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A palavra outroísmo é uma invenção minha. Então, para que você possa entendê-la, preciso explicá-la. Mas antes de explicar o que é outroísmo, primeiro vamos entender algo sobre o processo de nomear e conceituar. Nomear experiências comuns é fundamental para a comunicação. Quando se nomeia uma experiência abstrata, como calor, por exemplo, cria-se um conceito. Como o conceito dá concretude ao abstrato, através da nomeação e da definição, fica parecendo que o conceito cria a experiência. É justamente o oposto. A experiência vem primeiro, depois, para fins de comunicação, a experiência é nomeada e conceituada. Por exemplo, um objeto jogado para cima sempre caiu no chão, até que um dia, Issac Newton, foi estudar essa experiência e a nomeou lei da gravidade. A experiência da gravidade já existia antes de Newton nomeá-la, mas a partir da nomeação ficou possível e mais fácil conversar sobre a gravidade e outras experiências físicas relacionadas a ela. Ou seja, a nomeação possibilitou a comunicação. Outro exemplo é pensar na febre. A experiência da febre já existia antes de ser nomeada de febre. Alguém deu o nome de febre para febre. A partir daí ficou mais fácil se referir e conversar sobre febre. E por aí vai. Nomear e conceituar é muito importante, principalmente no campo da ciência. 1ficina é autociência, então, no primeiro livro que escrevi para 1ficina, eu precisava explicar um aspecto da experiência humana no qual ainda não havia uma palavra para comunicação. Sendo que não havia, precisei inventá-la: outroísmo. Pensei em outras possibilidades. Pensei na palavra “outrocentrismo” e até usei essa palavra durante algum tempo, mas achei que “outroísmo” era uma palavra melhor, daí mudei de opção. Enfim, a palavra “outroísmo” é uma invenção minha, mas o comportamento ao qual a palavra se refere, não é invenção minha.

Por que inventei uma palavra ao invés de usar as palavras que já existiam? Acontece que a palavra mais próxima do que precisava explicar é muito mal usada e por isso ao invés de ajudar, atrapalha. Que palavra é essa? É a palavra “egoísmo”. No entendimento geral, o egoísmo é o culpado, é o problema. Isso é um equívoco. Egoismo não é problema. O problema é acreditar que egoísmo é o problema. Egoísmo é inevitável. Nem você, ser humano, nem qualquer outro ser no universo tem como deixar de ser egoísta. Egoísmo é natural e universal. Todo ser é egoísta por natureza. Egoísmo é cuidar de si. O sol cuida de si. A samambaia cuida de si. A abelha cuida de si. A célula cuida de si. Todos os seres do universo são egoístas, porque o universo só sabe cuidar de si, só se importa consigo. O universo é o egoísmo absoluto. Todos os seres são o universo. Então, o egoísmo de cada ser é o egoísmo universal. Quando um ser tenta não ser egoísta, está apenas sendo egoísta no sentido de tentar não ser egoísta. Não tem como deixar de ser egoísta. Mas por causa do significado pejorativo associado a palavra, o egoísmo recebe uma culpa que ele não tem. Isso não resolve o problema, cria o problema. Inventei a palavra outroísmo para resolver esse problema que não tem.

Mestre e discípulo vão almoçar juntos. O garçom traz dois bifes numa mesma travessa. Um bife é maior que o outro. O mestre pega o bife maior e coloca em seu próprio prato. O discípulo reclama:

— Seu egoísta!

— Por que diz isso? — pergunta o mestre.

— Você pegou o bife maior — diz o discípulo.

O mestre coloca o bife de volta na travessa e diz:

— Por favor, pegue você primeiro.

O discípulo pega o bife menor. O mestre diz:

— Por que você me chamou de egoísta? Olhe para nossos pratos. Eu continuo com o bife maior, que foi o que eu escolhi primeiro, você continua com o bife menor, que foi o que você escolheu primeiro.

Moral da história. O discípulo também queria pegar o bife maior, apenas fingiu santidade. Você faz o mesmo. É impossível não-desejar (não-egoísmo). Todo ser deseja realizar seu desejo. Altruísmo e abnegação são uma farsa. Você pode ser um egoísta franco, responsável, aberto ao diálogo e disposto a encontrar meios de conciliação dos desejos. Ou você pode ser um egoísta hipócrita, vitimista e manipulador, que reclama do outro ser o que você também é, mas finge que não.

São duas opções sobre a mesa. Dois jeitos de viver. Qual você escolhe?

A palavra egoísmo é tão martirizada que é sinônimo de demônio. No começo da 1ficina, quando explicava que egoísmo é natural, o repúdio era imediato e enorme. As pessoas não tinham sequer estômago para ouvir. Elas logo diziam: “Você é uma pessoa esclarecida e está defendendo o egoísmo! Como pode? Você é louco!”. Era muito difícil aprofundar no autoconhecimento por conta do mal entendimento do egoísmo.

Egoísmo nada mais é do que desejar. Em algumas tradições o demônio é o egoísmo, em outras, usa-se a palavra “desejo”, daí o demônio é o desejo. Egoísmo e desejo é como seis e meia dúzia, são sinônimos. É impossível você deixar de desejar porque você é egoísta. Sua natureza é pulsante, desejante, egoísta.

Você deseja seu próprio bem. Isso é natural, universal e inevitável. E egoísmo é benéfico tanto para você como para os outros. Quando você cuida de si é bom para você, porque você fica bem cuidado. E é bom para todos os outros que não precisam cuidar de você, pois você mesmo está cuidando de si. Egoismo é fundamental para viver bem e conviver bem. Só que a palavra “egoísmo” gera repulsa por força da cultura. Esse era metade do meu problema.

Egoísmo é benéfico, mas a palavra egoísmo pode sim apontar para algo ruim: quando você impõe sua vontade ao outro ou vice-versa. Então, a palavra egoísmo pode apontar tanto para um bem como para um mal. Uma mesma palavra com dois significados opostos. Essa era a outra metade do meu problema. Eu precisava resolver isso para depois poder esclarecer o sofrimento e a causa do mal viver. Como separar duas coisas distintas coladas numa mesma palavra? A solução foi criar duas novas palavras. “Outroísmo”, para apontar o mal uso do egoísmo, o tipo de uso que gera mal viver. E “autoísmo”, para apontar o bom uso do egoísmo, o tipo de uso que gera bem viver. Uma vez separados esses dois jeitos de usar o egoísmo, deixei de usar a palavra egoísmo e passei a usar apenas a palavra desejo. É por isso que na literatura da 1ficina você não encontra a palavra egoísmo, só encontra a palavra desejo.

Tem várias maneiras de definir e entender o outroísmo, pois o outroísmo tem vários aspectos. Vamos começar pela seguinte definição: Outroísmo é um jeito de viver. Você está sempre vivendo. É só isso que você faz. Não tem outra coisa para você fazer senão viver. Descreva a si mesmo tudo que você faz e ficará evidente que tudo é você vivendo. Isso passa despercebido porque você nomeia seu viver com vários verbos: acordar, andar, estudar, trabalhar, namorar, almoçar, descansar, ir, voltar, etc. Só que todos esses verbos são um verbo só: viver. Tudo é você vivendo. É só isso que você faz: viver. Não tem uma segunda coisa para você fazer. Outroísmo é um jeito de você fazer essa única coisa que você tem para fazer: viver. Mas se é um jeito de viver, significa que não é o único, que deve existir outro jeito de viver. Sim, existem dois jeitos de você viver.

(A) Você pode viver de um jeito OUTROísta.
(B) Você pode viver de um jeito AUTOísta.

AUTOísmo é o jeito de viver em que você vive sendo você. Outroísmo é o jeito de viver em que você vive sendo outro. Você pode viver sendo você mesmo, único, singular. Mas você pode se proibir de viver sendo você mesmo. Se você não está sendo você, está sendo outro, por isso seu viver é OUTROísta. Vamos supor que você goste de fazer piada, dar risada, falar palavrão, mas você se obrigue a ser formal. Você tentando ser formal é você tentando ser outro, é você vivendo outroísta. Viver outroísmo é viver mal porque você não funciona bem sendo outro. Viver autoísta é viver bem porque você funciona bem sendo você.

O natural é você viver sendo você. Isso deveria ser sempre, deveria ser regra, não exceção. Mas na prática a teoria é outra: o que é natural não acontece. Na prática você vive sendo outro. Você vive sendo seus pais, seus amigos, seus professores, sua sociedade, o comercial de cerveja, o partido político, a religião, a moda, etc. O que acontece que impede o natural de acontecer? A resposta é simples. O que impede o natural de acontecer é o cultural. Você virou outro porque você foi educado para ser outro. A experiência humana é COM educação.

Vou trocar a palavra “educação” por “aprendizagem”. O que é aprender? Aprender é imitar até decorar. Lembra do caderno de caligrafia da escola? O que você fazia no caderno de caligrafia? Você praticava imitar as letras do alfabeto. Educar é propor um gabarito a ser imitado. Aprender é decorar um gabarito. Quando você pensa em educação, você pensa só em escola, mas educação é o tempo todo. Na escola você é educado em gabaritos técnicos, como português, matemática, ciências, etc. Educação escolar é um tipo específico de educação, mas a partir do momento em que você nasce, você recebe gabaritos sem parar, de todos os seres humanos com quem convive. Quando sua mãe te disse, “coma de boca fechada”, por exemplo, ela estava te dando o gabarito dela para você imitar.

Agora a gênese do outroísmo vai ficar evidente e prática. Que gabarito você imitou para se ensinar a ser você? O seu próprio? Claro que não! Você imitou todos os gabaritos que lhe deram, menos o seu. Você imitou o gabarito do seu pai, da sua mãe, da sua irmã, do seu professor, dos seus colegas, da sua sociedade, da sua igreja, do comercial de margarina, dos filmes de hollywood. Assim como você aprendeu português imitando o som dos outros, você aprendeu a viver imitando os comportamentos, valores, crenças e gostos dos outros. O que o outro dizia que era certo e bom, você imitava. O que o outro dizia que era errado, pecado e proibido, você imitava. Você se ensinou a ser você imitando o gabarito dos outros.

A cobra do jardim do éden, depois de persuadir Adão e Eva, caiu dentro do rio que fornecia água ao jardim. Toda a água ficou envenenada. Sem perceber, os bichos e as plantas do jardim começaram a beber a água. Eles não morriam, mas esqueciam de si. O urubu tentou miar, a roseira tentou dar manga, o gato tentou latir, a vaca tentou voar, a grama tentou ficar azul, o peixe tentou subir na árvore, a aranha tentou fazer mel, o jacaré tentou mugir, a galinha tentou botar leite, o gambá tentou ter cheiro de jasmim e o camelo tentou passar pelo buraco de uma agulha. Em pouco tempo, todos no jardim já haviam contraído a loucura. Menos um bicho estranho chamado Você, que morava em si e bebia água da própria fonte. Quando os outros bichos perceberam que Você se comportava diferente, ficaram convencidos de que Você estava louco e que deveriam matá-lo. Para sobreviver, Você foi até o rio e bebeu a água envenenada. E foi assim que Você esqueceu de si e passou a tentar ser Outro.

Quando você nasce, você não sabe de nada. Você não tem a menor ideia de que você está em uma brincadeira de autorrealização e que você tem seu próprio gabarito. E pior! Seus educadores também não sabem disso. E eles também foram educados por outros que também não sabiam disso. E assim por diante. O processo de educação vai se repetindo de pai para filho, nunca de filho para pai. Quando você nasceu, não foi você que falou para os seus pais: “Oi! Meu nome é fulano, eu sou seu filho!”. O que aconteceu foi o oposto. Você nasceu e seus pais lhe ensinaram que seu nome é Fulano. Ensinaram muitas outras coisas. Seus pais lhe deram gabaritos. Desde então, você imita e reproduz esses gabaritos automaticamente para viver, assim como reproduz as letras do caderno de caligrafia para escrever.

Cada gabarito que você recebeu do outro é como um programa de computador que diz que você TEM QUE SER isso, TEM QUE SER aquilo, etc. Se você é homem, por exemplo, você começou a chorar, daí sua mãe lhe disse: “Pare de chorar moleque, homem não chora!”. Sua mãe nem sabe o que fez, mas nesse momento te programou com o gabarito dela. E pior! Muito provavelmente nem era dela, era o gabarito da mãe dela. E nem era da sua avó, era da sua bisavó. E nem era da sua bisavó… Mas enfim, sua mãe te gabaritou que homem não chora, você introjetou esse gabarito, imitou, imitou, imitou, até virar um piloto automático. Por isso você quer chorar, precisa chorar, mas o piloto automático não deixa.

Você não nasceu falando um idioma, você aprendeu. Você também não nasceu outroísta, você aprendeu. E aprendeu tão bem que se tornou uma competência subconsciente. Competência subconsciente é execução automática, por hábito. Falar português é uma competência subconsciente explícita, outroísmo é uma competência subconsciente implícita. Como desliga competência subconsciente? Não desliga. Nem precisa. Competência subconsciente é uma fantástica ferramenta mental. É por causa dela que você faz coisas complexas com facilidade. Competência subconsciente só causa problema quando você desenvolve um automatismo (hábito) em algo que é prejudicial a você. Viver de forma outroísta é um desses casos. Por isso, não importa o tanto que você queira viver bem, enquanto sua crença no outroísmo for uma competência subconsciente, sua própria competência subconsciente lhe fará retornar repetidas vezes ao mal viver. Esta é a má notícia. A boa notícia é que se foi você que se ensinou a viver de forma outroísta, você pode também se ensinar a viver de forma autoísta.

Imagine que você é dono de uma fábrica. Então, cabe a você ensinar seus funcionários como eles devem funcionar para que sua fábrica produza o tipo de produto que você deseja. Você ensina. Seus funcionários aprendem. E sua fábrica se torna uma produtora automática do produto que você deseja. Agora, imagine que você tenha herdado essa fábrica e que o produto atual que sua fábrica está produzindo não é o tipo de produto que você deseja. O que você deve fazer para que a produção da sua fábrica mude do produto atual para o produto desejado? Sendo que o produto atual vem do tipo de produção herdada. Sendo que o tipo de produção herdada vem do tipo de funcionamento dos funcionários herdados. Sendo que você é o novo dono. Para mudar a produção você deve mudar o funcionamento dos funcionários herdados. Como? Ensinando seus funcionários a funcionar no novo funcionamento.

Esta metáfora é para explicar como você pode mudar de um viver outroísta para um viver autoísta. A fábrica é você, os funcionários são o subconsciente, o funcionamento atual dos seus funcionários é o outroísmo. Por isso você vive mal. Porém, você é eterno novo herdeiro de si mesmo. Viver é herdar-se de si mesmo. Então, cada novo instante é uma nova oportunidade de você se ensinar uma nova forma de viver e assim produzir um novo produto.

Você se compara com o outro, com um gabarito alheio e surge em você a crença na imperfeição. Por isso você vive tentando ser outro. Mas não há nada de errado com você a não ser sua crença na imperfeição. Você não é imperfeito, você é ÍMPARfeito. Seu nariz é ÍMPARfeito. Sua genética é ÍMPARfeita. Seu desejo é ÍMPARfeito. Seu medo é ÍMPARfeito. Seu amor é ÍMPARfeito. Seu jeito é ÍMPARfeito. Você é ÍMPARfeito porque a natureza do universo é a universalidade: um diferente de um (1≠1).

O universo disse “Faça-se!” e o patinho foi ÍMPARfeito.

— Que patinho defeituoso!
— Defeituoso é pouco!
— Olha como anda errado!
— Ele vai nos estragar também!

E todo dia o patinho era maltratado. Então, cansado de ser maltratado, o patinho resolveu ir embora do mundo. Depois de muito caminhar, chegou em um lago. Ao aproximar-se do lago, viu uma imagem na água. Sem entender que era seu reflexo, começou a conversar com a imagem na água.

— Por que sofro tanto?
— Boa pergunta, por que está sofrendo?
— Porque sou imperfeito.
— Quem disse?
— Todos dizem! O mundo diz!
— E você acredita?
— Claro que acredito.
— Por que acredita?
— Porque todos dizem.
— E como você gostaria de ser?
— Gostaria de ser perfeito.
— Perfeito como?
— Perfeito igual os outros.
— Mas cada um é diferente!
— Sim, é verdade!
— E por que quer ser igual os outros?
— Para que me aceitem.
— Ninguém te aceita?
— Não como sou, imperfeito.
— Quer ser perfeito para ser aceito?
— Sim, quero ser aceito.
— Eu te aceito!
— Você me aceita como sou?
— Exatamente como é.
— Aceita minhas imperfeições?
— Sim, são suas imperfeições que te fazem ser você.
— Nossa! É verdade!
— Você é além de perfeito!
— Como assim?
— Você é ímpar feito.
— É verdade! Meu sofrimento até passou!
— E não precisa voltar mais.
— Grato por me aceitar.
— O prazer é todo meu.
— Posso te abraçar?
— Claro, aproxime-se.

O patinho foi se aproximando até mergulhar em si mesmo. Quando voltou à superfície, estava ÍMPARfeito.

Outroísmo é sua competência subconsciente atual. Então, para você viver autoísta, é necessário que você se reensine a viver. Como você pode fazer isto? Mostrando o óbvio para si mesmo. Que óbvio? Que um é diferente de um (1≠1). Que você é diferente do outro e que o outro é diferente de você. Toda vez que você deixa isso evidente para si mesmo, você está se desensinando a viver outroísta e se ensinando a viver autoísta.

Resumindo e finalizando:

O que é outroísmo?
— É um jeito de viver.
Que jeito é esse?
— Quando você vive sendo outro.
Por que você faz isso?
— Porque você foi educado pelo outro.
Você pode mudar isso?
— Sim, você pode.
Como mudar isso?
— Praticando autociência e ficando consciente do seu outroísmo.

PERGUNTAS

Controlar o outro não é desejo, é estratégia. Você tem vontade de algo e para realizar esse algo você usa a estratégia de controlar o outro. Por exemplo, você quer beber água. Ao invés de levantar a bunda da cadeira e ir até o filtro, encher o copo e beber água, vc começa. “Fulano! Ooooô fulano! Pega um copo d’água pra mim”. O fulano não pega. Você tenta controlá-la para ele realizar seu desejo. Você diz, por exemplo: “Nossa! Pensei que eramos amigos. Pensei que nossa amizade tinha algum valor. Nem um copo d’água você é capaz de pegar para mim. Credo! Rapidinho! Pega lá!”. Percebe? Você não quer controlar o outro, você quer beber água. O controle é a estratégia que você está usando para realizar seu desejo.

Sim, você é altruísta porque isso te faz bem. Egoísmo é desejar o próprio bem. Logo, altruísmo é egoísmo assim como todo e qualquer desejo.

Para fazer essa distinção você precisa estar consciente sobre o que é outroísmo e como o outroísmo funciona. E quando digo ficar consciente, não me refiro a estudar intensamente os livros da 1ficina, me refiro a observar intensamente o próprio outroísmo. Quanto mais você observa seu outroísmo, mais consciente fica dele e mais fácil fica você perceber quando ele surge disfarçado de bondade, empatia e misericórdia.

Tudo que é existencial não é opcional. Observe sua vontade. Você tem a opção de não querer? Não me refiro a não querer isso ou daquilo, me refiro a não-querer, não ter vontade. Não tem. Por que não tem? Porque sua vontade é existencial, logo, não é opcional.

Uma atitude, seja qual for, é efeito da sua opção entre: viver autoísta ou viver outroísta.

É sempre bom lembrar que um copo vazio está cheio de ar. É tentando preencher o vazio que você bloqueia a si mesmo. “Eu tenho que isso! Eu tenho que aquilo!”. O que você chama de vazio é você cheio de medo de ser autêntico. Vazio é o fruto da sua busca pelo pote de ouro no final do arco íris, ou seja, pela perfeição. Não existe perfeição. Tudo no universo é único, singular, impar_feito. Perfeição é um equívoco. É a suposição que você deve viver de acordo com algum padrão alheio. Isso é impossível. Se fosse possível você já teria conseguido. A solução não é preencher o vazio com algo artificial, mas retirar o que está bloqueando o natural. Um tratamento médico não produz saúde, apenas retira o que está bloqueando a saúde. Retirado o bloqueio, a saúde volta naturalmente. Saúde é natural. Impar_feição é natural. Sua crença na perfeição é o bloqueio. Quando você desperta e percebe a insanidade que é tentar ser perfeito, você imediatamente para de tentar e se permite ser você (impar_feito). Despertar para impar_feição é você se curando do equívoco da perfeição. Quanto mais você se cura, mais evidente fica que vazio não é vazio, é você cheio de autonegação.

Gabarito é uma metáfora para dizer unicidade. Sua unicidade não se forma, sua unicidade é existencial.

Você não tem como saber, mas pode sentir. Felicidade e sofrimento servem por isso. Por exemplo, você calça 37, mas acredita que deve usar sapato 35. Você compra um sapato 35. Dói o pé. O dedão fica roxo. Para que tanta dor? Para você ficar consciente que 35 não é o numero ideal para você. E qual é o numero ideal para você? Você precisa tentar novamente, optar novamente pelo que acredita ser o ideal. Você acredita que é 36. Compra um sapato 36. Dói menos. O dedão passa de roxo para azul marinho. Mas ainda dói. Por que ainda dói? Para você ficar consciente que 36 ainda não é o numero ideal para você. E qual é o numero ideal? Você precisa tentar novamente, optar novamente pelo que acredita ser ideal. Você opta por 37. Compra um sapato 37. Ah! Que maravilha. Que felicidade! O dedão fica rosinha, normal, relaxado dentro do sapato. Seu pé atingiu a iluminação. É o pé_raíso! Claro que é 37! Óbvio que é 37! Evidente que é 37! Eureka! Eu_sou_37

Cuidado para não confundir imposição com interferência. A realização do seu desejo irá interferir na realidade do outro, com certeza e inevitavelmente, pois tudo que você faz interfere na realidade do outro. Mas tudo que você não faz também interfere na realidade do outro. Impor seu desejo ao outro é obrigar o outro a desejar igual você.

Sim, pois aprender é imitar.

Viver é mar que sobe e desce alternando dores e delícias. A mesma onda que te afunda na dor, assim que muda de fase, te eleva ao pico mais alto da felicidade, depois te afunda novamente e te eleva novamente. E assim por diante, num sobe e desce sem fim. Então, só um jeito de evitar a dor: não vivendo. É isso que você faz: se proíbe de viver. É uma delícia passear ao ar livre sentindo a brisa, mas você pode pegar um resfriado. É uma delícia sentir o aroma das rosas, mas você pode se furar com os espinhos. É uma delícia brincar com o mágico, a trapezista, a bailarina, o domador de leões e todos os integrantes do circo humano, mas eles podem te fazer de palhaço. Viver é perigoso. Melhor não viver para não arriscar sentir dor. E como faz para não viver? Você pensa em duas opções: Opção (A): sair da brincadeira (suicídio). Opção (B): fazer igual os três porquinhos, construir uma casa bem forte, impermeável e morar dentro dela para não ser comido pela dor do infortúnio, da rejeição, da frustração, da decepção, etc. Você se encolhe e vive entocado feito tartaruga. Ao executar a opção (B), além de não ganhar da dor, você ainda perde a alegria de viver. Por isso volta a pensar na opção (A). Mas tem também a opção C: se permitir sentir dor. O benefício da opção (C) é finalmente conseguir realizar o motivo de ter nascido: viver.

É mais do que possível! Só pessoas autoístas consegue viver bem em sociedade. As sociedades humanas sempre foram e ainda são locais de má convivência porque as pessoas são outroístas e não porque são autoístas. Se todas as pessoas do mundo fossem autoísta, a convivência humana seria maravilhosa.

Dois autoístas convivendo é o melhor dos mundos. Dois autoístas conversam, entendem o desejo um do outro e juntos constroem uma convivência em que o desejo de ambos são realizados. O problema da boa convivência é quando as partes são outroístas e uma quer impor sua vontade ao outro, daí a boa convivência fica impossível.

É mais do que possível. Só duas pessoas autoístas são amigas de verdade.

Existe algum tipo de arte que não é artística? Existe algum tipo de religião que não é religiosa? A resposta a sua pergunta é não, pois educação é outroísmo. Toda educação é o outro lhe programando para viver dentro de um sistema de crenças que não é o seu. Agora, imagina que eu dissesse que sim, que a educação autoísta (universalista) é fazer isso, aquilo, grilo e crocodilo. Vamos até ilustrar com uma ideia bonita e idolatra pela cultura humana. Vamos supor que eu dissesse que educação autoísta é amar o próximo. Daí, pegamos essa máxima e educamos todas a pessoas a viverem assim, amando o próximo. Que universalidade teria nisso? Nenhuma. Seria a mesma uniformidade de sempre.

Sim, é convivência autoísta.

Ignorância e outroísmo estão ligados, mas não é a mesma coisa. Ignorância é o estado consciencial que leva um indivíduo a viver de forma outroísta.

Exato! Seu comportamento é desdobramento da sua opção entre viver autoísta ou viver outroísta. Seja qual opção de comportamento você optar no cardápio outroísta, é viver outroísta. Seja qual opção de comportamento você opta no cardápio autoísta, é viver autoísta.

E qual é o gabarito que vai servir de base para todos seguirem? O seu?

Para você se afastar do outro o outro precisa existir, não é? Como você poderia se afastar de alguém que não existe? Impossível. Ou seja, se afastar também é você se relacionando com o outro. É uma qualidade diferente de próximo, mas também é relacionamento. Dito isso, você decide a qualidade do seu relacionamento. Isso é opcional. Não se relacionar é impossível. O jogo é de relacionamento.

Não existe egoísmo mal. Você é que usa mal seu egoísmo. Você é o usuário do seu egoismo. Você que decide como usá-lo. Pense na energia elétrica. Não é boa nem má, é o que é, energia. Você pode usar a energia elétrica para fazer o chuveiro funcionar e tomar um banho quente, por exemplo. Mas também pode usá-la para eletrocutar alguém ou a si mesmo. A energia elétrica não se recusa a fazer nenhuma das duas coisas. A energia elétrica sequer sabe para o que está sendo usada. Consciência é atributo do usuário da energia elétrica. A energia elétrica é a coisa que está sendo usada, não é o usuário. O mesmo acontece com o desejo (egoísmo). Desejo é eletricidade, impulso, vontade. Seu desejo é a força que possibilita você se manifestar. Como você se manifesta, de que forma, de que jeito, é responsabilidade sua, usuário do desejo. Seu desejo não tem consciência, não sabe o que é bem e mal, certo e errado, melhor e pior. Quem sabe disso é você. Por isso não existe egoísmo do mal e sim egoísmo mal usado.

Ao bem viver, não. Mas a vida boa sim. Aliás, se você quer vida boa, viva de forma outroísta, o máximo possível. Quando você mente, por exemplo, isso lhe favorece. A verdade lhe desfavorece. Seu patrão lhe pergunta se você é corintiano. Você é corintiano. Só que seu patrão é palmeirense e odeia corintiano. Se você assumir que é corintiano, será demitido. Demissão é prejuízo, vida ruim. Então, você mente para se beneficiar, para ter vida boa. Só que ao mentir, você está se condenando a viver uma vida de fingimento e isso é viver mal.

Laranjeira não tem arbítrio. Não existe, no caso da laranjeira, a possibilidade de autonegação. A laranjeira está condenada a dar laranja, não pode dar jaca, nem jabuticaba, nem goiaba, nem tomate. Laranjeira dá laranja e pronto! Você é um ser humano, você tem liberdade de optar: livre-arbítrio. Então, você pode se proibir de ser você. Livre-arbítrio é incorruptível. Isso tem um lado bom, mas também tem um lado ruim. Nada nem ninguém é capaz de te impedir de viver em autonegação. Mesmo que todos os seres do universo se juntem para te impedir, ainda assim, você é livre para continuar vivendo em autonegação. O universo é absolutamente impotente perante seu arbítrio. Absolutamente impotente! Entende o tamanho do seu poder??? Quer mais empoderamento que isso??? Não existe! Você é o ser mais empoderado do universo. E por um lado, isso é ótimo, pois nada pode te impedir de viver bem, mas, por outro lado, nada pode te impedir de viver mal. Então, livre-arbítrio: benção ou maldição? Você decide.

Porque você não suporta a dor da rejeição. Seu viver autoísta desagrada o outro e o outro te rejeita. Para evitar a rejeição do outro, você opta pelo viver outroísta.

Porque ninguém tem interesse que você seja você. Seu pai quer que você seja outro. Sua mãe quer que você seja outro. Sua esposa quer que você seja outro. Seu marido quer que você seja outro. Seus filhos querem que você seja outro. Seus amigos querem que você seja outro. Seus professores querem que você seja outro. A sociedade quer que você seja outro. O padre quer que você seja outro. E mais! Segundo a bíblia, até Deus quer que você seja outro. Ora, se até o criador do universo quer que você seja outro: quem é você para ser você? De onde vem essa arrogância suprema de cagar para as expectativas e o recalque alheio? Que egoísmo escancarado, fedido e mesquinho é esse de ser autêntico? É acreditando nessas certezas e duvidando de si que você opta pela uniformidade e vive sendo outro.

É uma palavra que ninguém sabe usar, pois não sabe do que está falando quando usa.

Prático desde que nasci e vou praticar até morrer.

Sua pergunta está partindo de uma premissa equivocada. Qual? A crença de que sua experiência (vida) pode não depender de você. Seu arbítrio é intransferível. Logo, sua vida é sempre 100% dependente de você. Mesmo quando você decide fazer o que o outro quer que você faça, por exemplo, você está decidindo realizar a vontade do outro, não é o outro que está decidindo por você. Dito isso. Se 1% do seu arbítrio estiver em desacordo com sua unicidade, então sim, você experimentará 1% de mal viver.

Lembra do filme Uma Mente Brilhante? Lembra que mesmo quando o John Nash entendeu que as pessoas que ele via eram imaginárias, ele continuou vendo essas pessoas? O mesmo acontece com o viver autoísta, você continua experimentando seu outroísmo, essa opção continua presente, mas você está lucido, então, apenas não opta mais.

Por que estou participando de uma experiência coletiva e o resultado da minha opção não depende só da minha opção, depende do arbítrio coletivo. Eu opto só pelo que gostaria de experimentar, igual você, e isso só depende de mim, o resultado não. Dito isso, você está confundindo bem viver com vida boa. Essa ideia de experimentar só coisas boas, só coisas agradáveis, é o equivoco da vida boa. Viver bem não é vida boa, viver bem é lidar bem com a vida, seja vida boa, seja vida ruim.

O que é natural não é bom nem ruim. Bom e ruim é uma atribuição humana e particular feita sobre a natureza. Pense na natureza da energia, por exemplo. Energia é bom ou é ruim? Energia não é bom nem ruim, é apenas impulso. Pense na energia atômica. Você pode usar a energia atômica para acender lampadas e iluminar as ruas de uma cidade, mas também pode usar a energia atômica para explodir uma cidade, como aconteceu com a bomba de Hiroshima. Energia não se recusa a fazer uma coisa ou outra, pois energia não sabe o que faz. Energia não tem consciência. Energia não sabe o que bom e ruim, bem e mal, certo e errado. Energia é apenas impulso. Quem tem consciência é o USUÁRIO da energia. Por isso, cabe ao USUÁRIO decidir o USO da energia, ou seja, como utilizá-la.

O mesmo acontece com o egoísmo. Egoísmo é desejo e desejo é energia, impulso, vontade de manifestação. Então, egoísmo não é bom nem ruim, é natural. Você é o USUÁRIO do seu desejo, então, cabe a você decidir como USÁ-LO. Seu desejo não lhe diz se você está usando-o de um jeito bom ou ruim, assim como a energia atômica também não diz isso ao seu usuário. Seu desejo também não tem consciência. Você é a consciência da sua UNItrindade. Você que sabe o que é bom e ruim. Você que está dirigindo seu desejo agora e sempre. Se você é um mau motorista, se você está usando seu desejo de uma forma que te faz viver mal, a culpa não é do seu desejo, é culpa é sua. E isso é ótimo! Pois, você pode virar o volante, mudar como você está dirigindo seu desejo e passar a viver bem.

Dizer que o egoísmo tem um lado ruim, é uma explicação “grosso modo” para início de conversa e de estudo. Agora, com essa explicação mais aprofundada, espero que tenha ficado claro que egoísmo é natural e não tem lados. Os lados (bom e ruim) não são do egoísmo (em si) e sim do uso do egoísmo. O egoísmo pode ser usado de uma forma boa, ou seja, de uma forma que produz bem viver e boa convivência, ou de uma forma ruim, ou seja, que produz mal viver e má convivência.

Comparação em si não é outroísmo. A comparação em si é um processo mental natural e inevitável. O processo mental da comparação acontece para que você possa diferenciar características dos objetos observados. Por exemplo, sem a comparação e diferenciação entre um sabonete e um cactus, você acabaria tendo problemas na hora de tomar banho. O outroísmo acontece quando você se compara e se obriga a ser igual ao objeto ao qual está se comparando, ou seja, quando se obriga a ser igual ao outro, ou quando você obriga o outro a ser igual a você.

Você quer matar uma barata e mata, você está vivendo autoísta?

Pelo contrário, é estar em paz consigo e com todos. No viver autoísta, você se permite viver sendo você, isso é viver em paz consigo. Quando você vive em paz consigo, você entende como é ruim se obrigar a ser outro e para de fazer isso com o outro. Você para de tentar mudar os outro, você permite que o outro seja outro e convive em paz com o outro. Fim da guerra.

Você não precisa e nem deve abrir mão da sua vontade em prol da boa convivência. Se você abre mão da sua vontade, você vive mal. Quando você vive mal, a boa convivência fica impossível para você. Como você pode proporcionar ao outro um bem viver quando você mesmo está vivendo mal? Impossível! Então, primeiro você precisa viver bem, para depois poder conviver bem. Sempre nessa ordem, nunca o contrário. Porém, isso não significa que você não possa e não deva colaborar com o outro. Sim, você pode e deve. Por exemplo, você quer tomar banho, outra pessoa na sua casa também quer tomar banho. Só tem um banheiro na casa. A coisa mais inteligente que vocês dois podem fazer é colaborar um com o outro. Conversar e decidir quem toma banho primeiro e quem toma banho depois. Sem colaboração, o que terá é competição, um prejudicando o outro para ter seu desejo satisfeito. Você sai correndo e entra no banheiro. A outra pessoa desliga a eletricidade e diz que se você não sair ela não liga de volta. Você fica lá dentro e diz que se ela não ligar você não sai. E assim fica. Ninguém toma banho. Ninguém realiza o desejo por falta de colaboração. Se vocês colaboram um com o outro, um toma banho rápido, sai, entra o outro e pronto! Ambos tomam banho. Ambos realizam o desejo, sem precisar abrir mão. Então, nem você nem ninguém precisa abrir mão do seu desejo em prol da boa convivência. Mas precisa sim aprender a considerar o desejo dos outros, conversar e encontrar maneiras de convivência em que todos realizem seus desejos.

Não existe desejo e egoísmo. Desejo é egoísmo. São sinônimos. Desejo é uma palavra do contexto da psicologia. Egoísmo é uma palavra do contexto religioso e moral. São palavras diferentes, assim como seis e meia dúzia, mas apontam para mesma coisa: querer o próprio bem.

Minha motivação para fazer o trabalho da 1ficina vem do prazer de executar esse trabalho e experimentar o resultado da execução. Por isso ajudo vocês. Puro egoísmo. Adoro trabalhar com autociência. Pense no seguinte, para que eu possa ter o prazer de executar esse trabalho, eu preciso que tenham pessoas interessadas em recebê-lo. Então, são vocês que me ajudam e não eu que ajudo vocês. No final das contas, é uma troca, eu ajudo vocês a se esclarecerem sobre o que é ser humano e vocês me ajudam a ter o prazer de fazer isso.

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