*Os livros estão na ordem de leitura recomendada.

EGOÍSMO, OUTROÍSMO E AUTOÍSMO

11/09/2015 by in category Livros with 0 and 0

01 | NOME AOS BOIS

A palavra outroísmo é uma invenção minha. Então, para que você possa entendê-la, preciso explicá-la. Mas antes de explicar o que é outroísmo, primeiro vamos entender algo sobre o processo de nomear e conceituar.

Nomear experiências comuns é fundamental para a comunicação. Quando se nomeia uma experiência abstrata, como calor, por exemplo, cria-se um conceito. Como o conceito dá concretude ao abstrato, através da nomeação e da definição, fica parecendo que o conceito cria a experiência. É justamente o oposto. A experiência vem primeiro, depois, para fins de comunicação, a experiência é nomeada e conceituada.

Por exemplo, um objeto jogado para cima sempre caiu no chão, até que um dia, Issac Newton, foi estudar essa experiência e a nomeou lei da gravidade. A experiência da gravidade já existia antes de Newton nomeá-la, mas a partir da nomeação ficou possível e mais fácil conversar sobre a gravidade e outras experiências físicas relacionadas a ela. Ou seja, a nomeação possibilitou a comunicação.

Outro exemplo é pensar na febre. A experiência da febre já existia antes de ser nomeada de febre. Alguém deu o nome de febre para febre. A partir daí ficou mais fácil se referir e conversar sobre febre. E por aí vai.

Nomear e conceituar é muito importante, principalmente no campo da ciência. 1ficina é autociência, então, no primeiro livro que escrevi para 1ficina, eu precisava explicar um aspecto da experiência humana no qual ainda não havia uma palavra para comunicação. Sendo que não havia, precisei inventá-la: outroísmo. Pensei em outras possibilidades. Pensei na palavra “outrocentrismo” e até usei essa palavra durante algum tempo, mas achei que “outroísmo” era uma palavra melhor, daí mudei de opção.

Enfim, a palavra “outroísmo” é uma invenção minha, mas o comportamento ao qual a palavra se refere, não é invenção minha.


02 | EGOÍSMO UNIVERSAL

Por que inventei uma palavra ao invés de usar as palavras que já existiam? Acontece que a palavra mais próxima do que precisava explicar é muito mal usada e por isso ao invés de ajudar, atrapalha. Que palavra é essa? É a palavra “egoísmo”. No entendimento geral, o egoísmo é o culpado, é o problema. Isso é um equívoco.

Egoismo não é problema. O problema é acreditar que egoísmo é o problema. Egoísmo é inevitável. Nem você, ser humano, nem qualquer outro ser no universo tem como deixar de ser egoísta. Egoísmo é natural e universal. Todo ser é egoísta por natureza.

Egoísmo é cuidar de si. O sol cuida de si. A samambaia cuida de si. A abelha cuida de si. A célula cuida de si. Todos os seres do universo são egoístas, porque o universo só sabe cuidar de si, só se importa consigo. O universo é o egoísmo absoluto. Todos os seres são o universo. Então, o egoísmo de cada ser é o egoísmo universal.

Quando um ser tenta não ser egoísta, está apenas sendo egoísta no sentido de tentar não ser egoísta. Não tem como deixar de ser egoísta. Mas por causa do significado pejorativo associado a palavra, o egoísmo recebe uma culpa que ele não tem. Isso não resolve o problema, cria o problema. Inventei a palavra outroísmo para resolver esse problema que não tem.


03 | FARSA DO ALTRUÍSMO

Mestre e discípulo vão almoçar juntos. O garçom traz dois bifes numa mesma travessa. Um bife é maior que o outro. O mestre pega o bife maior e coloca em seu próprio prato. O discípulo reclama:

— Seu egoísta!
— Por que diz isso? — pergunta o mestre.
— Você pegou o bife maior — diz o discípulo.

O mestre coloca o bife de volta na travessa e diz:

— Por favor, pegue você primeiro.

O discípulo pega o bife menor. O mestre diz:

— Por que você me chamou de egoísta? Olhe para nossos pratos. Eu continuo com o bife maior, que foi o que eu escolhi primeiro, você continua com o bife menor, que foi o que você escolheu primeiro.

Moral da história. O discípulo também queria pegar o bife maior, apenas fingiu santidade. Você faz o mesmo. É impossível não-desejar (não-egoísmo). Todo ser deseja realizar seu desejo. Altruísmo e abnegação são uma farsa. Você pode ser um egoísta franco, responsável, aberto ao diálogo e disposto a encontrar meios de conciliação dos desejos. Ou você pode ser um egoísta hipócrita, vitimista e manipulador, que reclama do outro ser o que você também é, mas finge que não.

São duas opções sobre a mesa. Dois jeitos de viver. Qual você escolhe?


04 | NATURAL, UNIVERSAL E INEVITÁVEL

A palavra egoísmo é tão martirizada que é sinônimo de demônio. No começo da 1ficina, quando explicava que egoísmo é natural, o repúdio era imediato e enorme. As pessoas não tinham sequer estômago para ouvir. Elas logo diziam: “Você é uma pessoa esclarecida e está defendendo o egoísmo! Como pode? Você é louco!”. Era muito difícil aprofundar no autoconhecimento por conta do mal entendimento do egoísmo.

Egoísmo nada mais é do que desejar. Em algumas tradições o demônio é o egoísmo, em outras, usa-se a palavra “desejo”, daí o demônio é o desejo. Egoísmo e desejo é como seis e meia dúzia, são sinônimos. É impossível você deixar de desejar porque você é egoísta. Sua natureza é pulsante, desejante, egoísta.

Você deseja seu próprio bem. Isso é natural, universal e inevitável. E egoísmo é benéfico tanto para você como para os outros. Quando você cuida de si é bom para você, porque você fica bem cuidado. E é bom para todos os outros que não precisam cuidar de você, pois você mesmo está cuidando de si. Egoismo é fundamental para viver bem e conviver bem. Só que a palavra “egoísmo” gera repulsa por força da cultura. Esse era metade do meu problema.


05 | PROBLEMA INTEIRO E SOLUÇÃO

Egoísmo é benéfico, mas a palavra egoísmo pode sim apontar para algo ruim: quando você impõe sua vontade ao outro ou vice-versa. Então, a palavra egoísmo pode apontar tanto para um bem como para um mal. Uma mesma palavra com dois significados opostos. Essa era a outra metade do meu problema. Eu precisava resolver isso para depois poder esclarecer o sofrimento e a causa do mal viver.

Como separar duas coisas distintas coladas numa mesma palavra? A solução foi criar duas novas palavras. “Outroísmo”, para apontar o mal uso do egoísmo, o tipo de uso que gera mal viver. E “autoísmo”, para apontar o bom uso do egoísmo, o tipo de uso que gera bem viver. Uma vez separados esses dois jeitos de usar o egoísmo, deixei de usar a palavra egoísmo e passei a usar apenas a palavra desejo. É por isso que na literatura da 1ficina você não encontra a palavra egoísmo, só encontra a palavra desejo.


06 | O QUE É OUTROÍSMO?

Tem várias maneiras de definir e entender o outroísmo, pois o outroísmo tem vários aspectos. Vamos começar pela seguinte definição: Outroísmo é um jeito de viver. Você está sempre vivendo. É só isso que você faz. Não tem outra coisa para você fazer senão viver. Descreva a si mesmo tudo que você faz e ficará evidente que tudo é você vivendo.

Isso passa despercebido porque você nomeia seu viver com vários verbos: acordar, andar, estudar, trabalhar, namorar, almoçar, descansar, ir, voltar, etc. Só que todos esses verbos são um verbo só: viver. Tudo é você vivendo. É só isso que você faz: viver. Não tem uma segunda coisa para você fazer.

Outroísmo é um jeito de você fazer essa única coisa que você tem para fazer: viver. Mas se é um jeito de viver, significa que não é o único, que deve existir outro jeito de viver. Sim, existem dois jeitos de você viver.

(A) Você pode viver de um jeito OUTROísta.
(B) Você pode viver de um jeito AUTOísta.


07 | VOCÊ SENDO OUTRO

AUTOísmo é o jeito de viver em que você vive sendo você. Outroísmo é o jeito de viver em que você vive sendo outro. Você pode viver sendo você mesmo, único, singular. Mas você pode se proibir de viver sendo você mesmo. Se você não está sendo você, está sendo outro, por isso seu viver é OUTROísta.

Vamos supor que você goste de fazer piada, dar risada, falar palavrão, mas você se obrigue a ser formal. Você tentando ser formal é você tentando ser outro, é você vivendo outroísta. Viver outroísmo é viver mal porque você não funciona bem sendo outro. Viver autoísta é viver bem porque você funciona bem sendo você.


08 | COM EDUCAÇÃO

O natural é você viver sendo você. Isso deveria ser sempre, deveria ser regra, não exceção. Mas na prática a teoria é outra: o que é natural não acontece. Na prática você vive sendo outro. Você vive sendo seus pais, seus amigos, seus professores, sua sociedade, o comercial de cerveja, o partido político, a religião, a moda, etc.

O que acontece que impede o natural de acontecer? A resposta é simples. O que impede o natural de acontecer é o cultural. Você virou outro porque você foi educado para ser outro. A experiência humana é COM educação.


09 | APRENDER É IMITAR

Vou trocar a palavra “educação” por “aprendizagem”. O que é aprender? Aprender é imitar até decorar. Lembra do caderno de caligrafia da escola? O que você fazia no caderno de caligrafia? Você praticava imitar as letras do alfabeto. Educar é propor um gabarito a ser imitado. Aprender é decorar um gabarito.

Quando você pensa em educação, você pensa só em escola, mas educação é o tempo todo. Na escola você é educado em gabaritos técnicos, como português, matemática, ciências, etc. Educação escolar é um tipo específico de educação, mas a partir do momento em que você nasce, você recebe gabaritos sem parar, de todos os seres humanos com quem convive. Quando sua mãe te disse, “coma de boca fechada”, por exemplo, ela estava te dando o gabarito dela para você imitar.


10 | GÊNESE DO OUTROÍSMO

Agora a gênese do outroísmo vai ficar evidente e prática. Que gabarito você imitou para se ensinar a ser você? O seu próprio? Claro que não! Você imitou todos os gabaritos que lhe deram, menos o seu. Você imitou o gabarito do seu pai, da sua mãe, da sua irmã, do seu professor, dos seus colegas, da sua sociedade, da sua igreja, do comercial de margarina, dos filmes de hollywood. Assim como você aprendeu português imitando o som dos outros, você aprendeu a viver imitando os comportamentos, valores, crenças e gostos dos outros. O que o outro dizia que era certo e bom, você imitava. O que o outro dizia que era errado, pecado e proibido, você imitava. Você se ensinou a ser você imitando o gabarito dos outros.


11 | GÊNESE DO OUTROÍSMO (A FÁBULA)

A cobra do jardim do éden, depois de persuadir Adão e Eva, caiu dentro do rio que fornecia água ao jardim. Toda a água ficou envenenada. Sem perceber, os bichos e as plantas do jardim começaram a beber a água. Eles não morriam, mas esqueciam de si. O urubu tentou miar, a roseira tentou dar manga, o gato tentou latir, a vaca tentou voar, a grama tentou ficar azul, o peixe tentou subir na árvore, a aranha tentou fazer mel, o jacaré tentou mugir, a galinha tentou botar leite, o gambá tentou ter cheiro de jasmim e o camelo tentou passar pelo buraco de uma agulha. Em pouco tempo, todos no jardim já haviam contraído a loucura. Menos um bicho estranho chamado Você, que morava em si e bebia água da própria fonte. Quando os outros bichos perceberam que Você se comportava diferente, ficaram convencidos de que Você estava louco e que deveriam matá-lo. Para sobreviver, Você foi até o rio e bebeu a água envenenada. E foi assim que Você esqueceu de si e passou a tentar ser Outro.


12 | COMO VOCÊ VIROU OUTRO

Quando você nasce, você não sabe de nada. Você não tem a menor ideia de que você está em uma brincadeira de autorrealização e que você tem seu próprio gabarito. E pior! Seus educadores também não sabem disso. E eles também foram educados por outros que também não sabiam disso. E assim por diante. O processo de educação vai se repetindo de pai para filho, nunca de filho para pai. Quando você nasceu, não foi você que falou para os seus pais: “Oi! Meu nome é fulano, eu sou seu filho!”. O que aconteceu foi o oposto. Você nasceu e seus pais lhe ensinaram que seu nome é Fulano. Ensinaram muitas outras coisas. Seus pais lhe deram gabaritos. Desde então, você imita e reproduz esses gabaritos automaticamente para viver, assim como reproduz as letras do caderno de caligrafia para escrever.


13 | TEM QUE

Cada gabarito que você recebeu do outro é como um programa de computador que diz que você TEM QUE SER isso, TEM QUE SER aquilo, etc. Se você é homem, por exemplo, você começou a chorar, daí sua mãe lhe disse: “Pare de chorar moleque, homem não chora!”. Sua mãe nem sabe o que fez, mas nesse momento te programou com o gabarito dela. E pior! Muito provavelmente nem era dela, era o gabarito da mãe dela. E nem era da sua avó, era da sua bisavó. E nem era da sua bisavó… Mas enfim, sua mãe te gabaritou que homem não chora, você introjetou esse gabarito, imitou, imitou, imitou, até virar um piloto automático. Por isso você quer chorar, precisa chorar, mas o piloto automático não deixa.


14 | COMPETÊNCIA SUBCONSCIENTE

Você não nasceu falando um idioma, você aprendeu. Você também não nasceu outroísta, você aprendeu. E aprendeu tão bem que se tornou uma competência subconsciente. Competência subconsciente é execução automática, por hábito. Falar português é uma competência subconsciente explícita, outroísmo é uma competência subconsciente implícita. Como desliga competência subconsciente? Não desliga. Nem precisa. Competência subconsciente é uma fantástica ferramenta mental. É por causa dela que você faz coisas complexas com facilidade. Competência subconsciente só causa problema quando você desenvolve um automatismo (hábito) em algo que é prejudicial a você. Viver de forma outroísta é um desses casos. Por isso, não importa o tanto que você queira viver bem, enquanto sua crença no outroísmo for uma competência subconsciente, sua própria competência subconsciente lhe fará retornar repetidas vezes ao mal viver. Esta é a má notícia. A boa notícia é que se foi você que se ensinou a viver de forma outroísta, você pode também se ensinar a viver de forma autoísta.


15 | ETERNO NOVO HERDEIRO

Imagine que você é dono de uma fábrica. Então, cabe a você ensinar seus funcionários como eles devem funcionar para que sua fábrica produza o tipo de produto que você deseja. Você ensina. Seus funcionários aprendem. E sua fábrica se torna uma produtora automática do produto que você deseja. Agora, imagine que você tenha herdado essa fábrica e que o produto atual que sua fábrica está produzindo não é o tipo de produto que você deseja. O que você deve fazer para que a produção da sua fábrica mude do produto atual para o produto desejado? Sendo que o produto atual vem do tipo de produção herdada. Sendo que o tipo de produção herdada vem do tipo de funcionamento dos funcionários herdados. Sendo que você é o novo dono. Para mudar a produção você deve mudar o funcionamento dos funcionários herdados. Como? Ensinando seus funcionários a funcionar no novo funcionamento.

Esta metáfora é para explicar como você pode mudar de um viver outroísta para um viver autoísta. A fábrica é você, os funcionários são o subconsciente, o funcionamento atual dos seus funcionários é o outroísmo. Por isso você vive mal. Porém, você é eterno novo herdeiro de si mesmo. Viver é herdar-se de si mesmo. Então, cada novo instante é uma nova oportunidade de você se ensinar uma nova forma de viver e assim produzir um novo produto.


16 | ÍMPARFEITO

Você se compara com o outro, com um gabarito alheio e surge em você a crença na imperfeição. Por isso você vive tentando ser outro. Mas não há nada de errado com você a não ser sua crença na imperfeição. Você não é imperfeito, você é ÍMPARfeito. Seu nariz é ÍMPARfeito. Sua genética é ÍMPARfeita. Seu desejo é ÍMPARfeito. Seu medo é ÍMPARfeito. Seu amor é ÍMPARfeito. Seu jeito é ÍMPARfeito. Você é ÍMPARfeito porque a natureza do universo é a universalidade: um diferente de um (1≠1).


17 | PATINHO FEITO

O universo disse “Faça-se!” e o patinho foi ÍMPARfeito.

— Que patinho defeituoso!
— Defeituoso é pouco!
— Olha como anda errado!
— Ele vai nos estragar também!

E todo dia o patinho era maltratado. Então, cansado de ser maltratado, o patinho resolveu ir embora do mundo. Depois de muito caminhar, chegou em um lago. Ao aproximar-se do lago, viu uma imagem na água. Sem entender que era seu reflexo, começou a conversar com a imagem na água.

— Por que sofro tanto?
— Boa pergunta, por que está sofrendo?
— Porque sou imperfeito.
— Quem disse?
— Todos dizem! O mundo diz!
— E você acredita?
— Claro que acredito.
— Por que acredita?
— Porque todos dizem.
— E como você gostaria de ser?
— Gostaria de ser perfeito.
— Perfeito como?
— Perfeito igual os outros.
— Mas cada um é diferente!
— Sim, é verdade!
— E por que quer ser igual os outros?
— Para que me aceitem.
— Ninguém te aceita?
— Não como sou, imperfeito.
— Quer ser perfeito para ser aceito?
— Sim, quero ser aceito.
— Eu te aceito!
— Você me aceita como sou?
— Exatamente como é.
— Aceita minhas imperfeições?
— Sim, são suas imperfeições que te fazem ser você.
— Nossa! É verdade!
— Você é além de perfeito!
— Como assim?
— Você é ímpar feito.
— É verdade! Meu sofrimento até passou!
— E não precisa voltar mais.
— Grato por me aceitar.
— O prazer é todo meu.
— Posso te abraçar?
— Claro, aproxime-se.

O patinho foi se aproximando até mergulhar em si mesmo. Quando voltou à superfície, estava ÍMPARfeito.


18 | AUTOCONSCIENTIZAÇÃO

Outroísmo é sua competência subconsciente atual. Então, para você viver autoísta, é necessário que você se reensine a viver. Como você pode fazer isto? Mostrando o óbvio para si mesmo. Que óbvio? Que um é diferente de um (1≠1). Que você é diferente do outro e que o outro é diferente de você. Toda vez que você deixa isso evidente para si mesmo, você está se desensinando a viver outroísta e se ensinando a viver autoísta.


19 | PROBLEMÁTICA E SOLUCIONÁTICA

Resumindo e finalizando:

O que é outroísmo?
— É um jeito de viver.
Que jeito é esse?
— Quando você vive sendo outro.
Por que você faz isso?
— Porque você foi educado pelo outro.
Você pode mudar isso?
— Sim, você pode.
Como mudar isso?
— Praticando autociência e ficando consciente do seu outroísmo.

PERGUNTAS

Exatamente! Seu sistema emocional funciona como funciona e isso não se altera. Quando mais você praticar autociência, mais especificamente autoanálise, mais você se aperfeiçoa na competência de USUÁRIO do seu sistema emocional (GPS).

Controlar o outro não é desejo, é estratégia. Você tem vontade de algo e para realizar esse algo você usa a estratégia de controlar o outro. Por exemplo, você quer beber água. Ao invés de levantar a bunda da cadeira e ir até o filtro, encher o copo e beber água, vc começa. “Fulano! Ooooô fulano! Pega um copo d’água pra mim”. O fulano não pega. Você tenta controlá-la para ele realizar seu desejo. Você diz, por exemplo: “Nossa! Pensei que eramos amigos. Pensei que nossa amizade tinha algum valor. Nem um copo d’água você é capaz de pegar para mim. Credo! Rapidinho! Pega lá!”. Percebe? Você não quer controlar o outro, você quer beber água. O controle é a estratégia que você está usando para realizar seu desejo.

Sim, você é altruísta porque isso te faz bem. Egoísmo é desejar o próprio bem. Logo, altruísmo é egoísmo assim como todo e qualquer desejo.

Altruísmo é egoísmo. Não existe abnegação. Você opta pela abnegação quando é bom para você. Dito isso, você pode ser altruísta tanto por outroísmo como por autoísmo. É preciso analisar. Cada caso é um caso. Por exemplo, se você gosta de ajudar os outros, se isso é prazeroso para você, se ajudar os outros te faz bem, então, você ajuda porque isso é você sendo você, sendo autoísmo. Se você não gosta de ajudar os outros, se acha um saco, um fardo, mas ajuda para fingir santidade, fingir bondade, fingir que é uma boa pessoa e receber o apreço dos outros, dai você não está ajudando, está manipulando os outros a gostarem de você por algo que você não é. Daí é outroísmo.

É justamente o oposto. É impossível cada um seguir o que acha pior. Todo ser sempre segue o que acha melhor. Você só segue uma regra quando é a melhor opção para você, se não for, você não segue, você vai para a opção que acha melhor.

Tudo que é existencial não é opcional. Observe sua existência. Você tem a opção de não existir? E por favor, não pode confundir existência como realidade. Sua existência é a fábrica da sua realidade. Dito isso. Você tem a opção de não existir. Não tem. Por que não tem? Porque sua existência é existencial, logo, não é opcional.

Observe sua consciência. Você tem a opção de não saber? Não me refiro a não querer isso ou daquilo, me refiro a não-saber, não ter consciência. Não tem. Por que não tem? Porque sua consciência é existencial, logo, não é opcional.

Observe sua vontade. Você tem a opção de não querer? Não me refiro a não saber isso ou daquilo, me refiro a não-querer, não ter vontade. Não tem. Por que não tem? Porque sua vontade é existencial, logo, não é opcional.

PERGUNTA: O fato de existir já é uma comprovação do meu desejo?

Existir é sua natureza existencial. Você é um ser, você existe. Isso não é opcional. Você não tem como deixar de existir. Agora, se por “existir” você estiver se referindo a sua pessoa, daí a palavra “existir” está sendo usada de uma forma materialista. Você, pessoa, é realidade e não existência. Dito isso. A resposta a sua pergunta é sim. Você está se experimentando como uma pessoa (ser humano) porque você, enquanto ser, quer e está optando por se experimentar sendo humano. No instante em que você, enquanto ser, não quiser mais e decidir ter outro tipo de experiência, você deixará de se experimentar sendo humana.

PERGUNTA: Eu-ser existo porque eu desejo existir?

Não! Como expliquei acima. Você-ser existe porque ser é existir. Sua existência não tem uma causa, sua existência é causa. Sua dificuldade de entendimento vem da lógica materialista que você está usando para pensar em si mesmo. A mentalidade materialista não consegue entender existência sem causa. Isso é um absurdo para mentalidade materialista, pois na lógica materialista: existência = realidade. Para entender o processo de criação de realidade, você precisa entender que você é a fábrica da realidade, ou seja, a causa, e que sua realidade é o produto, ou seja, o efeito. Para entender isso, você precisa despertar existencialmente. Para despertar existencialmente, você precisa praticar autoobservação existencial.

Autoísmo é viver EM ACORDO com a própria unicidade. Então, seu comportamento, seja qual for, é efeito da sua opção dentre: viver autoísta ou viver outroísta.

É sempre bom lembrar que um copo vazio está cheio de ar. É tentando preencher o vazio que você bloqueia a si mesmo. “Eu tenho que isso! Eu tenho que aquilo!”. O que você chama de vazio é você cheio de medo de ser autêntico.

Vazio é o fruto da sua busca pelo pote de ouro no final do arco íris, ou seja, pela perfeição. Não existe perfeição. Tudo no universo é único, singular, impar_feito. Perfeição é um equívoco. É a suposição que você deve viver de acordo com algum padrão alheio. Isso é impossível. Se fosse possível você já teria conseguido.

A solução não é preencher o vazio com algo artificial, mas retirar o que está bloqueando o natural. Um tratamento médico não produz saúde, apenas retira o que está bloqueando a saúde. Retirado o bloqueio, a saúde volta naturalmente. Saúde é natural. Impar_feição é natural. Sua crença na perfeição é o bloqueio.

Quando você desperta e percebe a insanidade que é tentar ser perfeito, você imediatamente para de tentar e se permite ser você (impar_feito). Despertar para impar_feição é você se curando do equívoco da perfeição. Quanto mais você se cura, mais evidente fica que vazio não é vazio, é você cheio de autonegação.

Seguir o próprio gabarito é uma metáfora para dizer: viver em acordo com a própria unicidade. Sua unicidade não se forma, sua unicidade é existencial. Então, você não tem como saber o que é certo e errado para você, ou seja, você não tem como saber do seu gabarito, mas você tem como sentir. É para isso que serve seu sistema emocional (GPS do Destino).

PERGUNTA: Sendo que meu gabarito é uma mistura de partes de vários outros gabaritos aprendidos…

Tem um equívoco nessa sua premissa. Seu gabarito não é uma mistura de partes de vários outros gabaritos aprendidos, seu sistema de crenças que é assim. Seu gabarito é sua unicidade. Unicidade não se aprende. Aprendizagem é sempre de fora para dentro. Você aprende observando o outro e imitando o outro. Autoconhecimento é impossível de ser adquirido através de aprendizagem. O processo de aquisição de autoconhecimento se faz através da descoberta e não da aprendizagem.

CONTINUAÇÃO DA PERGUNTA: Como posso separar os meus gostos verdadeiros dos aprendidos?

Usando seu sistema emocional (GPS do Destino). Quando você gosta, é sinal de que está em acordo com sua unicidade, quando você não gosta, é sinal de que não está em acordo com sua unicidade. O que não significa que você tem que odiar tudo que aprendeu. Quando você aprende algo e gosta do que aprendeu é porque essa aprendizagem está em acordo com sua unicidade. Se não gosta da aprendizagem, está em desacordo. E por fim, vale alertar que a resposta do seu sistema emocional depende da circunstancia. Por exemplo, tem coisas que você adorava na infância e atualmente não gosta mais. Outro exemplo, tem coisas que você gosta de fazer de noite, mas não gosta de fazer de dia, e assim por diante.

PERGUNTA: As vezes não sei se o que estou fazendo é para realizar meu desejo ou o desejo dos outros. Meu GPS está quebrado?

Não, seu sistema emocional é um GPS incorruptível e infalível. O que não significa que seu entendimento sobre o funcionamento do seu sistema emocional seja infalível. Não é. É preciso prática em autoanalise para entender bem o que o sistema emocional está sinalizando. No início, é muito comum o praticante ficar perdido na análise.

PERGUNTA: Se não sei quais são os meus desejos, como posso descobrir?

Primeiro, aproveito para dizer que você jamais ira encontrar uma lista dentro de você com o título “Meus desejos”. Isso é um equívoco. Não existe essa lista. O que existe é o momento em que um objeto, uma circunstância, uma opção ou uma possibilidade tromba com você. Isso acontece a todo instante. Por isso, a todo instante você está experimentando um estado emocional. Se mantenha atento ao seu sistema emocional, instante após instante e você estará descobrindo seu desejo instante após instante.

Você não sabe, você sente. Felicidade e sofrimento serve por isso. Por exemplo, você calça 37, mas acredita que deve usar sapato 35. Você compra um sapato 35. Dói o pé. O dedão fica roxo. Para que tanta dor? Para você ficar consciente que 35 não é o numero ideal para você. E qual é o numero ideal para você? Você precisa tentar novamente, optar novamente pelo que acredita ser o ideal. Você acredita que é 36. Compra um sapato 36. Dói menos. O dedão passa de roxo para azul marinho. Mas ainda dói. Por que ainda dói? Para você ficar consciente que 36 ainda não é o numero ideal para você. E qual é o numero ideal? Você precisa tentar novamente, optar novamente pelo que acredita ser ideal. Você opta por 37. Compra um sapato 37. Ah! Que maravilha. Que felicidade! O dedão fica rosinha, normal, relaxado dentro do sapato. Seu pé atingiu a iluminação. É o pé_raíso! Claro que é 37! Óbvio que é 37! Evidente que é 37! Eureka! Eu_sou_37

PERGUNTA COMPLETA: Você diz que impor meu desejo aos outros é outroísmo, mas como ser autoísta e não impor minha vontade se desejar e inevitável?

Você está confundindo imposição com interferência. A realização do seu desejo irá interferir na realidade do outro, com certeza e inevitavelmente, pois tudo que você faz interfere na realidade do outro. Mas tudo que você não faz também interfere na realidade do outro. Por exemplo, você quer comprar um pastel. Se você realizar seu desejo, você estará interferindo na realidade do outro, o pasteleiro irá lucrar com sua compra. Se você não realizar seu desejo, você também estará interferindo na realidade do outro, o pasteleiro não irá lucrar com sua compra.

Impor seu desejo ao outro é obrigar o outro a desejar igual você. Por exemplo, você quer comer pastel, mas o pasteleiro não foi com a sua cara e não quer vender pastel para você. Você quer que ele venda, ou seja, você quer que ele tenha o mesmo desejo que você. Daí você começa a pressionar o pasteleiro, dizendo que a recusa dele é discriminação, que seu dinheiro vale tanto quando o dinheiro de qualquer pessoa, pipipi e pópópó. Você faz tudo isso visando obrigar o pasteleiro desejar igual você. Isso é outroísmo impositivo, pois você está tentando impor sua vontade ao outro.

Sim, é impossível, pois aprender é imitar.

PERGUNTA: Criatividade é uma maneira de aprender?

Não, criatividade é misturar coisas que você aprendeu para produzir uma nova.

Viver é mar que sobe e desce alternando dores e delícias. A mesma onda que te afunda na dor, assim que muda de fase, te eleva ao pico mais alto da felicidade, depois te afunda novamente e te eleva novamente. E assim por diante, num sobe e desce sem fim. Então, só um jeito de evitar a dor: não vivendo.

É isso que você faz: se proíbe de viver.

É uma delícia passear ao ar livre sentindo a brisa, mas você pode pegar um resfriado. É uma delícia sentir o aroma das rosas, mas você pode se furar com os espinhos. É uma delícia brincar com o mágico, a trapezista, a bailarina, o domador de leões e todos os integrantes do circo humano, mas eles podem te fazer de palhaço.

Viver é perigoso. Melhor não viver para não arriscar sentir dor.

E como faz para não viver? Você pensa em duas opções:

Opção (A): sair da brincadeira (suicídio).

Opção (B): fazer igual os três porquinhos, construir uma casa bem forte, impermeável e morar dentro dela para não ser comido pela dor do infortúnio, da rejeição, da frustração, da decepção, etc. Você se encolhe e vive entocado feito tartaruga.

Ao executar a opção (B), além de não ganhar da dor, você ainda perde a alegria de viver. Por isso volta a pensar na opção (A).

Mas tem também a opção C: se permitir sentir dor. O benefício da opção (C) é finalmente conseguir realizar o motivo de ter nascido: viver.

Conviver sim, o reino animal é exemplo disso. Para conviver de forma organizada, daí é preciso convenções para organizar a convivência. Um idioma, por exemplo, é uma convenção social que organiza a convivência. Contudo, convenções servem para organizar a convivência e não para autorrealização.

É mais do que possível! Só pessoas autoístas consegue viver bem em sociedade. As sociedades humanas sempre foram e ainda são locais de má convivência porque as pessoas são outroístas e não porque são autoístas. Se todas as pessoas do mundo fossem autoísta, a convivência humana seria maravilhosa.

Mais do que sim! Só nesse caso é possível. Dois autoístas convivendo é o melhor dos mundos, é a melhor das convivências. Dois autoístas conversam, entendem o desejo um do outro e juntos constroem uma convivência em que o desejo de ambos são realizados. O problema da boa convivência é quando as partes são outroístas e uma quer impor sua vontade ao outro, daí a boa convivência fica impossível.

Sim, crianças vivem de forma autoístas e não sabem nada de paralelidade.

INTERLOCUTOR: Me refiro a pessoas adultas que já tem uma certa bagagem na memória. Aí é possível viver autoísta sem antes despertar para paralelidade?

Sua pergunta é tipo assim: “Pode alguém que foi domesticado em um equívoco viver de forma desequivocada? Resposta: Enquanto estiver seguindo a domesticação equivocada, não.

É mais do que possível. Só duas pessoas autoístas são amigas de verdade.

O que você está chamando de liberdade, na verdade, é livre-arbítrio. Não precisa ensinar ninguém a ter livre-arbítrio, todos sempre tem arbítrio e nem conseguem deixar de ter.

Quem é você para confiar em si mesmo? Quem é você para confiar em seu sentimento, sensibilidade, autoridade e juízo!? Que absurdo! Pirou? Para você viver bem, você precisa do aval do Dalai Lama, do Buda, de Jesus, do Papa, do Xamã Pena Branca, do Einstein, do Stephen Hawking, da NASA, do Freud, do Jung, do Allan Kardec, do teorema de Pitágoras, do Guru da Baba Azul e, principalmente, do Elvisleno, o camelô, filho do Elvis Presley com o John Lennon, que vende relógio suíço na rua 25 de Março, em São Paulo. Quer algo em que confiar? Confie no horóscopo, na propaganda política, no facebook, na previsão das cartomantes, nos comerciais de margarina, na novela das oito que começa às nove, nos filmes do Chuck Norris e nas revistas de fofocas. Confie em qualquer coisa. Confie na fada do dente. Confie nas fitinhas do Senhor do Bonfim. Confie em São Longuinho. Só não cometa a insanidade de confiar em si mesmo. Jamais! Quem avisa amigo é! Confie em mim.

Encontrando uma maneira de satisfazer os dois desejos. Por exemplo, comendo e depois fazendo exercícios.

Existe algum tipo de arte que não é artística? Existe algum tipo de religião que não é religiosa? A resposta a sua pergunta é não, pois educação é outroísmo. Toda educação é o outro lhe programando para viver dentro de um sistema de crenças que não é o seu. Isso é óbvio, pois não há necessidade de ninguém lhe educar para viver dentro do seu próprio sistema de crenças, uma vez que já é seu e o outro nem tem acesso. Agora, imagina que eu dissesse que sim, que a educação autoísta (universalista) é fazer isso, aquilo, grilo e crocodilo. Vamos até ilustrar com uma palavra bonita e idolatra pela cultura humana. Vamos supor que eu dissesse que educação autoísta (universalidade) é amar o próximo. Daí, pegamos essa máxima e educamos todas a pessoas a viverem assim, amando o próximo. Que universalidade teria? Nenhuma. Seria a mesma uniformidade de sempre.

Não. Acho que os livros que tem já explicam o suficiente. Mas melhor do que escrever um livro só sobre autoísmo é ser um exemplo de viver autoísta. É isso que procuro fazer com vocês aqui na 1ficina durante o ciclo de estudos. Como professor, explico sobre autoísmo. Mas como ser humano, convivo com vocês de forma autoísta. E esse é um dos motivos de muitas vezes vocês me odiarem.

Exato! Seu comportamento é desdobramento da sua opção entre viver autoísta ou viver outroísta. Seja qual opção de comportamento você optar no cardápio outroísta, é viver outroísta. Seja qual opção de comportamento você opta no cardápio autoísta, é viver autoísta.

Tem um equívoco ai. Você está supondo que você controla seu sistema emocional (GPS). Isso não é possível. Se isso você possível, você faria isso e só sentiria felicidade o tempo todo. O que você controla é seu arbítrio. E para viver bem, sim, você deve arbitrar seguindo os apontamentos do seu sistema emocional (GPS). Se você faz isso, você vive em autorrealização mesmo sem saber QUEM você é.

E qual é o gabarito que vai servir de base para todos seguirem? O seu?

Depende do negócio. Negociar a convivência, sim. Negociar seu autoísmo, não.

Imagine que sua realidade é um carro. Só tem duas opções, ou você dirige seu carro, ou alguém vai dirigir por você. Então, se você quer realizar seu desejo, você deve ser o motorista da sua realidade, pois só você tem acesso ao seu desejo.

Contudo, viver é conviver. Você que deve dirigir o seu carro, mas você dirige seu carro no trânsito, juntos com os outros carros que estão sendo dirigidos por outros motoristas. Então, para fins de boa convivência, sim, você deve e precisa cooperar com o desejo dos outros assim como os outros devem e precisam cooperar com o seu desejo, caso contrário, ao invés de todos saírem ganhando, todos saem perdendo.

Imagine um cruzamento de duas avenidas movimentadas sem semáforo, por exemplo, o trânsito não anda, todos os carros ficam parados, todos saem perdendo. O semáforo é uma negociação, um acordo coletivo, para que todos saiam ganhando, ou seja, para que o desejo de todos se realizem.

Ego é uma palavra feita de três letras: e+g+o. Só isso! Palavras tem significados diferentes em contextos diferentes. Ego significa vaidade no contexto moral, significa mediador no contexto psicanalítico e significa falso-eu no contexto espiritualista. Tem outros significados em outros contextos.

Eu não uso a palavra ego na literatura da 1ficina, não recomendo usar, nem incentivo o uso. Além da multiplicidade de significados, trata-se de uma palavra rançosa, carregada de mal entendidos e usada sem conhecimento de causa. Quem usa a palavra ego geralmente está apenas papagaiando o que decorou e reproduzindo sem saber do que está falando.

Dito isso, mesmo sendo uma palavra que evito usar, ainda é interessante refletir sobre o significado de “falso-eu” atribuído a palavra ego. O que seria um falso-eu? Ou melhor, o que seria um falso-você? Bem, para haver falso é preciso haver verdadeiro. Óbvio! Mas se há um você verdadeiro, onde está? E por que o falso toma o lugar do verdadeiro?

Imagine que você adore música dançante, com tambores e batidas fortes, mas você nasceu e vive em um mundo que despreza esse tipo de música e só valoriza música erudita, tipo Mozart, Beethoven, Bach, etc. Você coloca uma música dançante e seus amigos começam a te zuar. Seus pais tratam esse seu gosto musical como um defeito. Ninguém te convida para as festas, nem conversa com você, pois você é estranho, você gosta de música dançante. O que você faz para ter a aceitação do mundo?

Vamos supor que seu nome é Pessoa. Para ser amado pelo mundo, você cria um falso você, a Pessoa fake, que é você fingindo que não gosta de música dançante e adora música erudita. Esse exemplo é simplificado, mas ilustra bem o que é o falso você e porque você o coloca no lugar do verdadeiro. A verdadeira Pessoa não é amada pelo mundo, e como você prefere ser amado do que ser você, você tranca a verdadeira Pessoa no porão da autonegação e coloca a Pessoa fake no lugar dela.

A Pessoa fake não é o que você verdadeiramente é, naturalmente é, espontaneamente é. A Pessoa fake é um fingimento, é uma estratégia de manipulação que você executa dia e noite para ser amado pelo mundo. E fingir o gosto musical não é o único fingimento que a Pessoa fake precisa executar para ser amada. A Pessoa fake precisa fingir que concorda com o que todo mundo concorda, que acha importante o que todo mundo acha importante, que acha certo o que todo mundo acha certo, etc.

Tudo que você faz repetidamente se torna um hábito, você começa a fazer automaticamente, igual dirigir carro. Então, quanto mais você repete o fingimento de que você é a Pessoa fake, mas automático fica você ser a Pessoa fake. Depois de muito tempo de autonegação, a verdadeira Pessoa fica soterrada pelo hábito do fingimento e você se torna a Pessoa fake. Você até esquece que é uma Pessoa verdadeira, a máscara vira sua pele.

A Pessoa fake é seu ego (falso-eu). Na 1ficina eu chamo esse comportamento de “outroísmo submisso”. Outroísmo porque você deixa de ser você mesmo e se torna outro. Submisso porque viver sendo outro, é você se submetendo aos critérios e ideais do outro.

O termo “outroísmo submisso” é melhor que a palavra “ego” pelos motivos que expliquei no começo. E mais! O termo “outroísmo submisso” deixa explícito seu comportamento e coloca a responsabilidade por você viver mal no executor do seu comportamento: você. A palavra “ego” faz o oposto, esconde seu comportamento e coloca a responsabilidade por você viver mal em um bode expiatório chamado o ego. Esconder não resolve fingimento, perpetua. Então, usar a palavra “ego” é apenas mais uma estratégia que você usa para perpetuar sua autonegação.

Não existe egoísmo mal. Você é que usa mal seu egoísmo. Você é o usuário do seu egoismo. Você que decide como usá-lo. Pense na energia elétrica. Não é boa nem má, é o que é, energia. Você pode usar a energia elétrica para fazer o chuveiro funcionar e tomar um banho quente, por exemplo. Mas também pode usá-la para eletrocutar alguém ou a si mesmo. A energia elétrica não se recusa a fazer nenhuma das duas coisas. A energia elétrica sequer sabe para o que está sendo usada. Consciência é atributo do usuário da energia elétrica. A energia elétrica é a coisa que está sendo usada, não é o usuário. O mesmo acontece com o desejo (egoísmo). Desejo é eletricidade, impulso, vontade. Seu desejo é a força que possibilita você se manifestar. Como você se manifesta, de que forma, de que jeito, é responsabilidade sua, usuário do desejo. Seu desejo não tem consciência, não sabe o que é bem e mal, certo e errado, melhor e pior. Quem sabe disso é você. Por isso não existe egoísmo mal e sim egoísmo mal usado.

Ao bem viver, não. Mas a vida boa sim. Aliás, se você quer vida boa, viva de forma outroísta, o máximo possível. Quando você mente, por exemplo, isso lhe favorece. A verdade lhe desfavorece. Por exemplo, seu patrão lhe pergunta se você é corintiano. Você é corintiano. Só que seu patrão é palmeirense e odeia corintiano. Se você assumir que é corintiano, será demitido. Demissão é prejuízo, vida ruim. Então, você mente para se beneficiar, para ter vida boa. Só que ao mentir, está se condenando a viver uma vida de fingimento e isso é viver mal.

Ótima pergunta. Aliás, essa é A pergunta: “O que me impede de ser eu?”. Mas antes de responder preciso que você se sente e relaxe. Você está sentado? Se não estiver, por favor, se sente para não cair duro com a resposta. E você está relaxado? Se não, relaxe, por favor. Caso contrário você terá um ataque de fúria ou de pânico.

Vamos fazer um breve exercício de respiração para provocar o relaxamento. Puxe o ar pelo nariz. Segura. Conta até sete. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete. Solta o ar calmamente. Repete o exercício. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete. Isso! Repete mais uma vez. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete. Solta o ar calmamente. Ótimo! Agora que você está sentado e relaxado, vou responder: o que impede você de viver sendo você é seu arbítrio.

Ops! Respira, respira, respira… Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete… Segura! Isso! E para de bater a cabeça na mesa e na parede. Isso! Solta o ar calmamente. Ótimo! Vou continuar…

A laranjeira consegue dar laranja e você não consegue dar você, porque a laranjeira não tem arbítrio. Ou seja, não existe, no caso da laranjeira, a possibilidade de autonegação. A laranjeira está condenada a dar laranja. Não pode jamais dar jaca, nem jabuticaba, nem goiaba, nem tomate. Laranjeira dá laranja e pronto! Não tem liberdade para ser diferente disso. Você é um ser humano, você tem liberdade de optar, ou seja, tem arbítrio. Então, você pode se proibir de dar você e viver sendo outro.

Por favor, não se levante e pare de bater a cabeça na parede. Respira. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete. Isso!

Sei que é desagradável ouvir essas palavras, mas é o remédio amargo que cura. Leia tudo que irá lhe ajudar. Recapitulando… Você tem arbítrio, então, você pode se proibir de viver sendo você e viver sendo outro. Isso é o que a 1ficina chama de outroísmo. Você pode optar por viver igual seus pais querem, igual seus amigos querem, igual a igreja quer, igual seu guru quer, igual o comercial da Coca-Cola quer, etc. Você pode optar por viver sendo outro e não você mesmo. O resultado dessa opção é viver mal, mas você pode fazer isso, a laranjeira não pode.

A laranjeira não consegue sair do paraíso. A laranjeira não tem arbítrio. A laranjeira não pode comer a maçã. Você pode cair em tentação e comer a maçã (viver sendo outro). O resultado dessa opção é ser expulso do paraíso. É impossível viver bem sendo outro, é doloroso, é um inferno. Mas você pode optar por viver sendo outro. Prova disso é que você vive sendo outro. E mesmo eu te explicando aqui a besteira que está fazendo, você continuará fazendo. E pior! Nada nem ninguém é capaz de te impedir de continuar.

Lembra que expliquei ontem que arbítrio é incorruptível, e que isso tem um lado bom, mas que também tem um lado ruim. Eis o lado ruim. Nada nem ninguém é capaz de te impedir de viver outroísta. Nem Jesus na causa! Nem os Vingadores! Mesmo que todos os seres do universo se juntem para te impedir de optar por um viver outroísta, ainda assim, você é livre para continuar se proibindo de ser você mesmo.

O universo é absolutamente impotente perante seu arbítrio. Olha que loooooco! Leia pausadamente. O universo…. é… absolutamente… a.b.s.o.l.u.t.a.m.e.n.t.e… im.po.ten.te… perante seu arbítrio. Entende o tamanho do seu poder??? Quer mais empoderamento que isso??? Não existe! Você é um ser humano. Você é o ser mais empoderado do universo. Por um lado, isso é ótimo, pois nada, absolutamente nada, pode te impedir de viver bem, mas por outro lado, nada pode te impedir de viver mal.

Eis a grande questão do arbítrio: benção ou maldição?

Você decide.

Porque ninguém tem interesse que você seja você. Seu pai quer que você seja outro. Sua mãe quer que você seja outro. Sua esposa quer que você seja outro. Seu marido quer que você seja outro. Seus filhos querem que você seja outro. Seus amigos querem que você seja outro. Seus professores querem que você seja outro. A sociedade quer que você seja outro. O padre quer que você seja outro. E mais! Segundo a bíblia, até Deus quer que você seja outro. Ora, se o universo inteiro e até o criador do universo quer que você seja outro: quem é você para ser você? De onde vem essa arrogância suprema de cagar para as expectativas e o recalque alheio? Que egoísmo escancarado, fedido e mesquinho é esse de ser autêntico? É acreditando nessas certezas e duvidando de si que você opta pela uniformidade e vive sendo outro.

A principal doença humana, não é humana, é existencial. Esse é o problema.

A principal doença do ser humano é a ignorância sobre o que é ser humano. Ignorância é uma questão consciencial, ou seja, existencial. O doente é você-ser e não você-humano. Sua doença consciencial é dormir (estado de ignorância). A natureza humana é apenas o programa que você-ser está usando para brincar de ser humano. A natureza humana é como um carro. Você-ser é o motorista. O motorista dorme no volante e o carro cai no abismo. Que culpa tem o carro? Nenhuma! Outroísmo é efeito colateral da ignorância. Nenhum ser humano lúcido vive outroísta.

 

Como professor, cheguei a conclusão que a palavra “egoísmo” é do tipo de palavra que ninguém sabe usar, pois não sabe do que está falando quando usa. Sendo assim, não uso essa palavra e não recomendo usar. Só uso essa palavra em um livro da 1ficina a fim de esclarecer que egoísmo é desejo e não uso mais. Mas isso sou eu. Essa é uma decisão minha. Você não sou eu. Então, cabe a você decidir as palavras que usa, pois sua decisão define sua experiência e não a minha.

Autoísmo é uma prática. Prático desde que nasci.

Um índio é um ser humano do mesmo tipo que você. Não tem dois tipos de seres humanos, só tem um. Você é um ser humano fulano. Você-ser existe igual a todos os seres do universo. Você-humano possui uma natureza humana igual a todos os seres humanos. Você-fulano, daí sim, pode ser dividido em diferentes tipos. Por exemplo, você é um fulano brasileiro, casado, advogado, com ensino superior completo, etc. Outro é um fulano índio, guerreiro, cacique, com três penas amarelas no cocar, etc. Ou seja, a diferença tipológica entre você (ser humano fulano A) e um índio (ser humano fulano B), é cultural. Você é um ser humano cheio de cultura do tipo A e o índio é um ser humano cheio de cultura do tipo B.

Eles nem sabem que são índios.

Ainda bem, né? Você também não sabia que se chamava Fulano até seus pais lhe darem um nome. Ou foi você que escolheu seu nome? Você nasceu e disse: “Olá, meu nome é fulano, eu sou brasileiro, meu RG é 123456789, meu CPF é 987654321, sou advogado e torcedor do palmeiras, que a propósito, não tem mundial”. Creio que não, né? Mas aproveito sua observação. Ela me fez lembrar de uma história bem ilustrativa da época da colonização do Brasil. Os portugueses chegaram no Brasil e ficaram espantados que os índios não usavam terno e gravata, que eles andavam pelados. Então, escreveram uma carta para o Rei de portugal: “Prezado Rei, envie urgentemente padres para evangelizar os índios brasileiros, pois eles andam pelados e não sabem o que é pecado.” Mais uma vez: ainda bem, né?

Podemos ver os índios como seres animais e vegetais?

Você é livre para colocar o rótulo que quiser no outro, assim como seus pais fizeram com você ao te darem um nome. Dito isso, sua pergunta é interessante, pois leva a outra: o que um ser humano tem que o faz humano e o difere dos animais e vegetais? A resposta é consciente, raciocínio e arbítrio. Um índio tem consciente, raciocínio e arbítrio, então, é um ser humano igual você. Como expliquei acima, a diferença é que você foi educado em um tipo de cultura e o índio em outra.

Ou seja, índios são cem por cento autoístas?

Autoísmo é sua opção individual por viver em acordo com sua unicidade, não é uma aprendizagem cultural. A cultura é justamente uma proposta de uniformidade. Todo mundo assim, todo mundo assado. E não importa se é uma cultura civilizada ou indígena, é uma proposta de uniformidade do mesmo jeito. Então, do mesmo jeito que você, que vive em uma cultura civilizada, só vive de forma autoísta por opção e não por aprendizagem cultural, o mesmo com um índio em uma cultura indígena.

Sua pergunta está partindo de uma premissa equivocada. Qual? A crença de que sua experiência (vida) pode não depender de você. Seu arbítrio é intransferível. Logo, sua vida é sempre 100% dependente de você. Mesmo quando você decide fazer o que o outro quer que você faça, por exemplo, você está decidindo realizar a vontade do outro, não é o outro que está decidindo por você. Dito isso. Se 1% do seu arbítrio estiver em desacordo com sua unicidade, então sim, você experimentará 1% de mal viver.

Lembra do filme Uma Mente Brilhante? Lembra que mesmo quando o John Nash entendeu que as pessoas que ele via eram imaginárias, ele continuou vendo essas pessoas? O mesmo acontece com o viver autoísta, você continua experimentando seu outroísmo, essa opção continua presente, mas você está lucido que é optar por viver mal, então, você apenas não opta mais, muda de opção.

Se você quer matar uma barata e mata, você está vivendo autoísta?

INTERLOCUTOR: Uma pessoa não é uma barata.

Sim, mas em ambos os casos você está vivendo do mesmo jeito, fazendo o que quer. Viver autoísta é isso, viver em acordo com a própria vontade. Claro que a convivência com um ser humano é diferente da convivência com uma barata e a percepção disso tem implicações fundamentais na qualidade da sua convivência, mas daí é uma questão de convivência e não de vivência.

INTERLOCUTOR: Boa convivência é impossível quando pensamos em indivíduos tipo os psicopatas.

É IMPOSSÍVEL viver autoísta sem LUCIDEZ e MAESTRIA. Não adianta baixar um decreto dizendo: “A partir de agora todos são autoístas e vivem autoístas”. Se isso fosse possível, a 1ficina faria isso no primeiro dia de ciclo de estudos, não se dava ao trabalho de passar 10 meses explicando o óbvio para retirar você da ignorância.

Um psicopata não quer matar ninguém. O desejo dele é outro. Matar é ESTRATÉGIA. Só que o psicopata está em estado de ignorância e ignora isso. Se o psicopata desperta a consciência, ele entende tudo isso. Entende que pode usar outra estratégia e, além de viver bem, conviver bem.

Não é o autoísmo que produz bem viver e boa convivência, o que produz bem viver e boa convivência é LUCIDEZ e MAESTRIA em ser humano. Mas todo indivíduo lúcido vive em acordo com a própria unicidade, pois é óbvio que essa é a melhor opção.

É comum 1ficineiros se obrigarem a viver autoístas e acreditarem que a 1ficina está propondo MAIS UM CÓDIGO MORAL de como viver. Isso é um equívoco. A 1ficina não propõe nada, apenas explica o óbvio.

É óbvio que só tem 2 jeitos de você viver: em autorrealização ou em autonegação. É óbvio que autonegação produz mal viver e má convivência e autorrealização produz bem viver e boa convivência. O trabalho da 1ficina é explicar isso. O resto é arbítrio de cada um.

INTERLOCUTOR: O autoísmo é fácil de entender como melhor opção para o próprio indivíduo, mas o autoísmo coletivo como melhor opção para convivência é mais difícil de aceitar, pois, não pode ser testado e está longe de ser, então, não é óbvio para gente.

Não, não é por isso não. O problema é que todos querem viver livremente, serem quem são, viver em acordo com sua vontade, mas não querem que o outro tenha a mesma liberdade. Ou seja, boa convivência é quando você faz o que eu quero, quando eu faço o que você quer, é má convivência. Essa é a mentalidade outroísta impositiva.

O que é natural não é bom nem ruim. Bom e ruim é uma atribuição humana e particular feita sobre a natureza. Pense na natureza da energia, por exemplo. Energia é bom ou é ruim? Energia não é bom nem ruim, é apenas impulso. Pense na energia atômica. Você pode usar a energia atômica para acender lampadas e iluminar as ruas de uma cidade, mas também pode usar a energia atômica para explodir uma cidade, como aconteceu com a bomba de Hiroshima. Energia não se recusa a fazer uma coisa ou outra, pois energia não sabe o que faz. Energia não tem consciência. Energia não sabe o que bom e ruim, bem e mal, certo e errado. Energia é apenas impulso. Quem tem consciência é o USUÁRIO da energia. Por isso, cabe ao USUÁRIO decidir o USO da energia, ou seja, como utilizá-la.

O mesmo acontece com o egoísmo. Egoísmo é desejo e desejo é energia, impulso, vontade de manifestação. Então, egoísmo não é bom nem ruim, é natural. Você é o USUÁRIO do seu desejo, então, cabe a você decidir como USÁ-LO. Seu desejo não lhe diz se você está usando-o de um jeito bom ou ruim, assim como a energia atômica também não diz isso ao seu usuário. Seu desejo também não tem consciência. Você é a consciência da sua UNItrindade. Você que sabe o que é bom e ruim. Você que está dirigindo seu desejo agora e sempre. Se você é um mau motorista, se você está usando seu desejo de uma forma que te faz viver mal, a culpa não é do seu desejo, é culpa é sua. E isso é ótimo! Pois, você pode virar o volante, mudar como você está dirigindo seu desejo e passar a viver bem.

Dizer que o egoísmo tem um lado ruim, é uma explicação “grosso modo” para início de conversa e de estudo. Agora, com essa explicação mais aprofundada, espero que tenha ficado claro que egoísmo é natural e não tem lados. Os lados (bom e ruim) não são do egoísmo (em si) e sim do uso do egoísmo. O egoísmo pode ser usado de uma forma boa, ou seja, de uma forma que produz bem viver e boa convivência, ou de uma forma ruim, ou seja, que produz mal viver e má convivência.

Assume a culpa. Culpa só é problema quando você tenta fugir dela. Culpa é responsabilidade. Cada um é culpado por suas escolhas. Tentar fugir disso, além de impossível, não ajuda a viver bem. Você vive outroísta porque opta por isso. A culpa é sua. Não tente fugir. Abrace e escute a culpa. A culpa vem para te explicar a má escolha que está fazendo e possibilitar que você mude de opção. Se você mudar de opção e começar a viver bem, você continuará sentindo culpa, pois assim como você é culpado pelo seu mal viver, você também é culpado pelo seu bem viver. Só que no caso do bem viver, você irá chamar a culpa de felicidade.

Superar não é uma boa palavra, pois pressupõe dois equívocos:

1) O primeiro equívoco é que o medo compulsivo e a dependência é a causa do seu mal viver. O medo compulsivo e a dependência é o mal viver em si e não a causa do mal viver. Mal viver é sintoma, não é causa. Medo compulsivo e dependência é sintoma, não é causa. Então, você jamais irá superar o medo compulsivo e a dependência (sintoma) se acreditar que ambos são a causa do seu mal viver. Se você entender que é efeito, daí sim, você pode dar início a um processo de cura psicologica e pode chamar esse processo de “superação”.

2) O segundo equívoco é que a palavra “superar” passa a ideia de que você fará uma mudança através da força de vontade. Isso é impossível. A mudança da realidade se dá através da mudança da mentalidade. A mudança da mentalidade não acontece através da força de vontade, acontece através do esclarecimento. Para mudar de uma mentalidade outroísta para uma mentalidade autoísta, você precisa se esclarecer sobre o que você está fazendo de errado e não começar a fazer uma coisa nova com muita força de vontade.

Imagine que você, morrendo de sede, gire a torneira no sentido horário, visando abrir a torneira e beber água. Não funciona, pois, para abrir a torneira, você deve girá-la no sentido anti-horário. Mas você é uma pessoa determinada. Já que você não conseguiu abrir a torneira com a mão, você decide fazer uma coisa nova, virar a torneira com um alicate. E você faz isso, só que continua girando a torneira no sentido horário. Percebe? Não importa quantas coisas novas você faça e quanta força de vontade você coloque no que está fazendo, enquanto você não sair do equívoco de girar a torneira no sentido horário, você não irá realizar seu desejo.

Por isso a solução para o bem viver é despertar a consciência e não força de vontade. Não se sai de um equívoco através da força de vontade, só se sai de um equívoco despertando para o equívoco. Quando você entende o que está fazendo de errado, você automaticamente para de fazer e pronto mal viver desaparece. Quando você entende que para abrir a torneira você deve girá-la no sentido anti-horário e não horário, pronto! Imediatamente você para de fazer a coisa errada e faz a coisa certa, vira no sentido horário e bebe água.

Comparação em si não é outroísmo. A comparação em si é um processo mental natural e inevitável. O processo mental da comparação acontece para que você possa diferenciar características dos objetos observados. Por exemplo, sem a comparação e diferenciação entre um sabonete e um cactus, você acabaria tendo problemas na hora de tomar banho. O outroísmo acontece quando você se compara e se obriga a ser igual ao objeto ao qual está se comparando, ou seja, quando se obriga a ser igual ao outro, ou quando você obriga o outro a ser igual a você.

Então, para sair do outroísmo, devo investigar a obrigação e não a comparação?

Sim, para ficar consciente do outroísmo, você deve observar e analisar essa obrigação de ser igual o outro ou de obrigar o outro ser igual você.

Pelo contrário, é estar em paz consigo e com todos. No viver autoísta, você se permite viver sendo você, isso é viver em paz consigo. Quando você vive em paz consigo, você entende como é ruim o oposto, como é ruim se obrigar a ser outro. Quando você entende como é ruim se obrigar a ser outro, você para de fazer isso com o outro. Você para de tentar mudar os outro, você permite que o outro seja outro e convive em paz com o outro.

Claro que pessoas que tem interesse em controlar você e que não tem interesse no seu autoísmo podem entrar em guerra com você. Mas daí:

1) Isso não é problema seu.
2) Você tem arbítrio e seu arbítrio é incorruptível.
3) Logo, o outro não tem como evitar sua opção pelo viver autoísta.
4) Se você tentar impedir o outro de brigar com você…
5) Você que irá viver outroísta.

PERGUNTA COMPLETA: Viver autoísta significa optar só pelo que eu quero ou inclui abrir mão de certas vontades pessoais em prol da boa convivência?

Você não precisa e nem deve abrir mão da sua vontade em prol da boa convivência. Se você abre mão da sua vontade, você vive mal. Quando você vive mal, a boa convivência fica impossível para você. Como você pode proporcionar ao outro um bem viver quando você mesmo está vivendo mal? Impossível! Então, primeiro você precisa viver bem, para depois poder conviver bem. Sempre nessa ordem, nunca o contrário.

Porém, isso não significa que você não possa e não deva colaborar com o outro. Sim, você pode e deve. Por exemplo, você quer tomar banho, outra pessoa na sua casa também quer tomar banho. Só tem um banheiro na casa. A coisa mais inteligente que vocês dois podem fazer é colaborar um com o outro. Conversar e decidir quem toma banho primeiro e quem toma banho depois. Sem colaboração, o que terá é competição, um prejudicando o outro para ter seu desejo satisfeito. Você sai correndo e entra no banheiro. A outra pessoa desliga a eletricidade e diz que se você não sair ela não liga de volta. Você fica lá dentro e diz que se ela não ligar você não sai. E assim fica. Ninguém toma banho. Ninguém realiza o desejo por falta de colaboração. Se vocês colaboram um com o outro, um toma banho rápido, sai, entra o outro e pronto! Ambos tomam banho. Ambos realizam o desejo, sem precisar abrir mão.

Então, nem você nem ninguém precisa abrir mão do seu desejo em prol da boa convivência. Mas precisa sim aprender a considerar o desejo dos outros, conversar e encontrar maneiras de convivência em que todos realizem seus desejos.

PERGUNTA COMPLETA: Você diz que desejo e egoísmo é existencial, então, não é opcional. Isso significa viver bem depende de como se lida com o desejo e o egoísmo?

Não existe desejo e egoísmo. Desejo é egoísmo. São sinônimos. Desejo é uma palavra do contexto da psicologia. Egoísmo é uma palavra do contexto religioso e moral. São palavras diferentes, assim como seis e meia dúzia, mas apontam para mesma coisa: querer o próprio bem. Dito isso, vou corrigir sua pergunta. Fica assim:

PERGUNTA: Você diz que egoísmo é existencial, então, não é opcional. Isso significa que o bem viver de cada pessoa vai depender de como ela lida com seu egoísmo?

Ou então assim:

PERGUNTA: Você diz que desejo é existencial, então, não é opcional. Isso significa que o bem viver de cada pessoa vai depender de como ela lida com seu desejo?

Desejo é egoísmo, então, dá na mesma usar uma palavra ou outra. O que não funciona é você usar as duas palavras fazendo parecer que são duas coisas distintas. Não são. É a mesma coisa. Escolha a palavra que preferir. Na 1ficina eu uso a palavra “desejo” porque a palavra “egoísmo” é execrada pela nossa coletividade. Tem religiões que falam mal do egoísmo de cabo a rabo, como se fosse opcional, como se fosse possível deixar de ser egoísta. Por causa disso, não uso a palavra “egoísmo” nas explicações, uso a palavra desejo. Só uso a palavra “egoísmo” em um livro que explico que egoísmo é desejo, logo, inevitável. Explico isso, passo a régua, e não uso mais a palavra “egoísmo” em lugar nenhum. Contudo, para responder sua pergunta, vou usar a palavra egoísmo propositalmente, pois suponho que esse seja o foco do seu equívoco e da sua questão.

PERGUNTA: Você diz que egoísmo é existencial, então, não é opcional. Isso significa que o bem viver de cada pessoa vai depender de como ela lida com seu egoísmo?

Sim, exatamente! Você deve passar por duas etapas de despertar consciencial sobre a natureza do desejo para viver bem. E não adianta colocar a carroça na frente dos burros. First things first. Primeiramente o que vem primeiro, depois o que vem depois. E o que vem primeiro e o que vem depois?

Primeiro você precisa ficar consciente que egoísmo é desejo e portanto, existencial, natural, saudável e inevitável. Note que não disse “entender”. Teoria não resolve. Também não disse “acreditar”. Acreditar também não resolve. Só o óbvio salva! Você deve deixar óbvio para si mesmo que egoísmo é desejo e portanto, existencial, natural, saudável e inevitável. Isso precisa ficar evidente, ululante, inegável. Caso contrário, você não tem como ir para segunda etapa.

A segunda etapa é aprender a lidar bem como o próprio egoísmo. Só que não dá para você aprender a lidar bem com seu egoísmo se você ainda foge do seu egoísmo. Fica impossível. Então, se você ainda está na primeira etapa, não tente ir para segunda. Não funciona. Permaneça na primeira até o fim. Permaneça praticando autoobservação até ficar óbvio que egoísmo é desejo e portanto, existencial, natural, saudável e inevitável.

Uma vez que você tenha concluído a primeira etapa, uma vez que você tenha despertado para natureza do desejo, daí a segunda etapa se abre para você. Por que só a partir daí? Porque só quando você para de fugir do seu egoísmo, fica possível você observar o funcionamento dele e sua relação com a qualidade da sua vida. Você começa a entender que a qualidade da sua vida depende da forma como você usa seu egoísmo. Você entende que quando usa seu egoísmo assim, vive mal, quando usa assado, vive bem.

Quanto mais você observa o funcionamento do seu egoísmo e as formas de uso, mais autoconhecimento você produz, quanto mais autoconhecimento, melhor você usa seu egoísmo, quanto melhor você usa, melhor você vive.

Minha motivação para fazer o trabalho da 1ficina vem do prazer de executar esse trabalho e experimentar o resultado da execução. Por isso ajudo vocês. Puro egoísmo. Adoro trabalhar com autociência. Pense no seguinte, para que eu possa ter o prazer de executar esse trabalho, eu preciso que tenham pessoas interessadas em recebê-lo. Então, são vocês que me ajudam e não eu que ajudo vocês. No final das contas, é uma troca, eu ajudo vocês a se esclarecerem sobre o que é ser humano e vocês me ajudam a ter o prazer de fazer isso.

Pense no seguinte, para você se afastar do outro o outro precisa existir, não é? Como você poderia se afastar de alguém que não existe? Impossível. Ou seja, se afastar também é você se relacionando com o outro. É uma qualidade diferente de próximo, mas também é relacionamento.

Dito isso, você decide a qualidade do seu relacionamento. Isso é opcional. Não se relacionar é impossível. O jogo é de relacionamento.

Não! Você continua tentando me encaixar dentro de uma caixinha ideológica. Eu sou eu. Anarquismos parece liberdade, mas também é uma caixinha ideológica. Eu não sou uma ideologia. Viver não é uma ideologia. Conviver não é uma ideologia. Não me interessa ideologias. Me interessa ser, viver e conviver.

Por que estou participando de uma experiência coletiva e o resultado da minha opção não depende só da minha opção, depende do arbítrio coletivo. Eu opto só pelo que gostaria de experimentar, igual você, e isso só depende de mim, o resultado não. Por exemplo, eu opto por ir à praia tomar sol e o clima “opta” por ficar chuvoso. Entende? Minha opção particular influencia o coletivo, mas não determina.

Dito isso, você está confundindo bem viver com vida boa. Essa ideia de experimentar só coisas boas, só coisas agradáveis, é o equivoco da vida boa. Viver bem não é vida boa, viver bem é lidar bem com a vida, seja vida boa, seja vida ruim.

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