender qual é a importância de pensar.

Seu cérebro é muito mais parecido com o sistema digestivo humano do que com o sistema digestivo de uma minhoca. O sistema digestivo de uma minhoca é muito rudimentar. Seu cérebro não tem nada de rudimentar, seu cérebro é super hiper sofisticado, seu cérebro é top de linha em processamento de experiências, seu cérebro é chique no úrtimo.

Mas assim como um sistema digestivo, seu cérebro também está constantemente recebendo alimento e executando a digestão desse alimento. O alimento que chega no sistema digestivo é a comida. O alimento que chega no seu cérebro é a memória da experiência vivida. Seu sistema digestivo trabalha para digerir a comida e transformá-la em nutrientes. Seu cérebro trabalha para digerir as experiências vividas e transformá-las em sabedoria.

Você não é igual uma minhoca onde tudo que entra sai igual entrou. Tanto seu sistema digestivo como seu cérebro são de sofisticada capacidade de digestão. Você come tomate e caga bosta porque você digere os nutrientes do tomate. Analogamente, você é capaz de comer uma experiência de violência e cagar respeito pelo mesmo motivo. Você possui um sistema mental capaz de digerir suas experiências e transformá-las em sabedoria.

Mas como isso acontece? Que ensina cerebral é essa capaz de digerir e extrair sabedoria mesmo das experiências mais duras, desagradáveis e indigestas.

Essa enzima se chama: pensar.

Pensar é digerir. Pensar é processo de digestão mental. Pensar é extrair sabedoria da experiência vivida.

Pensar é sensacional. Pensar é extraordinário. Pensar é fantástico. Toda sua sabedoria vem do processo de pensar. Toda sabedoria produzida pela coletividade humana vem do processo de pensar dos seres humanos.

Porém, muitas vezes você não pensa. Isso acontece principalmente na infância. Quando você é criança, você não consegue digerir completamente suas experiências. Não é culpa sua. Você apenas não está preparado para isso ainda. Seu cérebro funciona perfeitamente, mas ele é como um computador vazio, sem nenhum programa, então, ele não consegue processar completamente as experiências que estão chegando.

Quando você não pensa suas experiências, você vai apenas armazenando uma memória em cima da outra, uma memória em cima da outra, uma memória em cima da outra.

O resultado disso é que você vai formando um bolo alimentar de experiências não digeridas. Um bolo gigante, que a psicologia compara a um iceberg.

Só que toda experiência precisa ser digerida pelo cérebro, assim como todo alimento precisa ser digerido pelo sistema digestivo. Então, agora que você não é mais criança, agora que seu cérebro já está mais apto a pensar, você tem duas opções:

Opção (A): Voltar até as experiências que foram engolidas sem pensar, repensá-las e digeri-las.

Ou opção (B): Continuar não pensando. Continuar fazendo vista grossa para o bolo de experiências não digeridas e continuar mantendo essas memórias trancadas no porão do inconsciente.

O resultado da opção A é produção de sabedoria e bem viver. O resultado da opção B é produção de neuroses como síndrome de pânico, depressão, irritabilidade, reatividade, ansiedade, baixa estima, mágoa, sentimento de culpa, toc, etc e tal. E também doenças psicossomáticas.

Dito isso, eis a questão!

Opção A ou opção B?
Pensar ou não pensar?

Qual é sua opção?

Pensaê!

© 2020 · 1FICINA · Marcelo Ferrari