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*Os livros estão na ordem de leitura recomendada.

PENSAMENTO NO DIVÃ

22/02/2021 by in category Livros with 0 and 0

01 | ABSOLUTAMENTE IRRELEVANTE

Eu fiz faculdade de comunicação. Fazia parte do curso de comunicação ter aulas de propaganda e marketing. Logo na primeira aula dessa matéria, um professor com cara de integrante do clube da luta (ops! quebrei a primeira regra) perguntou para a classe cheia: “Qual é a coisa mais cara do mundo?”. O povo começou a listar produtos de grifes famosas: “Uma Ferrari, um colar de diamantes, um relógio suíço, etc”. O professor foi balançando a cabeça em sinal negativo para cada um dos produtos listados. Depois de 10 minutos de fracasso coletivo, o professor respondeu: “A coisa mais cara do mundo é o seu tempo”.

Ninguém entendeu a resposta. O professor explicou: “10 segundos do seu tempo de telespectador, na rede globo, no horário nobre, custa 100 mil reais. Ou seja, seu tempo custa 10 mil reais por segundo”. Eu não lembro bem o valor exato, mas o valor era mesmo algo assim, de fazer cair o cu da bunda. Os alunos ficaram de pau duro, sonhando com o poder da profissão. Eu lembrei da música dos Engenheiros do Hawaii: “Um dia me disseram / que as nuvens não eram de algodão / sem querer eles me deram / as chaves que abrem essa prisão”.

Nesse dia, comecei a abrir mais um pedaço da minha prisão mental. Estou te contando isso para que você possa abrir mais um pedaço da sua também. Mas vamos por partes, porque tem várias grades e vários cadeados nessa prisão. Um cadeado está aberto, vamos para o próximo.

Tem uma piada que é assim:

Um hóspede entra no elevador de um hotel e o ascensorista lhe pergunta:

“Para qual andar o senhor deseja ir?”.
O hóspede responde:

“Tanto faz, entrei no hotel errado!”

Ora, de que adianta ir para o primeiro, segundo, terceiro ou quarto andar no hotel errado? De que adianta ir para qualquer andar do hotel errado? Nenhum andar do hotel errado pode levar você até um quarto que fica em outro hotel. Óbvio!

Pronto! O segundo cadeado está aberto.

Logo mais você vai entender melhor porque contei essa piada. Vamos agora ao terceiro cadeado. Depois que abrimos o terceiro cadeado, o primeiro e o segundo farão mais sentido e você poderá sair da prisão inteira.

Tem um jogo de enigma que o coordenador do jogo conta o final da história e os jogadores devem descobrir tudo que aconteceu até chegar naquele final fazendo perguntas ao coordenador. Os jogadores podem fazer qualquer pergunta de sim ou não para o coordenador, absolutamente qualquer pergunta.

Essa é uma das características mais divertidas desse jogo, porque surge tudo quanto é tipo de teoria. Por exemplo, tem uma história que termina com a seguinte cena: um homem pelado no deserto com um palito de fósforo na mão. Os jogadores devem descobrir tudo que aconteceu para chegar nessa cena. E como a cena é muito estranha, as teorias que surgem são mais estranhas ainda, principalmente quando os jogadores possuem imaginação fértil.

“O homem é casado? O homem era professor de matemática? O deserto é de areia ou é um deserto de bolinhas de isopor? O homem foi para o deserto de camelo? De jipe? De avião? O homem é vegetariano? O homem é fã dos Beatles?”. Vale fazer qualquer pergunta de sim ou não. E muitas vezes as perguntas aparentemente mais absurdas são as mais reveladoras.

O coordenador do jogo, que conhece tudo que aconteceu, que conhece a história inteira, deve responder sim ou não para cada pergunta. De pergunta em pergunta, os jogadores vão avançando rumo a descoberta da resposta.

Só que tem um terceiro tipo de resposta que o coordenador do jogo pode dar além de sim ou não. Qual é o terceiro tipo de resposta?

Irrelevante!

O coordenador do jogo pode responder: sim, não ou irrelevante. Por exemplo, se um jogador perguntar: “O homem pelado no deserto é diabético?”. O coordenador do jogo pode responder que sim, se o homem for realmente diabético, pode responder que não, se o homem não for diabético, mas pode responder também que é irrelevante.

Quando um jogador faz uma pergunta e o coordenador responde que é irrelevante, o jogador costuma ficar com raiva do coordenador e reclama: “Sim ou não? É sim ou não?”. E o coordenador repete: é irrelevante!

Os jogadores não aceitam a resposta “irrelevante”, não desce. A resposta “irrelevante” causa no jogador a sensação de que o coordenador não quer sequer considerar sua pergunta, de que o coordenador está fazendo pouco caso da pergunta dele e por isso está dizendo que é irrelevante.

Enfim, o jogador acredita que a resposta irrelevante não ajuda em nada, que é a pior resposta. Só que é justamente o contrário. “Irrelevante” é a melhor resposta.

“Irrelevante” significa que a linha de raciocínio que o jogador está fazendo não vai levá-lo à descoberta do enigma, mas irá fazer o contrário, irá afastá-lo da descoberta. “Irrelevante” é a melhor resposta porque significa “Abandone imediatamente esse elevador porque você entrou no hotel errado”.

Entendeu agora porque contei a piada do hotel errado no começo desse texto? Quando você está no hotel errado, a melhor coisa que você pode fazer é sair do elevador.

Quando você acredita que algo irrelevante tem relevância, a melhor coisa que pode te acontecer é descobrir que não tem, que o que você pensou que fosse relevante, é irrelevante, pois caso contrário, você continuará indo cada vez mais para o lado errado e se afastando cada vez mais do seu objetivo.

“Irrelevante” é a melhor resposta porque faz você investir bem na coisa mais cara do mundo: seu tempo.

Você vai morrer. A brincadeira de ser humano começou e vai acabar, vai chegar ao fim, assim como toda brincadeira. Seu capital temporal tem fim. Entende isso?

Se você entende mesmo, preste atenção no que vou lhe dizer: é absolutamente irrelevante pensar sobre o que acontece e sobre o que aconteceu! Para viver bem, só tem uma questão relevante a ser pensada: seu próprio pensamento.

Viver bem é resultado do investimento temporal que você faz na prática de pensar o pensamento. Todo resto é você andando de elevador no hotel errado.


02 | PENSAR O PENSAMENTO

Quando você tem uma experiência, quando algo acontece, imediatamente você começa a pensar sobre o que aconteceu, principalmente quando o acontecimento é indesejado, ruim desagradável.

Quando seu celular é roubado, por exemplo, você começa a pensar: “Por que comigo? Por que hoje? O que será que fiz de errado para merecer esse castigo de Deus e da vida? Por que atraí esse infortúnio para mim? Por que um ser humano aponta uma arma para o outro e atira? Cadê o respeito? Cadê a justiça? Cadê o valor à vida? Que valor tem a vida? Etc.”

Você passa dias, às vezes anos, e às vezes até uma vida inteira, pensando coisas assim sobre um acontecimento, só que você nunca, jamais, em momento algum, pensa os pensamentos que você está pensando. Por exemplo, todo dia você pensa: “Por que isso aconteceu comigo?”. Porém, você nunca pensa: “Por que estou pensando sobre porque isso aconteceu comigo? Qual é a utilidade de ficar pensando sobre porque isso aconteceu comigo? Por que não consigo parar de pensar no porquê isso aconteceu comigo?”

Entende? Você gasta todo seu tempo pensando sobre os acontecimentos, mas você não analisa a lógica dos seus pensamentos. O resultado desse seu comportamento tem três consequências:

1) Você não produz autoconhecimento, pois mesmo que você chegue a conhecer tudo sobre o acontecimento, o acontecimento é o outro e autoconhecimento é conhecer a si e não conhecer o outro.

2) Você continua vivendo mal porque é impossível viver bem em estado de ignorância de si, ou seja, é impossível viver bem sem autoconhecimento.

3) A qualidade da sua realidade nunca muda, pois a qualidade da sua realidade depende da qualidade da sua mentalidade e a qualidade da sua mentalidade só muda quando você pratica pensar seus pensamentos.

Sendo assim, para viver bem, é absolutamente irrelevante pensar sobre os acontecimentos. A única utilidade dos pensamentos que você tem sobre os acontecimentos é servir de material de análise para você poder pensá-los e assim produzir autoconhecimento.


03 | PREGUIÇA DE PENSAR

Eu converso diariamente com meus alunos e leitores. Recebo perguntas de todo tipo, mas com frequência as perguntas são sobre acontecimentos. Então, é claro que no começo da pandemia do Covid, recebi muitas perguntas sobre os acontecimentos pandêmicos. Uma das perguntas foi essa aqui: “O que você pensa sobre o que está acontecendo nesse momento de pandemia, caos na saúde e mortes?” Abaixo segue o começo da minha resposta:

Eu penso o óbvio. São dois óbvios:

1) O que está acontecendo é o que está acontecendo.
2) O que está acontecendo é irrelevante.

O que está acontecendo não importa, pois está acontecendo, o que importa é como você lida com o que está acontecendo. Só tem duas formas de você lidar com o que está acontecendo: bem ou mal. Lidar bem é viver bem. Lidar mal é viver mal. O que importa para viver bem é lidar bem com o que está acontecendo, seja lá o que estiver acontecendo. Entendendo isso, surge a pergunta: como lidar bem com o que está acontecendo? E surge a resposta que nenhum aluno quer escutar: com autoconhecimento.

Por que digo que nenhum aluno quer escutar essa resposta? Porque pensar o pensamento requer esforço e o ser humano tem preguiça de pensar. Observe isso.

Você não precisa fazer esforço nenhum para pensar sobre os acontecimentos. Algo acontece e você automaticamente começa a pensar sobre o acontecimento. Você escuta um barulho estranho na sua casa durante a noite e você automaticamente começa a pensar: “O que foi isso? Será que entrou alguém em casa? Será que é um ladrão? Será que é um gato. Etc”.

Não é preciso esforço nenhum para pensar sobre os acontecimentos. Na verdade, é o oposto, quando os pensamentos sobre os acontecimentos começam a ficar insuportáveis, você precisa fazer esforço para que eles parem. Você precisa mudar o foco, pensar em outras coisas, praticar algum tipo de relaxamento, etc.

Não é preciso esforço nenhum para pensar sobre os acontecimentos porque o pensamento subconsciente é uma resposta automática do seu sistema de crenças. Toda vez que algo acontece, seu sistema de crenças responde automaticamente produzindo um pensamento sobre o acontecimento.

É por isso que pessoas diferentes pensam coisas diferentes sobre o mesmo acontecimento, cada pessoa possui um sistema de crenças diferente. É por isso que crianças não pensam em coisas que adultos pensam, porque não possuem ainda determinadas crenças que todos os adultos possuem.

Pensar o pensamento requer esforço e não acontece automaticamente. Pensar o pensamento é uma decisão. Você precisa decidir pensar o pensamento e executar essa prática para que ela aconteça ou então não acontece.


04 | PENSAMENTO NO DIVÃ

Além de preguiça, você não tem prática nenhuma em pensar o pensamento. O próprio termo “pensar o pensamento” lhe parece extraterrestre. Nunca ninguém lhe falou sobre isso. Nunca ninguém lhe explicou como fazer isso. Então, além da preguiça, você não consegue pensar o pensamento por ignorar o modus operandi dessa prática. A seguir vou explicar como pensar o pensamento e dar exemplos para retirarmos esse obstáculo.

O primeiro passo para pensar o pensamento é você se dividir em dois: observado e observador, pensamento e pensador.

Você já viu essa imagem clássica de consultório de psicólogo? O psicólogo fica sentado em uma cadeira e o paciente fica deitado em um divã. A divisão entre observador e observado é assim.

Você-observado (pensamento) é o paciente deitado no divã, então, você-observado deve falar tudo que está pensando SOBRE o acontecimento.

Você-observador (pensador) é o psicólogo sentado na cadeira ouvindo você-paciente, então, você-observador deve ouvir tudo que você-observado está falando sobre o acontecimento e fazer perguntas que o retire da dimensão do acontecimento e o traga a dimensão do autoconhecimento.

Exemplo (1)

Pensamento: Roubaram meu celular.
Pensador: E daí? Qual é o problema?
Pensamento: Não posso ligar para minhas filhas?
Pensador: E daí? Qual é o problema?
Pensamento: Eu amo minhas filhas.

Nesse caso, você descobriu que seu sofrimento não é pelo roubo do celular, mas pelo roubo do seu amor pelas suas filhas. Só que o amor pelas suas filhas não foi roubado de fato, o roubo foi do celular. Mas para o seu pensamento o roubo foi do amor pelas suas filhas. Seu pensamento está equivocado. Mas seu pensamento não é capaz de sair do próprio equívoco. Seu pensamento precisa que “alguém do lado de fora” pense no que ele está dizendo e aponte seu equívoco através de uma pergunta. Esse “alguém do lado de fora” é você-pensador.

Muitas vezes, tudo que você-pensador precisa fazer para se retirar de um profundo sofrimento é se perguntar “e daí?” repetidas vezes. Cada vez que você pergunta e o pensamento responde, você vai aprofundando um pouco mais no autoconhecimento e saindo um pouco mais do mal viver.

Exemplo (2)

Pensamento: Roubaram meu celular.
Pensador: E daí? Qual é o problema?
Pensamento: O que será que fiz de errado para merecer esse castigo de Deus e da vida?
Pensador: E por que você acredita que esse acontecimento é um castigo?
Pensamento: Devemos temer a Deus e fazer a vontade de Deus, caso contrário, Deus castiga.

Nesse caso, você descobriu que seu pensamento pensa que Deus é um ente externo, que é imperativo com sua vontade e que pune as criaturas desobedientes. Você produziu esse autoconhecimento.

Talvez você já tenha sido religioso e se tornou ateu, mas seu pensamento ainda pensa assim, ainda é temente a Deus. Talvez seus pais fossem católicos e você budista, mas ainda assim seu pensamento tem um conceito cristão de Deus. Você produziu esse autoconhecimento.

Exemplo (3)

Pensamento: Roubaram meu celular.
Pensador: E daí? Qual é o problema?
Pensamento: Por que atraí esse infortúnio para mim?
Pensador: Por que você acredita que infortúnios são atraídos?
Pensamento: Por que eu li o livro sobre a lei da atração.

Nesse caso, você descobriu que seu pensamento pensa que infortúnios são atraídos tal como você leu no livro sobre lei da atração. Você produziu esse autoconhecimento. E você pode seguir na investigação fazendo perguntas que faça você descobrir se deve continuar pensando assim.

Exemplo (4)

Pensamento: Por que um ser humano aponta uma arma para o outro e atira?
Pensador: E daí? Qual é o problema?
Pensamento: Cadê o respeito? Cadê a justiça? Cadê o valor à vida? Que valor tem a vida?
Pensador: Respeito, justiça e valor são objetos físicos assim como uma árvore?
Pensamento: Não, são conceitos humanos.
Pensador: Cadê os conceitos humanos, onde estão?
Pensamento: Dentro das pessoas.
Pensador: Todas as pessoas tem a mesma conceituação?
Pensamento: Não, cada um tem uma conceituação diferente.

Nesse caso, você descobriu que cada um tem conceituação diferente, mas seu pensamento pensa que todos devem ter conceituação igual a você, o que obviamente é impossível.


05 | ESCREVA OU GRAVE

Provavelmente, assim que você-pensamento deitar no divã, você irá expressar muitos pensamentos e você-pensador não irá conseguir se lembrar de tudo. Uma estratégia muito útil para você-pensador não perder o fio da meada, é usar um caderno ou um computador e escrever tudo que você-pensamento diz, ou então, mais fácil ainda, ligar o gravador do celular e gravar. Depois de escrito ou gravado, você pega o registro e começa a pensar o pensamento passo a passo.

Boa prática!

© 2020 · 1FICINA · Marcelo Ferrari