PENSAR O PENSAMENTO

12/03/2017 by in category Textos with 0 and 0

Se você é mineiro, você fala com sotaque de mineiro. Se você é carioca, você fala com sotaque de carioca. Se você é baiano, você fala com sotaque de baiano. Se você é paulistano, você fala com sotaque de paulistano. Se você é gaúcho, você fala com sotaque de gaúcho. E assim por diante. Agora, como foi que você adquiriu seu sotaque? Alguém te ensinou? Você aprendeu na escola? Nada disso. Você adquiriu seu sotaque por osmose (digamos assim). Você nasceu e viveu em uma coletividade que tinha esse sotaque, ou seja, que tinha esse jeito de falar, então, mesmo sem perceber, foi aprendendo a falar do mesmo jeito que sua coletividade.

Entendido isso, pasme! O mesmo aconteceu com seu jeito de pensar. Você não criou seu jeito de pensar, você o herdou da sua coletividade, sem perceber, assim como seu sotaque.

Você tem um jeito de pensar, assim como tem um jeito de falar. Jeito de falar não é o que você fala, é como você fala. O mesmo com seu jeito de pensar, não é o que você pensa, é como você pensa, é seu sotaque mental. Só que assim como você não percebe seu sotaque verbal, você também não percebe seu sotaque mental. Por que não? Porque tanto seu jeito de falar como seu jeito de pensar são executados de forma subconsciente. Quando você vai falar, você fala do jeito que fala, automaticamente, quando você vai pensar, você pensa do jeito que pensa, também automaticamente.

Que jeito de pensar é esse? “É o meu jeito”, você pode responder. Esse é seu equívoco. Assim como seu sotaque, ou seja, seu jeito de falar, é algo que você assimilou por osmose mental da sua coletividade, o mesmo aconteceu com seu jeito de pensar. Seu jeito de falar não é seu, é da sua coletividade. Seu jeito de pensar também não é seu, também é da sua coletividade.

Qual é o problema nisso? O problema é que seu jeito de pensar é o produtor do seu jeito de viver e como você é único, singular, o seu jeito de viver só pode ser produzido pelo seu jeito de pensar e não pelo jeito dos outros. É por isso que você vive mal e não consegue viver bem por mais que tente. Quem cria a qualidade do seu viver é seu jeito de pensar, só que seu jeito de pensar não é seu e está no piloto automático, assim como seu sotaque.

Como sair desse ciclo vicioso? Analisando seu jeito de pensar e descobrindo se é um jeito seu, que está em acordo com você, ou não, se é um jeito que você assimilou da sua coletividade. E como fazer isso? Pensando o pensamento. O fruto revela a qualidade da árvore. O produto revela a qualidade da fábrica. Você não tem como experimentar seu pensar, mas está constantemente experimentando o produto dele, os pensamentos. Pensar o pensamento é analisar a qualidade dos pensamentos que você está experimentando feito o sabor de um fruto e descobrir se são produtos do seu próprio jeito de pensar ou do jeito de pensar coletivo que você assimilou.

“Como sei qual é meu jeito de pensar?”, você pergunta. A resposta é: analisando-os com a lógica reversa que faz você viver mal. O jeito de pensar que não é seu, produz um jeito de viver que também não é seu, ou seja, que não funciona para você, faz você viver mal. Então, o jeito de pensar que é seu, produz um jeito de viver que é só seu, que funciona singularmente para você, faz você viver bem.

Eis como se pratica autoconhecimento psicológico. E conforme você vai aprofundando nessa prática, você vai descobrindo não só seu jeito de pensar, mas também de gostar, de amar e de fazer.

© 2018 · 1FICINA · Marcelo Ferrari