INÚTIL PRAZER DE SER VOCÊ

25/05/2016 by in category Livros with 0 and 0
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01 | MENTALIDADE PONTE

Certa vez, durante uma conversa em grupo, disse que decidimos ser humanos para aprender o que é ser humano. Uma pessoa me perguntou: “Para quê?”. Eu repeti o mesmo que havia acabado de dizer, que decidimos ser humanos para aprender o que é ser humano, pois não há outro jeito de aprender a ser humano senão sendo humano. A pessoa insistiu: “Para quê?”. Primeiramente não entendi a insistência. Depois tive uma EUreka. Nossa mentalidade adulta é utilitarista, então, nosso entendimento sobre aprendizagem é utilitarista também, é aprendizagem ponte. Por que ponte? Porque segundo nossa mentalidade utilitarista, aprendizagem é meio, é coisa que serve para levar à outra coisa, feito ponte. O ensino primário é ponte para levar ao ensino básico, que é ponte para levar ao ensino médio, que é ponte para levar ao ensino superior, que é ponte para levar ao estágio, que é ponte para levar ao emprego, que é ponte para levar à promoção, que é ponte para levar à gerência e assim por diante.

Aprendizagem para nossa mentalidade utilitarista nunca é fim em si mesma, pelo contrário, é sempre o empecilho a ser eliminado para chegarmos ao próximo empecilho a ser eliminado e assim por diante. Quando respondi que escolhemos sermos humanos para aprender o que é ser humano, não estava falando de aprender a brincar, estava falando de brincar de aprender, estava falando de ser humano como fim em si mesmo, como diversão, como prazer de descobrir o que é ser humano. A pessoa repetiu a pergunta porque processou a palavra “aprender” com mentalidade ponte. “Ser humano para que? Qual é a utilidade? “Ser humano para chegar aonde?”. Essa era a pergunta. E a resposta é ser humano para ser humano. Só isso. Ser humano não é ponte, não leva a lugar nenhum. Ser humano é uma brincadeira de autorrealização, um jogo, uma EUrekatividade com fim em si mesma. Ser humano é brincar de descobrir o que é ser humano. Só que viciamos em mentalidade utilitarista, então, acreditamos que ser humano é ponte. Por isso nunca chegamos no lugar de onde nunca saímos: no ser humano que somos.


02 | INÚTIL PRAZER DE SER

Qual é a utilidade que um alicate tem para si mesmo?
Qual é a utilidade que uma goiaba tem para si mesma?
Qual é a utilidade que uma galinha tem para si mesma?
Qual é a utilidade que a água tem para si mesma?

Qual é a utilidade de ser para si mesmo? Nenhuma. Utilidade é sempre para o outro. A única utilidade que um ser tem para si mesmo, é o prazer exclusivo de ser um ser. Analogamente, a única utilidade que você tem para si mesmo, é o prazer exclusivo de ser um ser. Porém, essa utilidade não leva você a lugar nenhum, não é ponte, é fim em si mesma. Então, para mentalidade utilitarista, você ser, é inútil.


03 | INÚTIL PRAZER DE SER HUMANO

Qual é a utilidade que ser mineral tem para um diamante?
Qual é a utilidade que ser vegetal tem para uma samambaia?
Qual é a utilidade que ser animal tem para um coelho?

Qual é a utilidade que ser conforme uma natureza, tem para si mesmo? Nenhuma. Utilidade é sempre para o outro. A única utilidade em ser conforme uma natureza, é o prazer exclusivo de ser conforme tal natureza. Analogamente, a única utilidade que ser humano tem para você, é o prazer exclusivo de ser humano. Porém, essa utilidade não leva você a lugar nenhum, não é ponte, é fim em si mesma. Então, para mentalidade utilitarista, você ser humano, é inútil.


04 | INÚTIL PRAZER DE SER UM

Qual é a utilidade que ser diferente dos outros diamantes tem para um diamante?
Qual é a utilidade que ser diferente das outras árvores têm para uma árvore?
Qual é a utilidade que ser diferente dos outros cachorros tem para um cachorro?

Qual é a utilidade que a unicidade de um ser tem para si mesmo? Nenhuma. Utilidade é sempre para o outro. A única utilidade que a unicidade de um ser tem para o próprio ser, é o prazer exclusivo de ser único. Analogamente, a única utilidade que sua unicidade humana tem para você, é o prazer exclusivo de ser um ser humano único. Porém, essa utilidade não leva você a lugar nenhum, não é ponte, é fim em si mesma. Então, para mentalidade utilitarista, você ser humano singular, único do universo, é inútil.


05 | INÚTIL PRAZER DE SER VOCÊ

“Eu não sinto prazer em ser eu”, você pode dizer. Isso acontece porque você não vive sendo você. Você vive sendo outro. Você vive sendo o que seus pais querem que você seja, o que sua sociedade quer que você seja, o que seus professores querem que você seja, o que seus amigos querem que você seja, o que seu marido quer que você seja, o que sua esposa quer que você seja, o que seus filhos querem que você seja, o que sua cultura quer que você seja, o que sua religião quer que você seja, o que os comerciais de televisão querem que você seja. Enfim, você vive sendo o que o outro quer que você seja. Você é você, único, ímpar, singular, diferente, mas você vive em uniformidade. É por isso que você não sente prazer em ser você. Você vive sendo cópia do outro, que vive sendo cópia do outro, que vive sendo cópia do outro e assim por diante. Quando você vive sendo você, originalmente você, singularmente você, inutilmente você, é inevitável sentir o inútil prazer de ser você, também conhecido como felicidade.


06 | MAIOR PRAZER DO UNIVERSO

Quando eu vivo sendo eu, quando você vive sendo você, surge no universo o maior prazer do universo: o inútil prazer de sermos nós. Esse prazer universal não serve para nada, não é ponte, não nos leva a lugar nenhum, é fim em si mesmo. Então, para mentalidade utilitarista, é a coisa mais inútil do universo.


07 | MAIOR DESPRAZER DO UNIVERSO

Quando eu não vivo sendo eu, quando você não vive sendo você, surge no universo o maior desprazer do universo: o útil desprazer de não sermos nós. Esse sim é ponte. Serve para nos levar de volta ao inútil prazer de sermos nós.


08 | ALÉM DA MEDIOCRIDADE

“No pain, no gain” é uma frase muito popular entre os marombeiros. Significa, “sem dor, sem ganho”. Só que os marombeiros não foram os primeiros a formular essa sabedoria. Fernando Pessoa, por exemplo, já havia observado essa sabedoria com as seguintes palavras: “Quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor”.

Os portugueses não conheciam o Mapa Mundi. Ninguém conhecia. Não existia Mapa Mundi naquela época, mas ainda assim, os portugueses rasgaram os mares em precários navios de trinta metros e empurraram os limites do mundo e do homem até o Cabo do Não, nas costas do Senegal, que depois recebeu o nome de Cabo do Bojador. Muito longo e cercado por recifes, ali a neblina tampava a visão dos navegadores. Aqueles que passavam pelo Cabo do Não jamais voltavam. Muitos acreditavam que o mundo acabava depois do Cabo do Não e a neblina era o resultado da evaporação das águas que ferviam ao cair no inferno lá embaixo. Até que, em 1434, o navegador Gil Eanes disse sim para o Cabo do Não. Avançou e pronto! A terra e o homem não acabavam mais no Cabo do Não.

Fernando Pessoa fez uma analogia da autorrealização com a saga da navegação portuguesa. Bojador é uma metáfora para mediocridade. Para passar além da mediocridade, tem que passar além da dor. Óbvio! Suportar a dor é o alicerce da realização de qualquer tarefa e também da autorrealização. Você vive uma mentira porque não suporta a dor de ser rejeitado, a dor de ser criticado, a dor de ser maltratado, a dor de ser difamado, a dor de ser pressionado, etc. Você finge para fugir da dor. Seu lema é: fingir para fugir. Só que além de não conseguir fugir, sofre tentando e ainda vira escravo dos outros.

Certa vez, perguntaram ao filósofo Arthur Schopenhauer, qual é a opção mais sábia que um homem pode fazer na vida. Ele respondeu: “A opção mais sábia que um homem pode fazer na vida ele já não fez”. Schopenhauer se referia a opção de não nascer, uma vez que viver é se condenar a sofrer. Dizem que Schopenhauer foi pessimista, mas apenas disse o óbvio. Viver dói. Dói muito. Dói pra caralho. Dói para seres humanos, dói para bichos, dói para insetos, dói para frutas e legumes. A dor é inerente à experiência de viver. Nada escapa. Tentar fugir da dor só resulta em ampliação da mesma.

Realizadores não são seres humanos especiais nem imunes à dor, são seres humanos que não desistem de realizar o que querem apesar da dor. Realizadores preferem sentir a dor do fracasso a dor de sequer tentar. Preferem a dor do arrependimento a dor de não ter do que se arrepender. Realizadores se bancam e pagam o preço. O mesmo fazem os seres humanos que persistem na autorrealização. Claro que é mais fácil seguir a uniformidade do que seguir a própria consciência. Claro que é mais fácil copiar e colar do que escrever a própria história. O fingimento evita a dor do desprezo, da crítica, da rejeição, da censura e faz você ganhar joinha, beijo, palminha e coração. Só que não tem dor maior do que viver em autonegação.

Então, escolha seu prazer e sua dor.

PERGUNTAS E RESPOSTAS

PERGUNTA: Como posso ser eu se não sei quem sou?

Você não sabe, mas você sente. Você sente sua unicidade a cada passo, então, basta se permitir ser você a cada passo, e assim, passo a passo, você estará sendo você, mesmo sem saber quem você é.


PERGUNTA: E a tão perseguida felicidade?

Todo ser deseja ser (o que é). A tão perseguida felicidade é o inútil prazer de ser você.


PERGUNTA: A utilidade do ser para si é autorrealização?

Não, autorealização não é utilidade, é a diversão dos seres. Você (sem forma) brinca de ser você (com forma). O universo é o playground dos seres.

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O outro sempre quer que você seja outro. Ninguém tem interesse que você seja você. Seu pai quer que você seja outro. Sua mãe quer que você seja outro. Sua esposa quer que você seja outro. Seu marido quer que você seja outro. Seus filhos querem que você seja outro. Seus amigos querem que você seja outro. Seus professores querem que você seja outro. A sociedade quer que você seja outro. O padre quer que você seja outro. E mais! Segundo a bíblia, até Deus quer que você seja outro. Ora, se o universo inteiro e até o criador do universo quer que você seja outro: quem é você para ser você? De onde vem essa arrogância suprema de cagar para as expectativas e o recalque alheio? Que egoísmo escancarado, fedido e mesquinho é esse de ser autêntico? É acreditando nessas certezas e duvidando de si que você opta pela uniformidade e vive sendo outro.

Autoconhecimento não serve para nada. Só serve para possibilitar que você viva sendo você. Que utilidade isso tem para o mundo? Nenhuma. Zero. Muito pelo contrário. Sua unicidade só atrapalha o funcionamento da máquina utilitarista.

Você vai para a escola, estuda sobre moléculas, mitocôndrias, movimento retilíneo uniforme, proparoxítonas, ditongo, crase, período paleolítico, guerra da secessão, dimetil, dipropil, soma dos quadrados dos catetos, etc. Você estuda tudo que é útil. Depois arranja um emprego de 24 hs no utilitarismo. Quando sobra tempo para estudar o que é ser humano? O que é viver? Nunca. Que inutilidade! Filosofia nunca encheu uma barriga. A vida não para! Não temos tempo a perder. Sempre em frente. Mas para onde? Para ver quem chega com o maior curriculum no cemitério?

Talvez, quando você se tornar um peso morto para máquina utilitarista, ela vai te vomitar das engrenagens dela, e daí sim, você vai ter tempo para uma coisa inútil como autoconhecimento. Talvez. Quem sabe? Você sabe? Ou está sem tempo para pensar nisso também? 

Você é a fábrica da sua realidade. Realidade é produto. Sua fabricação de realidade funciona assim: sua vontade produz seu pensamento, que produz seu comportamento, que produz sua realidade. Sendo assim, o natural seria que você vivesse em constante autorrealização, ou seja, que sua realidade fosse reflexo da sua vontade. Mas não é isso que acontece. Por que não? Porque você tem arbítrio. Você é livre para NEGAR sua vontade. Não é agradável, mas é possível. Então, você nega sua vontade para realizar a vontade dos seus pais, dos seus amigos, dos seus professores, da sua sociedade. Você nasce e morre em autonegação. O resultado de viver assim, é uma profunda e constante insatisfação, uma sensação de que sua realidade está errada, de que você está vivendo a vida de outra pessoa, de que sua realidade não é sua. Claro que é sua! Só que não!

Você pode tentar tapar o sol com a peneira, com chocolate, com sexo, com drogas, com roupas, com dinheiro, com aplausos e etc, mas, ironicamente, tudo isso só mantem você afastado da sua missão: ser você. Quer ser um herói? Salve a si mesmo da uniformidade! Quer matar o vilão? Pratique autoobservação e mate sua mentalidade uniformista! Sua fidelidade aos 10 mil mandamentos não faz de você um herói, faz de você inimigo de si mesmo. Desista da uniformidade! Dê um grito de liberdade agora mesmo! Ao fazer isso, aos olhos dos fieis, você se tornará um traidor. Deixe que falem! Seja fiel a si. Cumpra sua missão.

Quando meu amigo percebeu que seu coração pulsava feito bumbo de rock, decidiu redirecionar suas finanças. Começou a comprar discos. Passado algum tempo, ele tinha tantos discos que começou a fazer trocas em um sebo. De tanto ir ao sebo, acabou arranjando um emprego lá. Ganhar dinheiro para ouvir música e vender discos, foi o paraíso. Meu amigo estava sentado no colo do seu destino, mas ainda não havia percebido isso.

Passado algum tempo, ele mudou de emprego, e mudou de novo, e de novo, até virar vendedor numa loja de instrumentos musicais. Certa tarde, com a loja vazia, seu colega de trabalho ligou uma guitarra e começou a tocar. Meu amigo sentou na bateria e tentou acompanhar a música. Para seu próprio espanto, conseguiu facilmente, mas tão facilmente que começou a brincar com o ritmo, fazendo variações e viradas. Terminada a brincadeira, o guitarrista elogiou a habilidade do meu amigo e o convidou para tocar bateria na banda dele.

Foi nesse momento que meu amigo encontrou seu destino. Ele podia passar o resto da vida fugindo, podia ir atrás de ficar rico, como havia sido treinado socialmente, porém, não podia mais, nunca mais, alegar ignorância. Seu destino ficou óbvio. Estava ali, gritando em suas tripas, escorrendo junto com o suor na testa. Dito em suas próprias palavras: “Quer dizer que além de ouvir música eu posso produzir música também?”.

Um velho e um menino viajam por uma estrada de terra puxando um burro chamado mundo. Uma pessoa diz: “Que burrice! Vocês dois andando a pé e o burro de carga sem carga!”. O velho coloca o menino em cima do burro. Outra pessoa diz: “Que preguiça! Um menino cheio de vitalidade em cima do burro e um pobre velho andando a pé!”. O menino desmonta do burro e o velho sobe no burro. Outra pessoa diz: “Que maldade! Um homem feito em cima do burro e um menino franzino andando a pé!”. O menino sobe em cima do burro junto com o velho. Outra pessoa diz: “Que crueldade! Dois homens em cima de um pobre burrico!”. O velho e o menino descem do burro e colocaram o burro nas costas. Moral da história: Se você vive para satisfazer as expectativas dos outros, eis porque não consegue nunca e sente como se estivesse levando o mundo nas costas.

A sabedoria necessária para você viver bem vem de fábrica. Não há necessidade de educação. Para você viver bem, basta você viver sendo fruto da sua própria semente, produto da sua própria individualidade, pé de você. O que acontece é que isso não acontece. Você vive como uma laranjeira que dá manga, morango, kiwi, tomate, pepino, presunto, tofu, doritos, coca cola, fanta uva, suflair, gasolina, tudo, menos laranja.

Você vive sendo outro. E por que? Porque você foi educado pelo outro. E qual é o problema nisso? O problema é que o outro é incapaz de saber por você e vice-versa. Então, como o outro pode lhe ensinar a viver bem sendo que o outro é incapaz de saber o que é bem para você?

Bem e mal não é igual para todos, é igualmente diferente, é relativo a unicidade de cada um. Ninguém tem acesso a unicidade do outro. Por mais bem intencionados que fossem seus educadores, eles não tinham como lhe ensinar a viver bem. O fracasso deles era inevitável. Você vivendo mal é a prova viva disso. Por que continuar? De que outra prova você precisa para deixar de viver de acordo com o bem que aprendeu e passar a viver de acordo com o que lhe faz bem?

Você nasceu nesse mundo para destruir esse mundo. Está espantado? Tem mais! Você já está destruindo esse mundo, sem dar um tiro sequer. Sua estratégia para destruir o mundo é mais infalível que a bomba atômica: é ser você. O destino de toda semente é realizar a si mesma. O destino de uma coletividade de sementes é realizar uma nova safra. Você é uma semente da nova safra humana. Você, realizando a si próprio, sendo você mesmo, por simples e inevitável consequência, está destruindo esse velho mundo e produzindo um mundo novo. Por isso é tão transformador quando você se permite ser você, ímpar, singular, extraordinário, por mais estranho que isso possa parecer aos olhos do velho mundo. Você não é estranho, estranho é uma coletividade escravizar, explorar, segregar, prejudicar e matar uns aos outros. E você ainda fica tentando se encaixar nesse mundo! Por isso que dói. Você não nasceu para se encaixar, você nasceu para tirar o ser humano de dentro da caixa. Entendeu? Ótimo! Prossiga!

Você não precisa vir-a-ser você para ser você. Você é você, sempre, inevitavelmente. Não há nada que você possa fazer para deixar de ser você. É isso que algumas escolas e mestres orientais de autoconhecimento buscam explicar. Esse ensinamento é verdadeiro, mas é incompleto e faz você jogar fora o bebê junto com a água suja do banho.

O que falta nesse ensinamento é a questão do SENDO. Embora seja desnecessário vir-a-ser para ser, é imprescindível estar SENDO para estar SENDO. Imagine que você é um gato. Você não precisa vir-a-ser gato para ser gato, você é gato porque é. Agora, imagine que você é um gato cacarejando. Você não deixa de ser gato porque está cacarejando, mas você cacarejando não está SENDO você.

Você é único, impar, singular, diferente, mas vive SENDO igual. Você mia, late, cacareja, muge, pia, relincha, enfim, reza a cartilha da bicharada toda, menos sua própria. Por isso você sofre. A função do seu sofrimento é lhe alertar que você não está SENDO você, que está SENDO outro.

Sua vida não é sua. Eis o problema. Sua vida é a vida que seus pais queriam para você, é a vida que sua sociedade lhe ensinou a viver, é a vida que o medo lhe vendeu junto com o seguro de vida e a aposentadoria, é a vida que a inveja e os programas de televisão assopraram em seus ouvidos, é a vida que a religião e deus lhe deu. Resultado: sua vida não te representa.

É por isso que você se sente vazio e frustrado. É por isso que a felicidade dos outros te incomoda. É por isso que você fuma cigarro, usa drogas, come sem parar e vive na rede social. É por isso que você tem vontade de apertar o botão de desligar e começar do zero. Puft! Vida nova! Que bom seria, né?

A boa notícia é que você pode recomeçar a qualquer instante. Você é livre para decidir como viver. Nada lhe obriga a viver de uma forma que não te representa. A má notícia é que não basta você decidir mudar, você precisa executar sua decisão. Não basta decidir atravessar o rio, você precisa nadar até o outro lado.

Decidir é o primeiro passo da mudança, mas nenhuma viagem é feita de um passo só. Provavelmente, você saiu tanto da sua unicidade, que precisará dar muitos passos até fazer as pazes consigo mesmo. Mas não tem milagre. Ou você vive diferente ou sua vida continua igual.

Você acredita que se viver sendo você, espontaneamente você, o outro vai te rejeitar, te excluir, te odiar, te crucificar, enfim, vai te matar (metaforicamente falando). A menos que esse outro seja um repolho, uma melancia, uma parede, um tatu, enfim, algo não humano, você está certo, provavelmente o outro vai te matar sim. Então, o que você faz para evitar que o outro te mate? Você se suicida (metaforicamente falando). Você mesmo se mata fingindo ser outro. Fingindo ser o que não é. Você sofre com isso, claro! Imagine a dor de um cavalo se obrigando a cacarejar e botar ovo! Imagine a dor de uma águia se obrigando a rastejar feito cobra! Não tem nada mais sofrido do que viver em negação de si. É uma tortura. Então, se quer viver bem, pare de se rejeitar para ser aceito pelo outro. Você não tem obrigação de agradar ninguém. Tire essa corda do pescoço. Viva bem!

O que você prefere?

( A ) ter dinheiro
( B ) ser rico 

( C ) ser você

( A ) ter fama
( B ) ser famoso

( C ) ser você

( A ) ter amores
( B ) ser amado

( C ) ser você

( A ) ter medalhas
( B ) ser vencedor 

( C ) ser você

( A ) ter barriga de tanquinho
( B ) ser bonito 
( C ) ser você

( A ) ter oscambau
( B ) ser oscambau 

( C ) ser você

A opção (C) produz autorrealização, bem viver e não exclui a possibilidade das opções (A) e (B). As opções (A) e (B) excluem a possibilidade da opção (C). Qual é sua opção?

Um homem encontra com um amigo.

O amigo diz: “Você sumiu!”
O homem responde: “Estive ocupado fazendo terapia”.
O amigo pergunta: “Por que? O que aconteceu?”.
O homem explica: “Tive síndrome de pânico! Imagina só, depois de adulto, voltei a fazer xixi na cama!”.
O amigo exclama: “Nossa, sério isso!?”.
O homem diz: “Sim, sério, mas já recebi alta.”
O amigo pergunta: “Não está mais fazendo xixi na cama?”.
O homem responde: “Sim, continuo fazendo xixi na cama, mas agora estou fazendo xixi gostoso!”

Se você não entendeu a lição terapêutica dessa piada, vá até o supermercado e compre uma barra de chocolate. Abra e coma. Enquanto estiver degustando o chocolate, se pergunte: “Para que serve comer chocolate?”. Quanto mais você se indagar, mais irá descobrir que comer chocolate não serve para nada.

Comer chocolate não enche seu corpo de vitaminas e nutrientes, não faz você decorar a tabuada, não arruma a casa, não faz o almoço, não lava os pratos, não limpa o chão, não faz você arranjar um emprego melhor, não aumenta seu salário, nem paga suas contas. Enfim, comer chocolate, assim como fazer sexo, ouvir música, dançar, contar piada, jogar baralho e mijar gostoso, são atividades absolutamente inúteis.

Você não executa atividades inúteis por necessidade ou meio para chegar à próxima atividade. Atividades inúteis não são pontes, são fins em si mesmas. Você come chocolate para experimentar exatamente o que está executando: o prazer de comer chocolate. Você faz sexo para experimentar exatamente o que está executando: o prazer de fazer sexo. Você ouve música para experimentar exatamente o que está executando: o prazer de ouvir música.

Atividades inúteis não servem para nada, só servem para você experimentar o prazer de executá-las.

Esse é o problema! O mundo é uma máquina utilitarista. Você, consciente ou não, é uma engrenagem dentro dessa máquina. Então, não há espaço para engrenagens inúteis, nem tempo a perder. Por isso, tudo que você gosta é ilegal, imoral ou engorda. Aos olhos da mentalidade utilitarista, qualquer atividade com fim em si mesma é inútil.

Só que você não é apenas uma engrenagem social. Você precisa se alimentar de prazer, assim como precisa respirar, beber água e comer comida. Você precisa executar atividades inúteis muitas vezes, repetidas vezes, diariamente. Não é a toa que depois do trabalho você vai para o bar jogar conversa fora.

Inutilidade é vital. Senão você enlouquece. Senão fica insuportável rodar na máquina utilitarista. Melhor morrer, concluem os suicidas.

Então, se você não quer enlouquecer, nem chegar ao ponto de achar melhor morrer, sugiro abandonar a crença de que você tem que ser útil para ser feliz. Se fosse assim, crianças seriam os seres mais deprimidos do mundo, não os adultos. Óbvio que essa crença é um equívoco. A felicidade das crianças vem justamente da inutilidade, tanto de suas atividades, como de si mesmas para a máquina social.

Quando você acredita que tem que ser útil para ser feliz, tudo que você consegue é sentir prazer com culpa. Para que continuar acreditando nisso? Que tal abandonar essa crença e fazer xixi gostoso?

“Come chocolates, pequena, come chocolates! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria. Come, pequena suja, come! Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes! Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho, deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.” (Trecho do poema Tabacaria, de Fernando Pessoa)

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