MONALISA EM CRISE

12/04/2017 by in category Textos tagged as , with 0 and 0

Depois de quinze minutos emendando frases sem ponto e sem virgula, Monalisa me pergunta:

— Entendeu porque vim conversar com você?

— Eu já sabia desde o começo! Sou professor de autociência, só tem um motivo para uma pessoa vir conversar comigo, aliás, dois e sempre os mesmos dois — respondo.

— Quais são?

— Sofrimento — digo e dou uma risada de vitória.

Monalisa balança a cabeça, demonstrando que também é seu caso.

— E qual é o outro motivo? — pergunta Monalisa.

— Ignorância da causa do sofrimento — digo e dou outra risada de vitória.

Monalisa ri junto comigo, demonstrando que acertei novamente.

— Me conte novamente seu sofrimento, mas com calma.

São mais quinze minutos de relatos, dessa vez com pontos e virgulas.

— Já entendi qual é seu problema — eu digo.

— Qual? Me diga!

— Começa com “a” e termina com “encia”

— Abstinência, advertência, ausência, ambivalência??? — Monalisa arrisca.

— Seu problema é adolescência!

Monalisa faz bico. Não gosta do diagnóstico. Embora tenha 23 anos, gostaria de ter 230, ser sábia, experiente e perfeita. Claro que se fosse esse o caso, Monalisa não estaria me pedindo ajuda para viver sua própria vida. Claro que se fosse esse o caso, Monalisa não acreditaria mais em contos de fadas, príncipes, soluções mágicas e perfeição. Claro que se fosse esse o caso, Monalisa não estaria fazendo bico. Então, claro que não era esse o caso.

— Estou em crise existencial — Monalisa declara — Passo o dia questionando quem sou eu, questionando o que é certo e errado. Pedi demissão do meu emprego. Eu gosto de trabalhar, mas trabalhar por dinheiro, por obrigação, não gosto. Não consigo conviver com meus amigos. Muita briga. Não sei, não sei, não sei… Só sei que está ruim. Não estou bem. Estou mal.

— E você acredita que está sofrendo porque não sabe quem você é, porque não sabe seu lugar na vida, porque não sabe seu lugar no universo, é isso?

— Exatamente isso!

— Só que não é isso!

— Como não?

— Você acha que eu sei quem sou, que sei meu lugar na vida, que sei meu lugar no universo e que não experimento crise existencial?

— Sim! Acho que sim! Por isso vim conversar com você.

— Você está enganada! Não sei quem sou, não sei meu lugar na vida, nem meu lugar no universo.

— Você não é professor autociência? Isso não é ensinar a cada um quem é?

— Não! Explico como viver em autorealização, é diferente.

— Então, me explica!

— Primeiro você deve abandonar esse equívoco.

— Qual equívoco?

— De que você está sofrendo porque está em crise existencial.

— Então, por que estou sofrendo?

— Você está sofrendo porque tem esperança.

— Esperança? Como assim?

— Você tem esperança de que um dia a crise existencial chegará ao fim.

— Sim, isso mesmo!

— Isso é um equívoco. Eu também acreditei nesse equívoco. Também acreditei que quando me tornasse adulto, saberia quem sou e não teria mais crise existencial. Já sou adulto faz tempo e continuo em crise existencial.

— Então, esse sofrimento não tem cura?

— A cura é entender que não tem cura. A experiência humana em si é uma constante crise existencial. Seres humanos são seres que nascem, crescem e morrem em crise existencial. Não tem pílula, livro, terapia, chá, experiência, guru, ensinamento, nem nada capaz de curar você de ser humano. Então, não tem como você deixar de viver em constante crise existencial. O que você pode fazer é perceber isso e desistir da esperança de que seja diferente do que é.

Monalisa não gosta do remédio. Embora tenha 23 anos, gostaria de ter 230, ser sábia, experiente e saber quem é. Claro que se fosse esse o caso, Monalisa não estaria me pedindo cola. Claro que se fosse esse o caso, Monalisa não acreditaria em cura para crise existencial. Claro que se fosse esse o caso, Monalisa não estaria fazendo bico novamente. Então, claro que não era esse o caso.

— Você está me deixando assustada e desesperançosa! — diz Monaliza.

— Assustada, não é minha intenção, mas desesperançosa, sim.

— E o que você me sugere, então?

— Sugiro entender que crise existencial é que nem fome, não tem cura. Assim como você está condenada a viver sentindo fome, você também está condenada a viver em crise existencial. Ou seja, crise existencial não é opcional, é da natureza da experiência humana.

— Quer dizer que nunca vou saber quem eu sou?

— Quer dizer que o jeito de você saber não é sabendo.

— Como que é então?

— É sentindo.

— Sentindo eu sei quem sou eu?

— Louco né? É isso mesmo! A experiência humana é uma brincadeira de destino inconsciente. É como se você fosse destinada a pintar o quadro da Monalisa de olhos fechados sem saber o que está pintando, apenas sentindo como deve manusear o pincel.

— Quer dizer que existe destino?

— Óbvio que existe.

— E qual é o meu?

— Seu destino é ser você.

— Mas você disse que eu não tenho como saber quem sou eu, que é impossível.

— Você não tem como saber sabendo, mas sabe sentindo.

— Sentir é saber quem sou?!!! Essa é nova!

— Essa é velha! É assim desde sempre! Quando você se sente bem, é porque você está sendo você, está vivendo seu destino. Quando você se sente mal, é porque você não está sendo você, não está vivendo seu destino.

— Só isso? Simples assim?

— Sim! Mas se você quiser complicar, pode. Fica a vontade.

Monalisa dá um sorriso de Monalisa.

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