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O doador de memórias | Negacionismo da memória

25/08/2021 by in category Rebobinando o filme with 0 and 0

Infelizmente existe no mundo uma mentalidade espiritualista que nega a memória em detrimento do despertar da consciência. Tal mentalidade considera irrelevante e até nociva a história pessoal e aconselha seus adeptos a ignorarem suas memórias e histórias de vida.

Não sei como essa mentalidade se originou. Suponho que tenha se originado da boa intenção de mestres espiritualistas tentando produzir em seus alunos um discernimento entre memória e consciência.

Sim, memória não é consciência, é objeto da consciência. Esse discernimento é fundamental para o autoconhecimento e o bem viver. Mas, por conta disso, acreditar que é preciso ignorar a história pessoal para alcançar um despertar consciencial, é jogar fora o bebê junto com a água suja do banho. E pior ainda! É se condenar a viver mal.

Assim como ciência e religião devem fazer as pazes urgentemente, pois são dois aspectos complementares do ser humano, psicologia e espiritualidade também. Espiritualidade trata do ser, psicologia trata do humano. O ser humano não é só ser, nem é só humano, é ser e humano.

Negar a própria história é dar um tiro no pé, por dois motivos:

1) Você pode até abandonar sua história, mas sua história jamais abandonará você. Tudo que você pensa e faz é sua história pensando e fazendo junto com você. Afinal como você poderia pensar ou fazer o que quer que fosse sem um banco de dados, sem memórias.

2) Sua história pessoal é sua fonte de sabedoria. Por exemplo, é sua história pessoal que lhe alerta para não colocar a mão no fogo novamente, pois você irá se queimar.

“Ah! Mas tem lembranças que dói muito lembrar!” você deve estar pensando. Sim! E tem que doer mesmo. As duas maneiras da sua história pessoal te passar sabedoria é através da dor (sofrimento) e do prazer (felicidade).

Se ao lembrar de vezes anteriores em que colocou a mão no fogo você sentisse prazer, você colocaria a mão no fogo novamente e se queimaria novamente. Por isso dói lembrar do que dói. Dor lembrada é doação de sabedoria.

Claro que lembrar de memórias desagradáveis, dói. Claro que é mais fácil executar o negacionismo da memória professado pela mentalidade espiritualista. Mas lembrar de memórias desagradáveis a fim de fazer autoanálise, não é masoquismo, é extração de sabedoria.

Memórias são como ostras. Dentro de cada memória, mesmo que desagradável, tem uma pérola de sabedoria e autoconhecimento pessoal. Você-ser, você-consciência, você-espírito, é o mergulhador do seu mar de memórias. Você pode e deve mergulhar em sua história e extrair suas pérolas de sabedoria. Sem elas é impossível você viver bem.

O negacionismo da memória é uma estratégia para fugir da dor. Mas fugir da dor é fugir da sabedoria. E sem sabedoria não é possível lidar bem com a dor. Eis o ciclo vicioso do negacionismo da memória.

Para caminhar rumo ao bem viver, em algum momento, é preciso que você dê um passo para fora do negacionismo da memória e para dentro da sua história.

O filme Doador de Memórias mostra esse processo do fim do negacionismo da memória. E convida você a fazer o mesmo. Sim, dói tudo de novo. O próprio filme explica isso. Mas também liberta e cura.

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