
Entre 2005 e 2010 (aproximadamente), participei de um trabalho espiritualista ecumênico. Foi uma experiência muito intensa, em vários sentidos. Em questão de estudos, parecia que estava fazendo cursinho pré-vestibular. O coordenador lia e explicava os principais livros das religiões ocidentais e orientais. No final de cada estudo, ficava claro que todas as religiões falam a mesma coisa, apenas com terminologias diferentes. E o que é essa coisa que todas as religiões falam? Sendo religiões, todas falam de Deus. Umas usam a palavra Deus, outras usam outras palavras, mas pra bom entendedor, é apenas Deus em outras palavras.
Uma dessas palavras usadas para definir Deus era: Causa Primária. Esse era o termo que o coordenador mais gostava de usar e que se tornou mais popular entre os participantes. Deus Causa Primaria é uma definição muito elegante. Satisfaz tanto o pensamento filosófico como o pensamento científico. Porém, por mais elegante que seja, é o maior obstáculo para o autoconhecimento existencial. E por que? Por que se trata de uma definição equivocada? Não! Está correta! O obstáculo não é que Deus não é causa primária, o obstáculo é que o Deus dessa definição não é o que você acredita.
Vou me explicar melhor contando algumas brincadeiras que fazia com os integrantes desse trabalho espiritualista. Quando alguém vinha me falar em Deus Causa Primária, eu perguntava: “Que Deus? O primo do Sebastião, sobrinho da Margarete? Ou aquele que mora em Bragança Paulista?”. O povo ficava doido comigo. Achava que estava sendo herege. Pra piorar, eu dizia: “Vocês estão todos errados e o coordenador desse trabalho também está errado. A causa primária de todas as coisas não é Deus, a causa primária é o Mickey Mouse”.
Claro que imediatamente me tornava o mais odiado do rolê espiritualista. Era xingamento, ofensa, pedra, ovo, tudo sendo arremessado na minha direção. Não é agradável ser apedrejado por apontar o óbvio, mas não doí quando é óbvio. E pra qual obviedade estava apontando? Que de nada adianta falar Deus Causa Primária, quando Deus é um pensamento, uma imaginação, uma teoria. Quando é assim, pode trocar a palavra Deus por qualquer outra que dá na mesma: Mickey Causa Primária, Primo Do Sebastião Causa Primária, Fada Madrinha Causa Primária, Big Bang Causa Primária, Sopa Quântica Causa Primária, etc.
Não relato essa experiência para tratar especificamente do conceito de Deus, relato para tratar do obstáculo da conceituação no autoconhecimento. Todos, absolutamente todos os conceitos religiosos, filosóficos, científicos e espiritualistas são autoconhecimento terceirizado, ou seja, falam de você, mas como se fosse outro. Essa é a causa de todas as tretas e incompreensões entre religiosos, espiritualistas, filósofos e cientistas.
Por exemplo, você não tem uma mente, você é um ser pensante. Mas ao chamar seu raciocínio de “mente”, você está criando um ente imaginário chamado “mente” que não existe. Outro exemplo, quando você diz “consciência”, você está se terceirizando também. Você não tem consciência, você é um ser sensciente. Mas ao dizer “consciência”, você está criando um ente imaginário chamado “consciência” que também não existe.
Percebi isso quando participava do trabalho espiritualista. Só que o trabalho não era meu, eu era apenas um participante. Tudo que conseguia ao combater o equívoco da terceirização era aumentar meu número de haters. Então, quando decidi me desligar do trabalho espiritualista e dar início à autociência, já sabia que era fundamental combater o equívoco da terceirização. Como fiz isso?
Troquei todas as definições religiosas, espiritualistas, filosóficas e científicas pelo óbvio ululante empírico irrefutável. Que óbvio ululante empírico irrefutável? Você! Simples assim! Troquei tudo pela palavra “você” e fim de papo.
— Ferrari, o que é consciência? Qual é sua definição de consciência? — pergunta meu interlocutor.
— Consciência é você — respondo.
— Ferrari, o que é existência? Qual é sua definição de existência? — pergunta meu interlocutor.
— Existência é você — respondo.
— Ferrari, o que é mente? Qual é sua definição de mente? — pergunta meu interlocutor.
— Mente é você — respondo.
— Ferrari, o que é ser humano? Qual é sua definição de ser humano? — pergunta meu interlocutor.
— Ser humano é você — respondo.
— Ferrari, o que é Deus? Qual é sua definição de Deus? — pergunta meu interlocutor.
— Deus é você — respondo.
Por isso todos meus interlocutores odeiam autociência. Ao receber a resposta “você”, meu interlocutor tem duas opções (e apenas duas): admitir sua ignorância, pois caso contrário não teria feito a pergunta, ou continuar tentando manter sua ignorância através de um bla bla bla teórico infinito ou arremessando ovos em mim.
Autoconhecimento é saber de si. Simples assim (1). Todo conhecimento é autoconhecimento pois não existe conhecimento sem conhecedor. Simples assim (2). Xeque mate! Fim de papo!
Toda vez que a autociência responde sem terceirização, é como se estivesse dizendo: “Você é um cego, andando por um quarto escuro, a procura de um gato preto que não está lá! Acorda ou fim de papo!”. Que interlocutor gosta de ouvir isso? Ainda mais se for inteligente e vaidoso da inteligência. Mas diante da resposta óbvia ululante empírica irrefutável da autociência, ou você admite sua ignorância pra entrar no autoconhecimento, ou continua de fora, atolado na ignorância e fingindo sabedoria.