Egofonia | Mãe culpada

01/08/2020 by in category Egofonias with 0 and 0

Ouça no Spotify

Google Drive

FEEDBACKS E CONVERSAS

Você trocou “filhas” por “passado” para representar o objeto da culpa. Como você percebeu que usar “filhas” como objeto ia atrapalhar a egofonia?

Percebi fazendo a matemática do sofrimento. Somei 1+1 e deu 3. A matemática do sofrimento não estava funcionando com “filhas” no lugar de objeto. A Pessoa se sentia culpada pelo sofrimento das filhas. (Aliás, toda mãe sente). Mas ela não culpava as filhas. Ou seja, as filhas não eram o objeto da culpa, eram apenas cenário da culpa. O objeto é o passado porque Pessoa se culpa pelo sofrimento de todos os seres humanos do universo, uma vez que ela acredita que é responsável por resolver o problema de todos eles. Explique mais sobre isso do objeto da culpa ser o passado ontem e ficou gravado. Fiz uma analogia com a raiva para ajudar no entendimento. Ao ouvir a gravação, vai esclarecer mais.


JOIA DE FAMÍLIA

— Toma pra você.
— O que é isto, pai?
— É um problema.
— O que faço com isso?
— Sei lá! Se vira!
— Quero não, obrigado.
— Tarde demais, é seu.
— Como meu?
— Dei está dado.
— Já bastam os meus.
— Entendo, por isso te dei esse.
— Como assim?
— Devemos repartir o que temos.
— Você só tem problemas.
— Tinha! Muitos! Dei a maioria.
— Quer dizer que você guardou alguns problemas com você.
— Claro! Esse é o segredo.
— Não entendo.
— Se você der todos seus problemas não vai ter nada com o que se ocupar e isso será um enorme problema.
— Com quais você ficou?
— Só com os mais simples: regar as plantas, fazer café, etc…
— Do que se trata esse problema que você me deu?
— É um problema metafísico.
— Você não se interessa mais por esses assuntos?
— Nunca me interessei! Esse problema veio na herança. Seu bisavô era filósofo e passou o problema para o meu pai e meu pai me deu quando tinha catorze anos. É uma joia de família.
— Pai, sou homem, não uso joias.
— Problema seu!

Você escreveu isso ontem?

Não, esse texto é bem antigo. Desde muito tempo saquei que a verdadeira herança que herdamos dos nossos pais é dada na infância e não depois que eles morrem. As joias de família são entregues na infância quando ainda não sabemos recusa-las. Acreditamos que são joias preciosas e carregamos nas costas até chegar no caixão, que é quando não aguentamos carregar mais. E tudo porque???? Claro! Sempre ele: o amor!

Quando meu pai faleceu, minha mãe queria que eu ficasse no lugar dele. Que eu fosse o “homem da casa”. O que significava que eu teria que assumir o gabarito do meu pai, principalmente com ela. Meu pai mimava minha mãe. Aliás, meu pai mimava todos nós, eu inclusive. Mas enfim. Saquei a roubada e falei para minha mãe: “Quem te mimava morreu!”. Minha mãe me joga isso na minha cara até hoje. E quando joga, eu pergunto: Ué! E não é verdade? Daí ela manda um tradicional: Moleeeeeeque!!!!

Como você se sentia quando seu pai te mimava? Você se submetia ao mimo do seu pai?

O mimo do meu pai não era questão de unicidade afetiva era questão de unicidade física. Meu pai sempre trabalhou com escritório de contabilidade, despachante e administração de empresas. Então, meu pai sabia tudo do mundo burocrático. E ele gostava de lidar com isso. Então, todos em casa, minha mãe, minha irmã e eu, aproveitávamos desse mimo que ele oferecia de resolver nossos problemas burocráticos. Me submeter a esse mimo era pouco, eu aproveitava em larga escala. Eu me sentia super bem assessorado. Eu tinha um pai que sabia resolver todos os problemas do mundo (burocrático). E mais do que saber, que resolvia para mim. Quando meu pai morreu, de repente, num ataque cardíaco, todos esses problemas caíram no dia seguinte no meu colo, no colo da minha irmã e no colo da minha mãe. Daí que minha mãe queria que eu resolvesse os problemas dela para ela igual meu pai fazia. Foi então que eu disse: “Quem te mimava morreu”. Que foi o mesmo que dizer: “Eu crio e resolvo meus problemas, você cria e resolve os seus”.

Quantos anos você tinha?

Não lembro bem. Devia ter uns 25 anos. Mas isso de autonomia deve ser nato meu. Nunca gostei de ninguém dependente de mim, seja quem for, tira minha liberdade. E liberdade é uma das coisas mais valiosas para mim. Creio que por isso nunca fui entusiasmado em ter filhos. Nem de planta eu gosto de cuidar.

© 2020 · 1FICINA · Marcelo Ferrari