JANELA DO ÓBVIO

12/02/2016 by in category Textos with 0 and 0

O apartamento ficava no décimo sétimo andar e Marcos, solidariamente, quando queria fumar, se deslocava até a janela. As vezes ficávamos conversando na janela enquanto o grupo interagia na sala. Certa vez, nossa conversa foi assim:

— Está vendo esses carros se movimentando pela rua?
— Sim, estou. — Marcos respondeu.
— Percebe a sincronia?
— Como assim?
— Os carros estão se movimentando ao mesmo tempo.
— Sim, estão.
— E as nuvens também?
— Como assim?
— O movimento das nuvens está acontecendo ao mesmo tempo que o movimento dos carros.
— Sim, percebo.
— As pessoas andando na rua, também estão em sincronia. O movimento das pessoas está em sincronia com o movimento das nuvens e o movimento dos carros. Sensacional isso, não acha?
— Sim, mas onde você está querendo chegar com isso?
— Aqui, nessa conversa, que também é um movimento que está em sincronia com o movimento das pessoas, das nuvens e dos carros. Todos os movimentos acontecem em sincronia, percebe? Mas por que?
— Por que o que?
— Por que todos os movimentos acontecem em sincronia?

Marcos ficou olhando os movimentos acontecendo feito uma orquestra tocando uma sinfonia. Só que não tinha partitura, nem maestro. Não havia nada regendo a sincronia. A sincronia dos movimentos era evidente, óbvia, inegável, mas o motivo, se houvesse, era nenhum.

— Não sei.
— Continue olhando que você verá o óbvio por si mesmo.

Enquanto Marcos olhava os diversos movimentos, eu lhe disse:

— Todos os movimentos estão acontecem em sincronia porque é um movimento só.
— Como assim?
— Não são vários movimentos em sincronia. Não tem sincronia nenhuma. É um movimento só, monobloco, que supomos múltiplo devido outra suposição.
— Que outra suposição?
— O espaço.

Marcos foi retornando o olhar para a sala do apartamento e caindo em si. Seu semblante era um misto de espanto e sorriso de Monalisa. Ninguém jamais seria capaz de retirar de Marcos o óbvio para o qual ele estava despertando, nem mesmo o próprio Marcos.

© 2018 · 1FICINA · Marcelo Ferrari