INÚTIL PRAZER DE SER VOCÊ

25/05/2016 by in category Livros with 0 and 0
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01 | MENTALIDADE PONTE

Certa vez, durante uma conversa em grupo, disse que decidimos ser humanos para aprender o que é ser humano. Uma pessoa me perguntou: “Para quê?”. Eu repeti o mesmo que havia acabado de dizer, que decidimos ser humanos para aprender o que é ser humano, pois não há outro jeito de aprender a ser humano senão sendo humano. A pessoa insistiu: “Para quê?”. Primeiramente não entendi a insistência. Depois tive uma EUreka. Nossa mentalidade adulta é utilitarista, então, nosso entendimento sobre aprendizagem é utilitarista também, é aprendizagem ponte. Por que ponte? Porque segundo nossa mentalidade utilitarista, aprendizagem é meio, é coisa que serve para levar à outra coisa, feito ponte. O ensino primário é ponte para levar ao ensino básico, que é ponte para levar ao ensino médio, que é ponte para levar ao ensino superior, que é ponte para levar ao estágio, que é ponte para levar ao emprego, que é ponte para levar à promoção, que é ponte para levar à gerência e assim por diante.

Aprendizagem para nossa mentalidade utilitarista nunca é fim em si mesma, pelo contrário, é sempre o empecilho a ser eliminado para chegarmos ao próximo empecilho a ser eliminado e assim por diante. Quando respondi que escolhemos sermos humanos para aprender o que é ser humano, não estava falando de aprender a brincar, estava falando de brincar de aprender, estava falando de ser humano como fim em si mesmo, como diversão, como prazer de descobrir o que é ser humano. A pessoa repetiu a pergunta porque processou a palavra “aprender” com mentalidade ponte. “Ser humano para que? Qual é a utilidade? “Ser humano para chegar aonde?”. Essa era a pergunta. E a resposta é ser humano para ser humano. Só isso. Ser humano não é ponte, não leva a lugar nenhum. Ser humano é uma brincadeira de autorrealização, um jogo, uma EUrekatividade com fim em si mesma. Ser humano é brincar de descobrir o que é ser humano. Só que viciamos em mentalidade utilitarista, então, acreditamos que ser humano é ponte. Por isso nunca chegamos no lugar de onde nunca saímos: no ser humano que somos.


02 | INÚTIL PRAZER DE SER

Qual é a utilidade que um alicate tem para si mesmo?
Qual é a utilidade que uma goiaba tem para si mesma?
Qual é a utilidade que uma galinha tem para si mesma?
Qual é a utilidade que a água tem para si mesma?

Qual é a utilidade de ser para si mesmo? Nenhuma. Utilidade é sempre para o outro. A única utilidade que um ser tem para si mesmo, é o prazer exclusivo de ser um ser. Analogamente, a única utilidade que você tem para si mesmo, é o prazer exclusivo de ser um ser. Porém, essa utilidade não leva você a lugar nenhum, não é ponte, é fim em si mesma. Então, para mentalidade utilitarista, você ser, é inútil.


03 | INÚTIL PRAZER DE SER HUMANO

Qual é a utilidade que ser mineral tem para um diamante?
Qual é a utilidade que ser vegetal tem para uma samambaia?
Qual é a utilidade que ser animal tem para um coelho?

Qual é a utilidade que ser conforme uma natureza, tem para si mesmo? Nenhuma. Utilidade é sempre para o outro. A única utilidade em ser conforme uma natureza, é o prazer exclusivo de ser conforme tal natureza. Analogamente, a única utilidade que ser humano tem para você, é o prazer exclusivo de ser humano. Porém, essa utilidade não leva você a lugar nenhum, não é ponte, é fim em si mesma. Então, para mentalidade utilitarista, você ser humano, é inútil.


04 | INÚTIL PRAZER DE SER UM

Qual é a utilidade que ser diferente dos outros diamantes tem para um diamante?
Qual é a utilidade que ser diferente das outras árvores têm para uma árvore?
Qual é a utilidade que ser diferente dos outros cachorros tem para um cachorro?

Qual é a utilidade que a unicidade de um ser tem para si mesmo? Nenhuma. Utilidade é sempre para o outro. A única utilidade que a unicidade de um ser tem para o próprio ser, é o prazer exclusivo de ser único. Analogamente, a única utilidade que sua unicidade humana tem para você, é o prazer exclusivo de ser um ser humano único. Porém, essa utilidade não leva você a lugar nenhum, não é ponte, é fim em si mesma. Então, para mentalidade utilitarista, você ser humano singular, único do universo, é inútil.


05 | INÚTIL PRAZER DE SER VOCÊ

“Eu não sinto prazer em ser eu”, você pode dizer. Isso acontece porque você não vive sendo você. Você vive sendo outro. Você vive sendo o que seus pais querem que você seja, o que sua sociedade quer que você seja, o que seus professores querem que você seja, o que seus amigos querem que você seja, o que seu marido quer que você seja, o que sua esposa quer que você seja, o que seus filhos querem que você seja, o que sua cultura quer que você seja, o que sua religião quer que você seja, o que os comerciais de televisão querem que você seja. Enfim, você vive sendo o que o outro quer que você seja. Você é você, único, ímpar, singular, diferente, mas você vive em uniformidade. É por isso que você não sente prazer em ser você. Você vive sendo cópia do outro, que vive sendo cópia do outro, que vive sendo cópia do outro e assim por diante. Quando você vive sendo você, originalmente você, singularmente você, inutilmente você, é inevitável sentir o inútil prazer de ser você, também conhecido como felicidade.


06 | MAIOR PRAZER DO UNIVERSO

Quando eu vivo sendo eu, quando você vive sendo você, surge no universo o maior prazer do universo: o inútil prazer de sermos nós. Esse prazer universal não serve para nada, não é ponte, não nos leva a lugar nenhum, é fim em si mesmo. Então, para mentalidade utilitarista, é a coisa mais inútil do universo.


07 | MAIOR DESPRAZER DO UNIVERSO

Quando eu não vivo sendo eu, quando você não vive sendo você, surge no universo o maior desprazer do universo: o útil desprazer de não sermos nós. Esse sim é ponte. Serve para nos levar de volta ao inútil prazer de sermos nós.


08 | ALÉM DA MEDIOCRIDADE

“No pain, no gain” é uma frase muito popular entre os marombeiros. Significa, “sem dor, sem ganho”. Só que os marombeiros não foram os primeiros a formular essa sabedoria. Fernando Pessoa, por exemplo, já havia observado essa sabedoria com as seguintes palavras: “Quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor”.

Os portugueses não conheciam o Mapa Mundi. Ninguém conhecia. Não existia Mapa Mundi naquela época, mas ainda assim, os portugueses rasgaram os mares em precários navios de trinta metros e empurraram os limites do mundo e do homem até o Cabo do Não, nas costas do Senegal, que depois recebeu o nome de Cabo do Bojador. Muito longo e cercado por recifes, ali a neblina tampava a visão dos navegadores. Aqueles que passavam pelo Cabo do Não jamais voltavam. Muitos acreditavam que o mundo acabava depois do Cabo do Não e a neblina era o resultado da evaporação das águas que ferviam ao cair no inferno lá embaixo. Até que, em 1434, o navegador Gil Eanes disse sim para o Cabo do Não. Avançou e pronto! A terra e o homem não acabavam mais no Cabo do Não.

Fernando Pessoa fez uma analogia da autorrealização com a saga da navegação portuguesa. Bojador é uma metáfora para mediocridade. Para passar além da mediocridade, tem que passar além da dor. Óbvio! Suportar a dor é o alicerce da realização de qualquer tarefa e também da autorrealização. Você vive uma mentira porque não suporta a dor de ser rejeitado, a dor de ser criticado, a dor de ser maltratado, a dor de ser difamado, a dor de ser pressionado, etc. Você finge para fugir da dor. Seu lema é: fingir para fugir. Só que além de não conseguir fugir, sofre tentando e ainda vira escravo dos outros.

Certa vez, perguntaram ao filósofo Arthur Schopenhauer, qual é a opção mais sábia que um homem pode fazer na vida. Ele respondeu: “A opção mais sábia que um homem pode fazer na vida ele já não fez”. Schopenhauer se referia a opção de não nascer, uma vez que viver é se condenar a sofrer. Dizem que Schopenhauer foi pessimista, mas apenas disse o óbvio. Viver dói. Dói muito. Dói pra caralho. Dói para seres humanos, dói para bichos, dói para insetos, dói para frutas e legumes. A dor é inerente à experiência de viver. Nada escapa. Tentar fugir da dor só resulta em ampliação da mesma.

Realizadores não são seres humanos especiais nem imunes à dor, são seres humanos que não desistem de realizar o que querem apesar da dor. Realizadores preferem sentir a dor do fracasso a dor de sequer tentar. Preferem a dor do arrependimento a dor de não ter do que se arrepender. Realizadores se bancam e pagam o preço. O mesmo fazem os seres humanos que persistem na autorrealização. Claro que é mais fácil seguir a uniformidade do que seguir a própria consciência. Claro que é mais fácil copiar e colar do que escrever a própria história. O fingimento evita a dor do desprezo, da crítica, da rejeição, da censura e faz você ganhar joinha, beijo, palminha e coração. Só que não tem dor maior do que viver em autonegação.

Então, escolha seu prazer e sua dor.

PERGUNTAS E RESPOSTAS

PERGUNTA: Como posso ser eu se não sei quem sou?

Você não sabe, mas você sente. Você sente sua unicidade a cada passo, então, basta se permitir ser você a cada passo, e assim, passo a passo, você estará sendo você, mesmo sem saber quem você é.


PERGUNTA: E a tão perseguida felicidade?

Todo ser deseja ser (o que é). A tão perseguida felicidade é o inútil prazer de ser você.


PERGUNTA: A utilidade do ser para si é autorrealização?

Não, autorealização não é utilidade, é a diversão dos seres. Você (sem forma) brinca de ser você (com forma). O universo é o playground dos seres.

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