O que é ego?

26/05/2020 by in category Perguntas tagged as , with 0 and 0

Ego é uma palavra feita de três letras: e+g+o. Só isso! Palavras tem significados diferentes em contextos diferentes. Ego significa vaidade no contexto moral, significa mediador no contexto psicanalítico e significa falso-eu no contexto espiritualista. Tem outros significados em outros contextos.

Eu não uso a palavra ego na literatura da 1ficina, não recomendo usar, nem incentivo o uso. Além da multiplicidade de significados, trata-se de uma palavra rançosa, carregada de mal entendidos e usada sem conhecimento de causa. Ou seja, quem usa a palavra ego geralmente está apenas papagaiando o que decorou e reproduzindo sem saber do que está falando. Então, para o bem do meu leitor, evito o uso da palavra ego.

Dito isso, mesmo sendo uma palavra que evito usar, ainda é interessante refletir sobre o significado de “falso-eu” atribuído a palavra ego. O que seria um falso-eu? Ou melhor, o que seria um falso-você? Bem, para haver falso é preciso haver verdadeiro. Óbvio! Mas se há um você verdadeiro, onde está? E por que o falso toma o lugar do verdadeiro?

Imagine que você adore música dançante, com tambores e batidas fortes, mas você nasceu e vive em um mundo que despreza esse tipo de música e só valoriza música erudita, tipo Mozart, Beethoven, Bach, etc. Você coloca uma música dançante e seus amigos começam a te zuar. Seus pais tratam esse seu gosto musical como um defeito. Ninguém te convida para as festas, nem conversa com você, pois você é estranho, você gosta de música dançante. O que você faz para ter a aceitação do mundo?

Vamos supor que seu nome é Pessoa. Para ser amado pelo mundo, você cria um falso você, a Pessoa fake, que é você fingindo que não gosta de música dançante e adora música erudita. Esse exemplo é simplificado, mas ilustra bem o que é o falso você e porque você o coloca no lugar do verdadeiro. A verdadeira Pessoa não é amada pelo mundo, e como você prefere ser amado do que ser você, você tranca a verdadeira Pessoa no porão da autonegação e coloca a Pessoa fake no lugar dela.

A Pessoa fake não é o que você verdadeiramente é, naturalmente é, espontaneamente é. A Pessoa fake é um fingimento, é uma estratégia de manipulação que você executa dia e noite para ser amado pelo mundo. E fingir o gosto musical não é o único fingimento que a Pessoa fake precisa executar para ser amada. A Pessoa fake precisa fingir que concorda com o que todo mundo concorda, que acha importante o que todo mundo acha importante, que acha certo o que todo mundo acha certo, etc.

Tudo que você faz repetidamente se torna um hábito, você começa a fazer automaticamente, igual dirigir carro. Então, quanto mais você repete o fingimento de que você é a Pessoa fake, mas automático fica você ser a Pessoa fake. Depois de muito tempo de autonegação, a verdadeira Pessoa fica soterrada pelo hábito do fingimento e você se torna a Pessoa fake. Você até esquece que é uma Pessoa verdadeira, a máscara vira sua pele.

A Pessoa fake é seu ego (falso-eu). Na 1ficina eu chamo esse comportamento de “outroísmo submisso”. Outroísmo porque você deixa de ser você mesmo e se torna outro. Submisso porque viver sendo outro, é você se submetendo aos critérios e ideais do outro.

O termo “outroísmo submisso” é melhor que a palavra “ego” pelos motivos que expliquei no começo. E mais! O termo “outroísmo submisso” deixa explícito seu comportamento e coloca a responsabilidade por você viver mal no executor do seu comportamento: você. A palavra “ego” faz o oposto, esconde seu comportamento e coloca a responsabilidade por você viver mal em um bode expiatório chamado o ego. Esconder não resolve fingimento, perpetua. Então, usar a palavra “ego” é apenas mais uma estratégia que você usa para perpetuar sua autonegação.

© 2020 · 1FICINA · Marcelo Ferrari