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Comecei a escrever um texto narrativo e senti que poderia me alongar e escrever um livro contando a história da criação da 1ficina. Decidi fazer isso. Não tenho pressa de terminar. Pretendo escrever aos poucos conforme a inspiração for surgindo.

A primeira ferramenta que possibilitou a interação via internet foi o e-mail. “Todo brasileiro tem direito a um email grátis”, dizia o slogan do IG, um dos primeiros provedores de internet do Brasil. As pessoas começaram a compartilhar mais o endereço de email do que o número de telefone, até porque o endereço de email era personalizado e mais fácil de memorizar.

Só que a interação por e-mail era particular. Foi então que outro famoso provedor da época, o Yahoo, inventou o Yahoo Grupos. Você cadastrava seu e-mail em um grupo e, a partir daí, tudo que era enviado para o grupo chegava na sua caixa de e-mails e vice versa. Claro que o Yahoo Grupos era rudimentar perto dos atuais grupos de Whatsapp, mas era revolucionário para época. Finalmente você podia entrar em contato com pessoas de interesse comum sem restrição de tempo e espaço.

Entrei em alguns grupos e fui adicionado em muitos outros. Um desses grupos em que fui adicionado se chamava “A busca”. Esse grupo era o samba do crioulo doido hindu. Todo mundo que tinha internet e curtia espiritualidade na linha hindu, sambava por lá. Krishnamurthi e Osho eram os autores mais populares entre os participantes. Mas rolava de tudo no grupo.

Eu era mais ligado em neurolinguística (PNL) que em espiritualidade. Já havia lido Krishnamurthi e gostava bastante, mas nunca havia lido Osho, nem outros autores que eram recorrentemente citados pelos participantes. Outra coisa que não estava acostumado, era a terminologia hindu. Muitas palavras em sânscrito eram usadas como se fossem gírias cotidianas. Isso me incomodava, pois sou avesso a estrangeirismo, academicismo, dogmatismo e idolatria.

Uma das palavras em sânscrito que aparecia muito no grupo era a palavra “satsang”, que significa “encontro com a verdade”. Essa palavra era usada para anunciar encontros com um guru e descrever a pedagogia hindu de iluminação. Por exemplo: “Satsang com Sri Prem Fulano”. Isso significava que o Fulano iria se encontrar com os participantes e conversar com eles levando-os a iluminação (encontro com a verdade).

A princípio, achei bonita a palavra “satsang” e o conceito de encontro com a verdade. Mas fui tomando aversão devido ao uso prático. Por mais que não fosse intenção dos gurus, na prática, e para os buscadores, um satsang não era encontro com a verdade, era encontro com o guru. E o que acontecia nos encontros eram palestras sobre iluminação e não iluminação.

Meu desgosto pelos termos em sânscrito me levaria, anos mais tarde, a criar algumas palavras híbridas e adulteradas para combater o estrangeirismo e o dogmatismo dos buscadores. Uma dessas palavras foi “satsilva”. Se, na prática, satsang era encontro com uma autoridade espiritual, o guru, satsilva era encontro sem autoridade nenhuma, encontro de Zé Ruelas (Silvas).

Outra palavra foi “mayasang”, que escolhi para ser o título desse livro. “Maya” significa mentira. “Mayasang” significa encontro com a mentira. Não uso esse termo na literatura da 1ficina, pois só o inventei para fazer uma crítica circunstancial, mas é um termo bem apropriado para entender a pedagogia que a 1ficina usa para produção de autoconhecimento.

Falarei mais sobre o mayasang no decorrer do livro. A seguir, vou dar alguns passos para trás no tempo.

Não sei como essa informação veio parar na minha cabeça, mas dizia que os astronautas da NASA não precisavam mais de espaçonaves para viajar pelo espaço. O astronauta deitava em uma cama especializada e dormia, depois, seguindo alguns procedimentos científicos, a alma dele se desgrudava do corpo e o astronauta podia viajar pelo universo sem precisar respirar ou gastar combustível.

Eu achava que era verdade. Então, quando meu amigo Rodolfo, veio me contar que ele estava estudando em uma escola que ensinava a fazer exatamente aquilo que os astronautas da NASA estavam fazendo, imagina meu entusiasmo.

— Mano, me leva agora mesmo nessa escola que vou fazer minha matrícula hoje. — eu disse convicto do meu desejo de flutuar no espaço e viajar entre as estrelas.

Só que era domingo e a escola estava fechada. E pior! No dia seguinte, eu estava com viagem marcada. Era o último ano da faculdade de comunicação e decidi que iria fazer a viagem dos meus sonhos antes que a vida adulta e profissional me impedisse. Pedi demissão do emprego, peguei o dinheiro da rescisão e programei uma viagem de carro de São Paulo até Fortaleza. Estava tudo pronto para sair de viagem na segunda-feira de manhã.

Quando falei para o meu amigo que iria sair de viagem, ele teve uma ideia.

— Pega esse livrinho aqui e vai lendo durante a viagem. Ele explica um pouco sobre a viagem fora do corpo, entre outras coisas. Quando você voltar, te levo para estudar na escola.

— Beleza, combinado. — respondi.

Coloquei o livrinho no porta-luvas do carro e fui embora.

Acordei cedo. Coloquei as malas e a barraca de camping dentro do porta malas do Passat e fui para casa do meu amigo Miguel, que combinou de viajar comigo. Toquei a campainha e a mãe dele veio atender.

— O Miguel já acordou? — perguntei.

— O Miguel não dormiu aqui hoje — a mãe dele respondeu — Vocês combinaram alguma coisa?

— Sim, combinamos de viajar juntos, ele não te falou nada? — perguntei.

— Não me falou nada! — ela respondeu.

Já era de se esperar. Nem fiquei surpreso. Miguel era um grande amigo, tipo irmão, mas era tão porra loca como eu. Naquele horário, era provável que ainda estivesse tomando a saideira em algum boteco de Pinheiros. Esperar por Miguel não era uma possibilidade viável. A viagem era longa e eu precisava passar pelo Rio de Janeiro durante o dia para chegar na BR 101 no fim da tarde. Adiar a saída para o dia seguinte também não era garantia de que Miguel iria comigo.

— Tudo bem! Sem problemas! — disse para a mãe do Miguel.

Entrei no carro. E agora, José? Estaria pronto para viajar sozinho na viagem mais longa da minha vida? Só tinha um jeito de saber. Fiquei entusiasmado e temeroso. Liguei o carro e segui rumo a via Dutra.

Depois de três dias de viagem ouvindo as mesmas três fitas, cheguei na cidade de Porto Seguro, na Bahia. Montei acampamento ao entardecer e de noite fui para balada na passarela do álcool. Olha só o nome da rua! Coisa boa não pode vir de um nome de rua assim. E para piorar, na Bahia tem uma bebida chamada capeta, uma espécie de caipirinha com pó de guaraná. Tomei um capeta, dois capetas, três capetas, quatro capetas e virei o demônio.

Minha memória é falha a partir do quarto capeta, mas lembro do principal a ser relatado. Eu pulei o muro da boate para entrar no show do Ed Motta. Estava totalmente embriagado e sem noção. Eu tinha dinheiro, mas por influência do capeta, decidi pular o muro. Os seguranças da boate viram e rapidamente me colocaram para fora.

A partir daí minha memória é mais fraca e confusa ainda. Lembro de uma festa estranha com gente esquisita. Lembro de mais capeta. E, de repente, já é dia e estou andando debaixo de um sol escaldante no meio de um pasto. Não faço a menor ideia de onde estou e como fui parar ali. Quando olho para o lado, tem um homem mal-encarado apontando uma espingarda para mim.

— Você não morreu por sorte hoje! — o homem me disse.

— Como assim? O que foi que eu fiz? — perguntei.

— Isso aqui é propriedade privada — disse o homem — Você não pode entrar aqui. Eu quase atirei em você. Você tem sorte de estar vivo.

Perdi a fala.

— Me desculpa, eu não sabia, já vou sair! — eu disse.

Saí da propriedade do homem e segui por uma estrada de terra. Continuava sem saber onde estava. Andei um pouco mais e vi uma mulher jogando água com uma mangueira na frente da casa para abaixar a poeira. Me aproximei para pedir um gole d’água e ela se espantou comigo.

— O que foi isso? — ela perguntou.

— Isso o que? — perguntei.

— Esse sangue na sua camisa!

Foi então que percebi que minha camisa estava toda rasgada e ensanguentada. Levantei a camisa e percebi que meu peito estava arranhado.

— Isso é arranhão de arame farpado — disse a mulher.

Certamente havia atravessado as cercas de arame farpado sem nenhum cuidado. Live fast die young (viva rápido, morra jovem), era meu lema na época. Mas não precisava ser tão jovem. Bebi água e me lavei na mangueira. A mulher me indicou o caminho e voltei para o camping.

Saí de Porto Seguro e fui para Trancoso, um vilarejo isolado, depois de Arraial d’Ajuda. Montei a barraca de camping na beira do morro, de onde dava para ver o mar e amarrei a rede em uma árvore. Passei dias bem agradáveis e tranquilos em Trancoso. Nada de capeta, nem arame farpado. Só água de coco e sombra. Foi então que, a fim de pegar alguma coisa, abri o porta luvas do carro e encontrei o livrinho sobre viagem fora do corpo que meu amigo havia me emprestado.

Comecei a ler. De fato, o livrinho falava sobre viagem fora do corpo, mas isso era o que menos importava para o autor. O ponto principal era uma coisa que ele chamava de “despertar da consciência”. Movido pelo interesse na viagem fora do corpo, continuei lendo. Porém, quanto mais lia, mais o autor jogava na minha cara que eu era uma consciência adormecida.

Ele dizia que minha vida era como um filme, e quando eu morresse, eu iria rebobinar o filme e depois projetá-lo exatamente do mesmo jeito que já havia vivido. Depois eu iria morrer novamente e reprojetar tudo novamente, e assim por diante, a menos que eu despertasse a tal da consciência.

Hoje sei que o autor estava falando de reencarnação. Na época eu não conhecia esse conceito, só conhecia os conceitos do cristianismo, e mesmo assim, mal e porcamente. Mas eu sabia pensar. E pensei que se iria repetir tudo igual na minha próxima vida, então, a vida atual também era a repetição da vida anterior. Ou seja, eu já tinha passado por aquelas cercas de arame farpado milhares de vezes e iria continuar passando, a menos que despertasse a consciência.

Pensar nisso me revoltou. Eu me achava inteligente e me recussava a admitir que estava repetindo o mesmo erro eternamente. Eu precisava fazer alguma coisa para evitar a eterna repetição. Não podia rebobinar o filme e projetar tudo novamente. Eu tinha que deixar de ser uma vítima da minha própria inconsciência, custasse o que custasse. Isso estava decidido e pronto!

Certamente, foi nesse momento que a semente da 1ficina foi plantada em mim. Assim como acordei no pasto sem saber onde estava e como havia parado ali, eu também não sabia quem eu era, de onde vinha e para onde estava indo. Eu era de fato uma consciência adormecida como o autor havia dito. Só que agora eu sabia que estava dormindo. E queria acordar.

Trecho do filme Quando Nietzsche Chorou

Trecho do filme Kpax

Trecho do filme Doutor Estranho

Seu Moço – Muvuca Musical

Demorei para entender que Magáli era Magali com acento no lugar errado. Eles estavam em um grupo de quatro pessoas do Rio Grande Do Sul. Ficamos amigos porque nossas barracas eram vizinhas. A fim de conhecer as dunas, Murilo, o namorado da Magáli, veio conversar comigo.

— Então, paulista, tu não quer dividir o aluguel de um bugue com a gente?

— Quando? Amanhã? — perguntei.

— Sim! E precisa de um motorista também. Você pode dirigir?

— Nunca dirigi um bugue antes!

— Me disseram que é igual dirigir carro.

— Então, beleza, eu dirijo.

No dia seguinte, éramos seis dentro de um bugue, andando pelas dunas de Natal. Eu, Murilo, Magáli, Margô (amiga da Magáli), Júlia (sobrinha da Magáli) e o Miguelito (moleque local que pegamos para nos guiar). A lotação era máxima. Magáli, Margô e Júlia estavam sentadas na parte traseira do bugue, pegando vento e apreciando o passeio com visão 360 graus. Murilo estava dividindo o banco do passageiro com o Miguelito. Eu estava no banco do motorista.

Nas dunas não tem regras de trânsito, mas tem duas maneiras de fazer o mesmo caminho: com emoção ou sem emoção. Desde o começo do passeio, estávamos viajando lentamente, sem emoção. Mas decidimos ir mais rápido, aumentando a emoção. Apertei o pé e o bugue começou a pular algumas ondulações de areia. Todos gritavam a cada pulo como numa montanha russa.

Numa dessas ondulações, o pulo foi gigante. O bugue voou uns 4 metros e aterrissou de bico na areia. Murilo deu um grito de euforia. Mas quando olhei para trás, vi que Magáli, Margô e Júlia não estavam mais no bugue. Saí para ver o que havia acontecido. As três estavam esticadas na areia. Júlia se levantou rapidamente. Porém, Magáli e Margô estavam desacordadas. E pior! Haviam poças de sangue ao lado da cabeça delas.

Murilo desceu do carro e, ao ver a cena, seu semblante mudou completamente. O sol estava a pino e as dunas estavam desertas. Se Magáli e Margô ainda estivessem vivas, precisavam ser urgentemente retiradas dalí e levadas para um hospital. Só que não existia telefone celular naquela época e estávamos no meio do nada, rodeados apenas por areia escaldante.

No livro hindu, Bhagavad Gita, Arjuna e Krishna tem uma longa conversa, cheia de reflexões, que acontece numa fração de segundos. Vendo Magáli e Margô supostamente mortas na areia, aconteceu algo semelhante comigo. Revivi o sentido da vida numa fração de segundos. Percebi que eu não tinha nenhum. Eu tinha apenas uma guitarra e me achava o máximo por isso.

Minha arrogância juvenil deu lugar a um profundo sentimento de arrependimento. Minhas pernas fraquejaram e, sem perceber, caí de joelhos na areia. Ao notar minha posição, lembrei do tempo de catecismo e fiz uma promessa para Deus: “Salve a vida das duas moças que te entrego a minha. Abandono as drogas, o álcool, a putaria, a marginalidade, a arrogância, a vaidade, a consciência adormecida, a porra toda. Faço o que você quiser, seja lá o que for”.

Quando terminei a promessa, dois bugues se aproximaram.

Anos depois, compus essa música:

Eu quero ser
o que deus quiser
e o que vier
já está de bom tamanho
só quero ter
o que deus me der
mesmo que até
pareça muito estranho

Quero poder
se um dia eu puder
beijar seu pé
eu não me acanho
quero aprender
quero andar com fé
quem sabe até
entrar no seu rebanho

Eu quero nada
pra mim eu nada quero
tornar-me um zero
sem nenhum valor
Eu quero nada
por isto eu nada espero
pra ser sincero
estou a seu dispor

Trecho do filme A Origem

Aconteceram muitos eventos emocionantes, curiosos e transformadores nessa viagem de São Paulo a Natal. Mas a intenção neste livro não é contar sobre essa viagem, nem contar minha história. A intenção deste livro é contar a história da criação da 1ficina. Por isso, só vou contar o que for relevante para isso. O que contei até aqui sobre essa viagem, era relevante, o resto não é. Então, assim como pulei de Trancoso para Natal, vou dar outro pulo e voltar para São Paulo. Mas para que você não morra de curiosidade, nem me mate, vou contar o que aconteceu com Margô e Magáli.

— Vamos lá? — Murilo me chamou na barraca.

Depois de dois dias na UTI, Margô e Magáli foram transferidas para um quarto normal. Alguns dias depois, receberam alta. Magáli tinha um tio que morava em Recife e decidiu ir para lá antes de voltar para o Rio Grande Do Sul. Eu me ofereci a levá-los de carro até Recife, sem emoção.

Ambas receberam pontos do topo da cabeça até a testa. Os pontos de Margô eram mais na cabeça, estavam expostos porque os médicos haviam raspado seu cabelo, mas assim que seu cabelo voltasse a crescer, encobriria. Os pontos de Magáli eram mais na testa e, provavelmente, ela ficaria como uma cicatriz bem visível. O que era uma pena, pois Magáli tinha um rosto lindo.

Durante a viagem, toda vez que olhava no retrovisor e via o curativo na testa da Magáli, sentia uma culpa enorme por ter estragado aquele rosto lindo. Era como se eu tivesse rabiscado a Mona Lisa. “Será que Murilo iria continuar namorando com ela? Será que ela iria arranjar outros namorados? Como ela iria se sentir quando se olhasse no espelho”, eu pensava.

Chegamos na casa do tio da Magáli no começo da noite. Era uma casa com visual hippie. Durante a viagem, pensei que o tio da Magáli iria me bater, mas ele não era desse tipo de pessoa, era super calmo, parecia um integrante dos Novos Baianos e me tratou muito bem. Fizemos um lanche, tomamos banho e fomos dormir. Minha cama foi um tapete em um quarto cheio de quadros e objetos esotéricos.

— Está dormindo? — Magáli me perguntou parada na porta do quarto.

Bem que eu tentei, mas não iria conseguir dormir de jeito nenhum. Minha cabeça ficava revivendo tudo que havia acontecido nas dunas e tentando mudar os fatos. Como era impossível, revivia tudo novamente e tentava mudar os fatos novamente. E assim por diante.

— Acho que não vou conseguir dormir nunca mais — eu respondi.

Magáli deu uma risada e entrou no quarto.

— Amanhã, quando for voltar para São Paulo, — disse Magáli — Deixa essa culpa aqui nesse quarto e leva apenas a aprendizagem. Você é uma boa pessoa. Foi um acidente e você era o motorista, só isso. Não vou guardar mágoa de você por causa da cicatriz.

Antes do acidente eu havia conversado com Magáli no camping e havia percebido que ela não era apenas uma moça bonita. Ela tinha paz de espírito e clareza de pensamento. Ao ouvir suas palavras, comecei a chorar. Ela me deu um abraço caloroso. Eu jamais conseguiria apagar a cicatriz no rosto da Magáli, mas ela havia acabado de apagar a cicatriz na minha alma com seu perdão.

Aos meus olhos, Magáli saiu do quarto flutuando, envolta em luz fluorescente e exalando alfazema. Minha mente e meus nervos se acalmaram como se eu tivesse tomado chá de maracujá. Dormi logo em seguida e muito bem. No dia seguinte, acordei cedo e me despedi de todos. Deixei a culpa no quarto e levei apenas a aprendizagem de volta para São Paulo.

Não Aprendi Dizer Adeus – Alexandre Nero

A escola de astronautas se chamava MGCUBNO (Movimento Gnóstico Cristão Universal Do Brasil Na Nova Ordem). Os alunos chamavam apenas de Gnose. Rodolfo me levou para uma aula de apresentação. A escola ficava numa casa na Vila Mariana, perto do metrô. Na entrada tinha um jardim. Dentro da casa haviam salas de aula com carteiras e lousa.

Sentei no fundão, como de costume. Um professor entrou, deu boa noite e começou a falar um monte de coisas espirituais que desconhecia por completo, mas que me levou à mesma conclusão do autor do livrinho: éramos consciências adormecidas e devíamos despertar. O professor disse que as aulas eram gratuitas e na semana seguinte começaria uma turma para iniciantes.

Eu levantei a mão.

— Pode falar — disso o professor.

— Viagem fora do corpo, vocês ensinam isso aqui? — perguntei.

— Sim, aqui chamamos isso de viagem astral.

— Ótimo! Como faço a matrícula?

— Não precisa de matrícula, basta vir a escola e seguir as aulas.

A turma para iniciantes se chamava “fase A”. Tínhamos aula duas vezes por semana e estudávamos os livros mais básicos do criador do Movimento Gnóstico, um mexicano, nascido em 1917, chamado Victor Manuel Gómez Rodríguez, mas conhecido como Samael Aun Weor.

Hoje em dia existe internet e se você fizer uma busca, rapidamente encontrará uma biografia e vasta informações sobre Samael. O que mais me chamou a atenção na época, é que Samael, segundo ele próprio, era a encarnação do Arcanjo Samael.

Na saída das aulas, podíamos comprar os livros básicos. O livrinho que Rodolfo havia me dado era básico, se chamava: Tratado de Psicologia Revolucionária. Comprei outros e comecei a lê-los.

O estilo literário de Samael era militar. Sem floreios. Ele escrevia como se fosse um general ditando um plano de ataque para o pelotão. Contudo, o que ele falava era fascinante. Alguns livros explicavam a origem do universo. Outros explicavam a evolução e involução do homem, passando por Atlântida e chegando aos tempos atuais. Outros falavam de viagem fora do corpo e multiplos planos de existência.

Em pouco tempo, minhas ambições haviam se tornado muito maiores do que apenas fazer viagem astral. Se existiam mesmo todos aqueles planos de existência que Samael falava, astral, mental, causal e escambau, eu queria conhecer todos e transitar por eles. Mas para isso, primeiro eu teria que fazer o trabalho que Samael considerava ser o mais difícil nessa vida: matar o ego.

Cadê os Caras? Não sei! Ninguém sabe! Sei que os Caras estão na política, na religião, na cultura, na pequena e na grande área. Sei que os Caras são uns filhos da puta, que são foda, que não entendem porra nenhuma. Sei que a culpa é dos Caras. É óbvio que a culpa é dos caras! Todo mundo sabe que a culpa é dos Caras. Contudo, todavia, entretanto, eu, pessoalmente, na pessoa própria de mim mesmo, nunca vi os Caras.

Talvez o Povo conheça os Caras. Será? Também nunca vi o Povo cara a cara. Sei que o Povo é burro. Sei que o Povo não sabe votar. Sei que o Povo tem o governo que merece. Sei que a culpa é do povo. É óbvio que a culpa é do Povo! Todo mundo sabe que a culpa é do povo. Mas cadê o Povo que não dá as caras? Eu, pessoalmente, na pessoa própria de mim mesmo, nunca vi o Povo.

Talvez o Ego conheça os Caras e o Povo. Será? Não sei! Sei que o Ego é o pecado, que é o vilão, que é a kriptonita, que fez Adão comer a maçã e fodeu com tudo. Sei que a culpa é do Ego. É óbvio que a culpa é do Ego! Todo mundo sabe que a culpa é do Ego. Contudo, todavia, entretanto, eu, pessoalmente, na pessoa própria de mim mesmo, nunca vi o Ego. Então, como matá-lo?

Samael odiava o ego. Era como se o ego fosse um comunista no capitalismo. Com tom militar, ele ordenava a cada parágrafo dos seus livros: mate o ego! Eu não conhecia o tal do ego, nunca tinha ouvido falar em ego antes, mas se fosse preciso matá-lo para viajar pelos múltiplos planos de existência, tudo bem, eu matava. O problema era: como? Com arco e flecha? Com espingarda? Com revólver? Com facão? Com machado? Com estilingue? Como matar o ego?

Segundo Samael, o ego era a vaidade, o orgulho, a preguiça, a inveja, a cobiça, a gula, enfim, todas as características humanas que habitavam o Inferno de Dante. Para matar o ego era preciso praticar a morte do ego. Ou seja, era muita falação e cancelamento para chover no molhado. Ninguém explicava muito bem o que era o ego e como matá-lo, nem Samael.

Por fim, como era imperativo matar o ego, mas ninguém sabia o que era o ego e como matá-lo, a solução era autonegação e fingimento. Colocar o Inferno de Dante debaixo do tapete e fazer cara de paisagem. Foi o que fiz. Me lembro, por exemplo, que parei de escrever a palavra “eu” nos meus textos, pois “eu” era “ego”. Esse era o nível da paranoia.

Se correr o bicho pega – Juraildes da Cruz

Inferno de dante – Muvuca Musical

O ponto G da Gnose era o sexo. Samael dizia que os homens não deviam ejacular, que deviam transmutar o semem em energia etérica e usá-lo para construção de corpos solares. Tem toda uma lógica nisso. Não vou explicar aqui. Se tiver interesse e quiser pesquisar o assunto, usa o Google que você encontra. Samael chamava essa prática sexual de vários nomes: Sahaja Maithuna, Alquimia Sexual, Kundalini Yoga. Hoje em dia, esse ensinamento é mais conhecido como Tantra.

Independente do nome, aquilo veio de encontro à minha promessa de abandonar a putaria. Li todos os livros do Samael que explicavam sobre o assunto, os permitidos e os proibidos. Na Nova Ordem, que surgiu depois do falecimento de Samael sob a direção do seu sucessor, muitos livros não eram estudados, nem recomendados, esses livros eram os proibidos. Mas enfim, decidi que só voltaria a fazer sexo após entender a tal da Alquimia Sexual.

Depois de três anos sem fazer sexo, sem pensar em fazer e sem me masturbar, contei da minha abstinência sexual para um veterano. Ele me disse: “Você decorou as partituras, mas não tem um piano”. Ele estava me dizendo para arranjar uma mulher e colocar a teoria em prática. Foi o que fiz. Voltei a olhar para as mulheres com interesse sexual.

Certo dia, fui assistir um concerto no parque do Ibirapuera e conheci uma moça. Passado um tempo, começamos a namorar. Quando o namoro ficou sério, expliquei para ela sobre minha abstinência sexual e pretensões de praticar Alquimia Sexual. Ela pediu que eu lhe explicasse o que era aquilo. Eu expliquei e emprestei alguns livros sobre o assunto. Ela leu os livros, me fez uma tonelada de perguntas, e por fim, aceitou participar da aventura.

Essa moça foi minha primeira esposa. Fomos casados por quatro anos. Durante nosso casamento, praticamos Alquimia Sexual em todas nossas relações sexuais. Depois de quatro anos praticando, cheguei a conclusão que, ou a Alquimia Sexual não funcionou para mim, ou não funcionava de jeito nenhum. De qualquer forma, com o fim do meu casamento, virei a página e devolvi a Alquimia Sexual para Samael junto com várias outras teorias que recebi dele.

Trecho do filme O Cheiro Do Ralo

Sexo – Ultrage a Rigor

A estratégia infalível para atrair e manter os alunos iniciantes presos ao Movimento Gnóstico era a mesma de toda religião: o medo. Ou melhor, o fim do mundo. Segundo Samael e seu sucessor, Rabolú, havia um planeta chamado Hercólubus que estava se aproximando da terra e iria causar profundas perturbações físicas no mundo e na psique das pessoas. Não tinha data marcada, mas estava perto, muito perto. E era inevitável.

Muitos diziam que o fim do mundo iria começar na virada do ano 2000. E que o trabalho do Movimento Gnóstico era resgatar o maior número possível de pessoas adormecidas e ajudá-las a despertar a consciência antes da chegada do Hercólubus.

Essa crença era tão forte, que os membros do Brasil inteiro se juntaram e arrecadaram dinheiro suficiente para fazer propagandas na Rede Globo anunciando uma grande palestra. O evento foi um sucesso e lotou um enorme auditório no bairro da liberdade.

Eu acreditei piamente na história do Hercólubus. E foi bom acreditar, pois o medo de morrer ignorante (adormecido) fez com que me dedicasse intensamente aos estudos. Então, de forma figurada, posso dizer que o Hercólubus de fato destruiu meu mundo.

Acho que saí do Movimento Gnóstico em 1997. Não lembro com precisão. Mas lembro com precisão onde estava na virada do ano 2000. Estava fritando de febre num albergue no Vale do Pati, dentro da Chapada da Diamantina, na Bahia. Eu ainda era casado com minha primeira esposa. Tinham seis beliches no quarto, mas só eu e ela estávamos hospedados.

Nessa época, havia o boato do bug do milênio. Dizia que na virada do milênio, devido a um problema computacional, todos os computadores iriam parar de funcionar. Ou seja, se o Hercólubus não destruísse o planeta, o bug do milênio destruiria a civilização.

Quando deu dez para meia-noite, caiu um pé d’água e acabou a energia. O trio elétrico que estava tocando do lado do albergue, silenciou. Todas as luzes se apagaram. Virou o réveillon da paz. Eu comecei a dar risada. Minha esposa não entendeu.

— Por que você está rindo? — ela perguntou.

— Se o mundo não acabar essa noite, te explico amanhã.

Aproveitei o silêncio e dormi.

Nostradamus – Eduardo Dussek

— Minha família é a humanidade — eu dizia e minha mãe queria me matar. Ela era católica. Tinha me colocado no catecismo para aprender e seguir a moral cristã. Jesus dizia que somos todos irmãos. Só que Jesus não era filho dela, então, ele podia ser cristão, eu não.

Nascemos em família, somos criados em família, e quando saímos da primeira família, é para criarmos outra família. Por isso a constelação familiar faz tanto sucesso. Mais para frente vou contar sobre um outro grupo espiritualista que participei. O instrutor desse outro grupo dizia que todo trabalho espiritual tem três pilares: a doutrina, a prática e a sangha. A palavra “sangha” é um termo budista para comunidade, ou seja, família.

A escola da Vila Mariana era uma família. Essa era a melhor parte. Nunca participei de um grupo tão cooperativo e fraterno. Tudo era feito de forma gratuita e voluntária. Quando era preciso fazer uma obra na casa, por exemplo, alguém que era pedreiro montava um mutirão e a obra era feita. O mesmo acontecia com a secretaria, a faxina, a cozinha, os estudos, etc.

Mas não éramos só uma família de trabalhadores. Viajávamos juntos, passeávamos juntos, frequentávamos a casa um dos outros. Fiz grandes amigos lá e alguns são amigos até hoje. Por isso doeu quando saí. Foi como se estivesse abandonando meus irmãos.

Hoje sei que esses irmãos, embora queridos e bem-intencionados, eram papagaios dos livros do Samael. Na época, principalmente no começo, achava o oposto. Acreditava que por conhecerem os termos esotéricos, tinham experiência própria no assunto. Mas não, apenas liam e repetiam o lido sem entender. E pior! Sem questionar, pois questionar era coisa do ego.

E foi assim que me tornei uma ovelha negra na família. Comecei a ler os livros e ter meu próprio entendimento sobre os conceitos esotéricos. Comecei a entender que eram simbólicos e que não deviam ser levados ao pé da letra como todos faziam. Por fim, comecei a expressar meus entendimentos.

Certa vez, dei uma aula para iniciantes e falei o que pensava. Eu adorei a aula. Estava inspirado. Mas no dia seguinte, fui chamado na diretoria e proibido de dar aulas por tempo indeterminado. Dar aula era o que mais gostava de fazer e o tal do tempo indeterminado durou meses.

Foi então que, depois de três anos participando do Movimento Gnóstico Universal Cristão Do Brasil Na Nova Ordem, decidi sair. Aos olhos dos meus amigos que ficaram, o ego venceu, eu havia ido para o lado negro da força. Quanto mais explicava que não era isso, mais eles acreditavam ser, pois o intelecto também era coisa do ego.

Por fim, assumi e sumi.

Amigo dos meus irmãos – Hinário

Junto com os estudos da Gnose, comecei a participar de uma banda. Éramos amigos que tocavam música autoral, dançante e bem humorada. Começamos por brincadeira, convidados para animar uma festa na faculdade de filosofia da USP (FFLCH). O público gostou e fomos convidados para animar outras festas. Ficamos populares no meio estudantil e começamos a prosperar. No apogeu da banda, gravamos um CD, ganhamos alguns festivais de música e tivemos um videoclipe exibido na MTV.

O vídeo abaixo começa com a foto do show na FFLCH. A música no vídeo, Eu Quero Ver Você Dançar, era um dos hits da banda. O videoclipe exibido na MTV era com essa música, bem-produzido, com dramaturgia, etc, mas a cópia que tínhamos em VHS derreteu no bolor.

Certo dia, durante um dos maiores shows que fizemos, em um colégio chamado Logos, na avenida Rebouças, percebi que estava mais interessado na idolatria dos fãs do que na qualidade da música. Eu estava no auge do fanatismo da morte do ego, então, convoquei uma reunião e disse: — Vou sair da banda!

Num ato de sincericídio, falei da morte do ego e blá blá blá. Ninguém entendeu nada, mas falei mesmo assim, afinal, meus amigos mereciam uma explicação do porquê o vocalista e compositor da banda estava saindo da banda, mesmo que fosse uma explicação tosca.

Uma vez fora da banda, mergulhei nos estudos da Gnose. Quando saí do Movimento Gnóstico, fui me aventurar na literatura e na MPB. Quer dizer… pera! Antes disso, saí da publicidade também. Conto sobre isso a seguir.

Quando fui fazer a viagem dos meus sonhos (ou pesadelos) pelo nordeste, não pedi demissão apenas para viajar, pretendia arranjar emprego numa grande agência de publicidade quando voltasse. Então, assim que voltei, montei um portfólio e comecei a rodar as agências de São Paulo. Rapidamente arranjei um estágio e durante um ano fui pulando de estágio em estágio pelas maiores agências da época. Por fim, fui contratado por uma agência de médio porte.

Um dia, chegou na minha mesa um job (ordem de serviço) para fazer um comercial para um título de capitalização. Eu conhecia o produto e o gerente do produto. Então, sem pensar duas vezes, fui até a sala do meu chefe e pedi para ele passar aquele job para outra equipe.

— Como assim? — perguntou meu chefe.

— Conheço esse produto, não gosto dele nem do gerente dele — eu disse.

— Aqui não escolhemos clientes e produtos — disse meu chefe.

— A Talent não faz propaganda de cigarros — eu argumentei. Talent era uma das mais famosas agências de publicidade da época. Famosa inclusive por não fazer propaganda de cigarros.

— Aqui não é a Talent — disse meu chefe.

Percebi que não teria sucesso na continuidade do meu argumento.

— Ok, se puder passar esse job para outra equipe, eu agradeço.

No dia seguinte, meu chefe esfregou a verdade sobre a mentira na minha cara:

— Publicidade não é lugar para ter crise de consciência. Se os seus critérios éticos e morais são prioridade para você, então, você escolheu a profissão errada. Eu gosto do seu trabalho. Dessa vez vou passar o job para outra equipe. Mas é só dessa vez.

Uma semana depois, recebi um job de pinga. Ri sozinho. Só podia ser ironia do destino. Fui tentar escrever algo, mas quando olhava para a tela do computador só conseguia ver as merdas que havia feito embriagado. Pedir ao meu chefe para passar aquele job para outra equipe era o mesmo que pedir demissão. Então, me obrigava a escrever algo. Só que a mão não respondia. Dedos paralisados. Por fim, pisando em ovos, fui até a sala do meu chefe. Mostrei o job de pinga e disse:

— Pode passar esse job para outra equipe?

— Puta que pariu! — ele exclamou — Não acredito que está me pedindo isso!

Fiz cara de “por favor”, mas não convenceu.

— Pede demissão logo, porra! — meu chefe disse, lendo meu pensamento.

Em menos de dois anos de profissão, já estava farto de ser ventríloquo de sabonete, ventríloquo de macarrão, ventríloquo de bolacha, ventríloquo de pasta de dente, e naquele momento, ventríloquo de pinga. Adorava criação, mas não precisava usar minha criatividade para dar voz ao que os clientes queriam que eu dissesse, podia usá-la para dar voz ao que eu queria dizer.

Pedi demissão, porra!

Geração Coca-Cola – Legião Urbana

Sem o salário da publicidade, eu precisava de uma nova fonte de renda. Como tinha uma moto, decidi trabalhar de motoboy. Encontrei uma oferta de emprego no jornal, numa copiadora em Pinheiros. O dono da copiadora estranhou meu interesse, me achou super qualificado, mas foi com a minha cara e me contratou.

No primeiro dia de trabalho, fui enviado para retirar um serviço em um prédio que eu havia trabalhado como estagiário de redator. Quando cheguei no prédio, percebi que era exatamente o mesmo andar que havia trabalhado. A vida é mesmo um boomerang, vai e volta.

A principal atividade da copiadora era fazer cópias heliográficas. Hoje em dia isso nem existe mais por causa dos computadores, mas antes dos computadores, os engenheiros desenhavam seus projetos em folhas de papel vegetal. Esses desenhos eram copiados em uma enorme máquina que fedia amoníaco: a copiadora heliográfica. Meu trabalho era pegar os originais nas firmas de engenharia, levar para a copiadora e depois levar as cópias heliográficas para as obras.

Nunca fui tão feliz em um emprego como nesse. Primeiro porque eu não precisava pensar, só precisava andar de moto. Meu patrão dizia: — Vai lá! — Eu ia. Meu patrão dizia: — Volta aqui! — Eu voltava. Tudo muito simples e com zero esforço mental. Depois, porque eu adorava descobrir a infinidade de São Paulos que tem dentro de São Paulo. Quanto mais longe o destino de entrega das cópias, mais feliz eu ficava, pois mais descobertas eu teria pelo caminho.

Naquela época não existia GPS, então, usávamos um guia de papel grosso como uma lista telefônica. Aliás, lista telefônica deve ser outra coisa que não existe mais. Mas enfim, meu guia era todo rabiscado de caneta vermelha com as ruas que já havia feito entrega. Para mim, cada risco representava um território de São Paulo que eu já havia conquistado.

Fiquei nesse emprego por uns três ou quatro anos. Entrei quando era solteiro e no final já estava casado com minha primeira esposa. Eu ganhava um bom salário para ficar passeando de moto pela cidade. Estava ótimo! A única coisa que não gostava, era trabalhar em dia de chuva, devido o perigo de acidente de moto e a possibilidade de molhar os originais de papel vegetal. Mas nem chovia tanto assim, e com cuidado e muito plástico, os originais ficavam bem protegidos.

Não queria sair do emprego de motoboy por nada, mas saí. O primeiro motivo foi uma conversa com minha irmã. Ela sabia que eu estava feliz no emprego e não pretendia sair, mas ela também conhecia o meu potencial intelectual. Então, daquele jeito íntimo e direto que só os irmãos conseguem acessar a gente, ela me disse: — Já está bom de ficar passeando, né?

Eu estava de férias no paraíso e minha irmã estava me convidando a voltar para a guerra no inferno. Seu chamado tocou meu coração guerreiro, mas não o suficiente para me fazer abandonar as férias. Foi então que minha esposa, que era professora de inglês, me disse: — Por que não aproveita que sabe falar inglês e vai dar aulas que nem eu. Você vai trabalhar menos e ganhar mais.

Eu adorava andar de moto pela cidade, mas passava o dia inteiro no transito, debaixo de sol e chuva, e chegava cansado em casa. Era um cansaço bom, mas era cansaço e não me ajudava a escrever as coisas que queria. A ideia de ganhar mais e trabalhar menos me agradou. Eu teria mais tempo e energia para escrever. Então, com muito pesar, pedi demissão da copiadora e comecei a dar aulas de inglês.

Minha experiência como motoboy, me ajudou a melhorar como pessoa, pois me colocou em contato com o chão de São Paulo. Mas não me ajudou na criação da pedagogia da 1ficina, o que me ajudou nisso foi a experiência como professor de inglês.

Conto sobre isso a seguir.

Sou Boy – Magazine

Eu achava (e ainda acho) que os brasileiros deveriam primeiro aprender a ler e escrever em português, conhecerem as produções artísticas brasileiras, para depois se preocuparem com o que vem dos Estados Unidos. Então, mesmo sabendo falar inglês, não me agradava à ideia de ser professor. Mudei de opinião depois que fiz uma viagem para Machu Picchu.

Quando meu pai morreu, minha irmã decidiu sair da bolha executiva e fazer viagens alternativas. Uma dessas viagens foi para Machu Picchu. Fomos juntos. Aconteceu muita coisa interessante nessa viagem, mas o que importa contar aqui é o dia que acampamos no posto de apoio da trilha Inca.

Depois de um dia inteiro subindo a cordilheira dos andes e mastigando folha de coca, chegamos no posto de apoio da trilha Inca. A cidade de Cusco, de onde havíamos saído, é conhecida como o umbigo do mundo. O posto de apoio da trilha Inca era o centro do umbigo.

Durante o pôr do sol, num pátio do tamanho de uma quadra de vôlei, tinha gente do mundo inteiro interagindo e conversando. E todos no pátio estavam conversando em inglês. Eram pessoas de culturas diferentes, com valores e crenças diferentes, mas conversando como se fossem da mesma cidade.

Não sei se a língua inglesa é o esperanto que deu certo ou se é a estratégia de dominação norte-americana que deu certo. Mas naquele momento, vendo todos interagindo e conversando num mesmo idioma, baixei a guarda da resistência ao estrangeirismo e compreendi o bem que a aprendizagem do inglês podia proporcionar às pessoas e ao mundo.

Por isso aceitei dar aulas de inglês. Primeiramente, em empresas, depois, numa escola. E foi por causa do que aconteceu nessa escola que comecei a entrar na autociência.

Rodolfo saiu do Movimento Gnóstico antes de mim. Perdemos contato depois que ele saiu. Certo dia, nos reencontramos. Ele havia se tornado um palestrante motivacional e me convidou para assistir uma de suas apresentações. Eu fui. No dia seguinte, fiquei com vontade de fazer uma crítica àquele bolo de psicologia do vamulá com cobertura de american dream, mas não queria ser invasivo, então, criei o Método Matrix De Escolha Por Correspondência.

Escrevi minha crítica e coloquei dentro de um envelope vermelho. Peguei uma folha em branco e coloquei dentro de um envelope azul. Coloquei os dois envelopes dentro de um envelope maior e enviei pelo correio, junto com um bilhete: “Se quiser saber o que achei da sua apresentação, abra o envelope vermelho, se não quiser saber, abra o envelope azul”.

Algum tempo depois que o envelope chegou às mãos de Rodolfo, ele me ligou:

— Você está dando aulas de inglês, né?

— Sim, em empresas — respondi.

— Ótimo! — disse Rodolfo — Pode ir comigo até a Paulista?

— Para que?

— Para entrar na Matrix!

Dei risada e aceitei. Rodolfo me pegou em casa. Quando chegamos na Paulista, entramos em um prédio e assim que saímos do elevador, Rodolfo me apresentou para Xavier.

— Esse aqui é o meu amigo professor de inglês que inventou o Método Matrix De Escolha Por Correspondência — Rodolfo disse para Xavier.

Olhei ao redor e vi algumas salas de aula. Concluí que estava em uma escola. Mas era uma escola bem estranha, pois tinha um visual de parque de diversão.

— Adorei o Método Matrix De Escolha Por Correspondência — Xavier me disse — Quer trabalhar aqui?

Xavier também era palestrante e sabia tanto ser prolixo como ir direto ao ponto. Achei interessante a proposta, mas ainda não estava entendendo o que o Método Matrix De Escolha Por Correspondência tinha a ver com aquilo tudo.

— Por que eu? — perguntei

— Você é o escolhido — Xavier respondeu fazendo piada e plagiando o filme Matrix — Vamos assistir uma aula de apresentação da escola que você vai entender.

A aula de apresentação teve música, dança, fantasia, jogos e muita gritaria. Ou seja, foi uma zona. Uma hora de aula passou voando e os alunos saíram querendo mais.

— O futuro da aprendizagem é o RPG — Xavier me disse, pulando de tanto entusiasmo — Você sabe o que é RPG?

— Não faço a menor ideia.

— O Método Matrix De Escolha Por Correspondência é RPG, por isso quero que venha trabalhar aqui. Preciso de professores de inglês que não sejam professores, que sejam jogadores de RPG.

— Por quê?

— Para ensinar inglês jogando RPG.

Hoje sei o que é RPG e concordo com Xavier, o RPG realmente é o futuro da aprendizagem. Vou até além, é o futuro da psicoterapia também. Mas na época não fazia ideia do que Xavier estava falando. Era tudo muito novo e diferente. De qualquer forma, o salário que Xavier me ofereceu para entrar na loucura dele era maior que o salário das aulas nas empresas. Aceitei.

Anos depois, incorporei técnicas de RPG em alguns dos principais métodos de autoanálise que criei para 1ficina, entre eles, a egofonia.

A promessa da escola de Xavier era ousada: inglês em 8 semanas. A estratégia para realizar essa promessa era motivação, diversão, imersão, RPG e PNL (Programação Neurolinguística). Quer saber se funcionava? Em 8 semanas, não, mas pelo menos o aluno se divertia, aprendia um pouco, e caso não alcançasse a aprendizagem no prazo prometido, podia refazer o curso gratuitamente. Tem vários detalhes pedagógicos aí e não vem ao caso. O que importa é que foi assim que descobri a PNL e que foi por causa da PNL que voltei a me interessar por psicologia.

Os criadores da PNL, Richard Bandler, estudante de psicologia e John Grinder, professor de linguística, partem da premissa de que o cérebro funciona igual a um computador. A partir disso, fazem uma série de afirmações sobre o funcionamento mental conhecidas como pressupostos da PNL. O pressuposto mais famoso é o primeiro: o mapa não é o território. Os outros também são esclarecedores, mas esse primeiro me pegou. Não era a toa que era o primeiro.

Havia aprendido na Gnose que a realidade dos sentidos era ilusão. Tinha aprendido isso na faculdade também, na aula de filosofia com a Alegoria Da Caverna de Platão. Mas por algum motivo, a frase “o mapa não é o território” explicava melhor. Talvez porque durante o emprego de motoboy eu tinha que lidar com mapas e territórios o tempo todo.

Naquela época, a PNL ainda estava engatinhando no Brasil e havia poucos livros em português. Mas já havia internet, Google e pirataria. A fim de entender e aplicar a metodologia da escola de Xavier, estudei PNL e conversei com estudiosos do assunto. Ao longo desse caminho fui percebendo que a PNL servia para coisas mais importantes do que aprender inglês.

Depois de dois anos ensinando inglês na escola de Xavier, montei um curso de PNL que se chamava: Entrando na Matrix. Dei esse nome porque usava o filme Matrix como apoio pedagógico para explicar os pressupostos da PNL. O curso acontecia no final de semana quando a escola ficava vazia.

A apostila do curso Entrando na Matrix foi o primeiro conteúdo que produzi sobre autoconhecimento. Continha explicações sobre o funcionamento mental e exercícios de autoanálise. Nada igual ao conteúdo atual da 1ficina, mas de certa forma, um embrião.

O curso Entrando na Matrix não durou muito tempo. Contudo, por causa dele, fui cair em outro curso. E foi nesse outro curso que tive um despertar existencial.

Cérebro Eletrônico – Marisa Montes

Quando cheguei para o almoço de domingo, minha irmã me disse:

— Fiz um curso de autoconhecimento que você deveria fazer também. Chama-se Leader Training. É legal e pode te ajudar no seu curso de PNL.

— Quanto custou? — perguntei.

— Fica tranquilo, — ela disse — se você quiser fazer, eu pago para você.

Aceitei a oferta.

O curso aconteceu em um hotel fazenda durante um final de semana. A cada etapa tinha um exercício diferente, todos visando o autoconhecimento. No final teve um exercício de regressão.

Deitados em colchonetes, respiramos bem rapidamente até entrarmos em uma espécie de transe. Depois, o coordenador foi nos conduzindo na regressão da memória através de comandos: “Volte na sua juventude. Olhe o que está acontecendo. Volte na infância”. Etc.

Estava seguindo os comandos e visitando minhas memórias, quando me dei conta que podia ter acesso a qualquer informação sobre minha vida. Era como se eu fosse o Google de mim mesmo. Bastava eu querer saber algo e a informação vinha à consciência.

Embora ainda estivesse ouvindo o instrutor e soubesse que meu corpo estava deitado no colchonete, o exercício de regressão perdeu a importância, ficou em segundo plano. Eu era o Google de mim mesmo e podia saber o que quisesse. Não podia desperdiçar a oportunidade.

“O que mais quero saber?”, me perguntei. Pensei em uma questão da juventude e a resposta começou a chegar à consciência, como se fosse um download. Só que antes de chegar completamente, me dei conta que aquilo não era o que mais queria saber. Então, parei de pensar naquela questão e pensei em outra. A mesma coisa aconteceu, mas também parei antes de concluir, pois senti que aquilo também não era o que mais queria saber.

Fiquei pensando e parando algumas vezes, até que lembrei de uma experiência que costumava ter quando era criança. Uma experiência muito desagradável, mas fascinante.

Com 5 anos de idade, eu acordava na cama e sabia que existia. Uma vez consciente da minha existência, com curiosidade infantil, me perguntava: “O que será o oposto disso?”. Eu não conhecia a palavra “existência” ainda, mas já sabia que tudo tinha oposto. Então, mesmo sem conhecer a palavra e o conceito de existência, queria saber o que era não-existir.

Eis o início do meu filme de terror. Eu me perguntava: “O que será o oposto disso?” e meu corpo começava a se desintegrar. Era como se eu fosse sugado por um aspirador existencial. Meus ossos gemiam de medo. Então, para desligar o aspirador, eu descia da cama, saía do quarto e procurava alguém para conversar, me distrair e me fazer esquecer da pergunta.

Isso aconteceu muitas vezes, até que de tanto sair do quarto e buscar distração, acabei me distraindo completamente e nunca mais lembrei dessa experiência. Mas naquele dia, deitado no colchonete, fazendo a busca no google de mim mesmo, essa cena voltou e senti que era isso que mais queria saber: “O que será o oposto de existir? O que será não-existir”.

Fiz a pergunta e imediatamente voltou o aspirador existencial. Só que dessa vez não tive medo. Não sei porque, mas o medo não aconteceu. Então, decidi que daquela vez eu iria até o fim, mesmo que fosse a morte. Deixei o aspirador me sugar completamente. E, de repente: puft! Deixei de existir.

Eu deixei de existir, mas tudo começou a existir dentro de mim, inclusive eu, ou seja, meu corpo. Isso que estou descrevendo, embora pareça impossível, é o que está acontecendo com você agora mesmo, só que você não está consciente disso. Eu também não estava, mas fiquei naquele instante. O oposto da existência era eu, não-existência, nada, vazio.

Pense no espaço como não-existência, nada, vazio. Sendo assim, me diga: tudo que existe contém o espaço ou está contido no espaço? Está contido no espaço, não é? O que eu sou, o que você é, o que todos os seres são, é como o espaço, não existe, é nada, vazio. Contudo, é óbvio que o espaço existe, caso contrário, onde estariam todas as coisas? Analogamente, embora eu, você e todos os seres não existam (formalmente falando), somos a base de tudo que existe.

Para ser mais prático no entendimento da metafísica do ser, vou te dar um exercício. Olhe para sua mão. Você sabe que o observador da sua mão é você e que você está observando sua mão através da visão. Agora considere que o observador não é você, é o espaço. Continue olhando para sua mão, mas considere que é o espaço que está vendo. Considere que o espaço é um olho capaz de enxergar. Sendo que o espaço não existe: quem está observando sua mão?

EUreka? Se ainda não, tudo bem, o que não existe não pode deixar de existir, pois não existe (kkkkkk) Então, em algum momento, você irá despertar da pegadinha materialista e ficar consciente de si. Vou prosseguir com o relato. Ah! Para mais explicações sobre a metafísica do ser, você pode ler os livros pedagógicos da 1ficina que estão disponíveis gratuitamente no site.

A primeira coisa que a EUreka existencial fez em mim, foi matar o equívoco da meditação. Eu havia aprendido na Gnose que meditar era não pensar. Eu havia passado anos frequentando a sala de meditação da escola e tentando não pensar. Só que eu estava em estado meditativo e continuava pensando. Tanto que o instrutor veio conversar comigo e conversei com ele.

— Onde você está? — o instrutor me perguntou.

— Estou em mim — respondi — E está ótimo aqui.

Ele riu e respondeu:

— Aproveita que daqui a pouco vai acabar.

Ou seja, durante todo o tempo do transe (vamos chamar assim) eu sabia que estava deitado no colchonete, fazendo um exercício, no curso de autoconhecimento, numa sala, num hotel, etc. Eu sabia porque pensava nisso e tinha consciência desses pensamentos.

Não posso falar pelos outros professores e escolas, mas suponho que o ensinamento “meditar é não pensar”, tem o objetivo de explicar que consciência não é pensamento. Se for isso, acho que é uma explicação infeliz, pois mais atrapalha do que ajuda.

A segunda coisa que a EUreka existencial fez em mim, foi me convocar para o trabalho de esclarecer esse equívoco da meditação. Muitas pessoas deviam estar presas nesse equívoco assim como eu estive e senti que tinha o dever moral de oferecer um esclarecimento sobre isso.

A terceira coisa que a EUreka existencial fez em mim, foi me encher de paz. Sendo não-existente, eu existia eternamente. Então, como diz no Bhagavad Gita, espadas não podem me cortar, o fogo não me queima, a água não me molha e o vento jamais me resseca.

A quarta coisa que a EUreka existencial fez em mim, foi me esclarecer que o caminho para verdade não é através da busca da verdade e sim através do encontro com a mentira. O que me atrapalhava entrar no estado meditativo não era verdade era mentira de que meditar é não pensar.

— Prepare-se! — o instrutor me disse — É hora de voltar.

Meu corpo era um fio de alta tensão, algo como eletricidade fluía por ele da cabeça aos pés.

— Voltando! Voltando! Voltando! — disse o instrutor.

Fazer um camelo passar pelo buraco de uma agulha explica bem o que significou voltar. Conforme fui voltando, minha consciência foi sendo espremida. Muita informação foi esquecida.

Por fim, voltei a existir.

A Base Do Supremo – Moreno Veloso

Depois do despertar existencial, eu tinha um trabalho a fazer: explicar sobre meditação. Nessa época, a internet estava em plena expansão e surgiram os blogs. Criei um blog chamado Pegando Buda Para Cristo onde publicava cartas destinadas ao Buda. Não tenho nenhum texto guardado dessa época, mas naveguei na internet e encontrei esse:

Olá Buda! Um amigo me pediu que lhe ensinasse a ser criativo. Nem sempre se pode ser Deus, mas nesse dia tive a chance. Eu disse ao meu amigo: “Erre!”. Ora, Deus falou para Adão não comer a maçã, mas se quisesse realmente evitar a mordida, bastava ficar calado. Vai falar para uma criança não colocar o dedo na tomada! A recomendação divina foi a própria serpente. Tratando-se de conhecimento novo, para o bem ou para o mal, errar é a única resposta certa. Basta olhar para os gênios da humanidade. Gênio só vira gênio depois que erra. O problema é que todo o mundo quer acertar, daí vira bolo de caixinha. A receita do bolo novo só quem conhece é o erro. João, por exemplo, errou no jazz e acertou a bossa nova. Jorge errou na bossa e acertou o sambarroque (com dois erres). Arre! Meu amigo queria acertar no erro. Com o perdão da amizade: fodeu! Não dá para errar acertando. Eis o dilema das escolas. Professor só consegue ensinar o certo, não consegue ensinar a errar. Errar não é ensinável, nem aprendível. Por isso é misterioso, milagroso e divino. Quem gosta do certo é o Diabo, reacionário. Deus, criativo, aprecia mesmo um belo erro. Lúcifer e Adão que o digam.

Os textos destinados ao Buda se espalharam pela internet. O Blog começou a ter seguidores. Então, criei uma nova série chamada Matrix Zero. Eu sabia de cor e salteado todos os diálogos do filme Matrix, então, tive a ideia de traduzi-los e adaptá-los para questões existenciais. Não tenho nenhum texto da série Matrix Zero comigo e também não encontrei nenhum na internet, mas eram bem interessantes e fizeram mais sucesso do que as cartas para o Buda.

Por conta do blog Pegando Buda Para Cristo, acabei sendo adicionado naqueles grupos do yahoo que mencionei no primeiro capítulo. Em alguns fui adicionado, em outros, eu mesmo entrei. Um dos grupos que entrei se chamava ciência list (c-list).

Não contei nada da minha infância até agora, mas sempre fui fascinado por ciências. Meu fascínio era mais especificamente por eletricidade e magnetismo. Um dos meus brinquedos favoritos era um laboratório de ciências. Tinha experiências com ímãs, com motores e com substâncias químicas. Eu prestei vestibular na USP para engenharia eletrônica. Não passei, mas se tivesse passado, provavelmente teria me tornado um cientista.

Depois do despertar existencial, me deu uma curiosidade de estudar a natureza da matéria. Me lembrei que a equação de Einstein, e=mc2, explicava a relação entre massa, energia e velocidade da luz, mas não explicava cada um dos termos. Precisava conversar com alguém que pudesse me explicar. Foi por isso que entrei no grupo da ciência list.

O grupo da ciência list era formado por professores e alunos de ciência do Brasil inteiro. A maioria dos integrantes eram cientistas da área de física, então, rapidamente arranjei vários interlocutores. Minha primeira manifestação no grupo foi algo assim: “Sou leigo em física e estou querendo entender a equação de Einstein, e=mc2, alguém pode me ajudar?”.

A ajuda veio prontamente. Qual professor não gosta de encontrar um aluno faminto por conhecimento? Comecei a conversar com os professores de física da lista. Como era leigo no assunto, podia fazer as perguntas mais básicas. Como as perguntas mais básicas são sempre as mais difíceis de responder e as mais interessantes de estudar, ganhei o apreço dos professores.

Em pouco tempo estava sendo elogiado pelos professores da lista e citado como exemplo de aluno. Alguns dos professores eram excelentes e meu entendimento de física foi crescendo rapidamente. Tudo ia muito bem, entre eu, aluno, e eles, cientistas e professores, até que meus questionamentos me levaram à questão da medição.

Quando entrei no grupo, disse estar interessado em entender a equação de Einstein, mas não disse que achava estar faltando algo fundamental na equação: a consciência. Foi por isso que meus questionamentos me levaram à questão da medição.

Eu estava querendo saber qual era o alicerce da matéria, fosse energia, massa ou o que fosse. E conversando com os cientistas, entendi que o alicerce era a medição, pois era pela medição que tudo começava. Então, não me restava outra pergunta senão: o que é medir?

E foi assim que de aluno exemplar, despenquei para chato, cricri e pernilongo. Embora a pergunta “o que é medir?” seja simples e alicerce de toda a ciência, é uma pergunta impossível de ser respondida cientificamente, porque medir não é um processo científico, é um processo autocientífico, ou seja, é um processo consciencial.

Medir é observar. Quem observa que uma caneta tem 15 centímetros não é a régua, é o usuário da régua. A régua é apenas um instrumento que o usuário usa para executar um processo que acontece nele e não na régua. Esse processo é a cognição (consciência). Isso era óbvio para mim, porém, para o meu espanto, era ignorado pelos cientistas.

Teve uma vez que abri um tópico de debate com a seguinte pergunta: quanto é um?

— Ora, um é um — eles diziam.

— Sim, mas quanto é um?

— Um é um — eles repetiam.

— Sim, mas quanto é um? — eu insistia — Dois é um mais um. Três é um mais um mais um. Quatro é um mais um mais um. Minha pergunta é: quanto é um?

— Um é um — eles repetiam.

Quanto mais eu questionava a questão da medição, mais os professores, que antes me elogiavam, passavam a me dar sermão e carteirada:

— Vai estudar física, rapaz! Ciência não é filosofia! Você está viajando na maionese — eles diziam e eu apertava ainda mais a ferida.

Após me desqualificarem de cabo a rabo e me jogarem na fogueira de tubos de ensaio, me expulsaram da c-list. Para mim, ciência era uma tocha acesa no escuro buscando a verdade a qualquer preço. Então, fiquei muito decepcionado com a ciência. Mas depois entendi que aquele comportamento era dos cientistas e não da ciência.

E mais uma vez ficou evidente que o caminho para a verdade não estava na busca pela verdade, mas no encontro com a mentira. No caso da ciência, no encontro com o materialismo.

Essa música eu fiz para os caras da c-list:

Ele tem RG e brevê
É doutor e PHD
Anel de bacharel e você
Ainda quer discutir com o cara

Pois bem, fique você sabendo, ninguém
Sobre tudo, contudo e porém
Tem conhecimentos além
Para poder discutir com o cara

Mas se arrancarem o pingo do “i”
Quebra as pernas e vira saci
Já não sabe o valor de pi
Não sabe onde põe a cara

Pois quem sabe já não pensa
E quem pensa já não sabe
E só quem sabe a diferença
Só quem sabe, sabe

Vivi minha infância inteira em São José Do Rio Preto. Mudei para São Paulo quando tinha 13 anos. Quer dizer, não mudei, fui arrastado pelos meus pais completamente a contragosto. Eu amava Rio Preto e odiei São Paulo. Para quem vem de outro sonho feliz de cidade, São Paulo é mesmo o avesso do avesso do avesso do avesso. Aprendi a amar a Paulicéia Desvairada, mas ainda assim, era tudo longe, caro, demorado, e principalmente, cheio.

Em 2005, eu havia separado da minha primeira esposa e não havia mais motivo para continuar doando sangue para São Paulo. Decidi alugar meu apartamento e mudar para o sítio da minha avó, perto de Rio Preto. Minha despesa imobiliária se transformaria em fonte de renda, eu ficaria hospedado na tranquilidade do ambiente rural e faria companhia para minha avó que tinha ficado viúva recentemente. Era o plano perfeito. Aluguei meu apartamento e fui.

No começo, me dediquei a aprender como tudo funcionava no sítio. Eu andava para cima e para baixo com o caseiro como se fosse um estagiário. Aprendi a cortar, moer e alimentar as vacas com napier (espécie de capim). Aprendi a alimentar as galinhas com milho, alimentar os porcos com lavagem e farelo, recolher ovos, tirar leite, carpir o pomar, entre outras atividades. No tempo vago, tocava violão e escrevia para o Blog.

De vez em quando, minha mãe vinha visitar a mãe dela (minha avó) e seu filho (eu). Numa dessas vezes, ela disse que iria viajar para o exterior e perguntou se queria que trouxesse algo. Nessa época, a importação não era fácil e barata como hoje. Pedi que me trouxesse uma filmadora portátil. Passado um tempo, ela voltou de viagem e me entregou a filmadora.

Um amigo de São Paulo havia me falado de um site na internet chamado youtube. Segundo ele, o tal do youtube iria revolucionar o mundo, pois qualquer um podia ter seu próprio canal de televisão dentro deste site. Assim que ganhei a filmadora, decidi fazer um teste. Fixei a câmera num pedestal e gravei meu primeiro vídeo falando sobre meditação. Depois carreguei no youtube.

A primeira vez que ouvi essas duas palavras “significante” e “significado” foi na faculdade de comunicação, numa matéria que todo mundo levava bomba, chamada semiótica. Quase levei bomba também. A professora explicava, explicava, mas não entrava na minha cabeça. Não entendia porque tinha essa matéria chata e inútil no curso de comunicação. Quando tive o despertar existencial, os termos “significante” e “significado” ressurgiram na minha cabeça com total sentido.

Naquela época, havia muito pouco conteúdo sobre meditação no youtube, menos ainda em português, e até hoje, nenhum explicando meditação através dos conceitos de significante e significado. O vídeo foi muito bem recebido e teve muitas visualizações, mas pelos comentários, percebi que era difícil para algumas pessoas entender a meditação através dos termos da semiótica. Para deixar mais simples ainda, usei a pedagogia do sei que sei.

Gravei vários vídeos nessa época, e todos, de uma forma ou de outra, explicavam a meditação. O vídeo abaixo foi o campeão de audiência do canal, creio que por causa da piada.

Por motivos pedagógicos, quando comecei com o trabalho da 1ficina, retirei todos os vídeos dessa época do youtube. Coloquei alguns aqui no livro para fins de ilustração e registro histórico.

Não tinha internet no sítio, então, para ler os e-mails recebidos eu precisava ir de bicicleta até uma LAN House na cidade mais próxima, Mirassol. Demorava mais de meia hora para ir do sítio até Mirassol, mas eu adorava o percurso. Enquanto pedalava pela rodovia vicinal, ia observando os sítios, o gado, as plantações e pensando na vida.

Quando chegava na LAN house, conectava meu notebook na internet, abria um programa de gerenciamento de e-mail, o Outlook, fazia o download de todos os e-mails, depois voltava para o sítio. Eram dezenas de e-mails para responder. E quanto mais e-mails tinha para responder, mais diminuía meu trabalho braçal no sítio.

Um dia, quando abri o Outlook, tinha um e-mail de um leitor do blog Buda Pra Cristo com um texto anexo. O leitor me sugeriu ler o texto. Disse que iria gostar porque era parecido com as coisas que eu escrevia. Abri o texto e comecei a ler. Se tratava da transcrição de uma palestra com perguntas e respostas. Minha reação foi pensar assim: “Esse palestrante manja dos paranauê!”.

Respondi ao leitor dizendo que gostei do texto e perguntei quem era o palestrante. O leitor me disse que era o coordenador do Espiritualismo Ecumênico Universal e me adicionou em um grupo do Yahoo chamado EEU. Comecei a acompanhar as postagens e fiquei cada vez mais simpático com o que o palestrante dizia sobre a experiência humana.

Até que um dia, ao invés de uma transcrição, o palestrante enviou o áudio da palestra. Quando fui escutar, percebi que havia algo diferente com a voz dele. Ele falava trocando o “s” pelo “x” e não pronunciava o “r”. Perguntei no grupo porque o palestrante tinha aquele jeito estranho de falar. Me explicaram que era um Preto Velho de umbanda falando através de um médium.

Preto velho é uma entidade de umbanda, hoje sei disso. Sei também das diferenças e semelhanças entre espiritismo e umbanda. Mas nessa época, minha cultura sobre o assunto era zero. Umbanda para mim era macumba, coisa do capeta. Então, quando ouvi que o palestrante era um capeta, fiquei mais espantado ainda, pois ele tinha o discernimento de um Buda. Sócrates e Krishnamurti ficariam com inveja da sua maiêutica.

Passado um tempo, fui para São Paulo visitar minha mãe. Quando estava lá, surgiu um convite no grupo para um encontro presencial em São Paulo, com o Preto Velho do EEU. Anotei o endereço e fui. O encontro aconteceu na casa de um dos participantes do EEU, no bairro da Saúde. Quando cheguei no local, já havia um punhado de pessoas aguardando.

— Olá! Sou o Ferrari, — eu disse — da lista do EEU.

— Você é o cara da Matrix?

Descobri que muitos integrantes da lista liam e gostavam dos textos do Matrix Zero. Fomos para o quintal, sentamos em roda e começamos a conversar. Passado algum tempo, chegou Firmino, o médium do Preto Velho. Ele morava perto de Piracicaba e viajou direto para o encontro. Fomos apresentados e ele também me perguntou sobre os textos da Matrix.

— Alguns textos são muito parecidos com os ensinamentos do EEU — Firmino me disse.

— É porque alguns são adaptações dos textos do EEU — eu respondi.

Ele riu da minha confissão de plágio.

Quando deu o horário, Firmino acendeu uma vela, fez sinal da cruz e incorporou Pai Joaquim de Aruanda, o Preto Velho que coordenava o trabalho do EEU. Foi a primeira vez que vi uma incorporação. Estranhamente, me senti encontrando um velho amigo. Joaquim se virou apoiando as mãos no joelho, sentou numa cadeira e falou o que sempre falava no início das conversas:

Não lembro qual foi a primeira pergunta que fizeram, mas lembro que foi feita em tom de conversa de botequim. Achei aquilo sensacional. Não precisava de formalidade, fluflu e chantilly espiritualista para conversar com Joaquim, ele era satsilva que nem eu.

Fui o participante que mais fez perguntas nesse dia. Eu perguntava e Joaquim respondia em linguagem espiritualista ecumênica, usando palavras como Deus e espírito. Eu traduzia as palavras dele nas minhas e seguia conversando. Quando a vela, o café e o cigarro já estavam acabando, fiz uma pergunta usando o termo budista “bodhisattva”. E Joaquim respondeu:

— Ixo memo, fiu, boi de piranha!

Todos riram, eu inclusive. Mas se tivesse entendido mesmo a piada, devia ter chorado. No futuro, Joaquim iria me incentivar a ser colaborador do trabalho do EEU. Eu teria que ir na frente, abrindo caminho para boiada e seria comido pelas piranhas da hipocrisia. Não sei se Joaquim teve essa intenção ao fazer a piada, mas foi uma profecia.

Inventei de mandar cartas para o Buda, ele veio responder e me pegou para Cristo.

Cativeiro acabou – Seu Marujo

Uma vez por ano, no mês de dezembro, Joaquim pedia para os participantes do EEU organizarem uma festa para Nossa Senhora Da Regeneração, que, segundo ele, é a padroeira do trabalho do EEU. Em 2007 a festa seria em São Carlos. Eram dois dias de festa, sábado e domingo. No sábado, falavam os palestrantes pés de chinelo, no domingo, a palestra era do Joaquim.

Joaquim pediu para que os organizadores da festa me incluíssem entre os palestrantes do sábado. Uma moça entrou em contato comigo. Disse que eu podia ficar hospedado na casa dela, era só eu chegar no sábado de manhã. Perguntei qual deveria ser o tema da minha palestra, uma vez que não era espiritualista. Ela disse que podia ser Matrix.

Preparei uma super apresentação no PowerPoint. Meu objetivo era desfazer o equívoco de que existe um mundo espiritual e um mundo físico separados, ou seja, desfazer o equívoco do dualismo. Em um dos slides usei o código-fonte da Matrix sobreposto a uma foto de paisagem física justamente para explicitar isso.

Todo artista tem que ir aonde o povo está. Eu acreditava (e acredito) nisso e estava dando o primeiro passo, só que entre o povo e eu ainda havia um abismo de distância chamado sofrimento. Não se dá aula de metafísica para quem está berrando de dor. Minha palestra foi inútil para a plateia. Eu fui demasiado espiritual e a plateia era demasiada humana.

A festa aconteceu em um galpão usado como terreiro de umbanda. No sábado a noite teve uma gira light, sem tratamento de desobsessão e essas coisas. Várias entidades vieram incorporar nos médiuns para participar da festa. Eu nunca havia participado de uma gira antes. Adorei as músicas e os rituais. Conversei com caboclos e pretos velhos.

Fiquei até o fim da gira, porque a moça que estava me recepcionando, Jeanne, era encarregada de fechar o portão. Assim que tudo terminou, ela me levou para casa dela, com o marido e o Firmino. Quando chegamos, ela preparou um café e começamos a conversar. No meio da conversa, Firmino disse que Joaquim queria conversar também.

Jeanne acendeu uma vela, trouxe o café, e Firmino incorporou Joaquim.

— Salve, né? — disse Joaquim.

Joaquim conversou primeiro com Jeane, sobre a festa. Depois com o marido dela, sobre o trabalho de umbanda. E por fim, disse que queria conversar comigo.

— Você já entendeu, né, moço? — Joaquim me disse — Mas não tem com quem conversar essas coisas, por isso, fica acordado na cama pensando no absurdo que é todos acharem que o absurdo da existência é normal.

Claro que ele não falou exatamente assim, nem com esse português de telejornal. E por fim, ou Joaquim era muito bom de chute, ou assistia o Big Brother do sítio da minha avó. De fato, no silêncio da noite rural, eu ficava pensando no absurdo da existência e no adormecimento da coletividade humana. Joaquim continuou:

— Seu trabalho lá no www é muito bom e você ajuda muitas pessoas escrevendo. No www a informação espalha que nem fogo, mas é fogo de palha, tem pouco efeito.

Por “www”, Joaquim estava se referindo a internet.

— Por que tem pouco efeito? — perguntei.

Joaquim usou a metáfora do atacado e do varejo, da qual nunca mais me esqueci.

— O trabalho no www é iluminação por atacado, atinge muitas pessoas, mas é superficial. Para mudar a vida das pessoas de verdade, você precisa trabalhar no varejo. Pegar na mão de cada pessoa e conduzi-la passo a passo pelo entendimento, como se fosse uma criança.

Porra! Eu estava indo muito bem obrigado com meu trabalho de iluminação atacadista. Contudo, parecia que Joaquim tinha mais coisa para dizer, então, não fiz nenhuma objeção, nem comentário, apenas continuei ouvindo.

— Continue escrevendo no www, — disse Joaquim — mas comece a trabalhar com as pessoas presencialmente também, em grupos.

Joaquim jogou a bomba e foi embora. Pegou o ônibus dos pretos velhos e voltou para Aruanda. Era típico dele fazer isso.

No dia seguinte, assisti à palestra de Joaquim e retornei pensativo para o sítio.

Nos Bailes Da Vida – Milton Nascimento

Depois de um ano e meio morando no sítio, ou eu terminava o relacionamento com a namorada que deixei em São Paulo, ou voltava. Assim que o inquilino saiu e deixou o apartamento vazio, voltei. Chamei minha namorada para vir morar comigo e me casei pela segunda vez.

Estava decidido a experimentar a sugestão do varejismo. Comecei a marcar encontros presenciais. Muitas pessoas se interessaram. Como não tinha dinheiro para alugar uma sala de encontros e queria que o acesso fosse gratuito, marcava os encontros no parque do Ibirapuera, em frente ao planetário, mais especificamente, em cima da rosa-dos-ventos.

Para que os encontros não ficassem só palestrinha de guru, resolvi criar um exercício vivencial que simbolizasse como é viver em estado meditativo. Esse exercício se chamou: bici-vida-cleta.

Comprei um capacete de bicicleta. Colei no topo do capacete uma peça em cruz, tipo um conector de cano. Comprei uma vareta bem grande, que passava por esse conector. Uma vez colocado o capacete, a vareta podia ficar em duas posições, norte-sul (costa-rosto), ou leste-oeste (ombro-ombro).

Essa era a parafernália principal. A outra parte do exercício era pedir para que os participantes escrevessem o que mais desejavam e o que mais temiam em um pedaço de papel. Depois de escreverem, conversávamos a respeito. Depois da conversa, um de cada vez colocava o capacete.

Era aí que começava o simbolismo. Primeiro eu colocava a vareta na posição norte-sul (costa-rosto). Então, com um pregador de roupa, prendia o pedaço de papel com o desejo na ponta da frente (rosto) e o pedaço de papel com o medo na ponta de trás (costas).

Sabe essa imagem do burro com uma vara nas costas correndo atrás da cenoura?

Era exatamente isso que acontecia. Eu pedia para a pessoa sair correndo e alcançar seu desejo, e, enquanto isso, eu ia atrás chutando a bunda dessa pessoa. kkkkk… Imaginou a cena? Acrescenta que isso acontecia no domingo, com o parque do Ibirapuera lotado.

O que as pessoas não fazem para atingir a iluminação, não é mesmo? Hehehe… Mas eu não chutava a bunda das pessoas por maldade, estava representando o medo na ponta de trás da vareta. E claro, a vareta era grande, então, as pessoas corriam e nunca alcançavam o desejo.

Após todos passarem pela mesma vergonha e frustração, eu retirava a vareta da posição norte-sul (costa-rosto) e a colocava na posição leste-oeste (ombro-ombro). Daí, pedia para os participantes caminharem calmamente pelo parque, tendo o desejo e o medo presentes, mas sem o equívoco de acreditar que felicidade é alcançar o desejo e fugir do medo.

Apliquei essa dinâmica várias vezes em São Paulo e outras cidades. Os participantes estranhavam no começo, mas depois entendiam e ficava tudo certo. Criei e apliquei outras dinâmicas também e isso foi me mostrando os benefícios da iluminação no varejo.

Sem Parar – Gabriel o Pensador

Certa vez, pensei em colocar a música Dia Branco no começo do encontro.

A letra diz assim: “Se você vier / Pro que der e vier / Comigo / Eu lhe prometo o sol / Se hoje o sol sair / Ou a chuva / Se a chuva cair / Se você vier / Até onde a gente chegar / Numa praça / Na beira do mar / Num pedaço de qualquer lugar / Nesse dia branco / Se branco ele for / Esse tanto / Esse canto de amor / Se você quiser e vier / Pro que der e vier / Comigo”.

Queria fazer uma espécie de Método Matrix De Escolha Por Correspondência. Primeiro eu perguntaria aos participantes se estavam abertos ao que der e vier. Daí, tocaria a música. Enquanto a música estivesse tocando, cada um tomaria sua decisão. Quem estivesse aberto, permaneceria ali. Quem não estivesse, era só ir embora, sem problemas.

Só que no meio do gramado do Ibirapuera não tem tomada para ligar aparelho de som. Então, fui na rua Santa Efigênia, tradicional reduto de lojas de eletrônicos em São Paulo, em busca de uma solução. Encontrei uma caixa amplificada com bateria interna recarregável. Eu podia ligar um MP3 player na caixa e estava resolvido.

Mas ainda faltava um jeito de levar a caixa amplificada até o parque do Ibirapuera. A solução foi comprar um carrinho de mão, parecido com carrinho de feira, mas aberto na frente.

No domingo, depois do almoço, chamei minha esposa para irmos juntos ao encontro. Ela disse que não queria andar até o Ibirapuera debaixo daquele sol, que não estava a fim de conversa metafísica, ser ou não ser, quem veio primeiro, o ovo ou a galinha, e que iria ficar em casa. Coloquei a caixa amplificada em cima do carrinho e fui sozinho.

Foram três quilômetros puxando o carrinho debaixo de um sol de rachar mamona. E mais! Da entrada do parque até o planetário, que era o ponto de encontro, tinha mais um quilômetro.

Cheguei no planetário ensopado e resmungando. Cuspi meia dúzia de marimbondos, comprei uma água gelada e fiquei esperando os participantes chegarem. Quando deu o horário, ninguém chegou. Passaram-se 10 minutos e ninguém chegou. Passaram-se 20 minutos e ninguém chegou. Passaram-se 30 minutos e ninguém chegou. Passou uma hora e ninguém chegou.

Daí, caiu a ficha! Eu havia criado aquele exercício para mim mesmo. Liguei a caixa de som e coloquei a música para tocar. Quando terminou, respondi sim e voltei puxando o carrinho, sem reclamar.

Dia Branco – Roberta Sá

— Faaaala, seu puto! — disse a voz no telefone.

— Reinaldo? É você? — respondi espantado.

— Sou eu, caraaaalho!

— Porra, mano! Você desapareceu!

— Tô morando em São Paulo, perto da sua casa. Já falei com o Jonas. Foi ele que me deu seu telefone. Vamos voltar com a banda?

Na adolescência, Reinaldo, Jonas e eu tínhamos uma banda chamada “Bicho Preguiça”. Era uma banda de rock com letras engraçadinhas, tipo Ultraje A Rigor. Eu não tinha intenção de voltar a tocar rock. Eu nem tinha mais guitarra. Havia abandonado o rock e comecei a tocar e compor músicas de MPB no violão. Mas Reinaldo e Jonas eram grandes amigos. Decidi experimentar.

Uma semana depois, estávamos ensaiando num estúdio perto do metrô Santa Cruz. Retomamos com a banda no mesmo estilo rock. Reinaldo na bateria, Jonas no baixo, e eu na guitarra e nos vocais. As letras ainda eram engraçadinhas, porém, um humor mais maduro. Acrescentamos um guitarrista solo e batizamos a banda com a expressão favorita de Reinaldo: “Seus Putos”.

A história da banda Seus Putos é a história de três grandes amigos e um agregado, um dia pretendo contá-la, mas não vem ao caso nesse livro. Então, vou contar apenas a parte relacionada com a história da criação da 1ficina.

Um dia, depois de um ensaio, notei que Jonas estava deprimido. Aquilo era incomum, pois na adolescência, ele era o animador do velório. Fiquei impressionado e quando cheguei em casa fiz essa música para ele:

Se a comida está sem sal
Se enfiou o pé na jaca
Se alguém chutou o pau da sua barraca

Se ele não foi honesto
Antes que você exploda
Control, alt, del e o resto que se foda

Deixa pra lá, meu irmão
Deixa pra lá, meu velho
Deixa pra lá, aperte o botão
Não leve tão a sério

Essa era a primeira parte da versão original. Musicalmente falando, tinha um compasso vazio, sem letra, entre uma estrofe e outra. Para ilustrar o compasso vazio vou colocá-lo entre parênteses na letra. Era assim:

Se a comida está sem sal
(compasso vazio, sem letra)
Se enfiou o pé na jaca
(compasso vazio, sem letra)

Quando fui mostrar a música para banda, toquei sozinho na guitarra com o compasso vazio, sem letra. Na segunda vez, fomos tocar juntos, com bateria e contra baixo. Na hora do compasso vazio, sem letra, Reinaldo gritou: “foooooda-se!”. E a música ficou assim:

Se a comida está sem sal
(foooda-se!)
Se enfiou o pé na jaca
(foooda-se!)

Felicidade é viver bem em qualquer circunstância, mesmo em circunstâncias infelizes. Era isso que explicava o tempo todo usando diferentes pedagogias. Então, na hora que Reinaldo gritou “fooooda-se”, tive uma EUreka pedagógica. Eu podia dizer que felicidade era ligar o foda-se para felicidade. Comecei a escrever sobre isso e, tempos depois, publiquei meu primeiro e único livro de autoconhecimento impresso em papel: “Fooooda-se! – O botão da felicidade sem esforço”.

Segue um trecho do livro:

Já acreditamos que a terra fosse o centro do universo. Essa crença se chamou Geocentrismo. Baseada nela, Ptolomeu desenvolveu um dos primeiros modelos de sistema planetário. No modelo de Ptolomeu, os planetas ao redor da terra dançavam o samba do crioulo doido, faziam zigzag, davam piruetas e escambau. Mesmo assim, Ptolomeu insistia que a terra era o centro do universo. Nicolau Copérnico, vendo o modelo de Ptolomeu, que parecia um circo de horrores, deu início ao apocalipse do geocentrismo. Copérnico se perguntou: “E se a terra não for o centro do sistema? E se colocarmos o sol no centro? O que será que acontece?”. Para o seu próprio espanto, tudo começou a se encaixar perfeitamente. As contradições do sistema geocêntrico começaram a desaparecer uma a uma. Os planetas pararam de dar cambalhotas e começaram a bailar em elipses ao redor do sol. Nosso sistema de felicidade também parece um circo de horrores. Então, pergunto: “E se a felicidade não for o centro da felicidade? Se ligarmos o foda-se no centro do sistema? O que será que acontece?”

Através da pedagogia do foda-se, busquei tratar da questão da felicidade mexendo no conceito de felicidade, propondo um tipo de felicidade que incluía o sofrimento ao invés de excluí-lo. Foi bom experimentar essa pedagogia, mas quando comecei com o trabalho da 1ficina, abandonei-a completamente. Uma coisa é ligar o foda-se dentro de si, num ato de lucidez, para se desligar do que os outros e nossos condicionamentos mentais nos impoem. Outra coisa, completamente diferente, é mandar os outros se foderem.

Durante minha experiência de guru do foda-se, notei que as pessoas não ligavam o foda-se, ligavam o vai se fuder. Não usavam o foda-se para viver em paz, mas para viver em rancor e revolta. Outro equívoco era ligar o foda-se para o desejo, negando a própria vontade, tipo “foda-se, nada importa!”. Pessoas assim, também não usavam o foda-se para viver em paz, mas para viver em apatia e depressão.

Por isso liguei o foda-se para a pedagogia do foda-se.

Durante um ano, não contei para ninguém que estava participando do EEU. Não queria misturar a pedagogia teísta de Joaquim com a minha. Também não queria incentivar a idolatria que as pessoas têm por espíritos. Por fim, não queria perder tempo explicando a questão da mediunidade, que no final das contas, é inconclusiva.

Mas Joaquim começou a me cozinhar em banho-maria para me aliciar no trabalho do EEU. Primeiro, me pediu para dar palestras mensalmente no grupo de São Carlos. Depois, me pediu para organizar a festa de Nossa Senhora de 2008, em São Paulo. E, rotineiramente, me levava com ele para viajar quando tinha palestra.

Em pouco tempo, de tanto Joaquim citar meu nome no grupo, deixei de ser o cara da Matrix e me transformei no Moxo Conome DuCarro. Joaquim não chamava ninguém pelo nome. Todo mundo tinha um apelido. Chorona do Portão, Pena Branca, Dotô, Gordo, Galego, Véio, Anjinho, Moça do São Carlos, e eu, por motivos óbvios, ganhei a alcunha de Moxo Conome Ducarro.

Por fim, estava tão envolvido com o EEU, que não fazia mais sentido manter dois trabalhos. Contei sobre o EEU para as pessoas que acompanhavam o blog e fiquei só colaborando com o EEU. Então, Joaquim começou a me colocar em posições de destaque, como se fosse me passar o bastão. Ele nunca falou isso para mim, nem para o grupo, mas seu comportamento comigo gerava esse entendimento.

Na festa de 2008, em São Paulo, além de me encarregar de organizar tudo logo no primeiro ano da minha participação no EEU, Joaquim me colocou de joelhos em frente à estátua de Nossa Senhora e me deu uma benção. Em 2009, em São Carlos, uma cena parecida se repetiu, com o acréscimo de que Joaquim pediu para que todos colocassem a mão sobre minha cabeça.

Claro que me senti especial, queridinho, escolhido, ego inflado, etc. Passei a receber paparicos dos integrantes. Teve até pessoas que choraram na minha frente dizendo que podia contar com elas incondicionalmente. Mas não me agradava a responsabilidade de cuidar de um filho que não era meu, o EEU, nem a inveja que vinha na contramão do paparico.

Deixa como está para ver como é que fica. Conhece essa expressão? Na linguagem da umbanda ela é dita assim: deixa a gira girar. Foi o que fiz, deixei a gira girar. Afinal, a responsabilidade pelo que Joaquim estava fazendo era dele e não minha.

Ogum menino – Gloria Bonfim

A festa de Nossa Senhora de 2009 foi em Uberlândia, cidade que moro atualmente. Foi nessa festa que conheci minha terceira e atual esposa. Joaquim pediu que ela organizasse o encontro. Ela não tinha ideia de como fazer isso. Ele falou para ela entrar em contato com o moxo conome ducarro. Muitos anos depois, vim morar em Uberlândia e nos casamos.

Nesse dia, dei uma palestra sobre certeza. Primeiro rodeei o problema. Faltava dar a solução.

— Então, Ferrari, qual é a solução? — me perguntaram.

— A solução é trocar de certeza — respondi.

O tema da palestra estava escrito na lousa: “A busca pela certeza”. Peguei o apagador e apaguei a letra “c” de certeza. Ficou escrito: “A busca pela _erteza”.

— A solução é trocar a letra “c” por outra letra — eu disse.

Perguntei qual era a outra letra, mas ninguém conseguiu formar uma palavra compreensível na língua portuguesa. Passado um tempo de burburinho, escrevi a letra “s”. Ficou escrito assim: “A busca pela serteza”. A platéia fez cara de ué. Eu expliquei.

— É impossível ter certeza, é uma busca sem fim, igual procurar um pote de ouro na linha do horizonte. Porém, você pode ter serteza, aqui, agora e sempre. Não precisa nem buscar. SERteza é estar consciente de si, de ser, da própria existência.

Mais uma vez fui demasiado espiritual para uma plateia demasiada humana. Mas estava melhorando. Pelo menos, dessa vez, não usei o código-fonte da Matrix.

Vaidade de vaidades! Tudo é vaidade! Que grande ilusão! Nada faz sentido! Que vantagem tem o ser humano em todo o seu trabalho, em que tanto se dedica debaixo do sol? Gerações nascem e gerações morrem, mas a terra permanece sempre do mesmo jeito. O sol se levanta no horizonte e ao fim do dia se põe, e depressa volta ao lugar de onde se levanta para um novo dia. Os ventos sopram para o sul, depois viram para o norte; dão voltas e mais voltas e cessam no ponto de partida. Todos os rios correm para o mar; contudo, o mar nunca se enche; ainda que sempre se dirijam para o mar, para lá voltam a correr. Todas as atividades humanas geram cansaço. Nenhum ser humano é capaz de dar uma boa explicação sobre isso. Mas os olhos nunca se saciam de ver, nem os ouvidos de escutar. O que foi voltará a ser, o que aconteceu, ocorrerá de novo, o que foi feito se fará outra vez; não existe nada de novo debaixo do sol. Será que há algo do qual se possa dizer: “Vê! De fato, isto é absolutamente inédito?” Não! Já existiu em épocas anteriores à nossa. Ninguém se lembra dos que viveram na antiguidade. Não há recordações do que aconteceu no passado, e mesmo o que ainda vier a ocorrer de significativo não será lembrado por todos que vierem depois disso.

Eu, o pregador, fui rei sobre Israel em Jerusalém. Empreguei todo o meu coração a investigar e a fazer uso do saber para explorar tudo o que é realizado debaixo dos céus. Que fardo pesado Deus colocou sobre os ombros dos seres humanos para dele se atarefarem. Examinei todas as obras que se fazem debaixo do sol e cheguei à conclusão de que tudo era vaidade e aflição de espírito. Tudo é inútil, é como uma corrida sem fim atrás do vento! Não se pode endireitar o que é torto; da mesma maneira que não se pode contar o que está faltando! Então fiquei meditando: “Ora, aqui estou eu com tanto conhecimento acumulado que ultrapassa a sabedoria dos meus predecessores em Jerusalém; minha mente alcançou o ponto mais alto do entendimento e do saber. Por esse motivo me esforcei ao máximo para compreender a sabedoria, bem como a loucura e a insensatez; contudo, também isto era aflição de espírito. O que aprendi, de fato, é que isso igualmente é correr atrás do vento. Porque na muita sabedoria há muito enfado; e o que aumenta em conhecimento, aumenta em dor”.

Eclesiastes 1:2-18

O toque do atabaque decretou o início da gira. A noite estava fresca e a casa estava cheia. Durante a manhã, eu havia feito uma palestra de psicologia ali. Agora, no mesmo salão, haviam sete terapeutas de pés descalços, uns pitando, outros tomando tafé e todos fazendo conversadô. Fui passando de um por um, quando cheguei no último, estava chorando litros.

— Pó chorá, fiu! — o preto velho me disse.

— Acho que não aguento mais! — respondi chorando e sorrindo.

— Recebeu muitos presentes, né, fiu?

— Vários, todos diferentes e estranhamente idênticos.

— Ixo! O fiu entendeu bem, com o coração. Vamo fazê conversadô pra clareá na cachola.

Assim que parei de chorar, o preto velho me perguntou:

— Fiu, ucê pensa aí e me diz: qual é o momento mais importante da sua vida?

Fui até a memória zero e voltei escaneando minha vida. Eram milhões de momentos pulando na minha cabeça, inclusive este agora.

— Ops! O momento mais importante da minha vida é esse agora, — eu respondi — pois não tem outro momento para se viver.

— Ixo memo, fiu! Num tem oto, né? Até nois que já morreu só pode vivê agora.

O preto velho me fez outra pergunta:

— Fiu, ucê pensa aí e me diz: qual é a pessoa mais importante da sua vida?

Pensei nas pessoas do meu relacionamento: pai, mãe, esposa, amigos. Depois, pensei que todas as pessoas são uma só: Deus. E respondi:

— Deus! A pessoa mais importante da minha vida é Deus.

O preto velho riu gostoso e disse:

— Eta gira boa, né fiu? Ucê tá vendo até Deus aqui! Eê… Não é ixo, fiu, tô falando de gente memo.

Voltei para ideia da lista dos meus relacionamentos:

— Pai, mãe, esposa, amigos…

— Não, não, não — responde o preto velho.

— Quem, então?

— Presta atenção, fiu, qual é o momento mais importante da sua vida?

— Agora.

— Ucê tá com seu pai, mãe, esposa, ou amigos agora?

— Não, estou conversando com você.

— Ixo, fiu, então, se eu não for a pessoa mais importante da sua vida, ucê tá perdendo sua vida, pois sua vida agora é fazê conversadô cum eu.

Foram pauladas duras e certeiras, embora executadas com carinho.

— Fiu, tem mais uma pergunta prucê.

— Claro, pode fazer.

— Ucê pensa aí e me diz: qual é a coisa mais importante que ucê pode fazê na sua vida?

— Posso ajudar os outros, plantar árvores, escrever livros…

— E quando ucê vai fazê essas coisas?

— Quando estiver fazendo.

— Ixo! E o que ucê tá fazendo agora?

— Conversando com você?

— Então, qual é a coisa mais importante da sua vida, que ucê pode fazer no momento mais importante da sua vida, com a pessoa mais importante da sua vida?

— Conversar com você!

— Ixo, fiu, entendeu o que importa na vida?

— Entendi. Mas e o resto?

— O resto tá no xeu livo.

— Que livro? O Foda-se?

— Ixo! Foda-xe!

A Banda – Chico Buarque

Na época em que estava casado com minha primeira esposa, tive uma experiência que foi fundamental para o entendimento do processo terapêutico. Minha esposa começou a gastar demais e ficar inadimplente no cartão de crédito. Ela tentava se controlar, mas não conseguia. Então, resolveu procurar ajuda e recomendaram que ela fosse no DA (Devedores Anônimos).

Não sei se você, caro leitor, sabe, mas o famoso programa do AA (Alcoólatras Anônimos) se desdobrou em diversos programas similares para diferentes tipos de compulsão. Por exemplo, NA (Narcóticos Anônimos), CCA (Comedores Compulsivos Anônimos), e por aí vai. Todos seguem o mesmo funcionamento e literatura do AA com adaptações mínimas de terminologia. O DA (Devedores Anônimos) é um desses desdobramentos.

Comecei a ficar ciente dos desdobramentos do AA quando minha esposa disse que queria ir ao DA no sábado. Achei interessante existir um grupo de anônimos para isso e a apoiei. Até porque, o endividamento dela afetava as finanças da casa e me afetava. Só que minha esposa era tímida e estava com vergonha de ir sozinha. Então, pediu que eu fosse com ela.

O encontro do DA acontecia no centro de São Paulo, numa sala dentro da igreja da Santa Efigênia. Chegamos cedo e fomos recebidos pelo coordenador. Minha esposa contou do caso dela e perguntou se eu podia participar para apoiá-la. O coordenador me perguntou se eu também era um gastador compulsivo. Disse que não. Ele respondeu que não era permitido acompanhantes, mas abriria uma exceção, com a condição de que entrasse mudo e saísse calado. Aceitei e entramos na sala.

Aos poucos os participantes foram chegando e sentando nas cadeiras de plástico. Quando a sala estava cheia, a reunião começou. O funcionamento era simples. Cada um tinha sua vez de falar. Ninguém podia interromper. Quando terminava, não havia comentários, nem análise do conteúdo exposto, apenas um coro dizendo: “grato pelo compartilhamento”

Meu primeiro grande choque nessa experiência, foi sobre a franqueza dos participantes. Nenhum deles, absolutamente nenhum, se sentia constrangido em confessar suas mazelas. Eu me considerava uma pessoa sincera, mas aqueles participantes me deixaram envergonhados. Eles falavam mesmo, na lata, sem enrolação. Aquilo me encantou. Era Big Brother da alma.

Gostei tanto daquela experiência, que toda sexta-feira eu alertava minha esposa: “não esquece que amanhã tem reunião do DA”. Eu não estava mais indo para apoiá-la, estava indo para experimentar e descobrir o segredo daquela metodologia.

Meu segundo grande choque nessa experiência com o DA, foi um cara. Vou chamá-lo de Gilson, para facilitar. Quando chegava a vez do Gilson falar, era difícil eu cumprir meu voto de silêncio. O cara fazia os maiores absurdos financeiros, complicando a vida dele e dos seus familiares. E na semana seguinte, ao invés de corrigir o erro, piorava, enfiava ainda mais o pé na jaca.

Por exemplo, ele pegava dinheiro da aposentadoria da mãe para pagar uma dívida. Daí, gastava o dinheiro comprando uma besteira qualquer que não precisava. Depois, pegava o dinheiro para pagar a escola dos filhos e fazia a mesma coisa. Era impressionante o tanto de merda que o Gilson fazia e sua capacidade de piorar o que já estava péssimo.

Eu tinha vontade de bater a cabeça do Gilson na parede, até ele acordar ou até rachar. Credo! Como não percebe a merda que está fazendo? Será que não tem consciência? Será que é incapaz de refletir e aprender com os erros? Eu não posso falar, mas vocês que podem, por favor, digam algo para esse infeliz! Façam ele acordar! Eu pensava.

Porém, para meu grande espanto, ninguém falava nada. Nada, nada, nada. Gilson confessava todos os seus pecados sórdidos em alto e bom-tom, mas não recebia nenhuma penitência, zero crítica, apenas um compassivo: “grato pelo compartilhamento”.

Só que meu segundo grande choque nessa experiência com o DA, não foi ter acesso à doença do Gilson, mas ter acesso ao seu processo de cura. Após meses apenas confessando seus pecados, um belo dia, Gilson adquiriu consciência. Gilson chegou na reunião, e ao invés de apenas confessar seus pecados, como de costume, começou a explicar o que tinha por trás deles.

Claro que eu fiquei estupefato. De onde havia brotado aquela consciência? E como havia brotado em um terreno tão árido? Que milagre havia acontecido ali na igreja da Santa Efigênia? Foi então que me dei conta que o milagre era a orelha. Gilson era um gastador compulsivo, mas não era surdo. Então, quanto mais ele falava, mais ele se ouvia. E como ele falava sempre a mesma coisa, ele era obrigado a se ouvir falando sempre a mesma coisa. Pouco a pouco, a ficha foi caindo.

Agora, dando um pulo para frente, foi por isso que não me espantei quando Joaquim me disse para ir nas reuniões das sanghas e apenas escutar. Essa conversa aconteceu assim. No final dos encontros do EEU, Joaquim sugeria que os participantes formassem uma sangha e me colocava como coordenador. Ele fez isso em Uberlândia, em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Curitiba. Então, nessa época, eu viajava todo final de semana. Mas antes de começar, fui conversar com Joaquim.

— O que faço nas reuniões das sanghas? — perguntei.

— Faz o que você quiser — Joaquim respondeu.

— Não brinca com coisa séria, Joaquim.

— Não estou brincando.

— O que eu faço com o sofrimento das pessoas?

— Ajuda a resolver, ué!

— Como?

— Primeiro, escutando.

— E o que mais?

— Mais nada! Só escuta!

— O método é escutar? Só isso?

— Ixo! Primeiro você escuta. Mas escuta mesmo, com bastante atenção. Conforme for escutando, você vai saber o que fazer depois.

A primeira reunião de sangha que coordenei foi em Uberlândia. Coloquei o grupo em roda, igual nos encontro dos anônimos e comecei a escutar. Conforme ouvia os relatos, surgiam perguntas na minha cabeça. Conforme fazia essas perguntas, as pessoas respondiam falando mais ainda. E assim o sofrimento delas iam se abrindo como uma folha de papel dobrada. Por fim, as pessoas ficavam em paz e eu, pasmo. O método da escutatória funcionava mesmo.

Depois da primeira reunião em Uberlândia, entendi que o método era não ter método, então, não gastei mais nenhum neurônio me preocupando com o que iria fazer, apenas chegava, improvisava e deixava acontecer. Teve vez que dançamos uma dança maluca do Osho. Teve vez que viramos a noite tocando violão. Teve vez que fizemos ritual de ayahuasca. Teve vez que rimos até explodir. Teve vez que choramos até ficar desidratados. Teve vez que ficamos em silêncio. Teve de tudo um pouco.

As reuniões na sangha de São Paulo aconteciam no meu apartamento. O grupo de São Paulo era o mais jovem, então, a criatividade ia longe. Logo na primeira reunião, quando terminou, ficaram dois integrantes conversando na sala. Um deles estava começando a desenvolver a mediunidade e resolveu fazer uma experiência ali. Quando começou, foi como se toda energia que tinha ficado no ambiente começasse a ser filtrada através dele. Usando um termo espírita, esse rapaz recebeu uns vinte obsessores na sequência. Saía um e entrava outro.

Na reunião seguinte, contamos o que havia acontecido e advinha! Resolveram fazer tudo de novo com a sangha toda presente. Com 20 pessoas, daí a coisa pegou fogo. Quem nem desconfiava que era médium começou a incorporar. A reunião virou uma gira.

As entidades incorporadas eram as mais estranhas, egípcios, monges, padres, mestres taoistas, demônios do umbral, extraterrestres, entre outros. Quando vinha uma entidade, não importava se era do céu ou do inferno, nós conversávamos do mesmo jeito. E por favor, não me pergunte se essas entidades eram o que afirmavam ser, só estou contando o que acontecia.

Uma das conversas que mais me marcaram foi com um extraterrestre que apelidamos de Vazio. Ele nunca havia sido humano e não entendia nada sobre ser humano. Conversar com ele foi como conversar com uma criança recém-nascida, mas que já nasceu sabendo falar português. Foi um choque de 220 watts no nosso antropomorfismo. Por exemplo, eu contei uma piada e ele não riu.

— Você não achou engraçado? — eu perguntei.

— O que é “engraçado”? — ele respondeu.

Depois eu peguei o violão e toquei uma música.

— Gostou da música? — eu perguntei.

— O que é “gostou”? — ele respondeu.

Tentei explicar para o Vazio o que era “engraçado” e o que era “gostou”, mas não consegui. Mesmo usando toda minha criatividade e poder de raciocínio, foi impossível. Cada significante que eu acrescentava na explicação aumentava o número de significados a serem explicados. Por exemplo, eu dizia: “gostou é quando você sente prazer”. E o Vazio perguntava: “o que é prazer?”. Tanto “engraçado”, como “gostou”, como “prazer”, como tudo mais que eu dizia, eram significantes sem significados para o Vazio, pois o Vazio era vazio de significados humanos.
Um participante da sangha, percebendo isso, perguntou:

— E o sofrimento? Você sofre?

— O que é “sofrimento”? — ele respondeu.

Esse participante, que era um sofredor crônico, disse:

— Como faço para ser igual a você?

O Vazio respondeu:

— Impossível, você é humano, eu sou outra coisa. Cada um é o que é.

O rapaz ficou decepcionado. Eu disse para ele:

— O fato do Vazio não sofrer, não significa que ele enxerga mais do que você. Pelo contrário, significa que ele enxerga menos. O Vazio não experimenta sofrimento, mas também não experimenta alegria. É como se ele fosse cego. É isso que você quer?

— Ué! Iluminação não é isso? — disse o rapaz.

— Isso, o quê? Furar os olhos e ficar cego? — eu perguntei.

Há algo de podre no reino da iluminação.

Mas enfim, a história do Vazio ilustra um pouco do que acontecia nas reuniões da sangha de São Paulo. “Se cobrir vira circo, se cercar vira hospício”, diziam os participantes.

Bons tempos!

Trecho do filme Ex_Machina

Meu apartamento ficava no décimo sétimo andar e Marcos, solidariamente, quando queria fumar, se deslocava até a janela. Às vezes ficávamos conversando alí enquanto os integrantes da sangha interagiam na sala. Certa vez, nossa conversa foi assim:

— Está vendo esses carros se movimentando pela rua?

— Sim, estou — Marcos respondeu.

— Percebe a sincronia?

— Como assim?

— Todos os carros estão se movimentando ao mesmo tempo.

— Sim, estão.

— E as nuvens também?

— Como assim?

— O movimento das nuvens está acontecendo ao mesmo tempo que o movimento dos carros.

— Sim, percebo.

— As pessoas andando na rua, também estão em sincronia. O movimento das pessoas está em sincronia com o movimento das nuvens e o movimento dos carros. Sensacional isso, não acha?

— Sim, mas onde você está querendo chegar com isso?

— Aqui, nessa conversa, que também é um movimento que está em sincronia com o movimento das pessoas, das nuvens e dos carros. Todos os movimentos acontecem em sincronia, percebe? Mas por que?

— Por que o quê?

— Por que todos os movimentos acontecem em sincronia?

Marcos ficou olhando os movimentos acontecendo feito uma orquestra tocando uma sinfonia. Só que não tinha partitura, nem maestro. Não havia nada regendo a sincronia. A sincronia dos movimentos era evidente, óbvia, inegável, mas o motivo, se houvesse, era nenhum.

— Não sei.

— Continue olhando que você verá o óbvio por si mesmo.

Enquanto Marcos olhava os diversos movimentos, eu lhe disse:

— Todos os movimentos acontecem em sincronia porque é um movimento só.

— Como assim?

— Não são vários movimentos em sincronia. Não tem sincronia nenhuma. É um movimento só, monobloco, que supomos múltiplo devido outra suposição.

— Que outra suposição?

— O espaço.

Marcos foi retornando o olhar para a sala do apartamento e caindo em si. Seu semblante era um misto de espanto e sorriso de Monalisa. Ninguém jamais seria capaz de retirar de Marcos o óbvio para o qual ele estava despertando, nem mesmo o próprio Marcos.

***Em homenagem a Marcos Tavares, grande amigo que faleceu em 2022

So Im lookin’ in the mirror I see the light, woven with the dark I am alive. The well of peace and the way to war are side by side, no where to run the time has come the truth we can’t deny…

There’s only one thing goin on, we all come from the heart of creation!

In the end not one can pretend that the blood in our veins is not the same. In the end not one can defend this lie of separation.

Então, estou olhando no espelho e vejo a luz tecida com a escuridão, eu estou vivo. O poço da paz e o caminho para a guerra estão lado a lado, não há para onde correr, a hora chegou para verdade que não podemos negar…

Há apenas uma coisa acontecendo, todos nós estamos emergindo do coração da criação!

No final, ninguém pode fingir que o sangue em nossas veias não é o mesmo. No final, ninguém pode defender a mentira da separação.

Certa vez, durante uma reunião de sangha, uma pessoa veio conversar comigo.

— Eu amo meus pais!

— Sim e qual é o problema nisso? — perguntei.

A pessoa começou a chorar. Quando recuperou o fôlego, me disse:

— Não consigo me desapegar deles!

E voltou a chorar.

— E por que você quer se desapegar dos seus pais? — perguntei.

— Por que apego é ruim, gera sofrimento.

— Sofrendo você já está! — eu disse.

— Sofro porque sou apegada aos meus pais, mas não consigo me desapegar.

— A presença dos seus pais te faz feliz? — perguntei.

— Sim, muito.

— Sua presença faz seus pais felizes?

— Sim, nós nos amamos.

— Então, qual é o problema?

— O problema é que não consigo me desapegar deles. Se você puder me ajudar, eu agradeço.

— Não posso! — eu disse.

— Por que não pode?

— Porque desapego é impossível.

— Como impossível? Todos os mestres falam que é preciso se desapegar.

— Sim e daí?

— Todos os livros falam que é preciso se desapegar.

— Sim e daí?

— Você está dizendo que é impossível se desapegar.

— Sim, estou.

— Com base em que?

— No óbvio.

A pessoa fez cara de quem comeu e não gostou e foi embora. Anos depois, encontrei a pessoa com a mesma angústia, apegada a mesma crença do desapego.

Maneiras – Zeca Pagodinho

Reunião de sangha com 20 pessoas dentro do meu apartamento. Alguns médiuns incorporados, a gira girando e o pau comendo. Me deitei no chão para receber um reiki. Um amigo médium, que estava incorporado, se aproximou para falar no meu ouvido. Devia ser algo muito importante para ser dito de forma tão íntima. Redobrei a atenção. Ele me disse pausadamente:

— C.r.e.s.ç.a!

Arregalei os olhos. Era tudo que não queria ouvir. Mas também era tudo que precisava ouvir. Fiquei em dúvida se o autor do conselho era um guia espiritual ou meu amigo se valendo da situação. Cheguei a conclusão que era irrelevante.

— Você não é mais criança, pare de se comportar como uma — ele completou.

Minha infância acabou naquele instante, aos 38 anos.

Já havia entendido que não tinha obrigação de satisfazer as expectativas alheias. Mas, intimamente, ainda acreditava que o mundo tinha obrigação de satisfazer as minhas expectativas. Nesse instante, despertei desse equívoco. Não apenas pelo que foi dito, mas pelo entendimento disso.

Usando um simbolismo Freudiano: Vossa Majestade O Bebê foi esfaqueado. Usando um simbolismo popular e moderno: foi o fim do mimimi.

Cara dói pra caralho
amadurecer
Cara dói pra caralho
mas não tem atalho
pro que tem de ser

Eu queria voltar no tempo
antes da invenção da verdade
ser feliz sem saber do que
ser feliz sem saber porque
ser feliz sem saber o que
é felicidade

“Não se faz ciência boa com palavra ruim”, me dizia um dos professores do grupo de ciências do Yahoogrupos. Durante meu percurso até a criação da 1ficina, percebi que as palavras do universo do autoconhecimento eram ruins, mal usadas, cheias de ranços e ruídos de interpretação. Hoje em dia, para fazer autociência boa, tem uma série de palavras que não uso, nem aconselho usar. Por exemplo, não uso as palavras “mente”, “ego”, “egoísmo”, “espírito”, ”espiritualidade”, entre outras.

Quando preciso explicar algo e não tem uma palavra boa para usar, invento uma. Já inventei dezenas de palavras. Por exemplo, “autociência”, “autoísmo”, “outroísmo”, “amor fácil”, “unitrindade”, “deusoutro”, “gps do destino”, “realidade multimídia”, “livre-click”, entre outras.

Na época que escrevia no blog, eu já inventava palavras. Uma palavra que inventei nessa época, foi “bici-vida-cleta”, outra que usava muito nessa época, foi a palavra “feliSIMdade”, que visava diferenciar as emoções felizes do jeito feliz de viver.

Na época que participei do EEU, tinha que usar os termos do EEU e do Joaquim. Não me agradava, mas era necessário. Porém, não conseguia engolir a dualidade espírito e ego. Desde o tempo da Gnose isso já me incomodava. Então, para acabar com essa dualidade, inventei uma palavra que ficou muito popular e gerou tanto apreço como repulsa.

Joaquim dizia que somos espíritos encarnados. Depois, explicava que encarnação é “entrar” em um ego humano. Por fim, dizia que não somos o ego, ou seja, que não somos humanos, somos espíritos. Joaquim não estava errado, mas a única coisa que conseguia com essa pedagogia, era empurrar os integrantes do EEU para autonegação.

Como todos queriam ser espíritos e não egos, como o ego é o humano, a solução era negar a própria humanidade. Haviam pessoas que entravam em estado de autonegação tão grande, que referiam a si mesmas na terceira pessoa. Por exemplo, a pessoa se chamava Carlos, daí, quando estava triste, dizia “Carlos está triste”, quando não desejava algo, dizia “Carlos não quer”. E assim por diante.

Era a velha morte do ego se repetindo. Eu não podia compactuar com aquilo. Então, inventei a palavra “espiritego” e comecei a divulgá-la nas palestras e reuniões de sangha. Usava a palavra “espiritego” para apontar para a lua. Quem olhava para lua, entendia e ficava agradecido pelo apontamento. Quem olhava para o dedo, não entendia e ficava bravo com minha heresia.

Joaquim tinha uma frase emblemática que dizia: “sua religião atrapalha sua espiritualidade”. Ou seja, Joaquim combatia a religião em benefício da espiritualidade, porém, era contraditório, pois os ensinamentos do EEU se baseavam nos estudos dos ensinamentos religiosos (cristianismo, espiritismo, hinduísmo, budismo, entre outros). Então, a desconstrução religiosa de Joaquim era como usar um espinho para tirar outro espinho, saía um, entrava outro.

O pior espinho, aquele que Joaquim jamais conseguiu tirar, pois ele mesmo reforçava, era Deus Causa Primária. Esse ensinamento diz que tudo que acontece é Deus fazendo acontecer, ou seja, não existe livre-arbítrio. Mas se não existe livre-arbítrio, que lógica tem você assumir a culpa por estar na merda, ou seja, assumir a responsabilidade pelo seu sofrimento.

Deus Causa Primária era o álibi perfeito da autonegação, da omissão e da depressão. De cada 10 integrantes do EEU que me procuravam para conversar em particular, 9 viviam em profundo sofrimento, 6 pensavam recorrentemente em suicídio e 2 já haviam tentado. Quando propunha assumirem a responsabilidade para se colocarem em uma posição melhor, se defendiam dizendo que não tinham arbítrio, que tudo era desígnios de Deus.

Joaquim era o professor e lidava com a bela viola, eu era o terapeuta e lidava com o pão bolorento. Eramos uma dupla, Batman e Robin. Só que o trabalho do Batman começou a atrapalhar o trabalho do Robin. E o trabalho do Robin era ajudar o trabalho do Batman.

Expliquei isso para Joaquim, mas ele não fez nada a respeito. A princípio fiquei frustrado. Depois entendi que não havia nada que ele pudesse fazer. O trabalho dele acontecia dentro do xadrez espiritualista ecumênico e ele estava jogando o melhor que podia no limite das peças que tinha.

Mas eu não era Joaquim e não precisava jogar o xadrez dele. Então, comecei a falar o que falo na 1ficina, que não existe Deusoutro, que Deus é a coletividade dos seres. E na sequência, completava dizendo que sim, cada ser tem arbítrio e cria sua realidade.

Meu comportamento fez o grupo do EEU pensar que o príncipe estava querendo roubar a coroa do rei. Os paparicos evaporaram e surgiu uma tempestuosa resistência ao meu trabalho nas sanghas.

Minha namorada e eu fomos de ônibus para Porto Alegre participar da palestra de Joaquim. No meio da palestra, uma mãe, indignada, reclamou do filho.

— Sim, liberdade, concordo, mas tem que ter o míííííínimo de obediência — disse a mãe.

— Se tem que, é obrigação, se é obrigação, não é liberdade — disse Joaquim.

— Entendo, mas não digo tudo, digo o míííííínimo!

O jeito que a mãe pronunciava a palavra “míííííínimo” era engraçado. E Joaquim, macaco velho, começou a repetir a palavra durante a palestra para reforçar seu discurso libertário.

— Não estou falando em lavar toda a louça. Não estou falando em fazer o almoço. Não estou falando em arrumar o quarto. Mas puta merda, não precisa deixar a cueca jogada no meio da sala, entende? — disse a mãe.

— Tem que ter o míííííínimo, né fia? — Joaquim disse ironizando.

— Isso, — disse a mãe — tem que ter o míííííínimo de obediência.

— Se tem que, é obrigação, se é obrigação, não é liberdade — repetiu Joaquim.

— Só um pouquinho, — insistiu a mãe — só o míííííínimo!

— Fia, você pode exigir o máximo, o médio e o míííííínimo do seu filho, mas de nada adianta sua exigência, ele vai continuar deixando a cueca jogada no meio da sala — disse Joaquim.

— Mas guardar a cueca é o míííííínimo! E não custa nada!

— É o míííííínimo, né fia? Só que é esse míííííínimo que mantém você presa ao sofrimento.

Cada vez que a palavra “míííííínimo” era pronunciada, todos riam. E como a palavra foi pronunciada uma dezena de vezes, tanto pela mãe como por Joaquim, a palestra foi muito divertida. Quando terminou, arrumamos as malas e começamos o caminho de volta.

Firmino e a esposa estavam de carro, então, eu e minha namorada pegamos carona com eles. Uma vez no carro, fui explicar uma questão para Firmino, mas antes de terminar ele me interrompeu e disse:

— Discordo!

Tentei novamente. E Firmino disse o mesmo:

— Discordo!

Perguntei qual era a discordância. Ele respondeu que pensava diferente. Perguntei o que pensava. Ele respondeu que diferente. Então entendi que Firmino não concordava, nem discordava, estava querendo ser do contra, só isso. Se eu dissesse azul, ele iria discordar. Se eu dissesse vermelho, ele iria discordar.

Quando chegamos em Florianópolis para dormir, estava com raiva do comportamento do Firmino. Tomei um banho e minha namorada, percebendo meu estado, começou a conversar comigo. Falei o que estava sentindo e comecei a chorar. Chorei, chorei, chorei e, de repente, afogado no oceano de lágrimas, entendi a razão do meu sofrimento. Eu estava querendo que Firmino tivesse o míííííínimo de racionalidade, mas ele não tinha essa obrigação, ele podia deixar a racionalidade jogada no meio da sala.

Quando o choro terminou, sabia exatamente o que fazer. Liguei para o Firmino e disse para ele se aprontar para o jantar que eu iria pagar a conta. Tive essa ideia porque era o míííííínimo que podia oferecer ao Firmino em retribuição aos anos de serviços prestados ao EEU. Entendi isso quando estava chorando. E porque as vezes esquecia que ele também era meu amigo, assim como Joaquim.

Saí do quarto do hotel decidido a fazer três coisas: 1) Pagar um jantar para Firmino e sua esposa onde quer que eles quisessem. 2) Conversar com meu amigo e não tocar em assuntos do EEU. 3) Permitir que Firmino discordasse, fizesse birra, o que decidisse fazer. Firmino escolheu um restaurante italiano. O jantar foi ótimo. Hoje sei que foi um jantar de despedida. Na época, nem desconfiei.

No dia seguinte, voltamos para estrada. Era domingo e eu tinha aula marcada na segunda feira de manhã, então, estava com pressa de chegar. Contudo, a esposa de Firmino resolveu parar em todas as lojas de artesanato do caminho. A cada parada, o horário de chegada em São Paulo adiantava e meu estresse aumentava. Voltei a sofrer porque estava exigindo o míííííínimo novamente.

Eta, eta, eta! “Se tem que, é obrigação, se é obrigação, não é liberdade”, me lembrei. Ok, okei, oquei, oooooooquequekei. Já entendi poooooorra!

se for escalada, se for descida
se for mar de rosas, se for capim
para ser feliz não precisa sorte, nem figa
basta dizer sim
se for chegada, se for despedida
se for porém, se for enfim
pra ser feliz não precisa pressa ou corrida
basta dizer sim

sim pra vida
de cabeça erguida

se for preta e branca, se for colorida
se for chiquetérrima, se for chinfrim
pra ser feliz não precisa peso ou medida
basta dizer sim
se for novidade, se for repetida
se for abel, se for caim
pra ser feliz não precisa ganhar a partida
basta dizer sim

sim pra vida
de cabeça erguida

se for beijo, se for mordida
se for spa, se for estopim
pra ser feliz não precisa curar a ferida
basta dizer sim
se for legalizada, se for proibida
se for pianinho, se for tamborim
pra ser feliz não precisa encontrar a saída
basta dizer sim

Alguém enviou uma oração parecida com a oração de São Francisco para o grupo de email do EEU. Eu já estava de saco cheio da hipocrisia dos integrantes do EEU e do mundo, então, respondi o email trocando todas as palavras virtuosas por cu. Tipo assim:

Senhor, fazei de mim um instrumento do seu cu.
Onde houver Ódio, que eu leve o cu,
Onde houver Ofensa, que eu leve o cu.
Onde houver Discórdia, que eu leve o cu.
Onde houver Dúvida, que eu leve o cu.
Onde houver Erro, que eu leve o cu.
Onde houver Desespero, que eu leve o cu.
Onde houver Tristeza, que eu leve o cu.
Onde houver Trevas, que eu leve o cu.

Nessa época, meu relacionamento com os integrantes do EEU estava altamente desgastado, então, foi um alvoroço na lista. Os moralistas caíram de pau em cima de mim. Encarei todos sem economia, esfregando ainda mais a hipocrisia sagrada na cara deles.

Firmino não sabia o que fazer para conter a sangria desatada e fechou o grupo por uma semana. Depois abriu novamente, mas não provoquei mais ninguém. Aliás, essa é uma maestria minha, provocar os outros. Sei muito bem como e quando provocar. No ofício de professor, para instigar os alunos, essa maestria me ajuda, na convivência, quando faço por vingança, me prejudica.

Passado duas semanas, houve um encontro do EEU em São Carlos. Estava um climão. Ninguém olhava na minha cara. Me sentei no fundo do galpão, junto com minha namorada (atual esposa). Firmino incorporou Joaquim e começou com o sermão da corregedoria. Ele não falou a quem se destinava o sermão, mas todos sabiam.

Passei uma hora levando bronca. Não teve palestra, só teve a malhação do Judas. Por dentro eu era o Hulk. Minha vontade era jogar na cara do Joaquim todas as merdas pedagógicas que ele fazia e que eu passava um pano para ele. Mas uma voz dentro de mim, muito mais inteligente que eu, me dizia que aquilo era meu batismo de fogo, e se rebatesse, seria reprovado.

As mesmas mãos que haviam me abençoado estavam me apedrejando. Joaquim sabia que estava encenando o mesmo ritual pelo avesso. E não poupou fogo. Quanto mais calado eu ficava, mais ele me chutava. Ninguém entendia porque eu não revidava, principalmente minha namorada, que apertava minha mão cada vez mais forte. Mas eu sabia. E não ia cair em tentação nem se Joaquim chutasse meu saco.

Terminado o sermão, meus nervos estavam corroídos, mas minha consciência estava tranquila. Voltei para São Paulo ciente que meu tempo no EEU havia acabado. Eu estava pronto.

Não estou pronto
eu dizia
assim como você
Exatamente assim
como você
Eternamente assim
esperando
como você
O que? Não sei
Virei noites
me guardando
me aguardando
Primeiro era preciso
precisão
estar pronto
temperado
ao ponto
preparado
cadarço amarrado
Coincidentemente assim
como você
quando encontrava a resposta
mudava a pergunta
quando acertava a barra da calça
crescia a perna
quando pintava a monalisa
envelhecia o rosto
Conclusivamente assim
como você
me dei conta:
nunca estarei ponto!
E pronto!
Mesmo despreparado
cru e verde
simplesmente me entreguei
e dei um passo
a frente

Esbarrei na pequenina estátua do Buda e ela caiu no chão do meu apartamento. A cabeça do Buda quebrou e saiu rolando pela sala. Era uma mensagem e um presságio. “Se encontrar o Buda no caminho, mate-o”, diz um ensinamento budista. O tempo urgia e a vaca murgia. Estava na hora de me desligar do trabalho do EEU. Fui correr no parque do Ibirapuera. Era feriado de 07 de setembro de 2011. Coloquei os fones para ouvir música, mas só conseguia ouvir meus pensamentos. Estava reclamando de tudo e de todos. Começou uma conversa mental mais ou menos assim:

— Está curtindo essa lamúria?

— Não, está uma bosta.

— Está reclamando do quê?

— De tudo e de todos.

— E reclamar está ajudando?

— Não, mas o que mais posso fazer?

— O que você quer fazer?

— Quero fazer o que acho certo.

— Então faz!

— Dentro do EEU não é possível, pois é um trabalho alicerçado na religião e não é meu, sou só um funcionário, não estou na posição de mudar porra nenhuma!

— Então, sai e cria seu trabalho do seu jeito.

— Já não tenho o apoio da ciência, que está atolada no materialismo, se sair, vou perder o apoio da espiritualidade também, que está atolada na religião e na crendice.

— Sim e daí?

— Daí que vou ser uma voz clamando no deserto.

— E o que você prefere: reclamar no deserto ou clamar no deserto?

A retirada do prefixo “re” transformou meu entendimento. Foi como se uma tempestade tivesse terminado e o céu começasse a se abrir. O mundo não era mais um pântano tão monstruoso.

— Prefiro falar e fazer o que acho certo, mesmo que for para ninguém. Pau no cu do materialismo científico e da espiritualidade decoreba. Quero que se fodam!

Uma parte da questão estava resolvida. Faltava outra parte.

— Já cortei a cabeça do Buda. Vou ter que cortar também a cabeça de Jesus, do Samael, do Kardeck, de Joaquim, de Newton, de Einstein, de Platão e o caralho a quatro. Esses caras são os grandes mestres da humanidade! E quem sou eu na fila do pão?

— Simples: você não é os outros. Você é você, exclusivamente você, singularmente você.

— Sim, mas em que isso me ajuda?

— Não tente ser alguém na fila do pão, apenas seja você. Não se compare com quem está na frente da fila, nem com quem está atrás. Cada ser na fila é um ser diferente, com um destino diferente. Ninguém pode ficar no seu lugar na fila e comprar seu pão. Você não pode ficar no lugar do outro e comprar o pão do outro. Só cada um pode caminhar por si e comprar o próprio pão.

— E as besteiras que os outros falam?

— Se você acha que o pão do outro é bolorento, não coloque fermento nele. Só isso! O pão do outro não é problema seu. E não importa quem é esse outro, basta você saber que é outro, logo, não é você, logo, o problema dele não é seu. Segue o teu destino, rega as tuas plantas, ama as tuas rosas. O resto é sombra de árvores alheias.

— E o que dirão?

— E desde quando você se importa com o que dirão? Vão falar que você não é nada. Vão falar que você não tem casa. Vão falar que você não merece, que anda bebendo, está perdido. E não importa o que você dissesse. Você seria desmentido. Vão falar que você usa drogas e diz coisas sem sentido. Se você for ligar para o que vão falar, não fará nada.

— E as pedradas?

— Você nasceu para satisfazer as expectativas dos outros?

— Não!

— Então, não tente, apenas siga em frente. Os cães ladram enquanto a caravana passa. Com o tempo você ouvirá os latidos como rojões de comemoração celebrando seu avanço.

— Daí simplificou, é só eu ser eu.

— Ao máximo! Até o fim! Sem economia, pooooorra! Se for para duvidar, duvide do impossível, dos limites, das regras, dos medos. Duvide de quem duvida de você. Duvide de quem duvida das pernas sem nunca ter levantado a bunda da cadeira. Duvide de quem duvida da luz sem nunca ter aberto os olhos. Mesmo que for errado, que der em nada, acredite em você, só de curioso, só para ver onde você é capaz de se levar.

Claro que essa conversa não aconteceu com essas palavras. Cobri de redondilhas para aumentar o sabor da leitura. Mas imagina como me senti dizendo tudo isso para mim? Foi como se tivesse tirado um piano das minhas costas. O outro não é problema meu. Puta que pariu! Que libertação! Uma alegria me inflamou e comecei a gritar enquanto corria entre as gigantescas árvores do Ibirapuera:

— Eu clamo no deserto! Eu claaaaaaaaaamo no deserto!

Quando cheguei em casa, mandei um email para o grupo do EEU dizendo que estava saindo do trabalho do EEU, que iria começar um trabalho novo e se alguém tivesse interesse, bastava entrar em contato.

No dia 08 de setembro de 2011, comecei a clamar no deserto.

FIM DESSA TEMPORADA

Foi 40 dias escrevendo um capítulo por dia. Contei a história da criação da 1ficina, desde meu primeiro interesse por autoconhecimento até o dia do nascimento. Na próxima temporada, conto como fui estruturando o trabalho até agora. Está bom de contação por enquanto.

Não acredito mais
em tudo que acreditei
Não sigo a lei
do mais forte
nem a sorte
Minha religião
é aqui
é agora
Sou presidente
de mim
Digo sim
Digo não
Sou o dono
da minha opção
Simples assim!
O que é certo pra mim
não serve em você
O que serve em você
não é certo pra mim
Simples assim!

Meu primeiro ato como patrão de mim mesmo foi criar o nome da 1ficina. O primeiro nome que criei para 1ficina foi: Oficina Do Livre Arbítrio. Queria deixar claro que era um trabalho prático, por isso oficina. E não queria ninguém me enchendo o saco com aquele papinho de que não existe arbítrio, por isso Oficina Do Livre Arbítrio.

Não lembro quanto tempo durou esse nome, mas foi pouco. Logo percebi que não expressava a amplitude do trabalho e mudei para: Oficina da Unicidade. Só que não gosto de nome composto, então, troquei a letra “o” de oficina pelo número 1 e nasceu a 1ficina.

Novatos têm dificuldades em falar 1ficina, depois se acostumam. Eu adoro esse nome. Uma grande vantagem é a busca pela internet. Sendo que a palavra 1ficina não existe no dicionário, quando digitada no google, o resultado dá direto no site da 1ficina.

Pensei em dar meu nome ao trabalho. Não fiz isso porque entendo que o trabalho da 1ficina é maior do que eu e não é meu. Me considero autor dos livros, coordenador das práticas, professor do ciclo de estudos, etc, mas não me considero proprietário.

Para mim, o trabalho da 1ficina é patrimônio da humanidade. Não digo isso por nobreza. Para mim, toda produção humana é patrimônio da humanidade, desde as sinfonias de Beethoven até a invenção do cotonete. Esse meu entendimento faz com que eu trate a 1ficina na terceira pessoa. Alguns leitores me questionam sobre isso. Tem uma resposta no site. Transcrevo aqui:

Pergunta: porque você se refere a 1ficina na terceira pessoa?

Resposta: Para colocar a obra na frente do autor. Quando uso meu nome, o foco fica na minha pessoa, se digo 1ficina, o foco fica na explicação. O importante nesse serviço é prestar o serviço, ajudar no despertar da consciência e não idolatrar o prestador do serviço (eu). Além disso, esse é um trabalho coletivo, todos que participam estão produzindo o trabalho, você inclusive.

Meu segundo ato como patrão de mim mesmo foi definir o trabalho da 1ficina. Depois de pensar bastante, cheguei na definição que está no site, na página “sobre”. Transcrevo aqui:

1ficina é uma prestação de serviço consciencial a disposição do ser humano. A prestação de serviço da 1ficina é diferente, autônoma, inspirada, voluntária, universalista, prática e gratuita. A função da 1ficina é ajudar cada um em seu processo de autorrealização. A estratégia que a 1ficina utiliza para isso é o despertar da consciência. A ferramenta que a 1ficina utiliza é a comunicação. A 1ficina é praticante de autociência.

A primeira frase é a mais importante. “Prestação de serviço” significa que é um trabalho, como dentista, encanador, padeiro, etc. Mas é um serviço consciencial, ou seja, o dentista mexe no dente, o encanador mexe no cano, o padeiro mexe na massa e a 1ficina mexe no estado consciencial. “A disposição do ser humano” significa que a 1ficina é para todos, mas nem todos são para 1ficina.

Nome e definição. Eis as duas pedras fundamentais do trabalho da 1ficina.

Meu terceiro ato como patrão de mim mesmo, foi deletar da internet todo o conteúdo que havia produzido até aquele momento e começar do zero. Deletei todos os blogs, os vídeos no youtube, os posts no facebook, etc. Comecei tão do zero, que o primeiro livro que escrevi para 1ficina se chamava Zeroverso.

Esse livro continha tudo que explico até hoje. Usei o conceito de “zero” para me referir a natureza existencial do ser humano e o conceito de “um” para me referir a realidade. Depois explicava a convivência, ou seja, a relação entre um e outro-um, quase como se fosse uma aula de matemática.

Por exemplo, a explicação do outroísmo impositivo era assim: “1>1” (um maior do que um). E a explicação do outroísmo submisso era assim: “1<1” (um menor do que um). Consequentemente, a explicação do autoísmo era assim: “1=1” (um igual a um). E depois progredia para “1≠1” (um diferente de um) para explicar a questão da universalidade.

Esse livro não existe mais, também foi deletado. Conforme fui recebendo feedback dos leitores, percebi que ninguém estava entendendo aquela linguagem matemática e binária, então, mudei de linguagem. Comecei a usar uma linguagem mais humana. O primeiro livro que escrevi usando uma linguagem mais humana foi o livro “EUreka!”.

Eu me remexo muito. Estou sempre inventando coisas novas, deletando coisas velhas e reciclando. O livro EUreka também não existe mais. “Pô, Ferrari, qual livro você escreveu no começo da 1ficina e ainda existe?”. O livro Fábrica da Realidade. Escrevi logo depois do livro EUreka e ainda existe.

Nos primeiros meses de funcionamento da 1ficina, estava trabalhando como professor de inglês. Passava mais tempo dentro de ônibus, indo e voltando de escritórios de alunos, do que dando aula. Sobrava pouco tempo para produzir conteúdos para o blog da 1ficina (ainda não tinha site). Eu havia decidido que a 1ficina seria um trabalho gratuito, então, precisava encontrar um jeito de ser dono do meu tempo ao invés de ficar trocando ele por dinheiro.

Minha primeira ideia para mudar isso foi fazer encontros presenciais com doações voluntárias. Três pessoas foram ao primeiro encontro. Três irmãos que estavam em conflito. Expliquei sobre o outroísmo e consegui ajudá-los a entender a causa dos conflitos. No final, recebi uma generosa doação em dinheiro, mais do que esperava, mas como a divulgação foi grande e o público foi mínimo, concluí que arrecadar fundos com encontros presenciais não iria funcionar.

Minha segunda ideia foi colocar um anúncio para doações voluntárias em todas as páginas do blog. O título do anúncio era: “Me dê trabalho”. O texto dizia que eu precisava do apoio financeiro dos leitores para continuar trabalhando para eles. O link do anúncio levava para uma página com meus dados bancários. Nenhum centavo jamais foi depositado em minha conta em retorno a esse anúncio. Concluí que arrecadar fundos com anúncios no blog também não iria funcionar.

Foi então que tive uma conversa séria com a vida (digamos assim). Eu disse: “Olha, vida, já fazem anos que você está me empurrando para esse trabalho e finalmente cheguei. Só que é um trabalho gratuito e preciso me alimentar, pagar as contas, etc. Tenho uma proposta. Eu aceito fazer o trabalho gratuito se você pagar minhas contas. Enquanto você cumprir sua parte, eu cumpro a minha. Se parar, eu paro também, vou atrás de dinheiro e foda-se a coletividade humana e o despertar da consciência!”

Essa conversa realmente aconteceu dentro da minha cabeça. No dia seguinte, tive a ideia de alugar meu apartamento e sair de São Paulo. Desde esse dia, nunca a vida deixou de honrar nosso acordo, nem eu. Já fazem 11 anos que meu trabalho é apenas produzir e cuidar da 1ficina. Muitas pessoas, principalmente alunos, têm curiosidade sobre minha vida financeira. Tem uma resposta no site sobre isso. Transcrevo abaixo:

Pergunta: Como você consegue se manter financeiramente fazendo um trabalho gratuito?

Resposta: Sou uma pessoa sem ambições materiais. Minha ambição é por sabedoria. Dito isso, não tenho filhos. Não ter filhos é uma circunstância que favorece muito trabalhar gratuitamente. Outro fator favorecedor é ser proprietário de um imóvel, um apartamento. Com a renda do aluguel, pago minhas contas, vivo bem, e principalmente, posso trabalhar com o que amo. Para terminar, faço uma observação. Trabalho gratuito em inglês se diz “free work”. O que dá um duplo sentido. Literalmente, a tradução é “trabalho livre”. É isso! Não trabalho gratuitamente, sou um free worker (trabalhador livre). Recomendo. Creio que esse é o futuro do trabalho.

Certa vez, me perguntaram: “E quando você ficar velho?”.

Eu respondi: “Vou morrer! Você não?”

Minha família convidou minha namorada (atual esposa) e eu para uma viagem de navio. A viagem saiu do Rio de Janeiro, percorreu o nordeste brasileiro e voltou a Copacabana para queima de fogos do réveillon de 2012.

O principal item de viagem na minha mala era um notebook. Como o trabalho da 1ficina estava no começo, minha cabeça fervilhava de ideias. O problema era o que escrever primeiro. Por não saber por onde começar, durante toda a viagem pelo nordeste, não escrevi nada. Quando chegamos ao Rio de Janeiro, no dia anterior à noite de réveillon, me lembrei da Oração da Gestalt e decidi escrever algo similar, porém, mais completo, contemplando a quaternalidade humana.

Liguei o notebook e comecei a escrever a primeira versão da Declaração de Universalidade. Ficou gigantesca, pois tinha quatro partes, cada parte tratando de um aspecto da natureza humana: o físico, o sensorial, o afetivo e o intelectual. Quando finalmente terminei, após dezenas de revisões, comecei a percorrer o navio em busca de uma impressora. Encontrei uma na biblioteca.

Participei da contagem regressiva com minha família. Assisti a queima de fogos, que foi chulé, pois estava chovendo. Quinze minutos depois do início do ano novo, chamei minha namorada para lermos a Declaração de Universalidade pela primeira vez.

Fomos para a popa do navio. Se fosse na proa seria Titanic. Minha namorada e eu estávamos de branco. Além disso, eu estava vestindo uma camiseta escrito SIM, referente a pedagogia da feliSIMdade. Nos abrigamos debaixo de uma escada para nos protegermos da chuva. Retirei as folhas da mochila e comecei a ler a Declaração de Universalidade.

A chuva e o vento, claro, não ajudaram. As folhas começaram a molhar e sair voando. Segui firme em meu propósito. Li tudo. Minha namorada não entendeu nada do que falei, mas testemunhou o momento junto com a chuva, o vento, o mar e a escuridão do céu.

Ler a Declaração da Universalidade na virada para 2012, significou para mim o mesmo que pisar na lua significou para Neil Armstrong: um pequeno passo para um homem, mas um grande passo para a humanidade.

Tempos depois, quando criei o site da 1ficina, reescrevi e reduzi a Declaração de Universalidade para o tamanho atual. A versão original tinha o tamanho de uma missa, a atual tem o tamanho de uma oração. Mudou o tamanho, mas continuou o mesmo significado.

Segue a declaração atual e um vídeo onde ela aparece após o Tributo da Tribo.

DECLARAÇÃO DE UNIVERSALIDADE

Eu honro e celebro eu.
Eu honro e celebro você.
Eu honro e celebro nós.

Eu honro e celebro minha diferença.
Eu honro e celebro sua diferença.
Eu honro e celebro nossa diferença.

Eu sou outro você.
Você sou outro eu.
Nós somos todos e cada um.

Por isso, toda forma
de exclusão e desrespeito
que em mim chega,
de mim não passa.

Eu sou por minha unicidade.
Eu sou por sua unicidade.
Eu sou por nossa unicidade.

Que meu viver
confirme minhas palavras.
E assim seja!

Quando decidi alugar meu apartamento e sair de São Paulo, minha namorada (atual esposa) me sugeriu morar em Uberlândia. Para mim, essa decisão implicava em casamento, ou pelo menos, em morarmos juntos. Dizem que casar a primeira vez é ingenuidade e a segunda é burrice. Eu já havia sido ingênuo e burro. Parti para a melhor de três.

Na quarta-feira de cinzas do carnaval de 2012, cheguei em Uberlândia apenas com uma mala de roupas. Minha namorada foi me pegar na rodoviária e fomos tomar café numa padaria. Durante o café, eu lhe convidei para morarmos juntos. Primeiro ela ficou surpresa, depois pensativa, por fim, aceitou.

Nos dias seguintes, entramos em contato com as imobiliárias da cidade e começamos a procurar uma casa para morarmos. Durante esse processo, encontramos uma casa pequena e aconchegante, que seria apelidada de Mocó. Tinha dois andares. Os quartos ficavam no andar de cima e a sala em baixo. O preço era bom. Assinamos o contrato e começamos a mudança.

Logo que nos mudamos, saí para caminhar no final da tarde. Fui até uma área de ginástica na beira do Rio Uberabinha e me sentei em um banco. De repente, senti meu corpo leve como uma pluma.

Eu havia saído do EEU, criado a 1ficina, saído de São Paulo, arrendado meu apartamento, me mudado para Uberlândia, alugado uma casa e me casado pela terceira vez. Havia demolido uma realidade e construído outra tão rapidamente que nem percebi que a nova realidade estava finalizada. Só percebi naquele instante.

Deitei no banco. Meu olhar mergulhou feito telescópio no azul do céu. Senti extrema feliSIMdade por estar me permitindo viver minha verdade, apesar dos pesares. Depois, pensei na coletividade humana aprisionada no outroísmo e me senti mal por estar me sentindo tão bem. Passei uma semana exalando feliSIMdade em alta voltagem.

Que seus sonhos não se realizem.
Que o peido saia molhado.
Que o bolo não cresça
para nenhum lado.

Que macacos lhe mordam.
Que fique menstruada na praia.
Que ninguém lembre do seu aniversário.
Tomará que caia!

Que uma bala perdida encontre sua bunda.
Que pegue bicho de pé no nariz.
Que sonhe com Hebe Camargo pelada
e pedindo bis.

Que a manicure arranque picanhas do seu dedo.
Que sua caipirinha venha com sal.
Que na fila para assistir o filme de suspense
alguém conte o final.

Que sua galinha pare de botar ovos.
Que alguém pise em sua joanete.
Que sua samambaia pegue sarampo
e tenha diabete.

Que ninguém note seu corte de cabelo.
Que ele não ligue sequer.
Que sua contagem regressiva
termine em mal me quer.

Que seu time desça para segunda divisão.
Que sua calça rasgue no cós.
Que um pombo cague no seu terno
hugo boss.

Que seus seios caiam feito as torres gêmeas.
Que seu marido mije no chão.
Que chova e vente
assim que sair do salão.

Que você perca o emprego fantasma.
Que ganhe um emprego de carne e osso.
Que seu filho arranje uma namorada
com aquilo roxo.

Que seu bilhete premiado da loteria
dissolva na máquina de lavar.
Que cresça bigode em sua noiva
assim que você se casar.

Que a vida jogue merda no seu ventilador.
E que apesar do peso
continue cagando e andando
com pés ilesos.

A primeira reunião presencial da 1ficina em Uberlândia aconteceu no dia da mentira: 01 de abril de 2012. Fiz alguns banners brincando com esse tema.

Várias pessoas que me conheciam do EEU e participavam da sangha de Uberlândia, vieram participar da reunião acreditando que a 1ficina era uma continuação do trabalho espiritualista do EEU. Mas não era. E uma das minhas missões nesse dia era explicar que não era. Outra missão era explicar do que se tratava o trabalho da 1ficina. Por fim, precisava explicar como seriam os encontros presenciais.

Nessa época, acreditava que o trabalho da 1ficina seria um trabalho presencial, onde conversaria pessoalmente com os alunos, olhando nos olhos deles. Demorou um tempo até entender que o trabalho da 1ficina aconteceria quase completamente pela internet.

As pessoas de Uberlândia que vieram no primeiro encontro, ao entenderem que não se tratava de um trabalho espiritualista, não voltaram para o segundo encontro, e os que voltaram para o segundo não voltaram para o terceiro. E assim foi até que os encontros presenciais em Uberlândia acabaram.

A rede social nessa época era basicamente o facebook, ainda não existia whatsapp. Criei um grupo da 1ficina no facebook. Enquanto as conversas presenciais diminuíam, as conversas virtuais se intensificavam. Algum tempo depois, fiz o site da 1ficina e o trabalho começou a se espalhar virtualmente pelo Brasil inteiro, até para o exterior.

Quase a totalidade do conteúdo do site da 1ficina foi produzido para esclarecer alguma dúvida ou equívoco de aluno, principalmente os alunos de bagagens espiritualistas. O livro Livre Click, por exemplo, foi escrito para esclarecer a diferença entre liberdade e livre-arbítrio, que é um equívoco comum entre espiritualistas e base da crença de que não existe livre-arbítrio.

Mas Livre Click não foi o primeiro livro que escrevi para 1ficina. O primeiro foi o Zeroverso, que já falei e não existe mais. O segundo foi o livro EUreka, que também já falei e também não existe mais. O terceiro foi Fábrica Da Realidade.

Me lembro bem de quando estava escrevendo esse livro, pois foi bastante intenso o processo. Escrevia de dia e de noite, tanto sonhando como acordado. O objetivo do livro era desmaterializar a matéria e devolver o volante da criação da realidade aos seres humanos. Para isso eu tinha que tratar de forma fácil duas questões difíceis: tempo e espaço.

Fiquei tão concentrado nessas duas questões, que durante um bom tempo, as coisas que aconteciam na minha realidade, não tinham importância nenhuma, só me importava a mecânica da criação. Quanto mais me concentrava, mais EUrekas eu tinha.

Escrever o livro Fábrica Da Realidade foi maravilhoso e desconcertante. Foi como se o funcionamento da vida se revelasse para mim. Por exemplo, sempre tive curiosidade de entender o que era o tempo. Que porra é essa de tempo? Já havia estudado e pensado muito sobre isso. Durante a escrita do livro Fábrica Da Realidade entendi que tempo é arbítrio.

Cheguei a escrever uma declaração chamada Declaração De Criador, que dizia: “Espaço é realidade, Tempo é arbítrio, Eu sou criador”. Ninguém entendeu como uma grandeza física podia ser o difamado livre-arbítrio. Até hoje ninguém entende devido à mentalidade materialista. Para não piorar o ruim, deletei a declaração e fui tratar do tempo de uma forma mais pedagógica e acessível.

A forma mais pedagógica e acessível de explicar que tempo é arbítrio, resultou na escrita do livro Tic Tac, que é quase a reescrita do livro Fábrica Da Realidade, porém com foco no tempo.

Já me perguntaram diversas vezes qual é meu livro favorito da 1ficina, minha resposta é o livro Tic Tac. Claro que cada livro tem uma EUreka libertadora, mas a EUreka de que presente é passado, pra mim, é a EUreka mais libertadora que existe. Passei uma semana sentindo calafrios quando tive essa EUreka.

Outro livro que escrevi logo no começo da 1ficina, foi o livro Egogame. Esse título ainda existe entre os livros da 1ficina, mas não é o mesmo livro, apenas usei o mesmo nome para um novo livro porque adoro esse nome. O livro Egogame (original) tratava das questões de relacionamento. Explicava sobre o outroísmo impositivo, submisso e sobre o autoísmo.

Enfim, os livros foram surgindo um atrás do outro devido ao interesse, as dúvidas e os equívocos dos alunos. Muitos deles surgiram de transcrições. Eu fazia um encontro online para conversar de um tema específico e gravava a conversa do encontro. Depois, transcrevia a conversa e virava livro. O livro Amor Fácil, Difícil e Impossível é um desses casos.

Atualmente existem 34 livros na biblioteca da 1ficina. 30 fazem parte dos livros estudados no ciclo de estudos e 4 são livros extras. A cada ciclo de estudos escrevo mais um livro ou dois para esclarecer algo que ainda não está totalmente esclarecido. Ou então, um livro extra. Esse livro aqui, por exemplo, é um livro extra que visa contar a história da criação da 1ficina.

Claro que cada livro tem uma história por trás da escrita. Não vou falar da história de cada um aqui, levaria muito tempo. Com esse capítulo, quero apenas contar um pouco e demonstrar que sem os livros, todo o trabalho da 1ficina não se sustentaria. A prática da autociência seria um muro enorme sem escada. Os livros da 1ficina são a escada da prática. Cada livro é um degrau.

Nos primeiros três anos de 1ficina, meus alunos eram papagaios espiritualistas que apenas repetiam as crenças que haviam decorado. A idolatria, o fanatismo e a crendice eram seus hábitos dominantes. Para poder conduzi-los pelo despertar da consciência, eu precisava que mudassem de hábito, precisava que trocassem o hábito de acreditar pelo hábito de pensar.

Foi então que tive a maior decepção da minha vida. Depois de três anos lutando para fazer os alunos pensarem, descobri que não estavam interessados nisso. Queriam conselhos, queriam crenças, queriam contos de fadas, unicórnios, mentiras reconfortantes, mas não queriam pensar.

Como professor, essa foi a maior decepção da minha vida: descobrir que o ser humano não quer pensar. Demorou até cair essa ficha. Primeiro achei que o problema era comigo, que era um professor ruim, que não estava sendo claro suficiente, etc. Porém, por mais que explicasse, as pessoas voltavam papagaiando as mesmas crendices e praticando a mesma idolatria e fanatismo.

Certo dia, acordei com uma tristeza profunda, como se um ente querido tivesse morrido e fosse o dia do seu velório. Tomei café e tentei agir normalmente. Mas foi impossível. Estava muito triste. Todos os seres humanos haviam morrido dentro de mim. Deixei o café em cima da mesa, fui para sala, liguei o aparelho de som, e coloquei essa música no repeat:

A música tocava e eu chorava. Nunca chorei tanto na vida. Minha esposa ficou até espantada. Chorei até cansar. Chorei até secar. Foram trinta minutos de choro torrencial. Quando cheguei no fundo do poço, quando não tinha como eu me sentir mais incapaz, impotente, miserável e fracassado do que estava me sentindo, começou um diálogo mental:

— Por que tanto choro? De quem é o velório?

— Do ser humano.

— O ser humano morreu?

— Dentro de mim, sim.

— Oh, quanto drama!

— O ser humano não pensa, não quer pensar e tem raiva de quem pensa.

— Sim, fato, e daí?

— É impossível despertar a consciência sem pensar.

— Sim, fato, e daí?

— Daí que ninguém jamais vai despertar a consciência.

— Sim, fato, e daí?

— Daí que meu trabalho é enxugar gelo.

— Sim, fato, e daí?

— Daí que não há nada que eu possa fazer.

— Sim, fato, e daí?

— Daí que não sei o que faço agora.

— O que você está fazendo agora?

— Estou chorando, porra!

— E chorar está resolvendo seu problema?

— Não!

— Então é simples, você pode continuar chorando ou…

— Ou o quê?

— Inventar uma nova estratégia para atingir seu objetivo.

Parei de chorar e inventei o ciclo de estudos EUreka.

Na sangha do EEU de São Paulo, tinha um rapaz muito inteligente e muito intenso em sua busca espiritual. Um dia, esse rapaz decidiu que tinha que beber ayahuasca e começou a me encher o saco para que o levasse para experimentar. A inquietude do rapaz era genuína e se destacava da maioria dos integrantes, então, decidi levá-lo a um grupo que estava frequentando na época.

Tomei o chá azedo, deitei no colchonete e me concentrei nas músicas xamânicas que começaram a tocar. Quando entrei no transe da ayahuasca, as músicas ficaram de fundo e começou uma conversa dentro da minha cabeça.

— Você tem ideia de quanto trabalho é necessário?

— Calma aí! Quem está falando?

— Irrelevante!

— Irrelevante não, você é uma voz falando dentro da minha cabeça.

— Exatamente! Sou uma voz falando dentro da sua cabeça. Uma voz que você chama de pensamento. Isso sim é relevante! Muito relevante! Embora você ignore completamente o quão fantástico é isso.

— Tudo bem! Entendi. Vamos em frente.

— Um a zero para mim!

— kkkk… Mas não entendi a pergunta. De que trabalho está falando?

— Quanto trabalho é necessário para que você possa ouvir uma voz dentro da sua cabeça? Quanto trabalho é necessário para criar um sistema mental de raciocínio, ou seja, uma linguagem humana?

Buuuuum! Minha cabeça explodiu.

— Você está me perguntando quanto trabalho é necessário para criar um idioma?

— Não apenas um idioma, mas todas as linguagens humanas, pois todas são fundadas no pensamento.

Buuuuum! Buuuuum! Buuuuum!

— Não!

— Até para responder um simples “não” como fez agora, é preciso muito trabalho.

Buuuuum! Buuuuum! Buuuuum!

— Para pensar é preciso usar uma linguagem. Não é possível pensar sem linguagem.

— Sim, e daí?

— Desde muito tempo o pensamento vem sendo aprimorado para que os seres humanos possam pensar o pensamento.

— Sim, e daí?

— Daí que vocês não usam o pensamento para pensar o pensamento.

— Sim, e daí?

— Daí que todo trabalho empreendido na criação do pensamento está sendo desperdiçado.

Me senti um ingrato. Eu fazia parte do pelotão do desperdício.

— Calma! Não tem problema desperdiçar. Nada se perde no universo. E ninguém tem obrigação de aproveitar as oportunidades. Mas que é um tremendo desperdício, é sim.

— O que posso fazer para ajudar no aproveitamento?

— Explicar.

— Explicar o que?

— Explicar que o ego (pensamento) é um telefone que serve para comunicação consigo mesmo e com outros seres.

— Só isso?

— Não! Explique como usar o ego também.

— E como usar o ego?

— Pensando o pensamento. Conversando consigo sobre o que pensa e sente.

Buuuuum! Buuuuum! Buuuuum!

— Telefone celular não é nada perto do pensamento. Pensar, sim, é high tech. Aproveitem essa tecnologia.

— E que nome dou a prática de pensar o pensamento?

— Dá o nome que quiser.

Passei o resto da sessão pensando em um nome. Pensei em vários. Por fim, tive a ideia de juntar “ego” com “telefonia” e surgiu a palavra: egofonia. Depois disso tive várias outras experiências que me levaram à criação dos 10 Passos Da Egofonia. Uma delas foi o jogo de RPG (Roll Playing Game). Quando conheci o RPG, não vi um jogo, vi uma sessão de terapia acontecendo de forma lúdica através de um jogo. Entendi que o RPG era o futuro da terapia e também da aprendizagem.

Os 10 Passos Da Egofonia é um jogo de RPG adaptado para descoberta do outroísmo subconsciente. O truque da Egofonia está no passo 07, onde tem a inversão dos personagens. A eureka da inversão aconteceu quando um amigo estava me dando uma bronca. Do ponto de vista dele, eu tinha feito uma coisa errada. Só que ele desconhecia meu ponto de vista e motivação. Se meu amigo pudesse pensar com minha cabeça e sentir com meu sentimento, ele não só entenderia que fiz certo, como teria feito o mesmo que eu. Quando meu amigo terminou com a bronca, pedi que ele se levantasse e trocasse de lugar comigo.

Ele olhou para mim.
Eu olhei para ele.

Ele era outro eu.
Eu era outro ele.

Ele sorriu para mim.
Eu sorri para ele.

Ele me entendeu.
Eu entendi ele.

Nós nos entendemos.

Assim nasceu o passo 07 da Egofonia.

Os 10 Passos Da Egofonia é a solução que encontrei para ajudar os alunos da 1ficina a fazerem autoanálise (pensar o pensamento). A Egofonia foi a primeira prática que apliquei nos alunos da 1ficina e que ensinei como aplicar em si mesmos. Atualmente tem diversas práticas de autoanálise no site, mas todas são derivações da Egofonia.

Certa vez, um rapaz veio até minha casa participar de um encontro da 1ficina. Nesse dia, só ele compareceu. Começamos a conversar. Ele me fez uma pergunta. Não lembro qual era a pergunta, mas lembro que se tratava de um equívoco. Passei uma hora ajudando o rapaz a investigar os conceitos envolvidos na pergunta até ele entender o equívoco.

Quando a conversa terminou, o rapaz estava suando frio. Ele se levantou, disse que não estava se sentindo bem e precisava ir embora urgente. Levei o rapaz até o portão. Assim que abri o portão, o rapaz deu tchau e saiu correndo. Ele estava com tênis e roupa de corrida. Creio que planejou voltar correndo para casa. Mas não acho que saiu correndo só por isso.

O rapaz saiu correndo pelo mesmo motivo que a maioria dos alunos saem correndo do ciclo de estudos que sempre termina com menos da metade dos inscritos: ele queria encontrar a verdade e eu coloquei ele de frente com a mentira. Por isso dei a esse livro o título de Mayasang (Encontro com a mentira) em oposição a Satsang (Encontro com a verdade).

Tem uma frase da 1ficina que diz: “Para encontrar a verdade, basta admitir a mentira”. Ou seja, a verdade sobre si (autoconhecimento) se faz presente através da pedagogia do Maysang e não do Satsang. Eu demonstrei isso ao rapaz, mas ele começou a passar mal com minhas perguntas e preferiu sair correndo de volta para as mentiras agradáveis.

Eu entendo o rapaz e entendo todos que fazem isso. Eu mesmo já fiz isso. Não estou julgando, estou apenas explicando um dos motivos que levam as pessoas a fugirem da prática da autociência. Mas esse não é o único motivo! Nem é o pior! O pior motivo é o professor. Isso mesmo! O pior e principal motivo das pessoas fugirem da autociência é o professor.

Não me refiro a minha pessoa. Sou apenas o professor da 1ficina, o professor do autoconhecimento não sou eu, é o sofrimento. Tem uma frase da 1ficina que diz: “Para encontrar deus abrace o diabo”. Como se não bastasse ir de encontro a mentira para encontrar a verdade, a 1ficina também ensina que é preciso ir ao encontro do sofrimento para encontrar a felicidade. Por isso muitos batem na porta da autociência, mas poucos a atravessam.

Eu tive que sofrer muito para aprender que o sofrimento é o mestre. Eu achava que eu era o mestre. Eu tinha convicção absoluta que eu era o mestre. O sofrimento me quebrou inteiro (e ainda quebra) para me mostrar que estava equivocado, que eu sou sempre o aluno. Só depois que aprendi essa primeira lição pude descobrir e ensinar tudo que explico na 1ficina.

Tem um livro da 1ficina, chamado Mestre Da Felicidade, que explica detalhadamente porque o sofrimento é o mestre do autoconhecimento. O texto abaixo é um resumo:

ESCOLA DO DIABO

Deus pode até ter criado o mundo, mas quem ensina você a viver nele é o diabo. E o mais diabólico é como você aprende. O mal ensina você a viver bem fazendo você viver mal. Como você quer viver bem, você precisa descobrir porque está vivendo mal. Para descobrir, você precisa praticar autociência. Quanto mais pratica autociência, mais produz autoconhecimento. Quanto mais autoconhecimento, melhor você vive. Percebe a maldade? O mal é a escola perfeita do bem. Ensina tudo sem ensinar nada. Deixa toda aprendizagem por conta do aluno. E para garantir a eficiência absoluta da aprendizagem, o mal não vai embora enquanto você não aprende a viver bem.

Chupa, Piaget!

O maior desafio no trabalho da 1ficina foi (ainda é) coordenar o grupo de veteranos. Escrever livros e textos, fazer áudios, vídeos e dar aulas só depende de mim, então, essa parte, embora trabalhosa, sempre foi fácil de executar. O comportamento alheio não depende de mim, então, tive que sofrer muito para descobrir como transformar um amontoado de pessoas em um grupo.

A primeira coisa que precisei aprender foi isso: não existe grupo. O que chamamos de grupo é na verdade um amontoado de pessoas. Em um grupo existem divergências e conflitos, mas não existe exclusão e desrespeito, pois o que une o grupo é maior do que o que separa. Demorei muito tempo até ficar consciente disso. Acreditava que bastava juntar as pessoas e já havia um grupo.

Transformar um amontoado de pessoas em um grupo é a tarefa mais trabalhosa que existe no universo, pois requer um egoísmo do tamanho do universo. Requer egoísmo maior. Egoísmo menor é quando cada um cuida de si (do seu próprio universo). Egoísmo menor é ótimo! Cuidar de si é ótimo! Você assume a responsabilidade por si e assim não sobrecarrega os outros.

Boa parte do trabalho da 1ficina é ajudar as pessoas a chegarem no egoísmo menor, que a 1ficina chama de autoísmo. Contudo, o egoísmo menor não é o fim da viagem. O fim da viagem é o egoísmo maior. Egoísmo maior é quando cada um cuida de si e do grupo. Egoísmo maior é o suprassumo da convivência. Porém, não acontece por decreto. Não há lei no universo capaz de transformar um amontoado de pessoas em um grupo. Egoísmo maior só acontece por obra da consciência desperta.

Tem uma frase da 1ficina que diz: “Você é um ser humano, você não precisa encontrar sua tribo, você precisa aceitá-la”. Essa aceitação é o egoísmo maior entre os seres humanos. Convivemos mal porque não somos um grupo humano, somos um amontoado de pessoas.

Resumindo, meu maior desafio no trabalho da 1ficina foi (ainda é) coordenar o grupo de veteranos, porque não depende de mim transformar um amontoado de pessoas em um grupo, depende de cada pessoa no grupo. Contudo, sendo coordenador, posso propor regras de participação que estimulem essa transformação. E foi o que fiz com a criação dos eurekarios.

Os eurekarios são tanto um lugar para prática da autoanálise e despertar da consciência, como para prática do egoísmo maior. A criação dos eurekarios é recente, tem 4 anos de funcionamento, mas os resultados são ótimos. Os veteranos da 1ficina ainda não são um grupo, estão longe disso, porém hoje estão mais perto do que ontem. Passo a passo, estão chegando.

Esse livro foi mais um passo. Prossigamos…

Que o meu egoísmo seja tanto,
que abrace o universo inteiro.
Que o meu egoísmo seja santo,
santo e verdadeiro.

Se o que eu quero é o que você quer,
então, qual é o problema?
Se eu não quero o que você não quer também
porque o dilema?

Você fere e mata, eu ofendo,
você bate, eu revido.
mas eu juro que eu não entendo
qual é o sentido.

Eu sou com você
você é comigo
Sou um com você
você é comigo.

Que o meu egoísmo seja um canto,
um canto em pleno apogeu.
Que o meu egoísmo seja um tanto,
um tanto maior do que eu.

Se o que eu quero é o que você quer,
então, qual é o problema?
Se eu não quero o que você não quer também
porque o dilema?

Você fere e mata, eu ofendo,
você bate, eu revido.
mas eu juro que eu não entendo
qual é o sentido.

Se o que nos une é maior
que coroa ou cara
E um mais um é sempre igual a nós
O que nos separa?

Eu sou com você
você é comigo
Sou um com você
você é comigo.

Que o meu egoísmo seja tanto,
que abrace o que não tem fim.
Que o meu egoísmo seja, portanto
o melhor que há em mim.

© 2023 • 1FICINA • Marcelo Ferrari