LIVROS

*Os livros estão na ordem de leitura recomendada.


LIVROS EXTRAS

Parasita

15/06/2021 by in category Filmes with 0 and 0

DOIS PREÇOS DA MENTIRA

(ANÁLISE AUTOCIENTÍFICA DO FILME PARASITA)

Fazer uma análise do filme Parasita desconsiderando a crítica social, política e econômica é uma heresia. Mas é o que vou fazer. Vou me focar na análise psicológica, pois o estado coletivo é resultado do comportamento individual e o comportamento individual é psicológico.

Acreditamos que o controle é executado apenas através do poder e da força. Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Mas não é verdade. Existem duas formas de controlar o outro. Podemos controlar o outro através da força, mas também podemos controlar o outro através da mentira.

Controlar o outro através da mentira é muito mais comum. Todos os dias, em vários momentos, usamos a estratégia da mentira para controlar a opinião dos outros, a confiança, o arbítrio e o comportamento dos outros.

O filme Parasita mostra isso através do comportamento mentiroso da família Kim. Novamente, não vou entrar no mérito da mentira. O que interessa observar no filme para uma análise psicológica, é que a família Kim usa a mentira para controlar o outro, mais especificamente para controlar a família Park.

Mentira é uma estratégia que visa controlar o outro assim como o poder. E, de certa forma, a mentira é uma estratégia muito mais inteligente e eficaz que o poder, pois através da mentira você controla o outro sem necessidade de confronto, guerra, armas e desgaste de energia. Mas não existe almoço grátis no universo. A mentira também tem um preço. Aliás, dois preços.

O primeiro preço da mentira é ter que sustentar a mentira com outra mentira, e daí sustentar a outra mentira com outra mentira, e daí sustentar a outra mentira com outra mentira e assim por diante. Viver mentindo é muito estressante. Você não tem paz.

O segundo preço da mentira é que para aparentar ser algo que você não é, você precisa viver em autonegação. Você precisa fingir que gosta do que não gosta, que concorda com o que não concorda, que ama o que não ama. Enfim, você precisa fingir que você não é você, que você é outro.

Então, um efeito colateral da autonegação é que você se condena a viver no porão. Sua verdade não pode vir à tona. Sua verdade precisa ficar escondida a sete chaves. Sua verdade não é bem vinda. E a solução é trancar sua verdade no porão.

Viver em autonegação dói. É como se você fosse uma barata que ao primeiro sinal de perigo precisa se esconder debaixo da mesa. É como se você fosse uma mola se obrigando a encolher cada vez mais. Você vai se encolhendo, se encolhendo, até que chega um ponto que você não aguenta encolher mais e você explode.

O filme Parasita mostra tudo isso e deixa a pergunta na tela: vale a pena pagar os dois preços da mentira?

© 2021 · 1FICINA · Marcelo Ferrari