Pensaê | Absolutamente irrelevante

03/09/2020 by in category Podcasts tagged as with 0 and 0

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Eu fiz faculdade de comunicação. Fazia parte do curso de comunicação ter aulas de propaganda e marketing.

Logo na primeira aula dessa matéria, um professor com cara de integrante do clube da luta (ops! quebrei a primeira regra) perguntou para classe cheia: “Qual é a coisa mais cara do mundo?”.

O povo começou a listar produtos de grifes famosas: uma ferrari, um colar de diamantes, um relógio suíço, etc…

O professor foi balançando a cabeça em sinal de negativo para cada um dos produtos listados. Depois de 10 minutos de fracasso coletivo, o professor respondeu: “A coisa mais cara do mundo é o seu tempo”.

Ninguém entendeu a resposta. Daí ele explicou: “10 segundos do seu tempo de telespectador, na rede globo, no horário nobre, custa 100 mil reais. Ou seja, seu tempo custa 10 mil reais por segundo”.

Eu não lembro bem o valor exato, mas o valor era mesmo algo assim, de fazer cair o cu da bunda.

Os alunos ficaram de pau duro, sonhando com o poder da profissão. Eu lembrei da música dos Engenheiros do Hawaii: “Um dia me disseram / que as nuvens não eram de algodão / sem querer eles me deram / as chaves que abrem essa prisão”.

Nesse dia eu comecei a abrir mais um pedaço da minha prisão mental. Estou te contando isso para que você possa abrir mais um pedaço da sua também. Mas vamos por partes, porque tem várias grades e vários cadeados nessa prisão.

Um cadeado está aberto, vamos para o próximo.

Tem uma piada que é assim.

Um hóspede entra no elevador de um hotel.
O ascensorista lhe pergunta:
“Para qual andar o senhor deseja ir?”.
O hóspede responde:
“Tanto faz, entrei no hotel errado!”

Ora, de que adianta ir para o primeiro, segundo, terceiro, quarto andar no hotel errado? De que adianta ir para qualquer andar do hotel errado? Nenhum andar do hotel errado pode levar você até um quarto que fica em outro hotel. Óbvio!

E pronto! Segundo cadeado está aberto.

Logo mais você vai entender melhor porque contei esse piada. Vamos agora ao terceiro cadeado. Depois que abrimos o terceiro cadeado, o primeiro e o segundo fará mais sentido e você poderá sair da prisão inteira.

Tem um jogo de enigma que o coordenador do jogo conta o final da história e os jogadores devem descobrir tudo que aconteceu até chegar naquele final fazendo perguntas ao coordenador.

Os jogadores podem fazer qualquer pergunta de sim ou não para o coordenador, absolutamente qualquer pergunta. Essa é uma das características mais divertidas desse jogo, porque surge tudo quanto é tipo de teoria.

Por exemplo, tem uma história que termina com a seguinte cena: um homem pelado no deserto com um palito de fósforo na mão.

Os jogadores devem descobrir tudo que aconteceu para chegar nessa cena. Como a cena é muito estranha, as teorias que surgem são mais estranhas ainda, principalmente quando os jogadores possuem imaginação fértil.

“O homem é casado? O homem era professor de matemática? O deserto é de areia mesmo ou é um deserto de bolinhas de isopor? O homem foi para o deserto de camelo? De jipe? De avião? O homem é vegetariano? O homem é fã dos Beatles?”

Vale fazer qualquer pergunta de sim ou não. E muitas vezes as perguntas aparentemente mais absurdas são as mais reveladoras.

O coordenador do jogo, que conhece tudo que aconteceu, que conhece a história inteira, deve responder sim ou não para cada pergunta. De pergunta em pergunta, os jogadores vão avançando rumo a descoberta da resposta.

Só que tem um terceiro tipo de resposta que o coordenador do jogo pode dar além de sim ou não.

Qual é o terceiro tipo de resposta?

Irrelevante!

O coordenador do jogo pode responder: sim, não ou irrelevante.

Por exemplo, se um jogador perguntar: “O homem pelado no deserto é diabético?”

O coordenador do jogo pode responder que sim, se o homem for realmente diabético, pode responder que não, se o homem não for diabético, mas pode responder também que é irrelevante.

Quando um jogador faz uma pergunta e o coordenador responde que é irrelevante, a jogador costuma ficar com raiva do coordenador e reclama: “sim ou não? é sim ou não? diz, sim ou não?”

E o coordenador repete: é irrelevante!

Os jogadores não aceitam a resposta “irrelevante”, eles se sentem ignorados, desprezados. Os jogadores aceitam “sim ou não”, mas a resposta “irrelevante” não desce.

O jogador tem a sensação de que o coordenador não quer sequer considerar sua pergunta, que o coordenador está fazendo pouco caso da pergunta dele, por isso ele está dizendo que é irrelevante.

O jogador acredita que a resposta irrelevante não ajuda em nada, que é a pior resposta.

Só que é justamente o contrário. “Irrelevante” é a melhor resposta.

“Irrelevante” significa que o jogador está delirando, que está viajando na maionese. “Irrelevante” significa que a linha de raciocínio que o jogador está fazendo não vai levá-lo a descoberta do enigma, que irá fazer o contrário, irá afastá-lo da descoberta. “Irrelevante” é a melhor resposta porque significa “Abandone imediatamente esse elevador porque você entrou no hotel errado”.

Entendeu melhor porque contei a piada do hotel errado no começo desse podcast?

Quando você está no hotel errado, a melhor coisa que você pode fazer é sair do elevador. Quando você acredita que algo irrelevante tem relevância, a melhor coisa que pode te acontecer é descobrir que não tem, que o que você pensou que fosse relevante, é irrelevante, pois caso contrário, você continuará indo cada vez mais para o lado errado e se afastando cada vez mais do seu objetivo.

“Irrelevante” é a melhor resposta porque faz você você investir bem a coisa mais cara do mundo: o seu tempo.

Você vai morrer. O jogo de ser humano começou e vai acabar, vai chegar ao fim, assim como todo jogo. Seu capital temporal tem fim. Entende isso?

Se você entende isso, preste atenção no que vou lhe dizer: é irrelevante!

Tudo isso com que você se preocupa, desde a cor da cueca do presidente até o paradoxo da fenda dupla.

Tudo, tudo, tudo isso, é absolutamente irrelevante!

Para viver bem, só tem uma pergunta relevante.

O QUE É SER HUMANO?

Só isso!

Qualquer outra pergunta é: i r r e l e v a n t e!

Bem viver é resultado do investimento temporal que você faz na descoberta da resposta para essa pergunta.

O QUE É SER HUMANO?

Todo resto é você andando de elevador no hotel errado. Se você quiser entrar no hotel errado e investir seu tempo andando de elevador para cima e para baixo sem jamais chegar ao autoconhecimento, tudo bem. Você pode fazer isso. Aliás, é só isso que você tem feito até hoje.

Só que sem autoconhecimento é impossível viver bem.

Pensa nisso.

Pensaê!

© 2020 · 1FICINA · Marcelo Ferrari