EU SOU LIXEIRO

05/10/2019 by in category Textos tagged as with 0 and 0

Uma amiga terapeuta me convidou para coordenar um retiro no sítio dela. Aceitei o convite. Preparei até uma EUrekatividade inédita. Chegando no local, para minha surpresa, descobri que havia uma gigantesca plantação de girassóis no sítio. Primeira safra. Oportunidade única e imperdível de usar os girassóis nas EUrekatividades. Foi o que fizemos. Construímos até uma mandala de girassóis com cada girassol representando um participante. No final, minha amiga terapeuta pediu para que cada um pegasse seu girassol na mandala, fosse até o centro do galpão e desse um testemunho sobre o retiro. Quando todos terminaram, pediu que eu desse meu testemunho também. Adorei o convite. Só que eu não tinha um girassol.

Por estar coordenando, não coloquei nenhum girassol na mandala. E foi nesse momento que começou minha EUrekatividade. Procurei um girassol disponível e meu olhar grudou em uma pilha de girassóis amontoados do lado de fora do galpão. Veio um pensamento: “Pega um girassol ali”. Só que aquela pilha era o lixo dos girassóis. Todos os girassóis rejeitados, quebrados e indignos de comporem a mandala, foram empilhados ali. Rebati o pensamento: “Ali não, ali é o lixo, vou pegar um girassol bonitão”. O pensamento insistiu: “Pega seu girassol ali que você vai entender”.

Não era a primeira vez que meu pensamento me fazia esse tipo de proposta. Já estava acostumado. Então, curioso, fui caminhando até a pilha de girassóis profanos, só para ver o que tinha ali para mim. Quando olhei de perto, fiquei até com pena dos girassóis. Era um girassol mais banguela que o outro. Parecia um campo de guerra depois da batalha cheio de corpos despedaçados. “Pega o mais banguela!”, disse meu pensamento. Fiquei indignado. O que eu teria feito de tão errado para não merecer sequer um girassol inteiro!?

Peguei o mais detonado. Assim que peguei, entendi. Aquele girassol era eu. Minha consciência também havia me pego no lixo assim como eu estava pegando aquele girassol. Me lembrei também, que na infância, eu queria ser lixeiro. Achava divertido correr pelas ruas arremessando os sacos de lixo dentro do caminhão e andando pendurado do lado de fora. Meu sonho de criança havia se realizado. “Entendeu agora! Você é lixeiro!”, o pensamento me disse. “Com muito orgulho, com muito amor”, respondi.

© 2018 · 1FICINA · Marcelo Ferrari