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*Os livros estão na ordem de leitura recomendada.

EUSPORTE

16/04/2021 by in category Livros with 0 and 0

INTRODUÇÃO

Pratico esporte desde a infância. Sempre gostei de atividades esportivas por serem prazerosas e saudáveis. Mas foi só na idade adulta que percebi que o esporte, além de prazeroso e saudável, também é fonte de autoconhecimento. Nesse livro, escrevo sobre as lições de autoconhecimento que recebo enquanto pratico esporte. Atualmente, os dois esportes que mais pratico são futebol e skate. Cada esporte ensina uma lição diferente. Espero que minhas reflexões sobre esses dois esportes possam servir para o seu autoconhecimento.

Boa leitura!


EU JOGADOR

Vestiu a chuteira. Entrou em campo.

Você não é mais pai, nem filho, nem doutor, nem músico, nem advogado, nem rico, nem pobre, nem petista, nem religioso, nem ateu, nem corintiano, nem nada.

Vestiu a chuteira. Entrou em campo.

Não importa se você prefere Brahma ou Antártica, se tem dente torto, se usa cueca do avesso, se acredita que a terra é plana ou redonda, se era um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones.

Vestiu a chuteira. Entrou em campo.

Você é jogador.

Claro que você continua tendo personalidade e existência social (RG, CPF, IP, CNH, profissão, idade e sobrenome de família). Só que nada disso entra em campo.

Não é o diploma que chuta a bola. Não é a conta bancária que cabeceia. Não é a convicção política que dribla. Não é a preferência de cerveja que faz o gol.

O futebol é tão cego como a justiça. Todo jogador é igual perante a bola. O que entra em campo é o corpo e a habilidade em usá-lo. Só isso! Apenas isso! Nada mais!

O jogo é coletivo, mas jogar é você sozinho, jogando. Se vira!

Assim é no jogar, assim é no viver.


MERITOCRACIA E A TRISTEZA BRASILEIRA

Ninguém jamais ganhou uma medalha olímpica de salto em distância chantageando a lei da gravidade ou quebrou um record de natação subornando o cronômetro.

Não existe corrupção no esporte. Corrupção é atividade moral, esporte é atividade darwinista. Esporte é a evolução da espécie televisionada e com patrocínio da Johnson & Johnson.

Por isso, nós, brasileiros, todo domingo, colocamos nossos galos para brigar no terreiro e ficamos em volta assistindo. Aliás, nos anos 90, na TV Record, passava todo domingo de manhã, um futebol de várzea chamado Desafio Ao Galo. Nome perfeito.

O darwinismo deu o pontapé inicial no que tenho a dizer, mas é uma palavra politicamente incorreta. A palavra politicamente correta é: meritocracia.

Darwinismo é a meritocracia que garante que a meritocracia sempre ganhará o jogo da meritocracia.

Por isso ficamos putos quando os jogadores da seleção brasileira jogam mal. Ser jogador da seleção brasileira não é privilégio, é o apogeu da meritocracia nacional.

Não tem espaço para mentira dentro da camisa verde e amarela. Não adianta fingir que joga bem. Não adianta fazer conchavo. A bola é imparcial. A trave não se curva. A rede só balança para quem chuta. O drible só acontece por obra da verdade no pé.

Torcemos para que surjam tantos craques no futebol como na política. Pessoas que tenham visão de jogo, que sejam capazes de driblar as adversidades, enfrentar os problemas e levar a sociedade à vitória. Torcemos para que a lei de Darwin vença a lei de Gérson. Torcemos para que a política imite o futebol.

Eis porque ficamos tristes com a seleção. É triste ver o futebol imitando a política. É triste ver a geração Y errando o ABC. É triste ver a bola nos punindo.

Porém, o mais triste, é saber que merecemos.


FUTEBOL ARTE

Quando alguém diz que um jogador é bom e outro é ruim, o que está sendo dito? E por que as opiniões são discordantes? Por que bom e ruim nunca é unânime?

A resposta é a diversidade de critério de avaliação. Segundo o critério feminino, por exemplo, o melhor jogador de futebol do mundo é o Brad Pitt, pois o critério feminino se baseia na beleza e não na habilidade do jogador.

É aí que começa o problema do futebol arte.

Arte não é uma atividade profissional, é uma atividade lúdica. Fazemos música, cantamos canções, dançamos, fazemos sexo, contamos piadas, inventamos histórias, soltamos pipa e jogamos futebol por prazer. Atividades lúdicas têm fim em si mesmas, visam o aproveitamento do meio. Bom e ruim, no critério lúdico, expressa quão prazerosa é uma atividade.

Só que o capitalismo tem esse poder de profissionalizar tudo que é lúdico para depois nos vender caro o que é de graça. E o capitalismo profissionalizou o futebol.

O critério de bom e ruim do profissionalismo não é o prazer, é a utilidade. O profissionalismo não é humano, é maquinal. Para o profissionalismo, o bom é o útil, o que tem serventia, o que serve para produzir placar final. Só que prazer é inútil. Não serve para nada. Só serve para ser feliz.

Eis o dilema do futebol brasileiro: ganhar ou ser feliz?

“Ganhar é ser feliz!” pensamos.

Só que esse pensamento não é nosso, é uma atendente de telemarketing falando dentro da nossa cabeça.


TORCEDOR E ADMIRADOR

Quem ama futebol não é torcedor, é admirador.

Amante do futebol pode até escolher um time para brincar de rivalidade, mas no fundo do peito de capotão, não se deixa aprisionar por uma camisa.

Torcedor é soldado que luta contra o inimigo. Torcedor torce o nariz. Torcedor é um bando de loco.

Admirador é um bando muito mais loco.

Admirador, abraça o inimigo Ser admirador envolve nariz e olfato, corpo e alma.

Torcedor é junto. Admirador é misturado.

O torcedor termina onde o admirador começa.


É PRECISO SABER PERDER

O acordo tácito é colocar um ou dois. Quando ambos colocam quantidades iguais, sendo que 1+1=2 e 2+2=4, dá par. Quando colocam quantidades diferentes, sendo que 1+2=3 e 2+1=3, pois a ordem dos fatores não altera o produto, dá ímpar.

Simples! Zero bronca! Mas entre aqueles dois não havia acordo. Eram dois mãos de vacas tirando par ou ímpar e decididos a economizar até os dedos.

Um colocou a mão fechada e o outro também. Resultado, deu zero. E foi assim que tudo começou.

“Zero é par!”, disse um deles.

“Nada disso, zero é neutro!”, retrucou o outro.

“Deixa de ser burro, zero é par!”.

“Burro é você, zero é zero!”.

“Pergunta pro fulano que ele sabe”, alguém sugeriu.

“Fulano, zero é par ou ímpar?”.

“Não sei! Tira de novo!”, disse o fulano com sabedoria de rei Salomão.

“Nem fodendo, zero é par, eu ganhei!”.

A discussão docente visava decidir quem colocaria a bola em movimento, mas só estava servindo para mantê-la parada com delta(t)/delta(s) = zero.

Para tirar o jogo da inércia, alguém pegou um celular e foi pesquisar no google.

“Zero é par!”, disse o pesquisador.

Está surpreso, caro leitor? Perplexo? Não sabia que zero é par? Nem eu! Mas foi assim, por deliberação do google, que zero virou par e finalmente alguém perdeu.

Claro que ninguém gosta de perder. Não aceitamos perder nem par ou ímpar. Essa nossa fome voraz por ganhar, quando bem usada, é foda, nos faz persistentes e criativos, mas quando mal usada, empata a foda.

Parafraseando Roberto Carlos: é preciso saber perder.


INTELIGENCIA EMOCIONAL

A fim de promover a inteligência artificial, a empresa IBM contratou um grupo de cientistas e lhes deu a missão de criar um computador capaz de vencer o campeão de xadrez Garry Kasparov.

O computador da IBM ganhou a primeira partida, mas não comemorou. Perdeu a segunda, mas não se lamentou.

Computadores não comemoram vitórias, nem lamentam derrotas, porque sequer sabem que estão jogando um jogo. Computadores apenas fazem cálculos matemáticos.

Nós, seres humanos, também fazemos cálculos matemáticos. Correr, driblar e chutar a bola durante uma partida de futebol, por exemplo, envolve muitos cálculos de física e geometria. Contudo, diferente de um computador, sentimos um treco estranho quando acertamos os cálculos.

No futebol, esse treco é conhecido como: goooooool.

Mas não falta gente, dita inteligente, para dizer que gostar de futebol e comemorar um gol é burrice.

Poupe-me, poupe-me, poupe-me, por favor.


DECRETO DA IMAGINAÇÃO

O skatista coloca o skate no chão, dá três remadas e bum! Sobe pelas paredes. Bum! Pula a escada. Bum! Escorrega pelo banco. Bum! Desliza pelo corrimão.

Num piscar de olhos e por decreto, o skatista dá utilidade recreativa para o que foi projetado com utilidade funcional.

Assim como um artista, o skatista corrompe a norma da forma. Parede não é mais parede, escada não é mais escada, banco não é mais banco e corrimão não é mais corrimão.

Fica decretado que parede é rampa, que escada é gap, que banco é copping e que corrimão é escorregador. Decretado como e por qual lei? Decretado pela imaginação e pelo corpo do skatista usando a lei da gravidade.


FORA DA CURVA

Andar de skate vertical (half pipe e miniramp) é muito parecido com andar de balanço. O skatista sobe e desce circularmente pelo espaço como se estivesse balançando. A diferença é que uma cadeira de balanço sobe e desce circularmente porque está amarrada a uma trave e o skatista não está amarrado a nada. O que mantém o skatista subindo e descendo circularmente pelo espaço é o contato das rodinhas do skate com as paredes circulares da rampa.

Eis o ponto onde começa a magia do skate vertical. Um half pipe é meia circunferência, não é uma circunferência inteira, então, tem um ponto que a parede da rampa acaba. É nesse ponto que o skate termina e o skatista começa. Para subir e descer pelas paredes da rampa, o skate não precisa do skatista, as próprias leis da física se encarregam de executar essa manobra, mas para subir e descer além das paredes, só com um skatista manobrando o skate.

O skatista de miniramp é um mágico que executa a magia vertical com moderação. Ele vai até a limite da circunferência, até o último ponto de tangência e retorna executando uma conversão de 180 graus que pode ser uma batida, um gride, um rock and roll, um stall, um olie, um disaster, entre dezenas de outras manobras.

O skatista de half pipe é sem moderação. Muitas vezes, até sem noção. Ele vai muitos metros além do último ponto de tangência para executar a conversão de 180 graus.

Tem uma gíria que diz que pessoas que vão além da normalidade são pessoas “fora da curva”. Essa gíria expressa bem o comportamento dos skatistas de half pipe. E, infelizmente, expressa o contrário do comportamento da maioria das pessoas.

(Emoji de infelizmente).


SKATE E VIOLÃO

Violão tem um braço, seis cordas e dezenove trastes. Entre um traste e outro, se forma um espaço para colocar o dedo chamado casa. Colocando um dedo em uma casa, ao tocar, você tem uma nota. Tocando três ou mais notas ao mesmo tempo, você tem um acorde.

Para tocar violão, primeiro você aprende os acordes maiores e menores, que são os mais básicos e necessitam de menos habilidade na movimentação dos dedos, só depois aprende os mais avançados. No começo os dedos travam. Parece impossível ir de um acorde para o outro. Mais impossível ainda, ir de um acorde para o outro no ritmo. Você faz careta. Briga com os dedos. Se enrosca. É o caos! Depois de praticar bastante os acordes básicos, fica automático trocar de um acorde para o outro. Daí, quando vai aprender os acordes difíceis, descobre que não tem nada de difícil, que são apenas variações dos básicos. Muda um dedo de posição, acrescenta mais um dedo na casa vazia, retira outro, escorrega o mindinho para casa da frente, etc.

Uma miniramp é um violão com dois trastes. Ou seja, você só tem uma casa para fazer todos os acordes (manobras). Claro! Usando os pés. De resto, é muito parecido.

Para andar de mini ramp, primeiro você precisa aprender as três manobras básicas: drop, rock and roll, stall. No começo é o caos também. Falta equilíbrio. As pernas se recusam a fazer os movimentos. Os pés se enroscam. Você olha para baixo e tem convicção que vai cair e morrer, mesmo estando a um metro de altura do chão. Depois de vencer o medo e praticar bastante as manobras básicas, executá-las fica automático. Daí, quando você vai executar as manobras difíceis, descobre que não tem nada de difícil também, que são apenas variações das manobras básicas. Muda uma posição no truck, acrescenta um movimento a mais, retira outro, escorrega o shape para frente. E assim por diante, igual no violão.

Igual na vida também.


TRÊS REGRAS PARA ANDAR DE MINIRAMP

(1) Aceite a lei da gravidade.
(2) Confie na lei da gravidade.
(3) Aprenda com a lei da gravidade.

Desde que voltei a andar de skate, todo dia vinha aprendendo uma manobra nova. Até que cheguei nessa manobra do vídeo. Uma manobra simples: dropar de frontside. Enrosquei nafiadaputa. Passei três semanas tentando executar. Muitos tombos. Um amigo me aconselhou desistir antes que ficasse viciado em fazer errado. Desisti por uma semana. Fui viajar. Voltei a tentar hoje. Errei, errei, errei… Por fim, decidi fazer o que precisava ser feito. Fiz. Acertei, acertei, acertei e ficou na base.

O que faltava? Faltava fé. Faltava confiar na lei gravidade. Para dropar de frontside é preciso se atirar de costas rumo ao chão, como se fosse cair de um muro. Por uma fração de segundos, você pensa: fodeeeeeeu, quem vai me segurar? Dá um frio na barriga e você desiste da manobra. Foi o que aconteceu comigo até hoje. Para acertar você precisa confiar que a lei da gravidade vai te segurar e te manter colado na rampa. Confiou, acertou. Facinho. Não tem segredo.

O mesmo acontece com o destino. Eu garanto.


GOFORIT

Ainda não havia internet naquela época, então, todo tráfico de informação era feito através de fitas de vídeo cassete. De vez em quando, alguém chegava excitado, com uma fita debaixo do braço. Não era pornô, era filme novo de skate. Os astros eram caras como Christian Hosoi, Tony Hawk, Tommy Guerrero, Rodney Mullen, entre outros. Festa estranha com gente esquisita, eu sei, porém, mais aguardada que final de copa do mundo.

A molecada se amontoava na sala de televisão. Todo mundo de olho duro, assistindo e vibrando com cada manobra na tela. Terminada a primeira sessão, imediatamente começava a segunda, com direito a pause, slow motion e comentários cheios de gírias. Dava para sentir o goforit brotando na molecada. Uma vontade louca de andar de skate até acertar as manobras do filme.

Lembrei disso, porque ontem assisti o filme The Greatest Showman (O Rei do Show). A trilha sonora me deu o mesmo goforit. Tanto que venci a preguiça de escrever e estou aqui. E quero dizer mais. O que mais? O que excede. O que transborda. Aqueles skatistas dos filmes eram mais. Eles se superavam. Transbordavam. Isso nos empurrava para frente, para cima e para fora da mediocridade. Mostrava que podíamos nos superar também. Bastava go for it.


PORQUE SKATE É MARGINAL

Skate é esporte ou estilo de vida? Esse debate é longo e polêmico. O mais sensato é pensar que é ambos. Porém, para o entendimento da marginalidade do skate, é necessário fazer uma separação por pertencimento.

O skate enquanto esporte, é mundial, não pertence a nenhuma nacionalidade, tribo, cultura ou sociedade. Pertence aos atletas que andam de skate. Já o skate, enquanto estilo de vida, tem dono sim. Pertence aos americanos. Mais especificamente aos californianos. Mais especificamente ainda a um grupo marginal de californianos: os surfistas.

A alma do skate vem do surf. O skate or die é filho do lets surf now. Por isso o skate é marginal. Surfistas são maconheiros, desencanados, descapitalizados, mal arrumados, fora da regra, fora da curva, fora do status quo, ou seja, são habitantes da margem (marginais).

Claro que o skate, como todo filho rebelde, se rebelou contra os pais e saiu de casa. A trilha sonora do skate, por exemplo, era o rock e hoje é o hip hop. O cabelo era de franja e hoje é curto. Muita coisa foi agregada, adaptada, retirada e modificada. Mas o que não mudou (ainda) na cultura do skate é a marginalidade.

E se depender do skatista, não vai mudar nunca. Mesmo sob a pressão do dinheiro e do comitê olímpico. Aliás, nessa resistência, o skate tem sido medalha de ouro.


SKATE NO VÉIO

Desde que inaugurou a pista de skate do Praia Clube, montei um skate e fui andar lá todos os dias, de segunda a domingo, sem faltar um dia sequer. Teve uma segunda feira que o clube fechou para tradicional manutenção e eu fui andar na pista do Jardim América. Garrei no skate. Tem uma menininha lá no clube que até me chama de piolho.

São aproximadamente dois meses na mini ramp, balançando igual sino. Vai e vem, vai e vem, vai e vem. Aliás, vai, faz manobra, vem, faz outra manobra, vai, faz outra manobra, vem… Isso nos dias bons. Nos dias ruins, vai, bate o skate na canela, cai, levanta, vem, bate com o skate no maléolo…

É! Quer aprender os nomes dos ossos dos pés? Vai andar de skate. Maléolo é aquele osso lateral da canela. Depois do chute no saco, uma skatada no maléolo é a segunda maior dor que um ser humano pode experimentar. Tá! Exagerei. Mas que dói pra caralho, dói.

Cheguei na pista achando que iria conseguir fazer alguma coisa, que era igual andar de bicicleta, que o corpo nunca esquece. Engano meu. Esqueci tudo. Outra coisa é que não sabia fazer nenhuma manobra de mini ramp. Nunca tinha andado de mini ramp antes. Na época que eu andava de skate ainda não haviam inventado a mini ramp. Período paleolítico. Só existia street e half.

Não é questão de aprender tudo de novo, é questão de aprender pela primeira vez. O que me coloca em pé de igualdade com todos os molequinhos de 8 anos que seguram na mão do instrutor para aprender a dropar. Aliás, para aprender uma manobra chamada rock and roll, aproveitei da generosidade e da mão do instrutor também.

Tô escrevendo esse texto para fazer um balanço dos dois meses. Lembro bem da primeira semana. Foi osso. Levei um tombaço. Bati a costela do lado do coração e perdi a respiração. Quase desmaiei. A costela deve ter fraturado de leve. Parado não doía tanto, mas durante duas semanas, tossir parecia um parto. Grudei um emplastro Salompas na costela e voltei para pista.

Fora a dor, todo dia aprendia uma manobra nova ou melhorava as já aprendidas. Isso me motivou a prosseguir apesar da previsão de dores futuras. Investi em equipamentos de proteção e isso também me motivou a enfrentar as dores da aprendizagem. Depois de muito treino, aprendi as manobras básicas, firmei em cima do skate, fiz as pazes com a lei da gravidade e passei a cair bem menos.

Não sei que bicho me mordeu para voltar a andar de skate depois de 30 anos. Acho que foi o vírus do prazer desportivo associado ao prazer de deslizar e fazer manobras numa onda de concreto. Lembro que quase desisti no dia que entrei na loja para comprar as peças do skate. Me senti um vovô metido a adolescente. O que dirão? Pensei. Foda-se! Pensei em seguida.

Fico feliz de não ter dado ouvidos aos meus próprios preconceitos. Andar de skate está me fazendo bem para saúde e para cabeça. É tipo uma yoga matinal. Acordo, tomo café, coloco o skate nas costas, vou para o clube e ando na mini ramp até as pernas ficarem bambas. A cabeça fica zerada de estresse e neuras.

Minha esposa curte, vê os benefícios, vê minha satisfação, mas acha estranho. Acredita que é uma fase. Que estou saudoso da juventude, que vai passar e vou voltar ao normal. Mal sabe ela que não existe skatista normal.


SKATISTA MAIS RICO QUE CONHEÇO

Pajuaba vai trabalhar andando de skate. Ele usa um longboard. É um skate gigante, com rodas grandes e eixos bem largos. Tudo isso para que o skatista possa andar com segurança e velocidade pelas ruas mais esburacadas. Pajuaba é um dos professores da pista que frequento. Quando cheguei na pista pela primeira vez, ele já estava lá, ali, acolá, lá de novo, ali, etc. Entende? O cara tem formiga na bunda, não para quieto. E adora café. Caso perdido no quesito calma.

Posso contar muitas curiosidades sobre Pajuaba. Nos encontramos quase diariamente e é fácil perceber suas idiossincrasias. (Palavrinha complicada, né? Usei de propósito. Google it!) A idiossincrasia que quero destacar, ocorreu semana passada. Estava colocando as joelheiras e me preparando para começar o rolê, quando Pajuaba chegou segurando seu longboard. “Cadê o outro skate?”, perguntei. “Só trouxe esse hoje para não cair na tentação de andar. Tô quebrado de tanto que andei no final de semana. Preciso descansar as pernas e o joelho” ele me disse.

Achei estranhíssima aquela declaração de abstinência, mas respeitei (sem comentários). Fui andar na miniramp. Passado algum tempo, outro skatista chegou na pista e começou a andar comigo. Pajuaba sentou do lado da miniramp e ficou assistindo nosso rolê. Dava para ver o pé do cara coçando dentro do tênis. Quanto mais animado ficava o rolê, mais Pajuaba se coçava. Até que ele desistiu de resistir e caiu em tentação. Pegou o longboard e começou a andar na miniramp.

Essa história, baseada em fatos reais, ilustra para mim o que é riqueza. Pajuaba é financeiramente pobre. Está sempre contando os trocados para conseguir comprar uma coisinha ou outra. Mas nunca vi uma pessoa mais feliz só por poder andar de skate todo dia. Aí sim é riqueza! Tem gente que é rica de não ter o que fazer com o dinheiro e não tem 1% da felicidade do Pajuaba acertando uma manobra. Seu amor pelo skate é inspirador. Me faz ouvir Tim Maia: “Quando a gente ama, não pensa em dinheiro, só se quer amar, se quer amar, se quer amar…”


TAPAFLIP

São Pedro deve pensar que skatista é capim e que precisa de muita água para crescer no esporte. Uai credo! Dá uma trégua pro rolê, São Pedro! A chuva molha a pista, retira o atrito da rodinha com o chão e fica impossível equilibrar em cima do treco.

Fiz esse desabafo no grupo de skatistas de Uberlândia, como se São Pedro participasse do grupo, ou fosse mesmo o responsável pela torneira do planeta. Mas já que São Pedro não me ouvia, nem existia, nem dava trégua, fui na garagem andar de skate parado. Treinar uns olies.

Se você não é skatista, vou te explicar o que é um olie, ou melhor, olie air. Olie air é a manobra que dividiu o skate em antes e depois: AOA (antes do olie air) e DOA (depois do olie air). Antes do olie air os skatistas eram como cobras, deslizando, mas sempre rente ao chão. Depois do olie air os skatistas se transformaram em cangurus. Tudo que antes bloqueava a passagem, passou a ser pulado de olie air. Calçadas, buracos, muretas, hidrantes, bancos. Tudo que aparecia pela frente, com a invenção do olie air, deixou de ser um empecilho e se tornou algo para ser pulado.

O movimento do olie air é parecido com o movimento de um cavalo pulando um obstáculo de hipismo e também como a aterrissagem de um avião. Primeiro o skatista faz as rodas da frente subirem no ar, assim como o jóquei faz com as patas dianteiras do cavalo no hipismo, depois a parte de trás acompanha e o obstáculo é transposto planando na horizontal, por fim, o skatista aterrissa com o skate também na horizontal, como um avião. Tudo isso em uma fração de segundos.

Na época que comecei a andar de skate, subir uma sarjeta de olie air era pura emoção. Subir um banco, então, era para virar capa de revista. Só que skatista é zica. Não aguenta ficar parado. Mal aprende uma manobra já quer complicar. Ô bicho que gosta de complicar. Então, como se já não fosse suficiente pular tudo que aparecia pela frente de olie air, começaram a inventar tudo quanto é tipo de variação da manobra. A mais famosa atualmente se chama kickflip, que consiste em fazer o skate orbitar 360 graus enquanto sobe e desce.

Hoje resolvi treinar o tal do kickflip, que nunca consigo. Apoiei a mão na bancada da garagem para facilitar. Depois de muito erro, ao invés de chutar com a perna e o pé, chutei só com a ponta do pé, só dando um toquinho, como se fosse fazer um gol apenas desviando a bola do goleiro. E eis que… Funcionou. Caraaaaaaalho! Assisti uns mil tutoriais. Câmera lenta. Pause. Vai e vem. Peguei mil dicas com os amigos. Mas ninguém me explicou que o segredo era dar um tapa no shape do skate e não um chute. Pooooorra, a manobra devia se chamar tapaflip e não kickflip.

Depois de meia hora de treino, meu pé já havia memorizado o tal do tapa. Então, de repente, pá! Acertei um perfeito, ainda com ajuda do balcão, mas perfeito. Caí com os dois pés na base, totalmente equilibrado. Fiquei parado estático e emocionado em cima do skate. Daí, me dei conta da emoção, e pensei: “Como pode uma coisa tão inútil como fazer o skate pular em órbita de 360 graus deixar uma pessoa tão feliz?”. Me lembrei da frase do homem que pisou na lua: “Um pequeno passo para um homem, mas um grande salto para a humanidade”. Minha felicidade não foi pelo pulo, foi pelo desafio vencido.

© 2020 · 1FICINA · Marcelo Ferrari