PLAY AND LET PLAY

09/11/2018 by in category Textos tagged as , with 0 and 0

— Por que você mata seu vizinho no videogame, mas não mata na realidade?

— Porque na realidade tem consequências, no videogame não.

No videogame tem consequências também.

— É verdade.

—Então, qual é a diferença?

— Nenhuma!

— Se não tem diferença, por que você se comporta diferente?

— No videogame, se coloco a mão no fogo, não dói, na realidade dói.

— Sendo assim, qual é a diferença?

— Minha realidade não é a mesma do meu avatar.

— Por que você diz “meu avatar” se é você que está jogando?

— Meu avatar me representa no videogame, mas não sou eu, meu avatar é outro-eu. Eu estou do lado de fora, controlando meu outro-eu.

— Exato! Seu avatar é outro. Você controla esse outro com o joystick. Você opta pelo outro. Você manda o outro colocar a mão no fogo e ele obedece. Mas quem experimenta a dor é o outro, não é você. Sendo assim, qual é o paralelo entre isso e outroísmo?

— Não sei. Qual é?

— Outroísmo impositivo é jogar vídeo game com o outro ser humano. Outroísmo impositivo é quando o outro é seu avatar. Você controla o outro para que ele faça sua vontade, para que ele opte pelo que você supõe que é melhor para ele. Mas quem experimenta a opção é ele, não você. Então, é fácil ser outroísta impositivo, você obriga o outro a meter a mão no fogo e quem sente a dor é o outro, não é você.

— Nossa, é mesmo!

— Outroísmo submisso é vídeo game ao contrário. Você é avatar do outro. Você deixa o outro te controlar. Você opta pelo que o outro diz que é melhor para você. Mas quem experimenta a opção é você, não é o outro. Ou outro não sente nem uma gota da dor que você está experimentando. Daí, você fica se sentindo vítima, como se não estivesse optando por obedecer.

— Verdade também!

— Viver autoísta é colocar o controle na mão do próprio avatar. Você que vai experimentar sua opção, então, você que opte pelo que é melhor para você. Eu que vou experimentar minha opção, então, eu que opto pelo que é melhor para mim. Play and let play!

© 2018 · 1FICINA · Marcelo Ferrari