38 | O MÍNIMO

24/09/2022 by in category Mayasang with 0 and 0

Minha namorada e eu fomos de ônibus para Porto Alegre participar da palestra de Joaquim. No meio da palestra, uma mãe, indignada, reclamou do filho.

— Sim, liberdade, concordo, mas tem que ter o míííííínimo de obediência — disse a mãe.

— Se tem que, é obrigação, se é obrigação, não é liberdade — disse Joaquim.

— Entendo, mas não digo tudo, digo o míííííínimo!

O jeito que a mãe pronunciava a palavra “míííííínimo” era engraçado. E Joaquim, macaco velho, começou a repetir a palavra durante a palestra para reforçar seu discurso libertário.

— Não estou falando em lavar toda a louça. Não estou falando em fazer o almoço. Não estou falando em arrumar o quarto. Mas puta merda, não precisa deixar a cueca jogada no meio da sala, entende? — disse a mãe.

— Tem que ter o míííííínimo, né fia? — Joaquim disse ironizando.

— Isso, — disse a mãe — tem que ter o míííííínimo de obediência.

— Se tem que, é obrigação, se é obrigação, não é liberdade — repetiu Joaquim.

— Só um pouquinho, — insistiu a mãe — só o míííííínimo!

— Fia, você pode exigir o máximo, o médio e o míííííínimo do seu filho, mas de nada adianta sua exigência, ele vai continuar deixando a cueca jogada no meio da sala — disse Joaquim.

— Mas guardar a cueca é o míííííínimo! E não custa nada!

— É o míííííínimo, né fia? Só que é esse míííííínimo que mantém você presa ao sofrimento.

Cada vez que a palavra “míííííínimo” era pronunciada, todos riam. E como a palavra foi pronunciada uma dezena de vezes, tanto pela mãe como por Joaquim, a palestra foi muito divertida. Quando terminou, arrumamos as malas e começamos o caminho de volta.

Firmino e a esposa estavam de carro, então, eu e minha namorada pegamos carona com eles. Uma vez no carro, fui explicar uma questão para Firmino, mas antes de terminar ele me interrompeu e disse:

— Discordo!

Tentei novamente. E Firmino disse o mesmo:

— Discordo!

Perguntei qual era a discordância. Ele respondeu que pensava diferente. Perguntei o que pensava. Ele respondeu que diferente. Então entendi que Firmino não concordava, nem discordava, estava querendo ser do contra, só isso. Se eu dissesse azul, ele iria discordar. Se eu dissesse vermelho, ele iria discordar.

Quando chegamos em Florianópolis para dormir, estava com raiva do comportamento do Firmino. Tomei um banho e minha namorada, percebendo meu estado, começou a conversar comigo. Falei o que estava sentindo e comecei a chorar. Chorei, chorei, chorei e, de repente, afogado no oceano de lágrimas, entendi a razão do meu sofrimento. Eu estava querendo que Firmino tivesse o míííííínimo de racionalidade, mas ele não tinha essa obrigação, ele podia deixar a racionalidade jogada no meio da sala.

Quando o choro terminou, sabia exatamente o que fazer. Liguei para o Firmino e disse para ele se aprontar para o jantar que eu iria pagar a conta. Tive essa ideia porque era o míííííínimo que podia oferecer ao Firmino em retribuição aos anos de serviços prestados ao EEU. Entendi isso quando estava chorando. E porque as vezes esquecia que ele também era meu amigo, assim como Joaquim.

Saí do quarto do hotel decidido a fazer três coisas: 1) Pagar um jantar para Firmino e sua esposa onde quer que eles quisessem. 2) Conversar com meu amigo e não tocar em assuntos do EEU. 3) Permitir que Firmino discordasse, fizesse birra, o que decidisse fazer. Firmino escolheu um restaurante italiano. O jantar foi ótimo. Hoje sei que foi um jantar de despedida. Na época, nem desconfiei.

No dia seguinte, voltamos para estrada. Era domingo e eu tinha aula marcada na segunda feira de manhã, então, estava com pressa de chegar. Contudo, a esposa de Firmino resolveu parar em todas as lojas de artesanato do caminho. A cada parada, o horário de chegada em São Paulo adiantava e meu estresse aumentava. Voltei a sofrer porque estava exigindo o míííííínimo novamente.

Eta, eta, eta! “Se tem que, é obrigação, se é obrigação, não é liberdade”, me lembrei. Ok, okei, oquei, oooooooquequekei. Já entendi poooooorra!

se for escalada, se for descida
se for mar de rosas, se for capim
para ser feliz não precisa sorte, nem figa
basta dizer sim
se for chegada, se for despedida
se for porém, se for enfim
pra ser feliz não precisa pressa ou corrida
basta dizer sim

sim pra vida
de cabeça erguida

se for preta e branca, se for colorida
se for chiquetérrima, se for chinfrim
pra ser feliz não precisa peso ou medida
basta dizer sim
se for novidade, se for repetida
se for abel, se for caim
pra ser feliz não precisa ganhar a partida
basta dizer sim

sim pra vida
de cabeça erguida

se for beijo, se for mordida
se for spa, se for estopim
pra ser feliz não precisa curar a ferida
basta dizer sim
se for legalizada, se for proibida
se for pianinho, se for tamborim
pra ser feliz não precisa encontrar a saída
basta dizer sim

© 2023 • 1FICINA • Marcelo Ferrari