*Os livros estão na ordem de leitura recomendada.

OUTROÍSMO IMPOSITIVO

18/09/2015 by in category Livros with 0 and 0

01 | VIOLÊNCIA INEVITÁVEL

Outroísmo impositivo é quando você tenta impor ao outro o que você considera melhor, é quando você tenta impor seu jeito de viver ao outro, é quando você tenta fazer o outro viver de acordo com seu quatrix. Ao fazer isso, você está violando a individualidade do outro.

Lembrando que violência pode ser física, sensorial, afetiva e intelectual, afirmo que violentar o outro é inevitável. E pergunto: por quê?

INTERLOCUTOR: Porque não sou o outro e vice versa.

Exato! Outroísmo impositivo é inevitável pelo simples fato de que você não é o outro. A própria alteridade faz com que a violência seja inevitável.

Agora, vamos aprofundar nisso. Por que a alteridade torna a violência inevitável?

INTERLOCUTOR: Porque eu não sei o que é melhor para o outro e vice versa.

Tem certeza disso?

INTERLOCUTOR: Sim, tenho.

De onde vem sua certeza?

INTERLOCUTOR: Só sei de mim. Não sei o que o outro pensa, sente, gosta, quer, etc.

Exatamente! Você sabe o que você pensa, sente, gosta, quer, mas não sabe nada disso do outro. Usando os termos da 1ficina, você experimenta seu quatrix, mas não experimenta o quatrix do outro. Certo?

INTERLOCUTOR: Certo.

Sendo que você está constantemente e inevitavelmente convivendo com o outro, mas não experimenta o quatrix do outro, o que você faz?

INTERLOCUTOR: Eu violento o outro.

Sim, mas tem uma coisa que você faz antes disso que resulta nisso.

INTERLOCUTOR: Eu penso saber pelo outro.

Quase isso.

INTERLOCUTOR: Eu imagino.

Quase isso.

INTERLOCUTOR: Eu adivinho.

Se você pudesse adivinhar o quatrix do outro, estava tudo resolvido. A violência só existe porque é impossível um adivinhar o quatrix do outro.

INTERLOCUTOR: Eu suponho.

Isso mesmo! Você supõe. Você não pode experimentar o quatrix do outro, mas como está constantemente e inevitavelmente convivendo com o outro, só lhe resta supor o que o outro pensa, sente, quer, gosta, etc. Só que para supor, você deve se basear em algo. No que você se baseia?

INTERLOCUTOR: Me baseio em mim.

Exato! Você se baseia no seu quatrix. Você só pode experimentar seu quatrix, então, você só tem seu quatrix para se basear. Está claro isso?

INTERLOCUTOR: Sim, está!


02 | PENSA QUE SABE

Ótimo! E qual é o problema com sua suposição?

INTERLOCUTOR: O problema é que eu sou diferente do outro e vice versa.

Exatamente! O problema é que você é diferente do outro e vice versa.

Só que você não tem outra opção senão supor. Você é um indivíduo. Você só pode supor seu quatrix para o outro. E é isso que você faz. Você se baseia em si e supõe o que é melhor para o outro. Mas você é diferente do outro e vice versa, então, sua suposição é sempre equivocada.

INTERLOCUTOR: Estou a 33 anos batendo na mesma tecla. Finalmente entendi.

Outroísmo impositivo é uma opção QUASE inevitável. Sua própria natureza de individuo lhe induz a viver de forma outroísta impositiva.

Outroísmo submisso é fácil de você perceber. Você sente na pele que determinada opção não está em acordo com seu quatrix. Você sente sua dor, sente seu sofrimento. Mas quando você está sendo outroísta impositivo, você não sente a dor que está causando no outro. A bala que está saindo do seu revólver não está ferindo você, então, você não sabe que está violentando o outro. E vice versa. O outro também não sabe que está violentando você.


03 | ONISCIÊNCIA

INTERLOCUTOR: Não tem como saber do quatrix do outro de jeito nenhum?

Sim, tem um jeito. Só um. Mas para que você possa colocar esse único jeito em prática, antes você precisa estar consciente de algo, senão, é impossível. Que algo é esse?

INTERLOCUTOR: Estar consciente de que é impossível saber do quatrix do outro.

Exatamente! Enquanto você estiver convicto de que é possível saber do quatrix do outro, não tem como você sair do outroísmo impositivo. Só quando você está consciente de que é impossível, você pode optar por outra estratégia de saber que não a suposição.

INTERLOCUTOR: Qual estratégia?

A estratégia do diálogo. Simples assim! A estratégia que torna você onisciente é a comunicação. É através do diálogo, e só através do diálogo, que você consegue saber do outro e assim minimizar a violência (outroísmo impositivo).

A matemática da convivência funciona assim:

Quanto menos diálogo,
mais outroísmo impositivo,
quanto mais outroísmo impositivo,
mais violência,
quanto mais violência,
pior a qualidade da convivência.

Quanto mais diálogo,
menos outroísmo impositivo,
quanto menos outroísmo impositivo,
menos violência,
quanto menos violência,
melhor a qualidade da convivência.


04 | EQUÍVOCO SINCERO

O filme Energia Pura simula uma pessoa que consegue experimentar o quatrix do outro, que consegue saber o que o outro pensa, sente, quer, gosta, etc. Então, esse filme ajuda a entender porque você é inevitavelmente violento. Você violenta o outro sem saber que o está violentando. Você supõe que está lhe fazendo um bem. Tem convicção de que está lhe fazendo um bem.

Está claro isso?

INTERLOCUTOR: Sim, está.

Então, vamos dar mais um passo no entendimento do outroísmo impositivo.


05 | COISIFICAÇÃO

Quando você desconsidera o quatrix do outro, o que você está fazendo com o outro?

INTERLOCUTOR: Violentando o outro.

Nessa pergunta, não me refiro ao seu comportamento, mas sim ao seu estado mental. Quando você desconsidera o quatrix do outro, o que você está fazendo com o outro dentro da sua cabeça?

INTERLOCUTOR: Supondo que o outro é igual a mim.

Também. Mas é outro aspecto que quero deixar explícito.

INTERLOCUTOR: Desconsiderando a unicidade do outro.

Também. O que quero apontar é que você está coisificando o outro. Na mentalidade outroísta impositiva, você não vê o outro como um indivíduo, vê como uma coisa, um objeto. Por isso você chuta o outro como se fosse bola e lhe dá ordens como se fosse robô. Coisas não têm vontade própria, você é a vontade das coisas. Só que indivíduos tem vontade própria. E indivíduos não são coisas. Esse é o equívoco.

Só que esse é um equívoco construído na infância, então, é muito arraigado.

Vamos entender melhor isso.

Assim que você nasceu você sentiu fome. O que você fez?

INTERLOCUTOR: Eu chorei.

E o que aconteceu?

INTERLOCUTOR: Minha mãe me deu comida.

Sua mãe te deu leite no peito, ou então, lhe trouxe fruta, manga, por exemplo. Ok?

INTERLOCUTOR: Ok.

Você perguntou para manga se ela queria ser comida?

INTERLOCUTOR: Não.

Você perguntou para o leite se ele queria ser bebido?

INTERLOCUTOR: Não.

Você perguntou para sua mãe se ela queria ter o peito sugado?

INTERLOCUTOR: Não.

Por que não? O que era sua mãe, a manga e o leite para você?

INTERLOCUTOR: Eram coisas.

E o que você fez com essas coisas?

INTERLOCUTOR: Eu usei.

Usou para quê?

INTERLOCUTOR: Para satisfazer minha fome.

Sendo assim, para que servem as coisas?

INTERLOCUTOR: Coisas servem para me satisfazer.

Eis a mentalidade outroísta impositiva: o outro é uma coisa que serve para me satisfazer.

Ninguém te ensina a viver de forma outroísta impositiva, você aprende com a fome. Se você não comer a manga, se não beber o leite, você morre de fome.

INTERLOCUTOR: Ou aprendo ou morro!

Exato! Quando você era neném e sentia fome, você olhava para sua mãe e perguntava assim: “Querida mamãe, estaria você disposta a colaborar com minha alimentação e colocar seu peito na minha boca?”. Era assim sua interação com sua mãe?

INTERLOCUTOR: Não! Eu grudava no peito e mamava!

Que nome podemos dar para esse tipo de interação?

INTERLOCUTOR: Usar.

Sim, mas tem uma palavra melhor.

INTERLOCUTOR: Manusear.

Tem uma palavra melhor ainda.

INTERLOCUTOR: Controle.

Isso!


06 | CONTROLE OU MORTE

Logo que você nasce você aprende sozinho que precisa controlar as coisas ao seu redor ou vai morrer. Controle ou morte! Isso é fato até hoje! Você precisa controlar o garfo e a faca para comer. Você precisa controlar a temperatura da água para cozinhar. Você precisa controlar o sabonete para se lavar. Você precisa controlar o carro para se deslocar. Observe sua rotina. Você passa o dia inteiro controlando as coisas. Não é só na infância. Na infância você começa a entender que deve controlar as coisas. E isso continua para sempre.

E você não controla apenas para não morrer de fome. Comer não é seu único desejo. Você também quer ter prazer, por exemplo. E para ter prazer, você pode, por exemplo, controlar a televisão e colocar no filme que você gosta. Você também quer afeto, apreço, amor. Você também quer verdade. E para satisfazer tudo isso: controle.


07 | COOPERAÇÃO

Você descobre na infância que precisa controlar as coisas e cresce fazendo isso. Daí você vai descobrindo que você mesmo não é uma coisa, que você é um ser humano, um indivíduo, com vontade própria. Então, você começa a considerar que o mesmo deve ser com os outros seres humanos. Você começa a considerar que sua mãe não é uma coisa. Você pensa assim: “Se dói quando me tratam como coisa, então, deve doer no outro também”.

Daí surge uma nova possibilidade de convivência. Qual?

INTERLOCUTOR: Convivência humana.

Vou usar outra palavra para expressar o oposto de imposição. Daí surge a possibilidade de cooperação. Daí surge a possibilidade de você conviver com o outro de fato, outro você, outro ser humano, outro indivíduo e não uma coisa que só existe para te satisfazer.

INTERLOCUTOR: Muda tudo, né?

Muda tudo sem mudar nada. Eis o poder do despertar da consciência.


08 | DEUS DOS OUTROS

Vou contar uma história para explicar porque você acredita que outroísmo impositivo é bom e porque não é.

Era uma vez um cara que acreditava ser dono dos outros, mais especificamente dos moradores do vigésimo andar de um prédio. Ele morava no corredor do prédio e decidia a vida de todos naquele andar. Era ele quem determinava quem entrava e quem saía, o que podia e o que era proibido. Então, um dia, um morador do sétimo andar, desceu por engano no vigésimo andar. O cara foi imediatamente reclamar com ele.

— Você não pode ficar aqui!
— Que andar é esse? — perguntou o intruso.
— Esse é o vigésimo andar!
— Acho que desci no andar errado.
— Pois é! Pode ir embora!

O intruso estranhou o comportamento do cara e perguntou:

— Quem é você para me mandar embora?
— Meu nome é Deus. Sou o dono desse andar. Aqui mando eu. Todos me obedecem. Só entra aqui quem eu permito entrar. Só sai daqui quem eu permito sair. Só acontece o que eu permito acontecer. Eu decido a vida de tudo e de todos.
— Faz tempo que você manda aqui?
— Eu mando aqui há 30 anos.
— Deve ser trabalhoso decidir a vida de tudo e de todos, não?
— É muito trabalhoso! Eu trabalho 24 horas por dia, sete dias por semana.
— E isso há 30 anos!
— Exato! 30 anos sem férias.

O intruso andou pelo vigésimo andar e foi até a janela no final do corredor. Da janela dava para ver uma cidade imensa. Ele chamou Deus até a janela, apontou para fora e começou a perguntar:

— Você já comeu naquele restaurante ali?
— Não — disse Deus.
— Já andou por aquela rua?
— Também não — disse Deus.
— Já atravessou aquela ponte?
— Não — disse Deus.
— Já entrou naquele supermercado.
— Não — disse Deus.
— Já foi àquela padaria?
— Não — disse Deus.
— Você conhece algum outro lugar além do vigésimo andar?
— Não — disse Deus.
— E por que não?
— Porque não é fácil cuidar da vida dos outros! São muitos detalhes e muitas ordens para dar para cada um. São 24 horas de trabalho, sem parar, não sobra tempo para fazer mais nada — disse Deus.
— Ué, você é dono do outros ou escravo deles? — perguntou o intruso.

PERGUNTAS

PERGUNTA COMPLETA: Eu tento ajudar os outros, mas eles ficam bravo comigo. Ajudar é errado?

Imagine que você está tentando limpar uma casa. Você tem água, sabão, detergente, escovas, aspirador de pó e muita motivação. Porém, por mais que você tente limpar essa casa, você não consegue. A sujeira não sai. A bagunça continua. Você não entende porque fracassa, mas também não desiste. Nada abala sua motivação. Todo dia você acorda e tenta novamente. Heroicamente. E assim você prossegue fracassando até morrer.

Quando você percebe que morreu, você fica arrasado. Você passou sua vida inteira tentando limpar uma casa e fracassou. Você sente que desperdiçou sua vida. Tanto trabalho para nenhum resultado. A frustração é tanta que você não consegue parar de chorar. Então, um anjo escuta seu choro e vem conversar com você. Ele pergunta o que aconteceu e você conta sua triste história. O anjo vai até a casa que você morreu tentando limpar e volta para conversar com você.

“Fui até a casa que você morreu tentando limpar e percebi que você cometeu um grande equívoco”, diz o anjo.
“Qual equívoco?”, você pergunta, “Usei o sabão errado? Usei a escova errada? Usei o detergente errado? O que foi que eu fiz de errado?”.
E o anjo lhe responde: “Você passou sua vida tentando limpar a casa errada, aquela casa não é a sua”.

Não faça a coisa certa no lugar errado. Faxina mental é certo, é positivo, faz você viver bem. Mas mentalidade do outro, responsabilidade do outro. A única mentalidade que você consegue limpar é a sua.

Ter simpatia por uma ideologia política e antipatia por outra é natural, saudável e inevitável. Assim como temos simpatia por algumas frutas e antipatia por outros, o mesmo acontece com as ideologias. Contudo, não é porque amamos banana e odiamos laranja que precisamos excluir as laranjas do mundo. Tem muitas pessoas que amam laranja. E tem espaço para todos. Amantes de bananas e amantes de laranjas podem conviver em paz, cada um com sua preferência. O mesmo pode acontecer com as ideologias políticas. Amantes da ideologia A e amantes da ideologia B podem conviver em paz, cada um com sua preferência. Também tem espaço para todos. Então, se você tem uma atitude política excludente, se observe e descobrirá que sim, é um comportamento outroísta, pois você está indo contra o outro, e autoísmo é ir a favor de si.

Depende, você está cobrando algo que foi combinado?

Eu moro com uma amiga e combinamos de limpar a casa.

Ela fura com o combinado?

Mais ou menos, ela diz que não vê necessidade de tanta limpeza.

Aí é questão de critério de limpeza. Tem O QUE fazer e COMO fazer. Vocês estão discordando em COMO fazer, que é o critério de fazer. Aqui em casa, por exemplo, eu e minha esposa combinamos que ela faz a comida e eu lavo a louça. Daí, certa vez, eu lavei a louça e ela reclamou que a louça estava mal lavada. A reclamação da minha esposa não foi sobre o que fiz, foi sobre como fiz. Eu cumpri nosso acordo, mas não cumpri de acordo com o CRITÉRIO dela. Só que não tínhamos um acordo sobre o critério do que é uma louça bem lavada e mal lavada. No meu critério a louça que era bem lavada, mas no critério da minha esposa era mal lavada. Como resolvemos isso? Pedi para minha esposa me explicar qual era o critério dela. O critério dela é super criterioso, muito acima do meu. Mas tudo bem, posso usar o critério dela. Então, surgiu um segundo acordo. O primeiro acordo foi sobre o que fazer: lavar a louça. O segundo acordo foi sobre como fazer: lavar com muito sabão e não deixar nenhuma gordurinha. Me parece que você e sua amiga já tem um acordo sobre o que fazer, mas ainda não tem em um acordo sobre como fazer. Para que vocês tenham boa convivência com a limpeza, devem conversar e entrar em acordo sobre como fazer.

Se as regras estiverem claras, não serei impositiva?

Não! Você é impositiva quando impõe suas regras, estando suas regras explícitas ou ocultas. Tanto faz. Para não ser impositiva você deve entrar em acordo com o outro sobre as regras de convivência. Uma vez que você entre em acordo, não há imposição de regras, pois as regras são acordadas.

E se o outro não cumprir o acordo?

O outro tem obrigação de cumprir o acordo?

Sim, tem.

Justifique sua resposta

Sendo um acordo, deve ser cumprido

Exato! Um acordo DEVE ser comprido. O que não significa que TEM QUE ser cumprido. Dever e obrigação não é a mesma coisa.

Qual é a diferença?

Dever é opcional. Você entende que deve fazer e opta por fazer. Obrigação não é opcional. Você faz porque é obrigação, não faz por opção.

Por que se deve cumprir o combinado?

Para não quebrar a confiança que o outro depositou em você. Desconfiança produz má convivência.

Você pode falar. Tanto pode, que fala, e fala, e fala… E você não é o único, todos podem e falam, diariamente, repetidamente e insistentemente. O que tem todo dia nas redes sociais? Seres humanos cagando regra. Seres humanos recitando o gabarito do que está certo e errado. Seres humanos dizendo o que pode e não pode comer, o que é bom e ruim, o que está na moda e o que é brega, o que é pecado e o que é virtude.

Somos oito bilhões de caga-regras dizendo uns aos outros como cada um deve viver sua vida. Não existem índios nesse planeta, só existem caciques. Mas é pior que isso!

Somos também oito bilhões de super heróis, todos tentando salvar o mundo. E salvar o mundo do que? Do errado. O cristão quer salvar o mundo do islamismo e o islâmico quer salvar o mundo do cristianismo. O ateu quer salvar o mundo da crendice e o crente quer salvar o mundo do ateísmo. Os heterossexuais querem salvar o mundo da homossexualidade e os homossexuais querem salvar o mundo da heterossexualidade. A esquerda quer salvar o mundo da direita e a direita quer salvar o mundo da esquerda. Os pais querem salvar os filhos e os filhos querem salvar os pais. Resultado, treta, guerra, soco, pontapé, facada, mágoa, inimizade, ódio, etc. E tudo em nome de ajudar o outro.

Ajudar o outro é piada! Ninguém quer ajudar o outro. Cada um quer ajudar a si mesmo. Cada um quer que o outro reze sua cartilha. Cada um quer que sua verdade seja absoluta.

Se não fossemos hipócritas e admitíssemos isso, daí sim, ajudaria. Mas não, somos todos certos e santos. O vilão é sempre o outro. A culpa é sempre do outro. O errado é o outro. O inferno é o outro. O capeta é o outro. Eu sou o salvador. Eu imponho meu certo ao outro porque são as bases da santidade, da verdade, do amor e da salvação.

Você pode cagar sua regra para o outro, assim como o outro pode cagar a regra dele para você. O que não significa que a regra que você caga para o outro, serve para o outro, assim como a regra que o outro caga para você, serve para você. E nem precisa despertar a consciência para perceber isso.

O outro calça 37, você calça 36, como seu sapato pode servir para o outro? Não pode. Impossível. O que serve para você, serve para você. O que serve para o outro, serve para o outro. Seu viver, suas regras. Viver do outro, regras do outro. Cada um optando pelo que serve para si e todos vivendo e convivendo bem.

Dito isso, você pode expor sua opinião e seu critério de valores ao outro sem ser um caga regras. Como? Exatamente como estou fazendo aqui: explicando. Estou lhe explicando como funciona a atual forma de convivência humana e porque resulta em mal viver. E só estou fazendo isso porque me perguntou. Se não tivesse me perguntado, não lhe explicaria nada, pois estaria sendo invasivo.

Expor é diferente de impor. Explicar é diferente de implicar. Expor e explicar é saudável e produz bem viver. Impor e implicar é violento e produz mal viver.

Expliquei?

Sua pergunta contém alguns equívocos. Vou explicitá-los para que você possa se libertar deles. Assim como dança e dançarino não são a mesma coisa, religião e religioso também não. Alguma vez você foi na igreja e assistiu a religião rezando a missa? Claro que não! Quem reza a missa é o padre. Alguma vez você foi ao terreiro de umbanda e conversou com a umbanda? Também não! Você conversa com os médiuns e as entidades. Quem se comporta assim ou assado são os religiosos e não a religião. Comportamento é sempre de um corpo. Dança não tem corpo, então, não tem comportamento, quem tem comportamento é o dançarino. Religião também não tem corpo, então, também não tem comportamento, quem tem comportamento é o religioso: o padre, o bispo, o papa, o médium, o monge, o pastor, etc. Estando isso esclarecido, sua pergunta corrigida fica assim:

Como os religiosos deveriam se comportar diante da política?

Suponho que você considere errada a maneira como os religiosos estão se comportando, por isso está perguntando. Se considera errado, é porque vai contra o que considera certo. Sendo assim, lhe pergunto, como os religiosos deveriam se comportar? Como seria o certo? Sugiro que você escreva uma carta para os religiosos expressando o que eles estão fazendo de errado e como eles deveriam se comportar. Não estou brincando, nem sendo irônico, escreve mesmo, coloque no papel o que pensa e sente. Faça uma lista de todos os erros cometidos e outra lista de como eles deveriam se comportar, de como é o jeito certo. Coloque no título da carta: “Gabarito do certo e errado”. Coloque a carta em um envelope. Vá até o correio e envie a carta para si mesmo. Assim que chegar, leia e viva de acordo com o seu gabarito e permita que o outro vida de acordo com o gabarito dele. E não faça isso pelos outros, por benevolência, tolerância ou respeito. Não! Faça por si mesmo, pelo seu próprio bem. Viver censurando e corrigindo a vida dos outros só serve para você perder sua vida.

INTERLOCUTOR: Como conviver bem com pessoas que não falam o que pensam?

Permitindo que sejam pessoas que não falam o que pensam.

INTERLOCUTOR: Como conviver bem com pessoas que mentem?

Permitindo que sejam pessoas mentirosos.

INTERLOCUTOR: Como conviver bem com pessoas que me odeiam?

Permitindo que sejam pessoas que te odiam.

INTERLOCUTOR: Como conviver bem com pessoas burras?

Permitindo que sejam pessoas burras.

INTERLOCUTOR: Como conviver bem com pessoas arrogantes?

Permitindo que sejam pessoas arrogantes.

INTERLOCUTOR: Como conviver bem com pessoas racistas?

Permitindo que sejam pessoas racistas.

INTERLOCUTOR: Como conviver bem com pessoas de direita e esquerda?

Permitindo que sejam pessoas de direita e esquerda.

INTERLOCUTOR: Como conviver bem com pessoas assim e assado?

Permitindo que sejam pessoas assim e assado.

Imagine que você está jogando futebol e toda vez que a bola vem para você o juiz apita e marca falta. Você não consegue sair desse ciclo, fica preso nele, dentro dele. Basta alguém passar a bola para você e o ciclo se repete, o juiz apita e marca falta. Então, você decide descobrir porque está preso no ciclo do apito. Você investiga o jogo e descobre que futebol se joga com os pés e você está usando a mão. Por isso que toda vez que passam a bola para você se repete o ciclo do apito. Você está pegando a bola com a mão. Ao ficar consciente disso, você para de pegar a bola com a mão e sai do ciclo do apito. Analogamente, o mesmo acontece com o ciclo da violência. Você fica preso no ciclo da violência porque combate violência com violência. Para sair, você deve ficar consciente que está dentro.

Praticando autoobservação.

INTERLOCUTOR: Observo o que em mim?

Observe sua intenção em relação ao outro.

INTERLOCUTOR: Observo o que na minha intenção?

Observe se sua intenção é controlar o outro.

INTERLOCUTOR: E se for?

Você está vivendo outroísta.

INTERLOCUTOR: Ignorar o outro também é outroísmo.

Se sua intenção com isso for controlar o outro, sim.

INTERLOCUTOR: Devo abandonar o outroísmo?

Se deseja viver bem e conviver bem, sim.

PERGUNTA COMPLETA: Você diz que impor meu desejo aos outros é outroísmo, mas como ser autoísta e não impor minha vontade se desejar e inevitável?

Você está confundindo imposição com interferência. A realização do seu desejo irá interferir na realidade do outro, com certeza e inevitavelmente, pois tudo que você faz interfere na realidade do outro. Mas tudo que você não faz também interfere na realidade do outro. Por exemplo, você quer comprar um pastel. Se você realizar seu desejo, você estará interferindo na realidade do outro, o pasteleiro irá lucrar com sua compra. Se você não realizar seu desejo, você também estará interferindo na realidade do outro, o pasteleiro não irá lucrar com sua compra.

Impor seu desejo ao outro é obrigar o outro a desejar igual você. Por exemplo, você quer comer pastel, mas o pasteleiro não foi com a sua cara e não quer vender pastel para você. Você quer que ele venda, ou seja, você quer que ele tenha o mesmo desejo que você. Daí você começa a pressionar o pasteleiro, dizendo que a recusa dele é discriminação, que seu dinheiro vale tanto quando o dinheiro de qualquer pessoa, pipipi e pópópó. Você faz tudo isso visando obrigar o pasteleiro desejar igual você. Isso é outroísmo impositivo, pois você está tentando impor sua vontade ao outro.

Sim, se você não controlar a mamadeira, você morre de fome. Se você não controlar a temperatura no inverno, você morre de frio. Se você não controlar seu carro, você morre acidentado. Enfim, se você não controlar o outro, você morre.

Só que tem outra COISA e tem outro SER HUMANO. E você acredita que é tudo a mesma coisa. Vou te contar uma coisa: não é! Isso mesmo! Não é! Uma coisa é uma COISA, outro ser humano é outro SER HUMANO.

Ser humano não é mamadeira, não é carro, não é cobertor, não é tapete, não é sapato, não é telefone celular. Seres humanos não são coisas.

Cada ser humano, assim como você, tem sentimento próprio, valor próprio, pensamento próprio, vontade própria e… Pasme! Cada ser humano tem inteligência e arbítrio para optar pelo que é melhor para si.

Então, embora você precise controlar as coisas para sobreviver, você não precisa e nem deve controlar os outros seres humanos. Tudo que você consegue ao tentar é viver em cabo de guerra, sofrer e gerar sofrimento.

Use sua inteligência e entenda isso. Use seu arbítrio e liberte o outro. Você irá descobrir que o prisioneiro era você.

Primeiro deixe-me lhe dizer que se você está fazendo essa pergunta é porque você nunca realmente se abriu para o diálogo, caso contrário, você saberia na prática a resposta para essa pergunta e não estaria me perguntando. Uma pessoa que se abre verdadeiramente para o diálogo, não tem dúvidas de que o diálogo é a única porta para boa convivência e que é uma porta que deve permanecer sempre aberta, mesmo que apenas um dos lados tenha interesse em atravessá-la.

Dito isso, o benefício de se abrir para o diálogo é o mesmo de abrir os olhos quando você está dirigindo seu carro no trânsito. Quando você fecha os olhos, você não enxerga os outros e por isso tromba com os outros. Quando você abre os olhos, você começa a enxergar os outros e para de trombar com eles. Analogamente, quando você se fecha para o diálogo, você também não enxerga os outros e por isso tromba com os outros. Quando você se abre para o diálogo, você começa a enxergar os outros e para de trombar com eles.

INTERLOCUTOR: Quando me abro para o diálogo a convivência piora e fica insustentável.

Isso é impossível. Diálogo é o tipo de coisa que só faz bem, nunca faz mal. Quando o diálogo gera má convivência é porque não é um diálogo verdadeiro, é jogo do controle disfarçado de diálogo.

INTERLOCUTOR: Como conviver bem com o ataque dos outros?

Desenvolvendo orelhas de elefante.

Ninguém ataca por nada. O outro sempre tem um motivo para te atacar. Mesmo que o motivo for um delírio da cabeça dele, tem um motivo. Quando o outro estiver te atacando, amplie suas orelhas até ficar do tamanho das orelhas dos elefantes e assim você conseguirá ouvir o motivo por trás dos ataques que está recebendo. Desenvolver orelhas de elefantes é uma metáfora para dizer que você deve ampliar sua empatia e sua capacidade de ouvir os outros sem resistência moral e sem vingança. Transforme suas pequenas orelhas de mosquito, que não escutam nada, em orelhas de elefante, que escutam tudo. Quanto mais executar essa prática, mais você irá conviver bem com o ataque dos outros.

Vou contar uma experiência. Não gosto de falar sobre o que não é óbvio, mas nesse caso vale o desconforto. Certa vez, fizeram a seguinte pergunta a um extraterrestre que estava se manifestando através de um médium: “Como será quando os extraterrestres chegarem?”.

O extraterrestre respondeu: “Vocês se sentirão envergonhados!”.

Uma pessoa no grupo perguntou: “Envergonhados com o que? Com vocês? Com a forma como vocês vivem?”.

O extraterrestre respondeu: “Não, vocês ficarão envergonhados com vocês mesmos, com a forma como vocês vivem!”.

Poucos entenderam a resposta do extraterrestre. Até porque era preciso já estar envergonhado para entendê-la.

Ora, só mesmo com a consciência muito adormecida para não sentir vergonha da forma como vivemos. Hipocrisia, recalque, violência, vingança, luta pelo poder. E seguimos sem remorso! Como? Que nível de inconsciência é esse que acha isso normal?

Como disse, não gosto de falar sobre o que não é óbvio, mas se extraterrestre não é evidente para você, o que um deles explicou é mais que evidente, é extra-ululante.

É bastante comum mulheres virem conversar comigo e dizerem: “vocês, homens”. Quando fazem isso, costumo perguntar: “E quem lhe disse que eu sou homem?”. Elas se espantam e perguntam: “Você é gay?”. Respondo que não. Elas ficam sem entender e perguntam: “Se você não é homem e não é gay, o que você é?”. Respondo: “eu sou eu”. Entende o que estou dizendo?

O primeiro passo para uma boa convivência é estar consciente que convivência é entre um indivíduo e outro indivíduo. Ou seja, entre um ser humano único, singular, diferente de todos os outros seres humanos e você, que também é um ser humano único, singular, diferente de todos os outros.

Uma mulher, um homem, uma esposa, um marido, um pai, uma mãe, um filho, são, antes de todos esses rótulos que você cola na testa das pessoas, indivíduos. Quando você ignora isso e assume que o outro é o rótulo que você está colando na testa dele, você está condenando sua convivência, desde a raiz, a ser uma árvore produtora de má convivência.

Dito isso, um ser humano que opta pelo fingimento para manipular a relação, faz isso em toda e qualquer circunstância que acredite ser necessário manipular a relação. Então, se tal ser humano acreditar que precisa manipular a relação o tempo todo, irá fingir o tempo todo, em todas as circunstâncias.

PERGUNTA COMPLETA: Impor limites pode ser necessário e positivo? Por exemplo, se eu não imponho limites para os meus filhos eles comem biscoito recheado até passar mal.

A melhor forma de convivência é aquela produzida através do diálogo e do acordo. Traçar limites na convivência é fundamental para que um não ultrapasse o limite do outro, mas um limite não precisa ser imposto com punição, pode ser conversado e combinado. O combinado não é caro.

Quando é um limite próprio, como é o limite entre passar bem e passar mal com algum comportamento, a única forma de realmente ficar consciente do próprio limite é testando o próprio limite e experimentando a dor de ultrapassá-lo. O sofrimento é o único e verdadeiro mestre do bem viver.

Seus filhos, provavelmente, ainda não sofreram uma dor de barriga de tanto comer bolacha recheada, ainda não sofreram a dor de ultrapassar esse limite, por isso persistem no comportamento. Quando sofrerem, terão aprendido com o sofrimento que excederam um limite próprio e por consciência própria respeitarão os próprios limites.

Você provavelmente já sofreu com esse tipo de comportamento e deseja que eles comam brócolis para não ter dor de barriga. Daí você impõe que eles comam brócolis usando a estratégia da punição: brócolis ou punição. A aprendizagem que eles tem quando você impoe brócolis ou punição é a mesma que os cachorros recebem quando estão sendo adestrados, que devem se submeter.

Dito isso, você decide como conviver com seus filhos. Seja lá o que você decidir, eles não são vítimas, pois estão brincando de ser humano por opção deles.

Você protege as cagadas de quem ama. Faz vista grossa. Você finge que a pessoa amada não está fazendo a merda que está fazendo. E pior! Você acredita que faz isso por amor ao outro. Só que não! Você faz isso para controlar o amor do outro, para inibir a possibilidade do outro lhe odiar. Na posição de mãe, por exemplo, você finge que seu filho não está fazendo merda para que seu filho lhe ame. Na posição de filho, você finge que seus pais não estão fazendo merda pelo mesmo motivo. Mas quando alguém está fazendo merda, fazendo merda está. Óbvio! Simples assim! Pessoas amadas são pessoas iguais você e fazem merda igual você. Não é fingindo que o outro não tem cu que você convive bem com ele. Todas as pessoas acordam de manhã, vão até o banheiro e fazem merda, nem por isso deixamos de amá-las. Uma pessoa não é a merda que faz, apenas faz merda.

Não sei. Para ter certeza disso seria preciso perguntar para os animais. Suponho que sim, pois aparentemente os animais não querem morrer.

PERGUNTA COMPLETA: Comente essa frase de Max Weber: “Não há relação social sem poder e dominação.”

Nossa convivência é de dominação. Mas não precisa ser assim. Pode ser diferente. A qualidade de uma convivência é determinada pelo arbítrio dos conviventes. Sendo assim, para convivermos melhor, sem dominação, bastaria optarmos por uma convivência sem dominação. O que leva a seguinte pergunta: Por que não fazemos isso? A resposta é ignorância.

Um ser humano lúcido sabe que dominação pode gerar conforto para o dominador, mas jamais vai gerar boa convivência. E sabe também que não tem maior desconforto do que má convivência. Então, um ser humano lúcido, jamais opta por uma convivência de dominação. Só um ser humano em estado de ignorância opta pela dominação.

Atualmente somos uma coletividade de seres ignorantes. A qualidade da nossa convivência é demonstrativa desse fato. Mas é pior que isso! Somos uma coletividade de seres ignorantes que ignoram que são uma coletividade de seres ignorantes. Percebe o tamanho do buraco? Ignoramos que ignoramos. Logo, acreditamos que sabemos. O que impossibilita um despertar consciencial, pois somos cegos que acreditam enxergar.

Em qual supermercado você compra o tempo que usa para ficar cuidando da vida dos outros? E daí que o outro isso, aquilo, murilo, grilo, esquilo e crocodilo? O que você tem a ver com isso? Tá procurando chifre em cabeça de cavalo pra quê? Quem procura acha!

E quando o outro te dá um coice bem dado, para você deixar de ser enxerido, você começa com a ladainha: “eu falei, eu falei, eu faleeeeei que fulano era um cavalo!”.

Está com tempo sobrando? Vai cortar grama com alicate de unha. Vai enxugar iceberg. Vai pentear o King Kong. Vai empilhar dominó no terremoto. Vai contar pingo de chuva. Vai fazer qualquer coisa ao invés de ficar plantando vento para colher tempestade.

As vezes, para boa convivência, nem precisa de muito autoconhecimento, um pouco de vergonha na cara já resolve. Não tem?! Vende no mesmo supermercado que você compra esse tempo que gasta para fica cuidando da vida dos outros.

Outroísmo impositivo é tão inevitável como pisar no pé de alguém ao atravessar uma multidão. Mas é minimizável. Se você andar com calma e prestar bastante atenção onde pisa, você irá diminuir bastante a quantidade de vezes que irá pisar no pé dos outros. Analogamente, quando você está consciente do outroísmo impositivo, você também diminui bastante a quantidade de vezes que você executa a imposição.

Na infância, além de inevitável, não tem como minimizar. Primeiro porque, se você não executar o outroísmo impositivo, você morre. Depois por sua intelectualidade ser quase zero e você não tem como entender o que está fazendo.

Na idade adulta, quanto mais autoconhecimento você produz, mais você é capaz de minimizar as vezes que você executa a imposição. Mas sendo que você é incapaz de saber pelo outro e vice-versa, o máximo que você consegue é minimizar a execução da imposição, não eliminá-la completamente para sempre.

Um oficial de saúde vai fiscalizar uma fazenda e pergunta ao fazendeiro:

— Que comida você dá aos porcos?

O fazendeiro responde:

— Dou bagaço de cana, sabugo de milho, lavagem, leite azedo, botina velha, tudo que não presta.

O oficial multa o fazendeiro por atentado contra a saúde pública. Um ano depois, o oficial retorna e faz a mesma pergunta:

— Que comida você dá aos porcos?

O fazendeiro, prevenido, responde:

— Dou caviar, pizza quatro queijos, salmão defumado, lasanha, vinho do porto, tudo do bom e do melhor.

O oficial multa o fazendeiro por desperdício de comida. Um ano depois, o oficial retorna e faz a mesma pergunta:

— Que comida você dá aos porcos?

O fazendeiro responde:

— Não dou comida nenhuma, dou um vale refeição para cada um, eles que decidam o que comer.

Entendeu? Você se torna escravo de tudo que tenta controlar porque você fica responsável pelo outro. Ou seja, você coloca sobre seus ombros uma obrigação que você não tem e fica preso nisso. Quer se libertar de todas as obrigações que nunca teve? Desista do controle! Dê liberdade ao outro.

Se colocar no lugar do outro é executar a empatia. A empatia é uma prática. Quanto mais você pratica empatia, mais fácil fica executar. Então, se você não consegue em se colocar no lugar do outro, e deseja conseguir, você deve se perguntar o que te impede de praticar a empatia, o que te impede de se colocar no lugar do do outro. Daí, você irá descobrir. Pode ser, por exemplo, que você evita a empatia para fugir da sua parcela de culpa e colocar toda a culpa no outro. Pode ser uma forma cultivar a uniformidade. Pode para continuar no jogo do controle. Pode ser que não está preparada para ouvir a verdade do outro. Etc. Pratique autoobservação que você irá descobrir qual é o bloqueio. Descobrindo, você começa a praticar.

Um cientista arrancou uma das patas de uma aranha e disse:

“Anda aranha!”.

A aranha andou. O cientista pegou seu bloco de notas e escreveu:

“Aranha com sete patas anda”.

Depois ele arrancou mais uma pata da aranha e repetiu: “Anda aranha!”.

A aranha andou. O cientista pegou seu bloco de notas e escreveu:

“Aranha com seis patas anda”.

E assim o cientista foi arrancando uma a uma as patas da aranha. Até a aranha ficar com uma pata só.

“Anda aranha!”, disse o cientista.

A aranha começou a se arrastar e andou. O cientista pegou seu bloco de notas e escreveu:

“Aranha com uma pata anda”.

Por fim, o cientista arrancou a última pata da aranha.

“Anda aranha!”, disse o cientista.

E nada da aranha andar.

“Anda aranha!”, ele repetiu.

A aranha não andou. Ele começou a gritar:

“Aaaanda araaaanha! Aaaanda araaaanha!”.

A aranha não andou nem um milímetro. O cientista pegou seu bloco de notas e escreveu:

“Aranha sem patas é surda”.

Essa piada explica porque você vive gritando, por dentro e por fora, com tudo e com todos. Você acredita que a vida, as circunstancias, o mundo, o governo, a sociedade, aspeçoa, os pernilongos, enfim, que o outro é a causa de você estar vivendo mal. Por isso, ao invés de melhorar, só piora. O outro não é surdo, você que está equivocado.

Um náufrago estava caminhando por uma ilha deserta quando viu uma pessoa se afogando no mar. O náufrago se jogou na água, salvou a pessoa e a levou para ilha. Chegando na ilha, descobriu que a pessoa era a Sharon Stone. Muito agradecida, Sharon Stone disse ao náufrago para pedir o que quisesse em retribuição ao salvamento. O náufrago não hesitou e disse: “Quero fazer sexo com você!”. Durante dois mês eles transaram todos os dias e o náufrago ficou muito feliz. No terceiro mês o náufrago começou a ficar deprimido. Sharon Stone percebeu e perguntou se podia fazer algo mais para deixá-lo feliz. Sem hesitar, o náufrago pegou um velho baú de roupas e vestiu a Sharon Stone de paletó e gravata. Depois disse: “Faz de conta que essa parte da praia é a empresa em que eu trabalhava e você é meu colega de trabalho. Eu vou ficar parado aqui como se estivesse no elevador lotado. Você chega e me cumprimenta”. Sharon Stone achou estranho, mas concordou. Ela entrou no elevador fictício vestida de homem e disse: “Olá, tudo bem com você?”. E o náufrago respondeu entusiasmado: “Raaaaapaaaaz, você não vai acreditar! Tô comendo a Sharon Stone!”.

Entendeu o fundamento da treta? Por isso você jamais recebeu e jamais receberá uma mensagem no privativo dizendo que tem pinto pequeno ou que é gorda balofa. Glorificação e difamação só funcionam quando tem platéia. Quem joga flores ou tomate é o público. Difamação privada vai direto para privada. Não tem poder nenhum. Difamação só funciona quando é feita na rede globo em horário nobre. Difamação privada não é difamação, é conversa. Você envia uma mensagem descrevendo o desafeto com a intenção de conversar e resolvê-lo, não de piorá-lo.

— Por que você mata seu vizinho no videogame, mas não mata na realidade?
— Porque na realidade tem consequências, no videogame não.
— No videogame tem consequências também.
— É verdade.
—Então, qual é a diferença?
— Nenhuma!
— Se não tem diferença, por que você se comporta diferente?
— No videogame, se coloco a mão no fogo, não dói, na realidade dói.
— Sendo assim, qual é a diferença?
— Minha realidade não é a mesma do meu avatar.
— Por que você diz “meu avatar” se é você que está jogando?
— Meu avatar me representa no videogame, mas não sou eu, meu avatar é outro-eu. Eu estou do lado de fora, controlando meu outro-eu.
— Exato! Seu avatar é outro. Você controla esse outro com o joystick. Você opta pelo outro. Você manda o outro colocar a mão no fogo e ele obedece. Mas quem experimenta a dor é o outro, não é você. Sendo assim, qual é o paralelo entre isso e outroísmo?
— Não sei. Qual é?
— Outroísmo impositivo é jogar vídeo game com o outro ser humano. Outroísmo impositivo é quando o outro é seu avatar. Você controla o outro para que ele faça sua vontade, para que ele opte pelo que você supõe que é melhor para ele. Mas quem experimenta a opção é ele, não você. Então, é fácil ser outroísta impositivo, você obriga o outro a meter a mão no fogo e quem sente a dor é o outro, não é você.
— Nossa, é mesmo!
— Outroísmo submisso é vídeo game ao contrário. Você é avatar do outro. Você deixa o outro te controlar. Você opta pelo que o outro diz que é melhor para você. Mas quem experimenta a opção é você, não é o outro. Ou outro não sente nem uma gota da dor que você está experimentando. Daí, você fica se sentindo vítima, como se não estivesse optando por obedecer.
— Verdade também!
— Viver autoísta é colocar o controle na mão do próprio avatar. Você que experimenta sua opção, então, você que opte pelo que é melhor para você. Eu que experimento minha opção, então, eu que opto pelo que é melhor para mim. Play and let play!

Requer análise, mas provavelmente você quer impor humildade ao outro.

Fique consciente que você não quer controlar. Ninguém quer controlar o outro. “Querer” é objetivo (desejo). “Controle” não é objetivo, controle é estratégia. O que você quer é o que irá conseguir através do controle.

Imagina que você quer um copo. Você diz que quer um copo. Você berra: “eu quero um copo!”. Eu te dou um copo. O que você faz com o copo? Você usa o copo para beber água. Ou seja, você não queria o copo em si. Você só queria o copo porque era uma estratégia para beber água. O que você queria mesmo era beber água.

O mesmo com o controle. Você não quer controlar. Você quer o que irá realizar através do controle. Se você descobre o que quer de fato, você pode realizar seu desejo do mesmo jeito, mas através de uma estratégia autoísta ao invés de outroísta (controle).

No seu caso específico, provavelmente, você quer limpeza. Esse é seu desejo. Primeiro fique consciente disso: “eu quero limpeza”. Uma vez consciente do seu desejo, ao invés de realizá-lo através de uma estratégia outroísta (jogo do controle), realize-o através de uma estratégia autoísta.

Use a imaginação e pense em opções autoísta de realização do seu desejo. Escolha uma e coloque em prática. Se a primeira opção não funcionar, tente a próxima e assim por diante, até realizar seu desejo.

INTERLOCUTOR: Se eu quero um copo para beber água, mas não quero levantar e peço para alguém me fazer o favor de trazer pra mim, é outroísmo.

Se a pessoa aceita, é acordo, pode ser gentileza também, etc.

INTERLOCUTOR: Mas usei o outro do mesmo jeito como meio para realizar o meu desejo. Então, usar o outro para realizar meu desejo com consentimento dele é autoismo?

Sim, é jogo da liberdade. O outro não tem obrigação de colaborar com a satisfação do seu desejo, mas o outro pode colaborar se quiser.

Seu eu-presente condena seu eu-passado pelos erros que ele cometeu. Só que o eu-passado não sabia o que o eu-presente sabe, então, não tinha como fazer diferente.

A prática do perdão nesse caso, é a mesma do perdão para com o outro. Você deve colocar o eu-presente para calçar os sapatos do eu-passado.

O eu-presente que condena o eu-passado geralmente é adulto. E o eu-passado era só uma criança que na época não sabia nada de nada, mas era cobrado em fazer tudo certo, e um certo que desconhecia, até porque, o tal do certo, era só uma norma que não estava escrita em lugar nenhum e mudava de um adulto para o outro.

Depende do que você chama de “convencer”.

A tortura, por exemplo, é uma estratégia de convencimento. O torturador violenta o torturado com o propósito de convencê-lo a dialogar sobre o que ele não quer. No caso de violência física, como a tortura, é explícito que o convencimento é uma imposição. Mas você pode usar a violência psicológica também. Quando você fica aporrinhando o outro dia e noite para convencê-lo a conversar, também é imposição. Quando você ameaça o outro para convencê-lo a conversar, também é imposição. Enfim, sempre que você força o outro a conversar, é imposição.

Isso não significa que explicar para o outro os benefícios do diálogo seja imposição. Explicar ao outro os benefícios de uma opção é dar ao outro a oportunidade de mudar de opção, ou seja, se convencer que tem uma opção melhor do que sua atual. Contudo, no caso do diálogo, o outro precisa estar disposto a ouvir sua explicação sobre os benefícios do diálogo, caso não esteja, se você forçá-lo a ouvir, estará impondo e irá gerar má convivência.

Comparação em si não é outroísmo. A comparação em si é um processo mental natural e inevitável. O processo mental da comparação acontece para que você possa diferenciar características dos objetos observados. Por exemplo, sem a comparação e diferenciação entre um sabonete e um cactus, você acabaria tendo problemas na hora de tomar banho. O outroísmo acontece quando você se compara e se obriga a ser igual ao objeto ao qual está se comparando, ou seja, quando se obriga a ser igual ao outro, ou quando você obriga o outro a ser igual a você.

Então, para sair do outroísmo, devo investigar a obrigação e não a comparação?

Sim, para ficar consciente do outroísmo, você deve observar e analisar essa obrigação de ser igual o outro ou de obrigar o outro ser igual você.

Quando fica óbvio que tentar controlar a opinião dos outros sobre você só serve para te fazer escravo desse ofício, você desiste. O outro pode te criticar, te caluniar, te difamar, foda-se! Você não se proíbe mais de viver do seu jeito só para receber emoji de coração e curtida no facebook. Você desiste de parecer e se permite ser. Você caga para opinião dos caga-regras. Só que os caga-regras começam a te criticar como nunca. É muita merda no seu ventilador. Muita pedra no seu telhado de vidro. A dor fica insuportável. Então, como a melhor defesa é o ataque, ao invés de você continuar cagando PARA os outros, você começa a cagar NOS outros. Você ataca merda para não ser atacado. Você voltou para mesma escravidão da qual havia saído: tentar controlar a opinião dos outros. E pior! Você se transformou no que odiava: um caga-regra.

Viver é gastar energia. Você gasta energia tanto para viver outroísta como para viver autoísta. A diferença é que no viver outroísta você vive e convive mal e no viver autoísta você vive e convive bem.

ÁUDIOS

Ouça no Spotify

© 2021 • 1FICINA • Marcelo Ferrari