Fábrica Da Realidade
Marcelo Ferrari
Marcelo Ferrari
Você entende e aceita que é criador da sua realidade — até certo ponto.
Quando vai almoçar em um restaurante, você escolhe: batata, feijão, cenoura, tomate. Cria sua refeição. Nesse caso, sem resistência: você é o criador da sua realidade.
Extrapolando, você também escolhe seu namorado, esposa, emprego, casa, roupa, amigo. Nesses casos, você também entende e aceita.
Mas entender que você é criador da sua realidade não se limita a entender que você lida com pessoas, situações e coisas.
Voltando ao restaurante: entender que você é criador da sua realidade é entender que você cria as paredes, as mesas, as cadeiras, os talheres, o chão, a mão segurando o prato — tudo que você experimenta e chama de realidade.
— Se sou o criador de tudo na minha realidade, então eu crio a matéria?
Sim e não.
Sim, porque você cria tudo que experimenta. Não, porque matéria não é material — não é coisa física. Matéria é experiência de fisicalidade.
Este entendimento é a revolução que muda tudo sem mudar nada.
Nada muda porque matéria sempre foi experiência de fisicalidade. Nunca foi outra coisa, nunca será. Você é que tem ignorado isso.
Tudo muda porque uma coisa é entender que matéria é material. Outra coisa é entender que matéria é experiência de fisicalidade.
Ao acreditar que matéria é material, você passa a acreditar que você também é material — ou seja, corpo.
O raciocínio é este: realidade é material, eu sou material também. A realidade contém toda matéria e me contém também. Eu sou um corpo material contido na realidade, interagindo com outros corpos materiais contidos na realidade.
Isso é um equívoco.
Realidade não lhe contém — você é que contém sua realidade.
Quando você entende que matéria é experiência de fisicalidade, o fluxo da criação vira do avesso: matéria é experiência de fisicalidade, eu sou criador da minha experiência de fisicalidade, fisicalidade é um aspecto da realidade que experimento.
Eu não sou matéria. Não estou contido na realidade.
É a realidade que está contida em mim.
Matéria é ilusão porque é experiência. Experiência é ilusão porque é efeito.
Imagine um filme numa tela de cinema. O filme na tela é ilusão — não porque seja falso, mas porque não é a fábrica de si mesmo.
O filme na tela não cria o filme na tela. Quem cria é o projetor.
O projetor existe sem o filme na tela. O filme na tela não existe sem o projetor.
Experiência é ilusão porque é efeito.
Ilusão = realidade = efeito.
Mas isso não significa que sua realidade deva ser ignorada. Pelo contrário — muitíssimo pelo contrário. Sua realidade deve ser sempre considerada, pois ela é efeito. E não é desconsiderando o efeito que você estuda a relação causa e efeito.
Quando você se entende como corpo, como matéria, é inevitável que entenda o criador da sua realidade como outro. Esse outro pode ser a natureza, o universo, os átomos, a vida, deus, o caos — algum outro, menos você.
Isso é Deusoutro.
O problema do Deusoutro é o seguinte:
Se você não é o criador da sua realidade, sua realidade não tem relação causal com você.
Se não tem, buscar autoconhecimento é uma contradição.
Nada é nada?
Sim e não.
Sim, porque se nada fosse alguma coisa, não seria nada — seria alguma coisa.
Não, porque nada é potencial para tudo.
Nada é tudo-potencial. Tudo é nada-realizado.
Nada é a fábrica de tudo.
Você é nada e tudo. Todo ser é nada e tudo. Criador e criatura.
Viver é brincar de se transformar em tudo.
Tudo sai do nada.
Tudo que você experimenta sai do seu potencial. Se você é músico criando uma música, você é nada criando um tudo — a música. A música é sua realização: você em forma de música.
Imagine a natureza humana como um instrumento.
Sua realidade é a música que você toca.
E por isso ouve.
E por isso experimenta.
Certa vez, fui visitar um amigo. Quando cheguei na casa dele, ele estava olhando fixamente para um rádio que ficava em cima da mesa. Mas não era um olhar comum, corriqueiro, habitual, era um olhar espantado.
— O que foi? — perguntei ao meu amigo.
— Esse rádio é mal-assombrado — ele respondeu.
— Como assim? — perguntei.
— Liga o rádio pra você ver! — ele me disse.
Eu liguei o rádio e começou a tocar uma música da Elis Regina.
— Está tocando Elis Regina — eu falei.
— A Elis Regina é viva? — ele me perguntou.
— Não, ela já morreu! — respondi.
— Está vendo! Esse radio é mal-assombrado, toca Elis Regina, Vinícios de Moraes e Tim Maia. Tudo gente morta. Toca até Beethoven, que já morreu faz séculos.
Comecei a dar risada. Meu amigo sabia o motivo do rádio tocar música de gente morta. Ele era músico e entendia de gravação. Mas o espanto do meu amigo era cientificamente pertinente.
— A bruxaria fica pior — ele me disse.
— Pior, como? — eu perguntei.
— Eu passo o dia inteiro escutando esse rádio e escuto pelo menos umas duzentas músicas por dia nele. Só que…
— Só que o quê?
Meu amigo pegou uma chave de fenda, desparafusou o rádio e retirou a carcaça de plástico que cobria os componentes eletrônicos.
— Olha só isso! — ele me disse.
— São os componentes eletrônicos do rádio — eu falei.
— Sim, mas cadê as músicas que ouço saindo daí de dentro? Se não estão aí dentro, como podem sair daí de dentro?
Caí na gargalhada. Meu amigo também.
Contei essa história para fazer uma analogia com o nada. Um rádio pode tocar qualquer música justamente porque não tem música nenhuma dentro dele. O nada é como um rádio, potencial para tudo. Sem o rádio não haveria música: o rádio é a fábrica de todas as músicas. Sem o nada não haveria realidade: o nada é a fábrica de todas as realidades.
Ano 3050, um repórter entrevista o cientista chefe do experimento AGORAVAI sobre a descoberta cientifica mais revolucionária de todos os tempos.
— O que foi que vocês descobriram?
— Descobrimos a PDPN.
— O que é isso?
— É a partícula fundamental da matéria.
— Que partícula é essa?
— PDPN é a Partícula De Porra Nenhuma.
— Quer dizer que tudo é feito de porra nenhuma?
— Exato! PDPN é a porra que fecunda e dá origem a tudo.
O repórter vira para câmera e encerra a reportagem:
— Pronto! Finalmente descobrimos do que tudo é feito! Eu, você, tudo e todos somos feitos de porra nenhuma! Quando imaginaríamos uma porra dessas!? Direto do AGORAVAI, fui.
Um moleque ateu, revoltado com os dez mandamentos, entra na igreja e propõe um desafio ao padre: “Te dou 10 reais se você mostrar onde Deus está?” O padre responde: “Eu te dou vinte se você mostrar onde Deus não está!”.
Essa é uma ótima piada para ilustrar o desafio do despertar existencial. O que existe, o que produz a realidade, não está em lugar nenhum, pois é a fábrica da realidade. Pense em um sonho. Quando você está sonhando, em que parte do sonho você, sonhador, está?
Vamos supor um sonho em que você está andando de bicicleta na praia. Onde você está? Você está sentado na bicicleta? Mas como a praia e a bicicleta estão presentes no sonho? Quem está sonhando a praia e a bicicleta? É você, não é? Então, você não está apenas na bicicleta. Está na praia, na bicicleta e sentado na bicicleta. E você está no sol também, e no mar, e nas nuvens, etc.
Assim como na piada do moleque ateu, não há nenhum lugar do sonho em que você não esteja, pois você é o sonhador que está criando o sonho. Agora, imagine que você pare de andar de bicicleta e decida apontar para você, sonhador. Você consegue?
Você não consegue, pois você, sonhador, não está em lugar nenhum do sonho. Para qualquer lugar que você apontar no sonho, você estará apontando para o sonho e não para você, sonhador. Você sonhador não existe no sonho. Contudo, é inegável que você, sonhador, existe, caso contrário, como você poderia estar experimentando seu sonho.
Se achou? Percebeu onde você, sonhador, está? Eu sei, não tem uma palavra para explicar. Tudo bem! Contanto que sua existência de sonhador esteja evidente, isso é o que importa. Mas… E se o mesmo estiver acontecendo agora? E se isso que você chama realidade também for uma criação sua igual um sonho?
Não sei onde você está, nem o que está fazendo, mas vá até o meio do ambiente que estiver agora e aponte para você, criador dessa realidade que está experimentando. Consegue? Você não consegue, pois, você, criador da sua realidade, não está em lugar nenhum da sua realidade.
Para qualquer lugar que você apontar, você estará apontando para a realidade e não para você, criador. Você, criador, não existe na realidade. Contudo, é inegável que você criador existe, caso contrário, como você poderia estar experimentando sua realidade.
Se achou? Percebeu onde você, criador, está? Eu sei, não tem uma palavra para explicar. Tudo bem! Contanto que sua existência de criador esteja evidente, isso é o que importa.
Realidade é ilusão porque é efeito. A fábrica da realidade não é ilusão — é causa.
A fábrica da sua realidade é você.
Você, como fábrica, é sem forma. Sem forma para poder brincar de se criar e recriar em múltiplas formas. Atualmente, está brincando de ser humano. Outros seres brincam de outras formas de ser.
Nenhuma é melhor que a outra — são apenas diferentes.
Mas a palavra ilusão é um problema para você.
Se digo que você é criador de realidade, você se sente bem. Se digo que você é criador de ilusão, sente incômodo. Isso acontece porque seu conceito de ilusão se opõe ao conceito de realidade. Mas essa oposição é só conceitual.
Ilusão não é oposto de realidade — ilusão é sinônimo de realidade.
Realidade não tem oposto.
Realidade tem multiplicidade.
Pode relaxar. Você não precisa encontrar a Fábrica da Realidade porque a fábrica da sua realidade é você — sempre foi, sempre será.
E não precisa destruir a ilusão porque ilusão = realidade. Criar realidade é o que você faz. É seu viver. É sua diversão existencial.
Despertar a consciência não é acabar com a brincadeira de ser humano — é ficar consciente do que é brincar de ser humano.
Era sempre, eternamente, toda vez, sem exceção: você.
Está vendo você? Não!? Vou ajudá-lo com um recurso gráfico.
Pronto! Se viu agora?
O quadro preto é sua melhor representação. Como no quadro preto aparentemente não tem nada, usei o recurso gráfico de escrever "você". Viu você agora? É isto mesmo.
Sua existência é inexplicável, indefinível, imensurável — e, apesar disso, inegável.
Você existe e não tem como negar. Até para negar sua existência você precisa existir. Afinal, como poderia negar sua existência se você não existisse para negá-la?
Você existe. Você é presença.
A totalidade das presenças universais é ONIPRESENÇA.
Sua porcentagem infinitesimal de onipresença é sua AUTOPRESENÇA.
Você é unicidade existencial.
Você não é só unicidade existencial.
Você é potencial de realização. Existe e se transforma.
A totalidade das potências universais é ONIPOTÊNCIA.
Sua porcentagem infinitesimal de onipotência é sua AUTOPOTÊNCIA.
Você é unicidade existencial potente.
Você não é só unicidade existencial potente.
Você sabe que existe e se transforma.
Existe, se transforma e experimenta sua transformação.
A totalidade das consciências universais é ONISCIÊNCIA.
Sua porcentagem infinitesimal de onisciência é sua AUTOCIÊNCIA.
Você é unicidade existencial potente consciente.
Fábrica da realidade é a unitrindade que você é. Seu funcionamento é você brincando de eu-sou-eu — brincando de se realizar e experimentar a si mesmo.
Eu-sou-eu é a brincadeira da transFORMAção. Você se projetando em formas para se experimentar transFORMAdo em uma realidade correspondente.
Usando uma analogia: escrever um texto no computador. Quando você escreve, você é três. Você autor (existência), você escritor (potência), você leitor (consciência). Escrever é brincar de eu-sou-eu. Ao ler o que está escrevendo, você se experimenta transFORMAdo em texto.
Realidade, em todos os sentidos, é sempre você brincando de eu-sou-eu. Atualmente você está brincando de eu-sou-humano — se escrevendo em formas humanas para se experimentar transFORMAdo em texto humano.
Sua realidade atual é sua redação atual.
E o título? Eu-sou-eu.
Esse é o título da redação de todos os seres, sempre — pois cada ser só pode realizar a si próprio. O resto é criatividade: os cenários, os personagens, as narrativas, os desafios, os meios de vencê-los.
Você é uma Fábrica de Realidade com um único objetivo: produzir algo único, ímpar, sui generis. Que algo? Você.
Você = você.
Autorrealização é o único objetivo da brincadeira.
Realidade é você se experimentando para constatar se está realizando esse único objetivo.
Realidade não anda para frente, nem para trás, nem para cima, nem para baixo. Realidade não se desloca. Realidade é tudo. Tudo não tem para onde ir. Tudo vai e vem no mesmo lugar, feito imagem numa tela de televisão. Tudo se transFORMA.
Observe o deslocamento da realidade numa tela de televisão. Surge uma realidade virtual na tela que se transforma na próxima, e na próxima imagem, e assim por diante. De onde a realidade na televisão está vindo? Para onde está indo? Está indo e vindo do mesmo lugar: da transformação na tela. Cada novo estado da tela, não é uma nova tela, é a mesma tela transFORMAda.
O mesmo acontece com sua realidade: não se desloca, se transFORMA. O lugar onde sua realidade se transforma se chama: você. Big bang é um big engano. Você não está contido na realidade, é a realidade que está contida em você.
Deus só sabe brincar de uma única brincadeira: eu sou eu. É só isso que Deus faz o tempo todo, 24 dias por hora, 60 horas por minuto. Eterna monoeutonia. Eu sou eu, eu sou eu, eu sou eu… Deus só não desiste de ser Deus porque não tem outra opção. Se Deus deixasse de ser Deus quem ficaria no lugar dele? E pior! Que lugar sobraria para ficar? O jeito é que não tem jeito. Nem adianta Deus rezar para que Deus lhe ajude. “Mas isso não é problema meu, é problema dele!”, você pensa. É aí que você se engana, quer dizer, Deus.
Toda brincadeira funciona de acordo com suas regras.
A regra da brincadeira eu-sou-eu é uma só: INPUT GERA (correspondente) OUTPUT.
Neste livro vamos chamar essa regra de correspondência.
INPUT é você-causa.
OUTPUT é você-efeito.
INPUT é você-fábrica.
OUTPUT é você-produto.
A regra da correspondência vale para todas as modalidades de eu-sou-eu, mas se diferencia de acordo com cada uma. Atualmente você está brincando de eu-sou-humano — então sua regra da correspondência está baseada em formas humanas.
Pintores pintam quadros. Compositores compõem canções. Escritores escrevem livros. Seres universais manifestam, realizam e experimentam realidades.
Você é um ser universal. A realidade que experimenta agora é você realizando sua obra-prima. Não tem outra igual. Única a cada instante — nova, atualizada. E sendo que você pode torná-la ainda mais prima, mais alinhada com sua unicidade: por que não?
INPUT GERA (correspondente) OUTPUT.
Sem esta regra seria impossível brincar de eu-sou-eu.
Imagine que você plante semente de abóbora e brote parafuso. Que coloque um CD do Elvis e o player toque Beatles. Que coloque morango na boca e sinta gosto de jiló.
Quando INPUT não corresponde a OUTPUT determinado, o resultado se torna aleatório — e fica impossível brincar de criação.
INPUT GERA (correspondente) OUTPUT sempre, inevitavelmente.
OUTPUT é o inevitável resultado do INPUT.
Resultado não tem liberdade.
Realidade é resultado.
Realidade não tem liberdade — é escrava do arbítrio do criador. A qualidade da sua realidade corresponde sempre à qualidade da sua criação.
É por isto que você sofre com sua realidade.
Mal viver é você dizendo a si mesmo que seu OUTPUT não está correspondendo ao seu INPUT.
Que você não está sendo você.
Você é existência-potente.
Por isso sente uma força estranha chamada vontade. Essa força estranha é você, ser, sendo.
Você não tem desejo — você é desejo.
E como todo ser, você deseja sempre a mesma coisa: ser.
Autorrealização.
Só que você não quer ser Madre Teresa, nem Frida Kahlo, nem John Lennon, nem Joana D'arc, nem Gandhi, nem Jesus, nem Buda, nem Aristóteles, nem Nietzsche, nem Einstein, nem sua mãe, nem seu pai, nem sua cultura.
Você quer ser o que mais ninguém pode ser: você.
Um ser humano único, ímpar, singular, sui generis.
Você sofre porque ao invés de se permitir ser você, se proíbe.
Sofrimento é você se explicando a besteira que está fazendo.
Mal viver é indicativo de criação de realidade desajustada.
Para reajustar, você pode e deve se perguntar: por que minha criação de realidade está desajustada? O que está me impedindo de eu-ser-eu? Como restaurar a sintonia comigo?
Investigando a si mesmo neste sentido, você irá descobrir que entre você-input e você-output está o E.G.O. — Eu Gerador de Output.
E.G.O é o transFORMAdor de input em correspondente output.
Sem E.G.O não haveria como brincar de transFORMAção.
Fábrica de Realidade sem E.G.O é igual a computador sem programa — nenhum output é gerado. E.G.O é o programa que transFORMA você-input em você-output.
Atualmente, seu E.G.O é o que está transFORMAndo você em você-humano.
Sua realidade é você mesmo transFORMAdo por você mesmo em você mesmo.
É como se um computador digitasse no próprio teclado: "Estou me manifestando através de mim" — e lesse o que ele mesmo escreveu.
Agora imagine que esse computador digitasse "Sou uma árvore" e lesse na tela: "Sou um sapo". Ao ler, teria o sentimento de realidade fora de sintonia.
— Por que meu output não está correspondendo ao meu input? O que está me impedindo de eu-ser-eu? Como restaurar a sintonia?
Se tal computador pudesse se investigar, descobriria que a falta de sintonia está sendo causada por um desajuste em sua programação.
O mesmo acontece no mal viver.
Investigue a si e descobrirá que sua programação mental está desajustada, fora de sintonia com você mesmo. Seu mal viver é você se convidando para uma autoanálise e reajuste mental. Se você aceita o convite e executa a autoanálise, fez tudo o que era necessário para o reajuste acontecer.
Autoanálise leva ao despertar da consciência.
Conforme você vai tomando consciência de qual é o desajuste, a própria consciência despertando é o reajuste.
Um rapaz foi visitar um sábio.
“Como faço para viver bem?”, perguntou o rapaz.
“Para viver bem, você só precisa assumir dois compromissos. Na verdade, só um, digo dois porque é um com dois lados assim como uma moeda com cara e coroa”, disse o sábio.
“Quais são os dois compromissos?”, perguntou o rapaz.
“O primeiro compromisso é com a prática da liberdade”, disse o sábio.
“Que prática é essa?”, perguntou o rapaz.
É o compromisso de se desligar de toda e qualquer obrigação ou censura”, disse o sábio.
O rapaz considerou o primeiro compromisso e achou positivo, afinal, seu sofrimento vinha mesmo dele se obrigar a fazer o que não queria e de se proibir de fazer o que queria.
“Aceito o primeiro compromisso”, disse o rapaz.
“Ótima opção!”, disse o sábio.
“Mas com base em quê vou criar minha realidade?”, perguntou o rapaz.
“Com base na Prática do Discípulo”, disse o sábio.
“Prática do Discípulo! Que prática é essa?”, perguntou o rapaz.
“É o compromisso de só criar sua realidade de acordo com os conselhos do Mestre ONI”.
“Mestre ONI! Que mestre ONI? Eu não conheço nenhum mestre ONI! Como vou assumir um compromisso com quem desconheço? Como vou seguir seus conselhos? Não sei sequer onde este tal de mestre ONI mora!”, exclamou o rapaz.
“Mestre ONI mora em você. Mestre ONI é você. Mestre ONI é sua UNIcidade. Para você agir de acordo com os conselhos do Mestre ONI, basta você se sintONIzar com você. Ao invés de obrigação, realize em sintONIzação. Obrigação cria realidade dessintONIzada. SintONIzação cria realidade sintONIzada”, disse o sábio.
“Como diferenciar sintONIzação de obrigação?” perguntou o rapaz.
“Quando você se sente bem realizando, você está em sintONIzação. Quando você se sente mal realizando, você está em obrigação”, respondeu o sábio.
“Aceito seu conselho”, disse o rapaz.
“IO, IO, IO”, cantou o sábio.
“O que é IO? perguntou o rapaz.
“Input-Output”, disse o sábio.
Fábrica da realidade é você.
Porém, você não é a única fábrica de realidade do universo — logo, a realidade que você experimenta também não é a única.
Sua realidade é sua realidade.
Única, diferente e paralela à realidade produzida pelas outras Fábricas de Realidade.
Sua realidade é sua paralelidade.
Cada Fábrica de Realidade manifesta, realiza e experimenta sua própria realidade. Cada realidade é única, diferente e paralela.
Quando duas ou mais fábricas interagem, ainda assim, cada uma manifesta, realiza e experimenta sua própria realidade paralela.
Paralelidade é como conversa pela internet — cada usuário experimenta a manifestação do outro dentro da tela do seu computador, recriando o outro dentro da sua própria realidade.
Quando você interage, pode ocorrer de você se sintonizar com unicidades que não são a sua. A recorrência disso dessintoniza você — afeta sua mentalidade. De forma similar a programas que você instala no computador: todos foram instalados por você, mas alguns são prejudiciais.
Mentalidades dessintonizadas são programas prejudiciais que distorcem sua sintonia com você. Seu sistema emocional é seu inspetor de sintonia.
Por isso você sofre.
Felicidade é você se dando relatório de sintonia.
Sofrimento é você se dando relatório de dessintonia.
Pouco sofrimento, pouca dessintonia.
Muito sofrimento, muita dessintonia.
É através da felicidade e do sofrimento que você toma consciência do seu grau de sintonia.
Embora desagradável, sofrimento nada mais é do que convite à ressintonização.
Você interage coletivamente, mas experimenta particularmente essa interação coletiva.
O Facebook é uma boa analogia. Todos os integrantes interagem coletivamente, mas cada um experimenta sua própria timeline.
Cada timeline é uma versão paralela, diferente e particular do Facebook.
Essa realidade que você está experimentando é assim também: paralela, diferente e particular.
Só que você não percebe isso. Você acredita que experimenta (A) realidade.
Isso é um equívoco.
Você experimenta sua versão exclusiva da interação coletiva. Nesse momento — e sempre — co-existem tantas versões de realidade quanto os seres que estão interagindo e experimentando.
Ignorar isso é um dos fundamentos da má convivência.
O bolo é da forma da fôrma.
Mude a fôrma e a forma muda junto.
Por que um bolo é redondo e outro é quadrado?
A forma do bolo vem da fôrma.
O bolo quadrado é quadrado porque a fôrma era quadrada. O redondo é redondo, porque a fôrma era redonda. Só que forma é explícita — fôrma é implícita.
Observe sua realidade como um bolo.
Se tem forma, tem fôrma.
Mas cadê a fôrma?
Você não a vê porque a fôrma da sua realidade também é implícita.
Pense numa imagem na tela do computador. A imagem é forma. Se é forma, tem fôrma. Mas cadê a fôrma que forma a imagem?
É o programa.
Assim como o computador usa uma fôrma chamada PROGRAMA para criar imagens na tela, você está usando uma fôrma chamada NATUREZA HUMANA para criar a realidade que está experimentando.
E assim como você não vê o programa, não vê sua NATUREZA HUMANA.
Realidade é forma. Mentalidade é fôrma.
Mude sua mentalidade e sua realidade muda junto.
Brincar de eu-sou-eu é como desenhar um autorretrato.
Qualquer um pode desenhar uma árvore, mas ninguém pode desenhar SUA árvore. Sua árvore só pode brotar de você — sua árvore é você "arvorizado".
O mesmo se dá com sua realidade. Qualquer um pode criar realidade, mas ninguém pode criar SUA realidade. Sua realidade só pode ser criada por você, pois sua realidade é você realizado.
Como sua realidade é criada através de E.G.O, ela não é apenas imagem e semelhança da sua unicidade, mas também do E.G.O.
O bolo é da forma da fôrma — quando você experimenta uma realidade dessintonizada (você ≠ você), a falta de correspondência não está em você-input, mas no E.G.O.
Quando você está em paz com sua realidade, se sentindo bem, é porque o E.G.O está em sintonia com sua manifestação.
Quando está em conflito com sua realidade, se sentindo mal, é porque o E.G.O está dessintonizado com sua manifestação.
O sofrimento que você sente é você se convidando à ressintonização.
Realidade não é apenas forma — realidade é forma representativa.
Realidade é representatividade.
O desenho espelha o desenhista, é representativo do desenhista.
O mesmo acontece com sua realidade: ela é representativa de você, espelho da sua unicidade e mentalidade.
Entender que realidade é representatividade é fundamental para o processo de autorrealização, porque liberta você da necessidade de criar uma realidade específica e o liberta para criar qualquer realidade representativa.
E porque o bolo tem a forma da fôrma, o que você experimenta numa realidade dessintonizada é a justa representação da falta de sintonia.
É indicativo da necessidade de reajuste.
Realidade indesejada é semelhante a uma música mal executada — o músico erra as notas e toca fora de harmonia. O violão tem como tocar melhor a música? Não. É o músico que está tocando, não o violão. O violão é apenas o instrumento.
O mesmo acontece com você.
Sua NATUREZA HUMANA é seu instrumento. Sua realidade é a música que você toca — e ouve. Assim como a causa da música mal tocada é a má execução do músico, a causa da má qualidade da sua realidade é sua má execução em ser humano.
A maestria do músico com o violão é tanto o problema quanto a solução da qualidade da música.
Sua maestria em ser humano é tanto o problema quanto a solução da qualidade da sua realidade.
Realidade é ilusão, mas é imprescindível para você viver bem — pois é só através do estudo do efeito que você obtém conhecimento de causa. E conhecimento de causa serve para melhorar a qualidade do efeito, ou seja, a qualidade da sua realidade.
Um sonho é uma ilusão. Por quê? Porque sonho não é fábrica de si — sonho é produto. A fábrica do sonho é você, sonhador. Porém, se você não fosse o sonhador dos seus sonhos, que utilidade teria estudar a relação dos seus sonhos com você?
Nenhuma.
Sua realidade é como um sonho. Você é um sonhador. A realidade que você experimenta é a realidade que você cria para si.
É por isto que a prática da autociência é realizada através da investigação da relação causal entre você e sua realidade.
Autociência também tem vestibular.
Chama-se MDC (Mínimo De Consciência).
Enquanto você não estiver consciente do mínimo sobre o que é ser humano, não adianta, não tem como você praticar autociência, pois sua própria ignorância lhe impede.
Um desses mínimos é saber que não importa O QUE está acontecendo.
O QUE é efeito, produto.
A fábrica dO QUE é o PORQUE.
Sem PORQUE não tem O QUE.
O que importa NO QUE está acontecendo, seja o que for, é apenas saber que O QUE é desdobramento do PORQUE. Só isso.
Essa é a única função DO QUE: tornar explicita a causa implícita.
Outro mínimo, é saber que tudo O QUE você está experimentando, é seu tudo, exclusivamente seu. O QUE você supõe ser coletivo e externo, não é.
Tudo está acontecendo em você e para você. Sua realidade é só sua.
A cadeira QUE você está sentado, por exemplo, não é (A) cadeira, é SUA cadeira. O celular que você está usando, não é (O) celular, é SEU celular. A realidade que você supõe coletiva e externa, não é (A) realidade, é SUA realidade.
Outro mínimo. O principal deles.
É que você é o PORQUE do seu O QUE.
Você é a fábrica da sua realidade. Você é a causa do seu tudo.
Quando você está consciente desses três mínimos. E só quanto está consciente. Nunca antes. Daí você passou no vestibular e fez a matrícula para começar a praticar autociência.
E por que só a partir daí?
Porque autociência é conhecer VOCÊ-CAUSA através de VOCÊ-EFEITO, e quando você ignora que você é a causa da sua realidade, você ignora também que tudo QUE você experimenta tem um único PORQUÊ: autoconhecimento.
No espelho físico, para você se ver, você se olha no espelho. No espelho existencial, para você se ver, você cria uma realidade.
É por isso que sua realidade é como é. Sua realidade é você no espelho. Espelho não tem arbítrio. Realidade também não.
Sua realidade reflete suas escolhas. Suas escolhas refletem o que você acredita. O que você acredita reflete seu autoconhecimento.
Por isso, quanto mais autoconhecimento, melhor a qualidade da sua realidade.