01 | MENTALIDADE PONTE

Certa vez, durante uma conversa em grupo, disse que decidimos ser humanos para aprender o que é ser humano. Uma pessoa me perguntou: “Para quê?”. Eu repeti o mesmo que havia acabado de dizer, que decidimos ser humanos para aprender o que é ser humano, pois não há outro jeito de aprender a ser humano senão sendo humano. A pessoa insistiu: “Para quê?”. Primeiramente não entendi a insistência. Depois tive uma EUreka. Nossa mentalidade adulta é utilitarista, então, nosso entendimento sobre aprendizagem é utilitarista também, é aprendizagem ponte. Por que ponte? Porque segundo nossa mentalidade utilitarista, aprendizagem é meio, é coisa que serve para levar à outra coisa, feito ponte. O ensino primário é ponte para levar ao ensino básico, que é ponte para levar ao ensino médio, que é ponte para levar ao ensino superior, que é ponte para levar ao estágio, que é ponte para levar ao emprego, que é ponte para levar à promoção, que é ponte para levar à gerência e assim por diante.

Aprendizagem para nossa mentalidade utilitarista nunca é fim em si mesma, pelo contrário, é sempre o empecilho a ser eliminado para chegarmos ao próximo empecilho a ser eliminado e assim por diante. Quando respondi que escolhemos sermos humanos para aprender o que é ser humano, não estava falando de aprender a brincar, estava falando de brincar de aprender, estava falando de ser humano como fim em si mesmo, como diversão, como prazer de descobrir o que é ser humano. A pessoa repetiu a pergunta porque processou a palavra “aprender” com mentalidade ponte. “Ser humano para que? Qual é a utilidade? “Ser humano para chegar aonde?”. Essa era a pergunta. E a resposta é ser humano para ser humano. Só isso. Ser humano não é ponte, não leva a lugar nenhum. Ser humano é uma brincadeira de autorrealização, um jogo, uma EUrekatividade com fim em si mesma. Ser humano é brincar de descobrir o que é ser humano. Só que viciamos em mentalidade utilitarista, então, acreditamos que ser humano é ponte. Por isso nunca chegamos no lugar de onde nunca saímos: no ser humano que somos.


02 | INÚTIL PRAZER DE SER

Qual é a utilidade que um alicate tem para si mesmo?
Qual é a utilidade que uma goiaba tem para si mesma?
Qual é a utilidade que uma galinha tem para si mesma?
Qual é a utilidade que a água tem para si mesma?

Qual é a utilidade de ser para si mesmo? Nenhuma. Utilidade é sempre para o outro. A única utilidade que um ser tem para si mesmo, é o prazer exclusivo de ser um ser. Analogamente, a única utilidade que você tem para si mesmo, é o prazer exclusivo de ser um ser. Porém, essa utilidade não leva você a lugar nenhum, não é ponte, é fim em si mesma. Então, para mentalidade utilitarista, você ser, é inútil.


03 | INÚTIL PRAZER DE SER HUMANO

Qual é a utilidade que ser mineral tem para um diamante?
Qual é a utilidade que ser vegetal tem para uma samambaia?
Qual é a utilidade que ser animal tem para um coelho?

Qual é a utilidade que ser conforme uma natureza, tem para si mesmo? Nenhuma. Utilidade é sempre para o outro. A única utilidade em ser conforme uma natureza, é o prazer exclusivo de ser conforme tal natureza. Analogamente, a única utilidade que ser humano tem para você, é o prazer exclusivo de ser humano. Porém, essa utilidade não leva você a lugar nenhum, não é ponte, é fim em si mesma. Então, para mentalidade utilitarista, você ser humano, é inútil.


04 | INÚTIL PRAZER DE SER UM

Qual é a utilidade que ser diferente dos outros diamantes tem para um diamante?
Qual é a utilidade que ser diferente das outras árvores têm para uma árvore?
Qual é a utilidade que ser diferente dos outros cachorros tem para um cachorro?

Qual é a utilidade que a unicidade de um ser tem para si mesmo? Nenhuma. Utilidade é sempre para o outro. A única utilidade que a unicidade de um ser tem para o próprio ser, é o prazer exclusivo de ser único. Analogamente, a única utilidade que sua unicidade humana tem para você, é o prazer exclusivo de ser um ser humano único. Porém, essa utilidade não leva você a lugar nenhum, não é ponte, é fim em si mesma. Então, para mentalidade utilitarista, você ser humano singular, único do universo, é inútil.


05 | INÚTIL PRAZER DE SER VOCÊ

“Eu não sinto prazer em ser eu”, você pode dizer. Isso acontece porque você não vive sendo você. Você vive sendo outro. Você vive sendo o que seus pais querem que você seja, o que sua sociedade quer que você seja, o que seus professores querem que você seja, o que seus amigos querem que você seja, o que seu marido quer que você seja, o que sua esposa quer que você seja, o que seus filhos querem que você seja, o que sua cultura quer que você seja, o que sua religião quer que você seja, o que os comerciais de televisão querem que você seja. Enfim, você vive sendo o que o outro quer que você seja. Você é você, único, ímpar, singular, diferente, mas você vive em uniformidade. É por isso que você não sente prazer em ser você. Você vive sendo cópia do outro, que vive sendo cópia do outro, que vive sendo cópia do outro e assim por diante. Quando você vive sendo você, originalmente você, singularmente você, inutilmente você, é inevitável sentir o inútil prazer de ser você, também conhecido como felicidade.


06 | MAIOR PRAZER DO UNIVERSO

Quando eu vivo sendo eu, quando você vive sendo você, surge no universo o maior prazer do universo: o inútil prazer de sermos nós. Esse prazer universal não serve para nada, não é ponte, não nos leva a lugar nenhum, é fim em si mesmo. Então, para mentalidade utilitarista, é a coisa mais inútil do universo.


07 | MAIOR DESPRAZER DO UNIVERSO

Quando eu me proíbo de viver sendo eu, quando você se proíbe de viver sendo você, surge no universo o maior desprazer do universo: o útil desprazer de não sermos nós. Esse sim é ponte, serve para nos levar de volta ao inútil prazer de sermos nós.


08 | AUTORREALIZAÇÃO

Imagine que você ainda não é ser humano. Você é um ser, mas não é humano. Daí, você decide brincar de ser humano. Mas antes de entrar na brincadeira, você decide investigar um pouquinho para saber do que se trata. Você vai conversar com alguém que já conhece a brincadeira:

— Como funciona a brincadeira de ser humano?
— É uma brincadeira de autorrealização.
— Como assim?
— Você precisa responder sim ou não.
— Só isso!? Sim ou não?
— Exato! Só responder sim ou não.
— Responder para quem?
— Para si mesmo.
— Como assim?
— Sim pra mim ou não pra mim.
— Só isso mesmo?
— Só isso! Sempre a mesma pergunta.
— O que acontece quando respondo sim pra mim?
— Você experimenta o inútil prazer de ser você.
— E quando respondo não?
— Você experimenta o útil desprazer de ser outro.
— E como a pergunta é feita?
— Através de circunstâncias.
— Então, são muitas perguntas?
— Todas as circunstâncias são a mesma pergunta.
— É muito simples essa brincadeira!
— Sim, muito simples!
— Vou entrar nessa brincadeira.


09 | DOIS JEITOS DE VIVER

Então, você entra na brincadeira e começa a ser humano. Aliás, não entra, já está dentro. Sendo assim, eu te pergunto: ser humano é tão simples como você pensou que era?

PARTICIPANTE: De jeito nenhum, me enganaram!

Qual é a complexidade, se basta responder sim ou não?

PARTICIPANTE: Se eu soubesse o que é sim e não, era simples, só que não sei.

Exatamente! A brincadeira é simples, mas não é fácil. É simples porque basta responder sim ou não. Mas é difícil, pois para responder sim ou não é preciso autoconhecimento, e você chega na brincadeira sem nenhum autoconhecimento, zero, ignorante de tudo, até de que existe. Com autoconhecimento vai ficando mais fácil. A simplicidade de ser humano não muda nunca. O funcionamento da brincadeira é sempre o mesmo: responder sim ou não. Difícil é saber responder sim. Vamos entender melhor isso.

Você quer um morango?

PARTICIPANTE: Sim.

Você respondeu sim para o que?

PARTICIPANTE: Para sua oferta. Aceitei o morango.

Ótimo! Quando te ofereço morango e você diz sim, você está dizendo sim para minha oferta de morango. Quando você aceita viver sendo você, você está dizendo sim para o que?

PARTICIPANTE: Sim para mim, para o meu gabarito.

Exatamente. Viver autoísta é SIM PRA MIM. É quando você se permite viver sendo você. Sim pra mim: eu me permito ser eu, eu me permito viver sendo eu, eu me permito viver de acordo comigo. Responder “sim ou não” não é questão de pronunciar a palavra. Se não é uma questão de você falar verbalmente, de pronunciar, então, como é que você responde sim ou não?

PARTICIPANTE: Com o arbítrio.

Isso mesmo! Então, o que é o arbítrio?

PARTICIPANTE: Arbítrio é o jeito como respondo sim ou não.

Exato! Tem dois jeitos de você viver. E só dois:

SIM PRA MIM – Viver Autoísta – Quando você se permite ser você.
NÃO PRA MIM – Viver Outroísta – Quando você se obriga ser outro.


10 | MELHOR PARA MIM

PARTICIPANTE: Sim é quando opto pelo que é melhor para mim?

Quase. Tem uma sutileza ai. Vamos voltar na intenção. Sua intenção é sempre optar pelo que é melhor para você. Você sempre quer o bem. Você nunca intenciona optar pelo mal. Ninguém tem essa intenção. Então, a intenção é sempre pelo bem. Isso é natural. Todos os seres querem o bem. Uma planta, por exemplo, busca sol e água, ou seja, busca o que faz bem para ela. Mas se todo ser sempre opta pelo bem, então, tem algo errado ai. Pois na prática não é isso que acontece com você. Então, o que que está errado?

PARTICIPANTE: Eu acredito que é melhor, mas me engano.

O que está faltando é a palavra acreditar. Você não opta pelo que é melhor, você opta pelo que ACREDITA que é o melhor. Se você optasse pelo que é melhor, não tinha a experiência humana, não tinha brincadeira de ser humano, porque não tinha essa coisa no meio, que se chama crença. Você opta pelo que você acredita que é melhor, e experimenta sua opção, para colocar a prova sua crença. Se você optasse pelo que era melhor diretamente, não precisava confirmar nada, você já tinha ido direto.

PARTICIPANTE: E o que muda entender isso? Ajuda em que?

Quando você estiver experimentando uma opção que não é a desejada, você sabe que se equivocou e melhora na próxima opção.


11 | JORNADA DO HERÓI

A jornada da autorrealização é a jornada do herói. Um herói é um indivíduo que é colocado à prova e responde SIM PRA MIM. O filme Invencível, que conta uma história verídica, é um desses casos. Tem duas cenas nesse filme que são muito representativas do SIM PRA MIM. Numa cena, o herói do filme está num campo de concentração japonês, só apanhando. Apanha dia e noite. Daí, os japoneses tiram ele do campo de concentração, dão banho, comida, roupas limpas e depois levam ele para um programa de rádio para que ele leia uma carta em público.

— Não vou dizer isso — ele diz aos japoneses.
— Por que não? — perguntam os japoneses.
— Porque isso é mentira — responde o rapaz.
— Se não ler irá voltar para o campo de concentração — ameaçam os japoneses.

O rapaz havia saído de um buraco sujo, fedido e estava no restaurante de um hotel chique, comendo ovos mexidos, tomando suco, sentado numa cadeira confortável, mas optou por voltar para o campo de concentração. O rapaz não se vendeu ao suborno. O rapaz optou pelo SIM PRA MIM.

Outra cena representativa do SIM PRA MIM, é a cena final. O rapaz leva uma porrada na perna e mal consegue ficar em pé. O sargento ordena que ele levante uma viga de madeira acima da cabeça e fique segurando. Se deixar cair, será baleado. O rapaz olha para o sargento e o sargento lhe ordena abaixar a cabeça: “Não olhe para mim!” O que o rapaz faz? Problema seu! SIM PRA MIM. Ele ergue a cabeça e olha no olho do sargento, como quem diz, “Quer me balear? Baleia! Quer dar porrada? Pode dar! Mas em mim mando eu”.

O rapaz não se submeteu a ameaça e a punição. Depois ele ainda levanta a viga de madeira acima da cabeça e dá um puta grito! Um grito que faz o sargento desmoronar por dentro. Que grito é aquele? SIM PRA MIM. O sargento não sabe o que fazer. O que fazer contra um ser que opta pelo SIM PRA MIM? Nada! Quando você opta pelo SIM PRA MIM, pelo inútil prazer de ser você, o outro pode te bater, chicotear, triturar, nada adianta. Você usa seu arbítrio e o outro perde todo o controle sobre você.


12 | TENTAÇÃO DO OUTROÍSMO

PARTICIPANTE: Eu achava que SIM PRA MIM tinha que agradar o outro também.

Isso é um equívoco muito recorrente. Você quer se permitir viver de acordo com seu gabarito, mas não quer permitir que o outro fique chateado com você sendo você. Assim você continua preso no outroísmo, pois para evitar isso, ou você volta atrás e veste o gabarito do outro, ou então, fica brigando com o outro para aceitar você sendo você. Dois tiros no pé. Pois o outro tem liberdade de não aceitar sua liberdade. E você não precisa da aceitação do outro para se permitir viver de acordo com seu gabarito.

PARTICIPANTE: Mas o outro faz pressão, faz chantagem, etc.

Isso! A tentação do outroísmo não é pouca. Se fosse pouca todo mundo vivia autoísta. Se fosse pouca essa brincadeira era fácil e a sociedade não estava do jeito que está. Você vive de forma outroísta porque a pressão é tremenda. Castigo, punição, etc. Toda vez que você diz SIM, o outroísmo chicoteia você, dá porrada, põe você de castigo, te prende, difama, faz o diabo. E o desafio fica maior porque são as pessoas mais queridas que colocam seu SIM a prova. Sua família, seu pai, sua mãe, seu marido, seus filhos, etc.

PARTICIPANTE: Por isso a tendência é viver outroísta?

Exatamente. E quando o outro é autoísta, você dá porrada nele também. Você coloca ele de castigo, faz bico, fica de mal, deleta ele do seu facebook, etc.


13 | ALÉM DA MEDIOCRIDADE

“No pain, no gain” é uma frase muito popular entre os marombeiros. Significa, “sem dor, sem ganho”. Só que os marombeiros não foram os primeiros a formular essa sabedoria. Fernando Pessoa, por exemplo, já havia observado essa sabedoria com as seguintes palavras: “Quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor”.

Os portugueses não conheciam o Mapa Mundi. Ninguém conhecia. Não existia Mapa Mundi naquela época, mas ainda assim, os portugueses rasgaram os mares em precários navios de trinta metros e empurraram os limites do mundo e do homem até o Cabo do Não, nas costas do Senegal, que depois recebeu o nome de Cabo do Bojador. Muito longo e cercado por recifes, ali a neblina tampava a visão dos navegadores. Aqueles que passavam pelo Cabo do Não jamais voltavam. Muitos acreditavam que o mundo acabava depois do Cabo do Não e a neblina era o resultado da evaporação das águas que ferviam ao cair no inferno lá embaixo. Até que, em 1434, o navegador Gil Eanes disse sim para o Cabo do Não. Avançou e pronto! A terra e o homem não acabavam mais no Cabo do Não.

Fernando Pessoa fez uma analogia da autorrealização com a saga da navegação portuguesa. Bojador é uma metáfora para mediocridade. Para passar além da mediocridade, tem que passar além da dor. Óbvio! Suportar a dor é o alicerce da realização de qualquer tarefa e também da autorrealização. Você vive uma mentira porque não suporta a dor de ser rejeitado, a dor de ser criticado, a dor de ser maltratado, a dor de ser difamado, a dor de ser pressionado, etc. Você finge para fugir da dor. Seu lema é: fingir para fugir. Só que além de não conseguir fugir, sofre tentando e ainda vira escravo dos outros.

Certa vez, perguntaram ao filósofo Arthur Schopenhauer, qual é a opção mais sábia que um homem pode fazer na vida. Ele respondeu: “A opção mais sábia que um homem pode fazer na vida ele já não fez”. Schopenhauer se referia a opção de não nascer, uma vez que viver é se condenar a sofrer. Dizem que Schopenhauer foi pessimista, mas apenas disse o óbvio. Viver dói. Dói muito. Dói pra caralho. Dói para seres humanos, dói para bichos, dói para insetos, dói para frutas e legumes. A dor é inerente à experiência de viver. Nada escapa. Tentar fugir da dor só resulta em ampliação da mesma.

Realizadores não são seres humanos especiais nem imunes à dor, são seres humanos que não desistem de realizar o que querem apesar da dor. Realizadores preferem sentir a dor do fracasso a dor de sequer tentar. Preferem a dor do arrependimento a dor de não ter do que se arrepender. Realizadores se bancam e pagam o preço. O mesmo fazem os seres humanos que persistem na autorrealização. Claro que é mais fácil seguir a uniformidade do que seguir a própria consciência. Claro que é mais fácil copiar e colar do que escrever a própria história. O fingimento evita a dor do desprezo, da crítica, da rejeição, da censura e faz você ganhar joinha, beijo, palminha e coração. Só que não tem dor maior do que viver em autonegação.

Então, escolha seu prazer e sua dor.

PERGUNTAS E RESPOSTAS

Você não sabe, mas você sente. Você sente sua unicidade a cada passo, então, basta se permitir ser você a cada passo, e assim, passo a passo, você estará sendo você, mesmo sem saber quem você é.

A tão perseguida felicidade é o inútil prazer de ser você.

Você está usando a lógica materialista para tentar entender a natureza existencial. Isso é muito comum. Todo calouro de autociência comete esse equívoco. É inevitável. Eu também cometi esse equívoco quando era calouro. Mas não funciona. Você não vai conseguir. Não dá para entender o maior pelo menor.

Eu digo que você não nasce e não morre, que você existe, e você pensa em si como um fantasma ou algo do tipo. Isso é lógica materialista. Mas não é isso. Existência é nada. Nada é nada. Nada é coisa nenhuma. Nada é zero. Um fantasma é uma coisa. E pior! O nada que você é contém tudo que você está experimentando. Tudo está dentro do nada. Daí que a lógica materialista pira mesmo, pois a lógica materialista é o menor.

Você só entende de fato sua existência quando tem um despertar existencial. Você desperta e fica consciente que você existe, sempre existiu, sempre existirá. Antes disso você só consegue fritar os neurônios tentando entender o maior pelo menor. Faz parte. Mesmo fracassando sucessivamente, quanto mais você fracassa, mais se aproxima do seu despertar existencial.

Dito isso, respondo sua pergunta:

Eu existo para que? Qual é a utilidade? Para que serve existir?

Existir não serve para nada. Não tem utilidade nenhuma. É absolutamente inútil. Existir é apenas a natureza dos seres. Seres existem. Só isso. Por que existem? Porque ser é existir.

Ótima pergunta. Aliás, essa é A pergunta: “O que me impede de ser eu?”. Mas antes de responder preciso que você se sente e relaxe. Você está sentado? Se não estiver, por favor, se sente para não cair duro com a resposta. E você está relaxado? Se não, relaxe, por favor. Caso contrário você terá um ataque de fúria ou de pânico.

Vamos fazer um breve exercício de respiração para provocar o relaxamento. Puxe o ar pelo nariz. Segura. Conta até sete. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete. Solta o ar calmamente. Repete o exercício. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete. Isso! Repete mais uma vez. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete. Solta o ar calmamente. Ótimo! Agora que você está sentado e relaxado, vou responder: o que impede você de viver sendo você é seu arbítrio.

Ops! Respira, respira, respira… Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete… Segura! Isso! E pára de bater a cabeça na mesa e na parede. Isso! Solta o ar calmamente. Ótimo! Vou continuar…

A laranjeira consegue dar laranja e você não consegue dar você, porque a laranjeira não tem arbítrio. Ou seja, não existe, no caso da laranjeira, a possibilidade de autonegação. A laranjeira está condenada a dar laranja. Não pode jamais dar jaca, nem jabuticaba, nem goiaba, nem tomate. Laranjeira dá laranja e pronto! Não tem liberdade para ser diferente disso. Você é um ser humano, você têm liberdade de optar, ou seja, tem arbítrio. Então, você pode se proibir de dar você e viver sendo outro.

Por favor, não se levante e pare de bater a cabeça na parede. Respira. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete. Isso!

Sei que é desagradável ouvir essas palavras, mas é o remédio amargo que cura. Leia tudo que irá lhe ajudar. Recapitulando… Você tem arbítrio, então, você pode se proibir de viver sendo você e viver sendo outro. Isso é o que a 1ficina chama de outroísmo. Você pode optar por viver igual seus pais querem, igual seus amigos querem, igual a igreja quer, igual seu guru quer, igual o comercial da coca cola quer, etc. Você pode optar por viver sendo outro e não você mesmo. O resultado dessa opção é viver mal, mas você pode fazer isso, a laranjeira não pode.

A laranjeira não consegue sair do paraíso. A laranjeira não tem arbítrio. A laranjeira não pode comer a maçã. Você pode cair em tentação e comer a maçã (viver sendo outro). O resultado dessa opção é ser expulso do paraíso. É impossível viver bem sendo outro, é doloroso, é um inferno. Mas você pode optar por viver sendo outro. Prova disso é que você vive sendo outro. E mesmo eu te explicando aqui a besteira que está fazendo, você continuará fazendo. E pior! Nada nem ninguém é capaz de te impedir de continuar.

Lembra que expliquei ontem que arbítrio é incorruptível, e que isso tem um lado bom, mas que também tem um lado ruim. Eis o lado ruim. Nada nem ninguém é capaz de te impedir de viver outroísta. Nem Jesus na causa! Nem os vingadores! Mesmo que todos os seres do universo se juntem para te impedir de optar por um viver outroísta, ainda assim, você é livre para continuar se proibindo de ser você mesmo.

O universo é absolutamente impotente perante seu arbítrio. Olha que loooooco! Leia pausadamente. O universo…. é… absolutamente… a.b.s.o.l.u.t.a.m.e.n.t.e… im.po.tente… perante seu arbítrio. Entende o tamanho do seu poder??? Quer mais empoderamento que isso??? Não existe! Você é um ser humano. Você é o ser mais empoderado do universo. Por um lado, isso é ótimo, pois nada, absolutamente nada, pode te impedir de viver bem, mas por outro lado, nada pode te impedir de viver mal.

Eis a grande questão do arbítrio: benção ou maldição?

Você decide.

Autorealização é a diversão dos seres. Você (sem forma) brinca de ser você (com forma). O universo é o playground dos seres.

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© 2020 · 1FICINA · Marcelo Ferrari