É a sociedade que corrompe o homem ou o homem já é mau por natureza?

26/05/2020 by in category Perguntas tagged as , with 0 and 0

Observe como grande parte do meu trabalho aqui com vocês não é responder, mas retirar os equívocos contidos nas perguntas. Pergunta equivocada não produz resposta esclarecedora. Então, primeiro retiro os equívocos, só depois respondo. E como eu faço isso? Andando para trás. Eu leio a pergunta e ao invés de andar para frente, rumo a resposta, ando para trás, identificando cada suposição assumida como verdadeira na estrutura da pergunta. Muitas vezes basta um pequenino passo para trás e a questão já se esclarece. Sugiro que façam o mesmo. Pratiquem andar para trás antes de sairem correndo para frente em busca da resposta.

Tem uma suposição falsa na estrutura da sua pergunta, mas que você assume como verdadeira. Vou explicitá-la. Você parte do princípio que o homem é mau. Primeiro você assume isso, depois você questiona: “O homem é mau por natureza ou é a sociedade que o torna mau?”. Ao fazer isso, você parte em busca da resposta esclarecedora, mas que está construída em cima de uma suposição equivocada. Então, tudo que irá encontrar pela frente será mais equívocos.

No direito, existe uma teoria chamada “fruto da árvore envenenada”. Diz que se uma prova for falsa, tudo que deriva daquela prova (qualquer fruto) é falso (envenenado). É o mesmo que estou explicando aqui. Sua pergunta é uma árvore envenenada. Se você andar para frente em busca de uma resposta, tudo que encontrará será frutos envenenados (mais equívocos). Para esclarecer sua questão você deve andar para trás, você deve investigar a raiz da árvore (da pergunta), você deve investigar as premissas que você está assumindo como verdadeiras na estrutura da sua pergunta.

Nessa sua pergunta, seu equívoco é assumir como verdadeira a premissa de que o homem é mau, quer por natureza, quer por influência social. Isso é um equívoco. O homem não é mal, nem bom, o homem é homem. Só isso. A árvore é árvore. A gaivota é gaivota. O fogo é fogo. E o homem é homem. Simples assim.

Bem e mal não dizem respeito ao que o homem é, dizem respeito ao comportamento do homem. O comportamento de um homem pode gerar bem viver (boa convivência) ou mal viver (má convivência). Mas daí sua pergunta não faz mais sentido. Corta a árvore envenenada e planta uma nova árvore. Joga a pergunta equivocada no lixo e produz uma nova pergunta, uma que traga esclarecimento. Vou fazer isso por você. Por que o homem se comporta de maneira a produzir mal viver e má convivência? Ou melhor ainda:

PERGUNTA: Por que o ser humano se comporta de maneira a produzir mal viver e má convivência?

Observe como a pergunta correta produz resposta esclarecedora: O ser humano se comporta de maneira a produzir mal viver e má convivência porque o ser humano ignora o que é ser humano. A má convivência entre os seres humanos não é produto de uma maldade intrínseca, nem de uma corrupção social, é produto da ignorância dos seres humanos sobre o que é ser humano.

Retirada a ignorância, a má convivência desaparece automaticamente, pois nenhum ser do universo jamais opta pelo pior, opta sempre pelo melhor. Um ser só opta pelo pior quando está equivocado, ou seja, quando está em estado de ignorância. Por isso só o despertar da consciência produz bem viver e não precisa de mais nada.

Dito isso, para não perder a viagem, tem outro equívoco implícito na sua pergunta que vou explicar, pois é um equívoco recorrente seu e de toda coletividade humana. Trata-se do equívoco do vitimismo. Sua pergunta busca encontrar um culpado. Sua pergunta é tipo assim: “Quem é o culpado por essa má convivência que experimento todo dia?”.

Se você está buscando um culpado, então, é porque você é vítima. Só que não! O culpado pela má convivência humana é a ignorância de todos os seres humanos, o que inclui você. Então, você não é vítima, você é parte integrante da criação da má convivência. A culpa é sua também.

Você pode argumentar: “Mas não tenho culpa de ignorar uma vez que ignoro”. Sim, perfeito, é isso mesmo. Mas você permanece na ignorância por opção. Você pode optar por sair. E como sair da ignorância? Essa é a pergunta que vale o paraíso, o nirvana e 10 mil litros de cerveja em Valhalla. A resposta é: praticando autociência. Que tal começar agora mesmo?

© 2020 · 1FICINA · Marcelo Ferrari