EGOÍSMO, OUTROÍSMO E AUTOÍSMO

29/10/2016 by in category Livros with 0 and 0
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01 | NOME AO BOI

A palavra outroísmo é uma invenção minha. Então, para que você possa entendê-la, preciso explicá-la. Mas antes de explicar o que é outroísmo, primeiro vamos entender algo sobre o processo de nomear e conceituar. Nomear experiências comuns é fundamental para a comunicação. Quando se nomeia uma experiência abstrata, como calor, por exemplo, cria-se um conceito. Como o conceito dá concretude ao abstrato, através da nomeação e da definição, fica parecendo que o conceito cria a experiência. É justamente o oposto. A experiência vem primeiro, depois, para fins de comunicação, a experiência é nomeada e conceituada. Por exemplo, um objeto jogado para cima sempre caiu no chão, até que um dia, Issac Newton, foi estudar essa experiência e a nomeou lei da gravidade. A experiência da gravidade já existia antes de Newton nomeá-la, mas a partir da nomeação ficou possível e mais fácil conversar sobre a gravidade e outras experiências físicas relacionadas a ela. Ou seja, a nomeação possibilitou a comunicação. Outro exemplo é pensar na febre. A experiência da febre já existia antes de ser nomeada de febre. Alguém deu o nome de febre para febre. A partir daí ficou mais fácil se referir e conversar sobre febre. E por aí vai.

Nomear e conceituar é muito importante, principalmente no campo da ciência. 1ficina é autociência. Então, no primeiro livro que escrevi para 1ficina, eu precisava explicar um aspecto da experiência humana no qual ainda não havia uma palavra para comunicação. Sendo que não havia, precisei inventá-la: outroísmo. Pensei em outras possibilidades. Pensei na palavra “outrocentrismo” e até usei essa palavra durante algum tempo, mas achei que “outroísmo” era uma palavra melhor, daí mudei de opção. Mas enfim, a palavra “outroísmo” é uma invenção minha, mas o comportamento ao qual a palavra se refere, não é invenção minha.


02 | EGOÍSMO UNIVERSAL

Por que inventei uma palavra ao invés de usar as palavras que já existiam? Acontece que a palavra mais próxima do que precisava explicar é muito mal usada e por isso ao invés de ajudar, atrapalha. Que palavra é essa? É a palavra “egoísmo”. No entendimento geral, o egoísmo é o culpado, é o problema. Isso é um equívoco. Egoismo não é problema. O problema é acreditar que egoísmo é o problema. Egoísmo é inevitável. Nem você, ser humano, nem qualquer outro ser no universo tem como deixar de ser egoísta. Egoísmo é natural e universal. Todo ser é egoísta por natureza. Egoísmo é cuidar de si. O sol cuida de si. A samambaia cuida de si. A abelha cuida de si. A célula cuida de si. Todos os seres do universo são egoístas, porque o universo só sabe cuidar de si, só se importa consigo. O universo é o egoísmo absoluto. Todos os seres são o universo. Então, o egoísmo de cada ser é o egoísmo universal. Quando um ser tenta não ser egoísta, está apenas sendo egoísta no sentido de tentar não ser egoísta. Não tem como deixar de ser egoísta. Mas por causa do significado pejorativo associado a palavra, o egoísmo recebe uma culpa que ele não tem. Isso não resolve o problema, cria o problema. Inventei a palavra outroísmo para resolver esse problema que não tem.


03 | NATURAL, UNIVERSAL E INEVITÁVEL

A palavra egoísmo é tão martirizada que é sinônimo de demônio. No começo da 1ficina, quando ia explicar que egoísmo é natural, o repúdio era imediato e enorme. As pessoas não tinham sequer estômago para ouvir. Elas logo diziam: “Você é uma pessoa esclarecida e está defendendo o egoísmo! Como pode? Você é louco!”. Era muito difícil aprofundar no autoconhecimento por conta do mal entendimento do egoísmo. Egoísmo nada mais é do que desejar. Em algumas tradições o demônio é o egoísmo, em outras, usa-se a palavra “desejo”, daí o demônio é o desejo. Egoísmo e desejo é como seis e meia dúzia, são sinônimos. É impossível você deixar de desejar porque você é egoísta. Sua natureza é pulsante, desejante, egoísta. Você deseja seu próprio bem. Isso é natural, universal e inevitável. Egoísmo é benéfico tanto para você como para os outros. Quando você cuida de si é bom para você, porque você fica bem cuidado. E é bom para todos os outros que não precisam cuidar de você, pois você mesmo está cuidando de si. Egoismo é fundamental para viver bem e conviver bem. Só que a palavra “egoísmo” gera repulsa por força da cultura. Esse era metade do meu problema.


04 | PROBLEMA INTEIRO E SOLUÇÃO

Egoísmo é benéfico, mas a palavra egoísmo pode sim apontar para algo danoso e prejudicial. Por exemplo, quando você abusa do outro para seu benefício ou vice-versa. Então, a palavra egoísmo pode apontar tanto para um bem como para um mal. Uma mesma palavra com dois significados opostos. Essa era a outra metade do meu problema. Eu precisava resolver isso para depois poder esclarecer o sofrimento e a causa do mal viver. Como separar duas coisas distintas coladas numa mesma palavra? A solução foi criar duas novas palavras. “Outroísmo”, para apontar o mal uso do egoísmo, o tipo de uso que gera mal viver. E “autoísmo”, para apontar o bom uso do egoísmo, o tipo de uso que gera bem viver. Uma vez separados esses dois jeitos de usar o egoísmo, deixei de usar a palavra egoísmo e passei a usar apenas a palavra desejo. É por isso que na literatura da 1ficina você não encontra a palavra egoísmo, só encontra a palavra desejo.


05 | O QUE É OUTROÍSMO?

Tem várias maneiras de definir e entender o outroísmo, pois o outroísmo tem vários aspectos. Vamos começar pela seguinte definição: Outroísmo é um jeito de viver. Você está sempre vivendo. É só isso que você faz. Não tem outra coisa para você fazer senão viver. Descreva a si mesmo tudo que você faz e ficará evidente que tudo é você vivendo. Isso passa despercebido porque você nomeia seu viver com vários verbos: acordar, andar, estudar, trabalhar, namorar, almoçar, descansar, ir, voltar, etc. Só que todos esses verbos são um verbo só: viver. Tudo é você vivendo. É só isso que você faz: viver. Não tem uma segunda coisa para você fazer. Outroísmo é um jeito de você fazer essa única coisa que você tem para fazer: viver. Mas se é um jeito de viver, significa que não é o único, que deve existir outro jeito de viver. Sim, existem dois jeitos de você viver.

(A) Você pode viver de um jeito OUTROísta.
(B) Você pode viver de um jeito AUTOísta.


06 | VOCÊ SENDO OUTRO

AUTOísmo é o jeito de viver em que você vive sendo você. Outroísmo é o jeito de viver em que você vive sendo outro. Você pode viver sendo você mesmo, único, singular. Mas você pode se proibir de viver sendo você mesmo. Se você não está sendo você, está sendo outro, por isso seu viver é OUTROísta. Vamos supor que você goste de fazer piada, dar risada, falar palavrão, mas você se obrigue a ser formal. Você tentando ser formal é você tentando ser outro, é você vivendo outroísta. Viver outroísmo é viver mal porque você não funciona bem sendo outro. Viver autoísta é viver bem porque você funciona bem sendo você.


07 | COM EDUCAÇÃO

O natural é você viver sendo você. Isso deveria ser sempre, deveria ser regra, não exceção. Mas na prática a teoria é outra: o que é natural não acontece. Na prática você vive sendo outro. Você vive sendo seus pais, seus amigos, seus professores, sua sociedade, o comercial de cerveja, o partido político, a religião, a moda, etc. O que acontece que impede o natural de acontecer? A resposta é simples. O que impede o natural de acontecer é o cultural. Você virou outro porque você foi educado para ser outro. A experiência humana é COM educação.


08 | APRENDER É IMITAR

Vou trocar a palavra “educação” por “aprendizagem”. O que é aprender? Aprender é imitar até decorar. Lembra do caderno de caligrafia da escola? O que você fazia no caderno de caligrafia? Você praticava imitar as letras do alfabeto. Educar é propor um gabarito a ser imitado. Aprender é decorar um gabarito. Quando você pensa em educação, você pensa só em escola, mas educação é o tempo todo. Na escola você é educado em gabaritos técnicos, como português, matemática, ciências, etc. Educação escolar é um tipo específico de educação, mas a partir do momento em que você nasce, você recebe gabaritos sem parar, de todos os seres humanos com quem convive. Quando sua mãe te disse, “coma de boca fechada”, por exemplo, ela estava te dando o gabarito dela para você imitar.


09 | GÊNESE DO OUTROÍSMO

Agora a gênese do outroísmo vai ficar evidente e prática. Que gabarito você imitou para se ensinar a ser você? O seu próprio? Claro que não! Você imitou todos os gabaritos que lhe deram, menos o seu. Você imitou o gabarito do seu pai, da sua mãe, da sua irmã, do seu professor, dos seus colegas, da sua sociedade, da sua igreja, do comercial de margarina, dos filmes de hollywood. Assim como você aprendeu português imitando o som dos outros, você aprendeu a viver imitando os comportamentos, valores, crenças e gostos dos outros. O que o outro dizia que era certo e bom, você imitava. O que o outro dizia que era errado, pecado e proibido, você imitava. Você se ensinou a ser você imitando o gabarito dos outros.


10 | COMO VOCÊ VIROU OUTRO

Quando você nasce, você não sabe de nada. Você não tem a menor ideia de que você está em uma brincadeira de autorrealização e que você tem seu próprio gabarito. E pior! Seus educadores também não sabem disso. E eles também foram educados por outros que também não sabiam disso. E assim por diante. O processo de educação vai se repetindo de pai para filho, nunca de filho para pai. Quando você nasceu, não foi você que falou para os seus pais: “Oi! Meu nome é fulano, eu sou seu filho!”. O que aconteceu foi o oposto. Você nasceu e seus pais lhe ensinaram que seu nome é Fulano. Ensinaram muitas outras coisas. Seus pais lhe deram gabaritos. Desde então, você imita e reproduz esses gabaritos automaticamente para viver, assim como reproduz as letras do caderno de caligrafia para escrever.


11 | TEM QUE

Cada gabarito que você recebeu do outro é como um programa de computador que diz que você TEM QUE SER isso, TEM QUE SER aquilo, etc. Se você é homem, por exemplo, você começou a chorar, daí sua mãe lhe disse: “Pare de chorar moleque, homem não chora!”. Sua mãe nem sabe o que fez, mas nesse momento te programou com o gabarito dela. E pior! Muito provavelmente nem era dela, era o gabarito da mãe dela. E nem era da sua avó, era da sua bisavó. E nem era da sua bisavó… Mas enfim, sua mãe te gabaritou que homem não chora, você introjetou esse gabarito, imitou, imitou, imitou, até virar um piloto automático. Por isso você quer chorar, precisa chorar, mas o piloto automático não deixa.


12 | COMPETÊNCIA SUBCONSCIENTE

Você não nasceu falando um idioma, você aprendeu. Você também não nasceu outroísta, você aprendeu. E aprendeu tão bem que se tornou uma competência subconsciente. Competência subconsciente é execução automática, por hábito. Falar português é uma competência subconsciente explícita, outroísmo é uma competência subconsciente implícita. Como desliga competência subconsciente? Não desliga. Nem precisa. Competência subconsciente é uma fantástica ferramenta mental. É por causa dela que você faz coisas complexas com facilidade. Competência subconsciente só causa problema quando você desenvolve um automatismo (hábito) em algo que é prejudicial a você. Viver de forma outroísta é um desses casos. Por isso, não importa o tanto que você queira viver bem, enquanto sua crença no outroísmo for uma competência subconsciente, sua própria competência subconsciente lhe fará retornar repetidas vezes ao mal viver. Esta é a má notícia. A boa notícia é que se foi você que se ensinou a viver de forma outroísta, você pode também se ensinar a viver de forma autoísta.


13 | ETERNO NOVO HERDEIRO

Imagine que você é dono de uma fábrica. Então, cabe a você ensinar seus funcionários como eles devem funcionar para que sua fábrica produza o tipo de produto que você deseja. Você ensina. Seus funcionários aprendem. E sua fábrica se torna uma produtora automática do produto que você deseja. Agora, imagine que você tenha herdado essa fábrica e que o produto atual que sua fábrica está produzindo não é o tipo de produto que você deseja. O que você deve fazer para que a produção da sua fábrica mude do produto atual para o produto desejado? Sendo que o produto atual vem do tipo de produção herdada. Sendo que o tipo de produção herdada vem do tipo de funcionamento dos funcionários herdados. Sendo que você é o novo dono. Para mudar a produção você deve mudar o funcionamento dos funcionários herdados. Como? Ensinando seus funcionários a funcionar no novo funcionamento.

Esta metáfora é para explicar como você pode mudar de um viver outroísta para um viver autoísta. A fábrica é você, os funcionários são o subconsciente, o funcionamento atual dos seus funcionários é o outroísmo. Por isso você vive mal. Porém, você é eterno novo herdeiro de si mesmo. Viver é herdar-se de si mesmo. Então, cada novo instante é uma nova oportunidade de você se ensinar uma nova forma de viver e assim produzir um novo produto.


14 | ÍMPARFEITO

Você se compara com o outro, com um gabarito alheio e surge em você a crença na imperfeição. Por isso você vive tentando ser outro. Mas não há nada de errado com você a não ser sua crença na imperfeição. Você não é imperfeito, você é ÍMPARfeito. Seu nariz é ÍMPARfeito. Sua genética é ÍMPARfeita. Seu desejo é ÍMPARfeito. Seu medo é ÍMPARfeito. Seu amor é ÍMPARfeito. Seu jeito é ÍMPARfeito. Você é ÍMPARfeito porque a natureza do universo é a universalidade: um diferente de um (1≠1).


15 | PATINHO FEITO

O universo disse “Faça-se!” e o patinho foi ÍMPARfeito.

— Que patinho defeituoso!
— Defeituoso é pouco!
— Olha como anda errado!
— Ele vai nos estragar também!

E todo dia o patinho era maltratado. Então, cansado de ser maltratado, o patinho resolveu ir embora do mundo. Depois de muito caminhar, chegou em um lago. Ao aproximar-se do lago, viu uma imagem na água. Sem entender que era seu reflexo, começou a conversar com a imagem na água.

— Por que sofro tanto?
— Boa pergunta, por que está sofrendo?
— Porque sou imperfeito.
— Quem disse?
— Todos dizem! O mundo diz!
— E você acredita?
— Claro que acredito.
— Por que acredita?
— Porque todos dizem.
— E como você gostaria de ser?
— Gostaria de ser perfeito.
— Perfeito como?
— Perfeito igual os outros.
— Mas cada um é diferente!
— Sim, é verdade!
— E por que quer ser igual os outros?
— Para que me aceitem.
— Ninguém te aceita?
— Não como sou, imperfeito.
— Quer ser perfeito para ser aceito?
— Sim, quero ser aceito.
— Eu te aceito!
— Você me aceita como sou?
— Exatamente como é.
— Aceita minhas imperfeições?
— Sim, são suas imperfeições que te fazem ser você.
— Nossa! É verdade!
— Você é além de perfeito!
— Como assim?
— Você é ímpar feito.
— É verdade! Meu sofrimento até passou!
— E não precisa voltar mais.
— Grato por me aceitar.
— O prazer é todo meu.
— Posso te abraçar?
— Claro, aproxime-se.

O patinho foi se aproximando até mergulhar em si mesmo. Quando voltou à superfície, estava ÍMPARfeito.


16 | AUTOCONSCIENTIZAÇÃO

Outroísmo é sua competência subconsciente atual. Então, para você viver autoísta, é necessário que você se reensine a viver. Como você pode fazer isto? Mostrando o óbvio para si mesmo. Que óbvio? Que um é diferente de um (1≠1). Que você é diferente do outro e que o outro é diferente de você. Toda vez que você deixa isso evidente para si mesmo, você está se desensinando a viver outroísta e se ensinando a viver autoísta.


17 | PROBLEMÁTICA E SOLUCIONÁTICA

Resumindo e finalizando:

O que é outroísmo?
— É um jeito de viver.
Que jeito é esse?
— Quando você vive sendo outro.
Por que você faz isso?
— Porque você foi educado pelo outro.
Você pode mudar isso?
— Sim, você pode.
Como mudar isso?
— Praticando autociência e ficando consciente do seu outroísmo.

PERGUNTAS E RESPOSTAS

PERGUNTA: Outroísmo é egoísmo mal?

Não existe egoísmo mal. Você é que usa mal seu egoísmo. Você é o usuário do seu egoismo. Você que decide como usá-lo. Pense na energia elétrica. Não é boa nem má, é o que é, energia. Você pode usar a energia elétrica para fazer o chuveiro funcionar e tomar um banho quente, por exemplo. Mas também pode usá-la para eletrocutar alguém ou a si mesmo. A energia elétrica não se recusa a fazer nenhuma das duas coisas. A energia elétrica sequer sabe para o que está sendo usada. Consciência é atributo do usuário da energia elétrica. A energia elétrica é a coisa que está sendo usada, não é o usuário. O mesmo acontece com o desejo (egoísmo). Desejo é eletricidade, impulso, vontade. Seu desejo é a força que possibilita você se manifestar. Como você se manifesta, de que forma, de que jeito, é responsabilidade sua, usuário do desejo. Seu desejo não tem consciência, não sabe o que é bem e mal, certo e errado, melhor e pior. Quem sabe disso é você. Por isso não existe egoísmo mal e sim egoísmo mal usado.


PERGUNTA: Se egoísmo é desejo, porque explicar isso?

Para deixar isso óbvio e não precisar usar a palavra egoísmo nunca mais. Se depender da 1ficina, pode retirar a palavra egoísmo do dicionário. Não ajuda em nada. Só serve para atrapalhar, assim como a palavra deus e mais um punhado de outras palavras.


PERGUNTA: Como um autoísta faz para viver autoísta?

Um autoísta se ajoelha na presença do mestre, fica em silêncio escutando cada nuance do que o mestre está lhe explicando, depois coloca tudo em prática no próximo passo. E assim, passo a passo.


PERGUNTA: Se opto pelo autoísmo meu outroísmo desaparece?

Lembra do filme Uma Mente Brilhante? Lembra que mesmo quando o John Nash entendeu que as pessoas que ele via eram imaginárias, ele continuou vendo essas pessoas? O mesmo acontece com o viver autoísta, você continua experimentando seu outroísmo, essa opção continua presente, mas você está lucido que é optar por viver mal, então, você apenas não opta mais, muda de opção.


PERGUNTA: Autoísmo está relacionado com o gabarito ou com as atitudes?

Autoísmo é viver EM ACORDO com a própria unicidade (gabarito). Então, seu comportamento, seja qual for, é efeito da sua opção dentre: viver autoísta ou viver outroísta.


PERGUNTA: Altruísmo é outroísmo?

Altruísmo é egoísmo. Não existe abnegação. Você opta pela abnegação quando é bom para você. Dito isso, você pode ser altruísta tanto por outroísmo como por autoísmo. É preciso analisar. Cada caso é um caso. Por exemplo, se você gosta de ajudar os outros, se isso é prazeroso para você, se ajudar os outros te faz bem, então, você ajuda porque isso é você sendo você, sendo autoísmo. Se você não gosta de ajudar os outros, se acha um saco, um fardo, mas ajuda para fingir santidade, fingir bondade, fingir que é uma boa pessoa e receber o apreço dos outros, dai você não está ajudando, está manipulando os outros a gostarem de você por algo que você não é. Daí é outroísmo.


PERGUNTA: Você ajuda os outros e diz que é egoísmo. Como é isso?

Minha motivação para fazer o trabalho da 1ficina vem do prazer de executar esse trabalho e experimentar o resultado da execução. Por isso ajudo vocês. Puro egoísmo. Adoro trabalhar com autociência. Pense no seguinte, para que eu possa ter o prazer de executar esse trabalho, eu preciso que tenham pessoas interessadas em recebê-lo. Então, são vocês que me ajudam e não eu que ajudo vocês. No final das contas, é uma troca, eu ajudo vocês a se esclarecerem sobre o que é ser humano e vocês me ajudam a ter o prazer de fazer isso.


PERGUNTA: Não importa o que eu faço, importa se é um fazer autoísta ou outroista?

Exato! Seu comportamento é desdobramento da sua opção entre viver autoísta ou viver outroísta. Seja qual opção de comportamento você optar no cardápio outroísta, é viver outroísta. Seja qual opção de comportamento você opta no cardápio autoísta, é viver autoísta.


PERGUNTA: Por que defendo meu outroísmo se sofro com ele?

Você quer ser aceito pelo outro, quer ser amado, então, você finge ser outro para ser aceito. Seus pais não te aceitam assim, então, você finge ser assado. Seus amigos não te aceitam redondo, então, você finge ser quadrado. O casamento não aceita a libido, então, você finge ser capado. A religião não te aceita egoísta, então, você finge ser abnegado. Cada fingimento que você executa é um tijolo a mais que você coloca nas costas. Você vive soterrado, mas não deixa ninguém relar em um tijolo sequer. São seus troféus. É o fruto da sua negação de si. Anos e anos aprimorando a competência subconsciente em ser outro. Você nem sabe mais ser você. Ser outro é tudo que lhe resta. Por isso você defende seu outroísmo apesar do sofrimento.


PERGUNTA: Qual é o outroísmo mais difícil de curar?

O outroísmo mais difícil de curar é o próprio. Até porque não tem outro para você curar. 


PERGUNTA: Como sei que estou vivendo autoísta? E se estiver equivocado?

Você não sabe, você sente. Felicidade e sofrimento serve por isso. Por exemplo, você calça 37, mas acredita que deve usar sapato 35. Você compra um sapato 35. Dói o pé. O dedão fica roxo. Para que tanta dor? Para você ficar consciente que 35 não é o numero ideal para você. E qual é o numero ideal para você? Você precisa tentar novamente, optar novamente pelo que acredita ser o ideal. Você acredita que é 36. Compra um sapato 36. Dói menos. O dedão passa de roxo para azul marinho. Mas ainda dói. Por que ainda dói? Para você ficar consciente que 36 ainda não é o numero ideal para você. E qual é o numero ideal? Você precisa tentar novamente, optar novamente pelo que acredita ser ideal. Você opta por 37. Compra um sapato 37. Ah! Que maravilha. Que felicidade! O dedão fica rosinha, normal, relaxado dentro do sapato. Seu pé atingiu a iluminação. É o pé_raíso! Claro que é 37! Óbvio que é 37! Evidente que é 37! Eureka! Eu_sou_37


PERGUNTA: Existe algum tipo de educação que não seja outroísmo?

Existe algum tipo de arte que não é artística? Existe algum tipo de religião que não é religiosa? A resposta a sua pergunta é não, pois educação é outroísmo. Toda educação é o outro lhe programando para viver dentro de um sistema de crenças que não é o seu. Isso é óbvio, pois não há necessidade de ninguém lhe educar para viver dentro do seu próprio sistema de crenças, uma vez que já é seu e o outro nem tem acesso. Agora, imagina que eu dissesse que sim, que a educação autoísta (universalista) é fazer isso, aquilo, grilo e crocodilo. Vamos até ilustrar com uma palavra bonita e idolatra pela cultura humana. Vamos supor que eu dissesse que educação autoísta (universalidade) é amar o próximo. Daí, pegamos essa máxima e educamos todas a pessoas a viverem assim, amando o próximo. Que universalidade teria? Nenhuma. Seria a mesma uniformidade de sempre.


PERGUNTA: Quer dizer que não é possível ensinar alguém a ser livre?

O que você está chamando de liberdade, na verdade, é livre-arbítrio. Não precisa ensinar ninguém a ter livre-arbítrio, todos sempre tem arbítrio e nem conseguem deixar de ter.


PERGUNTA: É possível conviver sem alguma espécie de convenção social?

Conviver sim, o reino animal é exemplo disso. Para conviver de forma organizada, daí sim, é preciso convenções para organizar a convivência. Um idioma, por exemplo, é uma convenção social que organiza a convivência. Contudo, convenções servem para organizar a convivência e não para autorrealização.


PERGUNTA: Eu entendo que furtar é errado. Porém, meu vizinho acha certo pegar coisas da minha varanda na calada da noite. Não é preciso de regras para resolver esta situação?

O que é resolver? Resolver é quando sua vontade prevalece sobre a vontade do seu vizinho? Se sim, basta você pegar um revólver e matar seu vizinho. Pronto! Resolvido!

PERGUNTA: Não precisamos de uma educação comum? Um mínimo de valores conjuntos?

E qual é o gabarito que vai servir de base para todos seguirem? O seu?

PERGUNTA: É impossível cada um seguir o que acha melhor!

É justamente o oposto. É impossível cada um seguir o que acha pior. Todo ser sempre segue o que acha melhor. Você só segue uma regra quando é a melhor opção para você, se não for, você não segue, você vai para a opção que acha melhor.


PERGUNTA: Você é anarquista?

Não! Você continua tentando me encaixar dentro de uma caixinha ideológica. Eu sou eu. Anarquismos parece liberdade, mas também é uma caixinha ideológica. Eu não sou uma ideologia. Viver não é uma ideologia. Conviver não é uma ideologia. Não me interessa ideologias. Me interessa ser, viver e conviver.

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— Seu egoísta!
— Por que diz isso? — pergunta o mestre.
— Você pegou o bife maior — diz o discípulo.

O mestre coloca o bife de volta na travessa e diz:

— Por favor, pegue você primeiro.

O discípulo pega o bife menor. O mestre diz:

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Moral da história. O discípulo também queria pegar o bife maior, apenas fingiu santidade. Você faz o mesmo. Só que é impossível não-desejar (não-egoísmo). Todo ser deseja realizar seu desejo. Altruísmo e abnegação são uma farsa. Você pode ser um egoísta franco, responsável, aberto ao diálogo e disposto a encontrar meios de conciliação dos desejos. Ou você pode ser um egoísta hipócrita, vitimista e manipulador, que reclama do outro ser o que você também é, mas finge que não. São duas opções sobre a mesa. Dois jeitos de viver. Qual você escolhe?

Certa vez, na infância, minha família foi visitar meus avós no sítio em que moravam. Quando chegamos, pela manhã, meu avô estava no pasto, levando as vacas para o curral. Fui até meu avô avisá-lo da nossa chegada e vi que ele estava usando uma camiseta do Iron Maiden. Perguntei se ele sabia o que era Iron Maiden. Ele respondeu que não.

A camiseta era minha. Tinha ficado velha, então, minha mãe deu para ele usar no sítio. Caí na gargalhada. Ele sequer entendeu do que eu estava rindo. Ninguém cagou regra para ele de que era uma camisa de uma banda de rock, etc. E creio que, mesmo que alguém tivesse cagado essa regra, ele cagaria para a regra, igual as vacas no pasto.

A velhice é uma segunda chance de Fuck it all. Na infância, cagamos para as regras, mas por ingenuidade. Na velhice, podemos fazer o mesmo por lucidez. Sabemos que vamos morrer em breve, então, não podemos mais perder tempo sendo obedientes.

Se você ainda é jovem e deseja permanecer, ao menos em espírito, não se conforme. Ser um significa que você não deve obediência aos outros. Então, erre! Mije fora do vaso! Mire fora do alvo! Saia do trilho da uniformidade! Permita-se ser você, sem medo de ser feliz. Senão, ao invés de chegar na velhice cagando e andando como as vacas, só lhe restará chorar o leite derramado.

A cobra do jardim do éden, depois de persuadir Adão e Eva, caiu dentro do rio que fornecia água ao jardim. Toda a água ficou envenenada. Sem perceber, os bichos e as plantas do jardim começaram a beber a água. Eles não morriam, mas esqueciam de si. O urubu tentou miar, a roseira tentou dar manga, o gato tentou latir, a vaca tentou voar, a grama tentou ficar azul, o peixe tentou subir na árvore, a aranha tentou fazer mel, o jacaré tentou mugir, a galinha tentou botar leite, o gambá tentou ter cheiro de jasmim e o camelo tentou passar pelo buraco de uma agulha. Em pouco tempo, todos no jardim já haviam contraído a loucura. Menos um bicho estranho chamado Você, que morava em si e bebia água da própria fonte. Quando os outros bichos perceberam que Você se comportava diferente, ficaram convencidos de que Você estava louco e que deveriam matá-lo. Para sobreviver, Você foi até o rio e bebeu a água envenenada. E foi assim que Você esqueceu de si e passou a tentar ser Outro.

Se você acredita que para viver bem é preciso fazer a coisa certa, você está errado. Só se vive bem errando. O que acontece é que o jeito certo para você viver é o seu jeito. Como você é diferente, é errando o certo que você acerta sua singularidade. Errar não é errado, é apenas você se permitindo ser você. O que acontece é que você aprendeu que o certo é fazer o certo, colocou o que aprendeu no piloto automático e por isso vive certo e mal, mas você pode viver errado e bem, basta se permitir viver do seu jeito.

Você é um boi manso e sofredor pastando ignorante na mediocridade. Então, o trabalho de um professor de autociência, não é lhe ajudar a continuar na mediocridade. É ser um estorvo, um obstáculo, um pé no saco. Por isso ele enfia o dedo em suas feridas. Ele quer incomodar você. Quer que você tenha pesadelos e insônia. Quer que você fique com tanta raiva dele que suas tripas virem do avesso e seu sangue comece a borbulhar. Quer que você vire um touro e venha enfurecido para cima dele. Um professor de autociência é um toureiro. Você não tem como acertá-lo. Então, quanto mais raiva você sente dele, melhor, pois raiva é energia e você precisa de energia para sair da mediocridade. Cada vez que você tenta chifrá-lo, você dá um passo para fora da mediocridade e ele se enche de alegria. Você ganhou da sua mediocridade. Cada vez que você se conforma, o professor se entristece. Você perdeu da sua mediocridade.

Seu pai não fez por mal, fez por ignorância. Seu avô fez com seu pai, então, ele repetiu com você. Seu avô também não fez por mal, também fez por ignorância. Seu bisavô fez com seu avô, então, ele repetiu com seu pai, que repetiu com você. Seu bisavô também não fez por mal, também fez por ignorância. Seu tataravô fez com seu bisavô, então, ele repetiu com seu avô, que repetiu com seu pai, que repetiu com você. E assim por diante, ou melhor, assim por antes. Mas o que está feito está feito. O que você pode fazer agora é entender o feito e decidir se deseja continuar fazendo.

Mas o que foi feito? Seu pai lhe disse: “homem que é homem”. E não apenas disse, declarou com tom barítono, soturno e convicção que só um homem que é homem é capaz de ter. E o que você fez? Você acreditou. Afinal, sua autoridade tinha no máximo três centímetros, duro, enquanto que a autoridade do seu conselheiro era pelo menos três vezes maior que a sua, e se não fosse, você nem tinha nascido. Que outra opção você tinha? Você fez o que seu pai, seu avô, seu bisavô e todos seus ancestrais alfa fizeram: você acreditou.

Daí fodeu! Daí você virou coroinha da tradição, família e ancestralidade. Daí você deixou de ser um homem e se transformou num bosta. Afinal, você não tinha nenhuma das qualificações necessária para ser um homem que é homem. Você podia vir a ter as devidas qualificações e assim vir a ser um homem que é homem, porém, com uma autoridade de três centímetros, sem RG, CPF, cartão Gold e opinião crítica sobre o governo do PSPT, você nem podia ser chamado de bosta, você era um bostinha.

Mas nem tudo era espinhos. O tempo estava a seu favor. Você pensou: “Sou um bosta, mas ninguém nasce homem que é homem, meu pai também nasceu bostinha, logo, só preciso descobrir quais são as qualificações que transformam um bosta em um homem que é homem, praticar, assimilar e pronto!”. Seu raciocínio foi hierarquicamente perfeito! Foi exatamente isso que todos seus ancestrais pensaram e concluíram. Você deu o primeiro passo. Fez a matrícula. O segundo passo era descobrir o que era um homem que é homem.

“Pai, o que é um homem que é homem?”, você perguntou. Embora a resposta fosse automática e a pergunta fosse aguardada, por um instante seu pai hesitou. Ele previu seu futuro inteiro, pois seria exatamente a repetição do passado dele: uma bosta pintada de homem que é homem. Mas daí ele pensou: “A vida do meu filho não pode ser uma bosta que nem a minha!!!”. E foi assim que seu pai começou com a ladainha: “Homem que é homem isso, aquilo, murilo, grilo, crocodilo, esquilo, etc”.

Se ignorância é uma benção, sinta-se desabençoado. Depois dessa reflexão, você pode até continuar seguindo a tradição, família e ancestralidade, mas não pode mais alegar ignorância. Se você é mulher, é só trocar “pai” por “mãe”, “bosta” por “tonta” e “homem que é homem” por “mulher que é mulher”, depois aplicar a mesma lógica e destino. Agora, se você é um bosta ou uma tonta, parabéns: você é uma benção.

Igualar, generalizar e padronizar são processos mentais úteis para as ciências exatas, mas catastróficos para a ciência de viver bem. Aliás, as ciências exatas não são exatas, são grosso modo. Basta olhar para duas coisas idênticas para perceber que não são idênticas, que cada uma tem sua própria unicidade. Um é diferente de um (1≠1). Sempre. Um igual a um é impossível. Não existe. O universo é universalista. Nada é igual. Tudo é diferente. Você também é diferente. O problema é que você vive tentado ser igual aos outros ou tentando fazer os outros igual a você. Vai viver e morrer sofrendo por jamais conseguir.

Você não precisa preencher o vazio, basta retirar o que está bloqueando sua integridade. É sempre bom lembrar que um copo vazio está cheio de ar. É tentando preencher o vazio que você bloqueia a si mesmo. “Eu tenho que isso! Eu tenho que aquilo!”. O que você chama de vazio é você cheio de medo de ser autêntico. Vazio é o fruto da sua busca pelo pote de ouro no final do arco íris. Pote de ouro = perfeição. Não existe perfeição. Tudo no universo é único, singular, impar_feito. Perfeição é um equívoco. Perfeição é a suposição que você deve viver de acordo com algum padrão coletivo. Isso é impossível. Se fosse possível você já teria conseguido.

A solução não é preencher o vazio com algo artificial, mas retirar o que está bloqueando o natural. Um tratamento médico não produz saúde, apenas retira o que está bloqueando a saúde. Retirado o bloqueio, a saúde volta naturalmente. Saúde é natural. Impar_feição é natural. Sua crença na perfeição que é o bloqueio. Quando você desperta e percebe a insanidade que é tentar ser perfeito, você imediatamente para de tentar e se permite ser você (impar_feito). Despertar para impar_feição é você se curando do equívoco da perfeição. Quanto mais você se cura, mais evidente fica que o vazio não era vazio, era você cheio de negação de si.

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