Dor chega sem avisar. E alegria também.

Uma vez, numa festa, tive uma inesperada conversa com um estranho que foi muito agradável e elucidativa. Comentei que era compositor e que gostava de compor sozinho, só eu e o violão. O desconhecido me perguntou se tocava sozinho também. Disse que não, que eu tocava com uma banda. Daí, ele me perguntou se preferia tocar sozinho ou acompanhado. Ele me perguntou sobre “tocar”, só que minha cabeça analógica ouviu duas perguntas ao mesmo tempo, a pergunta dele e a pergunta minha: “você prefere viver sozinho ou acompanhado?”

Desculpaê, Hamlet, mas “ser ou não ser?” é uma pergunta ingênua e completamente irrelevante para dor humana, pois não existir não é opcional. A pergunta que não quer calar é a estranha pergunta do estranho: “você prefere viver sozinho ou acompanhado?”.

Óbvio que prefiro viver sozinho. O inferno são os outros. Quem estraga o mundo são os outros. Quem pisa no meu pé são os outros. Quem me machuca são os outros. Quem interfere e me fere são os outros. Quem atrapalha minha música são os outros. “Prefiro viver sozinho”, era o pensamento na ponta da minha língua. Mas não pronuncio o pensamento. Dou uma segunda chance ao não ser, ao que não sou eu.

“O inferno são os outros, mas o paraíso também. Quem estraga o mundo são os outros, mas quem embeleza também. Quem pisa no meu pé são os outros, mas quem me beija também. Quem me machuca são os outros, mas quem me afaga também. Quem atrapalha minha música são os outros, mas quem toca junto comigo também”, penso.

Primeiro fico espantado com a constatação de que amo e odeio o outro em igual intensidade. Depois fico muito irritado com isso. Se eu apenas amasse ou odiasse o outro seria fácil viver e responder a pergunta, mas retirando o ruim da vida, estaria retirando o bom também. E não tinha terceira opção, só tinha duas opções excludentes de resposta: sozinho ou acompanhado.

Dizem que na hora da morte fazemos uma retrospectiva da nossa vida inteira numa fração de segundos. É mentira. Fazemos essa retrospectiva toda vez que precisamos tomar uma decisão raiz, daquelas que vão dividir nossa vida em antes e depois, assim como a decisão de Jesus na cruz. Meu momento na festa era meu morro do calvário. Enquanto todos ao meu redor estavam ocupados com comes e bebes, eu tinha que decidir se aceitava ou não a existência de Hamlet, a existência do não ser, a existência do outro. “Eu prefiro tocar acompanhado”, digo ao estranho. Ele sorri e responde: “eu também”, como se tivesse feito a retrospectiva junto comigo.

Schopenhauer tem uma metáfora excelente para ilustrar o dilema da convivência humana, ele diz que somos um bando de porcos espinhos no inverno. Sendo assim, melhor seria que vivêssemos sozinhos, afastados uns dos outros, para não interferir e assim não ferir uns aos outros com nossos espinhos. Mas viver sozinho é frio, dói tanto ou mais do que ser atravessado pelo espinho do outro. Então, nos aproximamos em busca do calor da companhia e, inevitavelmente, nos ferimos. Então, nos afastamos e depois nos aproximamos, e assim sucessivamente.

O porco espinho Guilherme Arantes, quando foi ferido, compôs uma canção que diz assim: “Quando eu fui ferido, vi tudo mudar das verdades que eu sabia. Só sobraram restos que eu não esqueci, toda aquela paz que eu tinha. Eu que tinha tudo, hoje estou mudo, estou mudado, a meia-noite, à meia luz, pensando — Daria tudo por um modo de esquecer — Eu queria tanto estar no escuro do meu quarto, a meia-noite, à meia luz, sonhando — Daria tudo por meu mundo e nada mais — Não estou bem certo se ainda vou sorrir sem um travo de amargura. Como ser mais livre, como ser capaz de enxergar um novo dia?”.

A música de Guilherme Arantes é a eterna pergunta de festa feita despretensiosamente por um estranho e que desce arranhando a consciência como se fosse um espinho na coxinha: “Você prefere viver sozinho ou acompanhado?”. Guilherme não respondeu sua própria pergunta na música, mas respondeu com a música, pois Guilherme não compôs, gravou e publicou a música para cantar sozinho. Guilherme optou pela terceira opção. Guilherme aceitou continuar vivendo o dilema do porco espinho mesmo sem conseguir resolvê-lo.

© 2020 · 1FICINA · Marcelo Ferrari