GAMBITO DO OUTROÍSMO

21/11/2020 by in category Textos tagged as , , , with 0 and 0

Assisti a minissérie Gambito da Rainha. É sensacional, top, imperdível, must see, tá esperando o que? Mas não escrevo para comentar a qualidade da minissérie, escrevo para propor uma reflexão sobre o nome da minissérie, sobre xadrez e sobre a relação analógica dessas duas coisas com você.

Assim como todo jogo, um jogo de xadrez tem começo, meio e fim. O começo de um jogo de xadrez se chama abertura. Tem diversos tipos de aberturas. O gambito da rainha é uma das aberturas mais populares que consiste em sacrificar um peão para acelerar a abertura do jogo. E o que abertura de xadrez tem a ver com você? Já chego lá.

A abertura de um jogo de xadrez é crucial para o desenrolar do jogo. Cada movimento inicial determina o leque de opções disponíveis dali em diante. Por isso que os jogadores de xadrez estudam tanto as estratégias de abertura. O resultado final de um jogo de xadrez é quase que consequência inevitável da abertura.

O mesmo acontece com você o tempo todo. Vamos supor que você está com fome e decida jantar em um restaurante. O jogo de jantar vai começar e você está prestes a fazer uma abertura. Você vai até a garagem, liga o carro e dirige até seu restaurante japonês favorito, o Tanaka. Você fez o gambito do Tanaka. Essa abertura determinará seu leque de opções dali para frente. Por exemplo, não adianta você pedir para o garçom do Tanaka lhe trazer uma pizza. Não tem pizza no cardápio do Tanaka.

Quando você escolheu fazer faculdade disso e não daquilo, por exemplo, você estava fazendo uma abertura. Quando você decidiu se casar, quando decidiu ter filhos, etc, foram aberturas também. Enfim, cada uma das opções que você fez e todas juntas determinaram o leque de opções que você tem hoje.

Muito legal entender isso, não é? Só que tem mais! Independente das suas circunstâncias, você está o tempo todo jogando o jogo da convivência. De um lado do tabuleiro está você, do outro lado estão os outros. Ganhar no jogo da convivência é conviver bem, perder é conviver mal. E agora chegamos ao ponto principal. Assim como no xadrez, para ganhar no jogo da convivência, é fundamental o tipo de abertura que você decide fazer.

Numa convivência, você só tem dois tipos de abertura. Você pode iniciar o jogo da convivência com uma abertura outroísta ou autoísta. A abertura outroísta te abre um leque de futuras opções outroístas, que resulta em má convivência e mais opções outroístas. A abertura autoísta te abre um leque de futuras opções autoístas, que resulta em boa convivência e mais opções autoístas.

Ou seja, o gambito do outroísmo é como o gambito do Tanaka. Uma vez que você opte por jantar no Tanaka, você fica restrito ao cardápio de opções do Tanaka. Analogamente, uma vez que você opte pela convivência outroísta, você fica restrito ao cardápio de opções outroístas. Por isso que a má convivência tende a continuar ao invés de acabar.

Toda convivência pode melhorar. Mas não adianta mudar de opção dentro do mesmo cardápio. Todas as opções dentro do cardápio do Tanaka resultam em comida do Tanaka. Todas as opções dentro do cardápio do outroísmo resultam em má convivência. A solução para boa convivência é mudar de cardápio, mudar para o cardápio do autoísmo. Aí sim é xeque mate na má convivência.

© 2020 · 1FICINA · Marcelo Ferrari