ME RESOLVE

05/03/2019 by in category Textos tagged as , with 0 and 0

Toda pessoa que me procura tem um único objetivo: jogar sobre mim a responsabilidade por resolver seu sofrimento. É fácil perceber isso pelo jeito como a pessoa age. Busca obstinadamente a pílula da felicidade e me trata como se eu tivesse obrigação de retirá-la do buraco que ela mesma cavou e depois se enterrou. Comportamento obsessivo repetitivo: a pessoa fala, fala, fala, reclama, reclama, reclama. Só que a pessoa não percebe que todo seu discurso se resumem a uma única frase:

— Socoooooooorro, me tira daqui!

O que uma pessoa quer quando grita: me tira daqui? O que é aqui? Vou explicar. Aqui é o constante e ininterrupto estado de angústia, pânico, ansiedade, raiva, mágoa, insatisfação, frustração, depressão e revolta que a pessoa vive. Aqui é o buraco que a pessoa se meteu e não sabe sair. Aqui é o quinto dos infernos. Só que a pessoa nem sabe disso. Se soubesse, abandonava a lamúria, que é o caldeirão do inferno, e pegava o caminho de volta para o bem viver.

Sou professor de autociência. Parte do meu trabalho é ajudar a pessoa a sair do inferno. Disso a pessoa sabe, por isso me procura. O que a pessoa não sabe, e mesmo quando sabe faz vista grossa, é que meu trabalho é lhe ajudar a sair do inferno caminhando com os próprios pés e não pegá-la no colo e retirá-la. Mesmo que quisesse retirá-la, não conseguiria, pois é impossível saber, querer, optar e viver pelo outro. Eu não resolvo ninguém. Já tive essa pretensão. Já delirei que era um ser super poderoso capaz de resolver o sofrimento dos outros. Já chafurdei nesse equívoco. Tudo que consegui foi ampliar meu próprio sofrimento. E isso foi ótimo! Descobri que só consigo resolver meu próprio sofrimento. Então, o que faço? Simples: não faço.

— Me resolve — diz a pessoa que me procura.
— Não! — respondo, sem dó nem piedade.
— Me resolve, eu te pago — a pessoa insiste com suborno.
— Não! — respondo, sem dó nem piedade.
— Me resolve ou te mato — a pessoa insiste com ameaça.
— Não! — respondo, sem dó nem piedade.
— Seu trabalho não é me ajudar? — ela pergunta.
— Meu trabalho é te ensinar a se ajudar — respondo.

© 2018 · 1FICINA · Marcelo Ferrari