*Os livros estão na ordem de leitura recomendada.

O OLHO QUE NÃO SE VÊ

05/09/2015 by in category Livros with 0 and 0

00 | SOBRE INFERÊNCIA

Inferência é muito importante na ciência e na autociência, pois têm coisas que não são possíveis de serem comprovadas através da observação direta.

A lei da gravidade, por exemplo, é uma inferência. Nunca ninguém viu a lei da gravidade. O que vemos é a queda dos objetos. As coisas caem. Isso vemos. Daí se inferiu uma força que regula o comportamento dos corpos e se deu a essa dedução o nome de lei da gravidade.

A eletricidade também é uma inferência. Alguém levou um choque um dia e a partir do choque deduziu uma teoria de transmissão de energia que recebeu o nome de eletricidade. E assim tem vários exemplos de inferência da ciência.

Mas e na autociência? Também.


01 | PRIMEIRA INFERÊNCIA EXISTENCIAL

Tudo que é existencial não é passível de observação direta, só se torna conhecido através de inferência. A inferência existencial é inegável, mas é uma inferência.

A primeira inferência existencial é a consciência. Nunca ninguém jamais observou, nem jamais será capaz de observar a consciência, pois consciência é a própria capacidade de observação. Contudo, o resultado da observação é um fato inegável. Vemos objetos, sentimos cheiros, sentimos o peso dos objetos, a temperatura, a textura, o sabor, etc. Logo, a consciência é inegável, pois como poderíamos observar isso tudo se não houvesse consciência?

É por isso que a consciência é uma inferência inegável. Fazendo uma analogia, o olhar nunca viu o olhar, nem jamais verá, contudo, é inegável que o olhar existe, e a prova disso são os objetos que vemos. O olhar também é uma inferência, não é uma observação direta. Enfim, a consciência é inegável, mas é uma inferência. E é a primeira inferência existencial.


02 | SEGUNDA INFERÊNCIA EXISTENCIAL

A existência é a segunda inferência existencial e está baseada na inegabilidade da consciência. Sendo que a consciência é inegável e permanente. Sendo que o observado, ou seja, tudo que a consciência observa é impermanente, logo, isso que observa existe. Ou seja, é através da impermanência do observado que se faz a inferência da existência.


03 | TERCEIRA INFERÊNCIA EXISTENCIAL

A potência é a terceira inferência existencial e está baseada na inegabilidade da impermanência, que está baseada na inegabilidade da consciência. Sendo que o observado é impermanente, logo, a impermanência é possível e possibilitada por isso que a possibilita. Ou seja, também é através da impermanência do observado que se faz a inferência da potência. Caso a consciência fosse negável, todas as duas inferências subsequentes, a existência e a potência, não teriam como serem inferidas. Só que é impossível negar a consciência, pois até para negar a consciência você precisa de consciência. Tente negar sua consciência e comprove isso.


04 | PERCORRA O CAMINHO

Pois bem, por que expliquei tudo isso sobre inferência? Por três motivos:

1) Isso explica porque algumas escolas param na consciência e não explicam a existência e a potência do ser que você é. Uma vez que se desperta a consciência para consciência, é preciso seguir na inferência para ficar consciente dos outros dois aspectos da UNItrindade: a existência e a potência.

2) Se você se perguntar de onde eu tirei a explicação da UNItrindade do ser, daí a resposta: autoobservação e inferências.

3) Agora que você tem o mapa do caminho a ser percorrido para ficar consciente da sua UNItrindade, seja um autocientista e percorra o caminho.

PERGUNTAS

O conceito de “ser = existência” é uma pedagogia. O conceito de “ser = pré-existência” também é uma pedagogia. Ambas pedagogias têm o mesmo propósito: apontar para você-ser (ser que você é).

PERGUNTA: Mas por que duas pedagogias para dizer a mesma coisa?

Porque tem pessoas que não conseguem entender a diferença entre existência e realidade de jeito nenhum. São pessoas de mentalidade altamente materialista, que acreditam que existência é tudo que existe, pronto, acabou, fim de papo. Para apontar o ser para esse tipo de pessoas, uso a pedagogia da “pré-existência”. Digo para elas que o ser que são “pre-existe”, que é anterior a existência.

A pedagogia da “pré-existência” não é a melhor explicação, pois ainda contém a confusão entre realidade e existência. Mas pode ajudar nesses casos em que o aluno está profundamente adormecido na mentalidade materialista. Pelo menos o aluno começa a entender que o ser é a fábrica antecede o produto, é a causa antecede o efeito. Entender isso já é uma vitória.

Na maioria das vezes, eu prefiro usar a pedagogia da existência-causa e realidade-efeito. Em todos os livros eu uso essa pedagogia. Usei a pedagogia da pré-existência um tempo, mas abandonei. Em alguns vídeos, a pedagogia da pré-existência permanece, pois não tenho como editar os vídeos tal como edito os textos. Em vez de deletar os vídeos para padronizar a pedagogia, por enquanto, estou mantendo, são vídeos legais e o dano pedagógico é pouco.

Mas enfim, você, ser, voser, existência, pré-existência, são palavras diferentes para apontar para mesma coisa: você-ser.

Sim! A prática da autoobservação existencial é feita através da observação da observação. Você deve observar o observar. Você deve ficar ciente sobre a ciência. Você deve saber da sua cognição. O objeto da sua observação deve ser sua própria observação.

Devo observar pura e simplesmente ou analisar a observação?

Raciocínios (pensamentos) surgem na autoobservação porque são objetos psicológicos observados. Basta perceber isso. Só perceber. Observe os pensamentos superficialmente. Seu trabalho na autoobservação existencial não é entrar na lógica dos raciocínios, é apenas constatá-los como realidade (experiência). Raciocínios são experiência. Só isso. Mas se você entrar em processo de análise, se entrar na lógica de um raciocínio, tudo bem, você nem irá perceber que entrou e tão logo perceber, é porque já saiu. Entenda que se você está praticando autoobservação existencial para sair da mentalidade materialista, é porque você está dentro dela. Então, faça igual Renê Descartes, vai saindo passo a passo. Tudo que você observar, perceba que é apenas um observado, uma experiência. Só isso! Você vai fazendo isso e daí se dá conta que, por mais que você observe, você não consegue observar a observação. E é assim que você se dá conta da “observação pura”. Fica óbvio. E fica óbvio também que o que existe é observação e não observado. Como quem está observando é você… EUreka! Eu existo! Despertar existencial! Essa é a explicação do óbvio. Mas a explicação do óbvio não é o óbvio. Então, boa prática!

Todos os professores e escolas de meditação e não-dualidade que conheço ignoram a UNItrindade do ser. Percebo que ignoram pelo jeito que falam. E entendo porque ignoram. Tem dois motivos:

1) A inferência da consciência é a mais fácil de inferir. A inferência da potência é muito difícil de inferir, eu penei para entender a potência do ser.

2) Seus antecessores desses professores (os professores desses professores) também só inferiram a consciência, então, eles seguem o que aprenderam.

Eu também, quando comecei no autoconhecimento, só inferia a consciência e afirmava que não existia livre-arbítrio. Sim, já fui um guru sem cu. Só que não durou muito tempo, pois meu cu começou a doer demais e tive que admiti-lo. Ou seja, a inferência da consciência não explicou nem resolveu meu sofrimento.

Eu despertei para natureza existencial da consciência, mas continuava sofrendo, até mais. Então, o sofrimento me fez ver que o entendimento do ser como só-consciência era um mapa incompleto. Tinha mais coisa no mapa. Eu não sabia o quê. Mas que tinha tinha.

Através da autoobservação, mergulhei no sofrimento para descobrir o que estava faltando no mapa e o sofrimento me levou até o desejo. Quando observei o desejo: EUreeeeka! O que estava faltando no mapa era o desejo, ou seja, a vontade, a potência, o potencial.

Fui aprofundando na investigação do desejo e fiquei consciente de tudo que explico nos livros, principalmente nos livros psicológicos. Mas o principal foi que fiquei consciente do que estava faltando no mapa do ser. Fiquei consciente da UNItridade do ser: autopresença, autopoetencia e autoconsciencia.

Tudo começou a fazer sentido, e finalmente, entendi do que se tratava o sofrimento, como funcionava, qual o propósito e o que fazer com ele.

Um professor que entende e considera o ser apenas como consciência está usando um mapa incompleto do ser. E sendo assim, faz todo sentido afirmar que não existe arbítrio. Um cego, ao abrir a torneira de um chuveiro, também concluiria que não é responsável pela água que está caindo sobre sua cabeça.

Os alunos que seguem esses professores de mapa incompleto, acreditam que tem o mapa completo. Pensam que sabem. Afinal, são alunos de mestres iluminados. Daí vem a dificuldade desses alunos com a explicação da UNItrindade. Esse talvez seja seu caso.

Por fim, vale observar que a psicologia, por outro lado, tem um mapa bem detalhado sobre o funcionamento do desejo, mas sendo que a potência do ser é existencial, a psicologia também não entende a razão primordial do sofrimento. O mapa da psicologia também é incompleto.

PERGUNTA COMPLETA: Se eu sou um personagem em um jogo de videogame e ainda não sei que tem outro-eu me jogando, esse eu-jogador é nada para o eu-personagem, certo? Quando eu-personagem descubro que sou personagem, tive um despertar existencial?

Sim e não. Esse é o ponto!

Quando você-personagem descobre que é personagem, quem descobriu não foi você-personagem, foi você-jogador, pois você-personagem não tem consciência. A consciência que você-personagem APARENTA ter, não pertence a você-personagem, pertence a você-jogador.

Quem está em estado de ignorância não é você-pessoa, é você-ser, que acredita que é só pessoa (só humano). Por isso, quando você-pessoa desperta, na verdade, quem despertou foi você-ser.

© 2021 • 1FICINA • Marcelo Ferrari