01 | INDEPENDÊNCIA

Não existe independência, o que existe é autonomia. Você confunde independência com autonomia. Quando você diz que é um indivíduo independente, o que está querendo dizer é que você é um indivíduo com autonomia. Independência é a suposição de uma parte separada do todo, que não participa do todo. Isso é um equívoco, pois uma parte só é parte porque participa do todo. Parte é pedaço do todo, então, se é parte, não está separado do todo, não é independente do todo, participa do todo.


02 | AUTONOMIA

Autonomia é a liberdade particular de gerir a própria experiência através do arbítrio. Autonomia significa que você é parte do todo, mas é uma parte que tem liberdade de gerir a própria experiência através do arbítrio.


03 | INTERDEPENDÊNCIA

Não existe independência, o que existe é interdependência. E o que é interdependência? Interdependência é o estado existencial onde todas as partes do todo interferem em todas as partes do todo através do arbítrio. Simplificando, você afeta os outros e os outros afetam você.


04 | TODOS

Você é um ser. Os outros são todos os seres do universo. Todos significa sem exceção. Então, a interferência dos outros em você não se restringe apenas a interferência dos outros seres humanos, mas de todos os seres do universo. Claro que você não percebe que está em constante interdependência com todos os seres do universo. Mas você está. Agora e sempre.


05 | DEMOCRACIA UNIVERSAL

Democracia universal é forma como o universo funciona. Que forma é essa? TODOS PODEM TUDO. Livre arbítrio para todos. Assim como você é livre para optar e ninguém pode retirar sua liberdade de optar, o mesmo ocorre para todos os seres do universo.


06 | ARBÍTRIO COLETIVO

Você está, agora e sempre, optando junto com todos os seres do universo. Então, nenhuma circunstância resulta só do seu arbítrio, resulta do arbítrio momentâneo de todos os seres do universo, resulta do arbítrio coletivo.


07 | TUDO PODE

INTERLOCUTOR: Como assim, tudo pode?

— Exatamente assim como é.

INTERLOCUTOR: Tudo tudo tudo mesmo?

— Tudo mesmo! Tudo, tudo, tudo.

INTERLOCUTOR: Violência pode???

— Pode! Tudo pode! Se não pudesse, seria impossível.

INTERLOCUTOR: Roubar, mentir, estuprar, matar, torturar, pode????

— Pode! Tudo pode!

INTERLOCUTOR: Socooooooorro! Deus nos ajude!!!!!

— Não tem deusoutro para ajudar: nós somos deus.

INTERLOCUTOR: Somos deus usando muito mal o arbítrio.

— Ignoramos como usar bem, então, usamos mal.

INTERLOCUTOR: Como usar bem?

— Com autoconhecimento.

INTERLOCUTOR: Como adquirir autoconhecimento?

— Praticando autociência.


08 | AUTORREALIZAÇÃO

INTERLOCUTOR: Por que você iguala viver bem com realização do desejo?

— Essa interpretação está equivocada. O que explico é que para viver bem você deve viver em acordo com seu desejo. Outra coisa é que você só tem um desejo. Então, para você entender a explicação sobre viver em acordo com o desejo, primeiro você deve entender que único desejo é esse.

INTERLOCUTOR: Que único desejo é esse?

— Autorrealização. Você deseja ser você. Só isso. Sempre isso. Nada além disso.

INTERLOCUTOR: Mas eu já sou eu!

— Sim, mas você não vive sendo você, você vive sendo outro. Chamo isso de outroísmo.

INTERLOCUTOR: Sofrimento é quando vivo outroísta?

— Exato! Você precisa experimentar algo que lhe alerte para o outroísmo, esse algo são as emoções desagradáveis (sofrimento).


09 | FOME NÃO TEM CURA

INTERLOCUTOR: Tenho muitos desejos, mas meu objetivo é sempre satisfação. Só que satisfação sempre acaba. Volto a ficar insatisfeito. Como resolver isso?

— Entendendo que isso não tem solução. Que é assim mesmo. Fome não tem cura. Quando você entende que fome não tem cura, você desiste de tentar chegar no fim da viagem e direciona seus esforços para viajar bem. Viver bem inclui lidar bem com a insatisfação.

INTERLOCUTOR: Qual é a diferença entre viver em acordo com o desejo e satisfazer o desejo?

— Primeiro me diga: por que você quer satisfação?

INTERLOCUTOR: Quero satisfação porque é agradável.

— Agradável = bom, então, você quer o bom.

INTERLOCUTOR: Isso, quero o bom!

— Agora já dá para responder sua pergunta. Viver em acordo com o desejo é viver em acordo com o que é bom para você. Satisfazer o desejo é ter uma experiência boa, que começa e termina.


10 | OPTANDO POR ISSO

INTERLOCUTOR: Estou aguardando o ônibus atrasado. Esse atraso tem como consequência a perda de um compromisso importante. Finalmente surge o ônibus. Faço sinal. Mas o motorista não para. E ainda passa numa poça e joga água em mim. Fico molhado e sujo de barro. Nessa circunstância, como posso viver em acordo com o que é bom para mim?

— Optando por isso. Viver em ou sem acordo com o que é bom para você só depende de você optar.

INTERLOCUTOR: No caso do ônibus, optei pelo bom, mas experimentei o ruim.

— As circunstâncias não se desdobram apenas do seu arbítrio, se desdobram do arbítrio coletivo.

INTERLOCUTOR: Então, viver em acordo com meu desejo não garante a realização do meu desejo?

— Sim! Isso mesmo!


11 | MISSÃO IMPOSSÍVEL

INTERLOCUTOR: Qual a relação entre outroísmo e sofrimento?

(01) Você fica desagradado quando o arbítrio coletivo lhe desfavorece, ou seja, você experimenta emoções desagradáveis. Você sente raiva, por exemplo. (02) Você experimentando emoções desagradáveis é você sofrendo. (03) Você tem duas opções: VIVER AUTOÍSTA / JOGO DA LIBERDADE: Você pode, baseado na informação que o sofrimento está lhe fornecendo, usar seu arbítrio para influir nas circunstâncias a favor do que é bom para você. Ou VIVER OUTROÍSTA / JOGO DO CONTROLE: Você pode, baseado na informação que o sofrimento está lhe fornecendo, tentar controlar o arbítrio do outro. (04) Optar pelo JOGO DO CONTROLE é tentar proibir a democracia. (05) É impossível proibir a democracia. (06) Sendo impossível, quanto mais você persiste, mais você fracassa. (07) Quanto mais você fracassa, mais você sofre. (08) Então, optar pelo JOGO DO CONTROLE é perpetuar o sofrimento.

INTERLOCUTOR: Mesmo optando pelo JOGO DA LIBERDADE, ainda assim pode acontecer do arbítrio coletivo não me favorecer e gerar sofrimento. Então, qual é a diferença entre optar pelo JOGO DA LIBERDADE ou JOGO DO CONTROLE?

— A diferença é que no JOGO DA LIBERDADE você lida bem com o seu sofrimento e com as circunstâncias (vive bem), no JOGO DO CONTROLE você lida mal com o sofrimento e com as circunstâncias (vive mal).


12 | CONSEGUIR O QUE QUERO

INTERLOCUTOR: É possível jogar o jogo da liberdade e ainda assim não conseguir o que quero?

— Claro! Aliás, se o seu objetivo for conseguir o que quer ao invés de viver bem, você deve jogar o jogo do controle e não o jogo da liberdade. O jogo da liberdade vai dificultar você conseguir o que quer. Jogo da liberdade não é para você conseguir o que quer, jogo da liberdade é para você viver bem e conviver bem. O que não exclui você conseguir o que quer.

INTERLOCUTOR: Então, posso viver a vida inteira sem conseguir o que quero?

— Sim, correto.

INTERLOCUTOR: E ainda assim viver bem?

— Sim, correto.


13 | MESTRE DA DEMOCRACIA

Um grupo de discípulos levou seu mestre para tomar sopa e testar sua maestria. O garçom, como combinado, serviu sopa para todos os discípulos, mas não serviu o mestre. Toda vez que o garçom voltava na mesa, fazia a mesma coisa. Enchia novamente o prato dos discípulo, mas deixava o prato do mestre vazio. Quando os discípulos já estavam saciados e prontos para irem embora, o mestre chamou o garçom e disse: “Você não me serviu sopa nenhuma!” O garçom, como combinado, respondeu grosseiro: “Está caduco velhote! Eu lhe servi sopa três vezes!”. E o mestre respondeu: “É verdade! Você está certo! É que a sopa estava tão deliciosa que vou aceitar mais um pouco”.

Você prefere controlar o outro ou tomar sopa (realizar seu desejo)? Mesmo que você prove por A + B que o outro está errado. Mesmo que o outro perceba o próprio erro. Ainda assim ele pode optar por não lhe servir sopa (impedir a realização do seu desejo). E se você insistir em controlar o outro, quem vai ficar sem sopa é você. Por que perder tempo e energia tentando controlar o outro? Foca na sopa! Foca na realização do seu desejo! Deixe o outro livre para mentir, ser violento e impedir a realização do seu desejo. Seja um mestre da democracia. Use a inteligência e encontre um jeito de realizar seu desejo mesmo assim.


14 | MENSAGEM FINAL DO FAROL

— Capitão, capitão, acorda!
— O que foi?
— Tem um navio vindo em nossa direção.
— Diga para o navio desviar.
— Já dissemos e ele não desviou.
— Vou dizer eu mesmo!
O capitão vai até a torre de comando: — Atenção, navio desconhecido, desvie 20 graus estibordo, imediatamente!
— Desvie você 20 graus estibordo, imediatamente!
— Não acredito! — Pensa o capitão irritado e envia outra mensagem: — Aqui é Horácio Alcântara Neves Pimentel, primeiro capitão da Marinha Real. Ordeno que desvie 20 graus estibordo, imediatamente.
— Aqui sou eu e desvie você 20 graus estibordo.
— Que palhaço! Somos um navio de guerra! Podemos explodi-lo! — Pensa o capitão e envia uma mensagem final: — Aqui é do navio de guerra Missouri Flagship, patente OBTLA56. Ordeno pela última vez. Desvie 20 graus estibordo imediatamente ou vamos disparar um míssil contra seu navio.
Chega a resposta: — Aqui é do farol.


15 | DEMOCRACIA É ESCOLA

Democracia não é uma forma de governo, democracia é uma forma de aprendizagem. A bola de basquete não aprende a cair dentro da cesta porque a bola não erra a cesta, quem erra a cesta é o arremessador. Democracia é arremesso coletivo. Democracia são todos aprendendo o que é melhor para todos através do erro de todos. Democracia é a escola da interdependência. Claro que nessa escola, os alunos lúcidos pagam a conta dos equívocos dos alunos ignorantes, mas sendo lúcidos, sabem que se aprendizagem custa caro, mais caro é continuar na ignorância.


16 | PORTAS FECHADAS

O mestre deixou uma tarefa para seu discípulo antes de viajar: “Sabe aquela pedra enorme que fica atrás da casa? Quero que você acorde cedo e empurre-a o dia inteiro. Faça chuva ou faça sol, nunca pare de empurrá-la. Empurre-a com toda sua força e toda a sua vontade”. No dia seguinte, o discípulo acordou cedo e começou a empurrar a pedra. Só que a pedra era muito grande e não se movia. No dia seguinte, empurrou mais forte. Nada da pedra se mover. No dia seguinte, empurrou mais forte ainda. Todo dia o discípulo empurrava a pedra com mais força, só que a pedra não se movia. Depois de passar três anos empurrando uma pedra que não se movia e sem notícias do seu mestre, o discípulo concluiu que seu esforço havia sido em vão e desistiu da tarefa.

No dia seguinte, o mestre voltou de viagem. Já era quase meio dia e o discípulo ainda estava dormindo. O mestre acordou o discípulo e questionou: “Esqueceu da tarefa? Por que não está empurrando a pedra como lhe pedi?”. O discípulo respondeu: “Passei três anos empurrando aquela pedra, de manhã até de noite, com todas as minhas forças, cada vez mais forte, só que a pedra não se moveu um milímetro sequer. Por isso, desisti”.

O mestre disse ao discípulo: “Você entendeu errado a tarefa. Eu não pedi para que você movesse a pedra, pedi para que a empurrasse. Olhe para você! Seus braços estão fortes e musculosos. Suas costas estão largas. Suas mãos estão curtidas. Suas pernas se tornaram firmes. Tudo isso porque você se exercitou empurrando a pedra. De que vale mover uma pedra? Não vale nada! Mas você se desenvolveu, se superou e se autorrealizou. Isso sim é valioso!”.

Essa metáfora ilustra um equívoco que você vem cometendo desde sempre. Você tem gratidão pelas portas abertas, por tudo de bom e por tudo que deu certo na sua vida, mas tem mágoa das portas fechadas, de tudo de ruim e de tudo que deu errado. Só que deveria ser o contrário. Portas abertas é vida boa, vida sem ruim, sem infortúnio, sem problemas. Vida boa só serve para criar pessoas preguiçosas, tolas e mimadas. Pessoas incapazes de resolver problemas, incapazes de lidar bem com frustrações, infortúnios, rejeições, contrariedades e mosquitos. Enfim, pessoas incapazes de viver bem quando a vida está ruim.

Vida boa não te faz levantar e andar, pelo contrário, te mantém engatinhando no chão feito neném. É o ruim que te faz ficar bom. Maestria não é um produto de portas abertas, é produto de portas fechadas. Basta você olhar para qualquer competência sua e verá que é fruto de portas fechadas. Porta aberta te fecha, porta fechada te abre.

Demora um tempo para você entender isso. E, enquanto não entende, vive na lamúria e na mágoa, reclamando das portas fechadas e das pedras no meio do caminho. Acreditando que portas fechadas são castigo, azar, etc. Quando você entende que portas fechadas são uma benção: fim da mágoa. Você cai de joelhos arrependido da sua ignorância e acende velas de gratidão para cada uma das portas que lhe foram fechadas. Nesse dia, finalmente, a porta do bem viver se abre para você.


17 | VIVER BEM NÃO É VIDA BOA

PERGUNTAS E RESPOSTAS

Se seu desejo é mudar o outro: sua esposa, seu marido, seus filhos, seu pai, sua mãe, seus amigos, seus inimigos, o vizinho, sua sociedade, etc. Meu conselho é que desista o quanto antes. Você está numa missão impossível. Você vai morrer tentando sem jamais conseguir. Se fosse possível mudar o outro, o outro não seria outro, seria você.

Se seu desejo é mudar a si mesmo, realizando suas capacidades, melhorando suas habilidades e comportamentos, mas está fracassando, meu conselho é que troque o ponto final por uma vírgula e acrescente a palavra AINDA. Eu não consigo, AINDA. Eu não consegui, AINDA.

Não existe fracasso, tudo é aprendizagem. Ou você consegue ou você aprende. Êxito é só questão de tempo. Então, teime! Insista! Persista! Tente outra vez! De novo e de novo! Jamais desista de si! O que você chama de fracasso hoje é a escola do seu êxito de amanhã.

Quando você quebra uma regra que combinei com você, eu cumpro a regra para ir a favor de mim e não contra você. Minha intenção não é lhe penalizar, é me beneficiar. Daí, claro que meu SIM PRA MIM é não para você. Mas isso é apenas consequência do sim pra mim, não é punição nem controle. Você permanece livre no começo, meio e fim da convivência. E quando você cumpre o combinado, mesma coisa. Eu não te benefício, você mesmo se beneficia por chegar ao resultado que se determinou e concordou em chegar. Eu não te recompenso, você se recompensa do combinado. E você é livre no começo meio e fim da convivência. Também é jogo da liberdade.

Depende, você está cobrando algo que foi combinado?

Eu moro com uma amiga e combinamos de limpar a casa.

Ela fura com o combinado?

Mais ou menos, ela diz que não vê necessidade de tanta limpeza.

Aí é questão de critério de limpeza. Tem O QUE fazer e COMO fazer. Vocês estão discordando em COMO fazer, que é o critério de fazer. Aqui em casa, por exemplo, eu e minha esposa combinamos que ela faz a comida e eu lavo a louça. Daí, certa vez, eu lavei a louça e ela reclamou que a louça estava mal lavada. A reclamação da minha esposa não foi sobre o que fiz, foi sobre como fiz. Eu cumpri nosso acordo, mas não cumpri de acordo com o CRITÉRIO dela. Só que não tínhamos um acordo sobre o critério do que é uma louça bem lavada e mal lavada. No meu critério a louça que era bem lavada, mas no critério da minha esposa era mal lavada. Como resolvemos isso? Pedi para minha esposa me explicar qual era o critério dela. O critério dela é super criterioso, muito acima do meu. Mas tudo bem, posso usar o critério dela. Então, surgiu um segundo acordo. O primeiro acordo foi sobre o que fazer: lavar a louça. O segundo acordo foi sobre como fazer: lavar com muito sabão e não deixar nenhuma gordurinha. Me parece que você e sua amiga já tem um acordo sobre o que fazer, mas ainda não tem em um acordo sobre como fazer. Para que vocês tenham boa convivência com a limpeza, devem conversar e entrar em acordo sobre como fazer.

Se as regras estiverem claras, não serei impositiva?

Não! Você é impositiva quando impõe suas regras, estando suas regras explícitas ou ocultas. Tanto faz. Para não ser impositiva você deve entrar em acordo com o outro sobre as regras de convivência. Uma vez que você entre em acordo, não há imposição de regras, pois as regras são acordadas.

E se o outro não cumprir o acordo?

O outro tem obrigação de cumprir o acordo?

Sim, tem.

Justifique sua resposta

Sendo um acordo, deve ser cumprido

Exato! Um acordo DEVE ser comprido. O que não significa que TEM QUE ser cumprido. Dever e obrigação não é a mesma coisa.

Qual é a diferença?

Dever é opcional. Você entende que deve fazer e opta por fazer. Obrigação não é opcional. Você faz porque é obrigação, não faz por opção.

Por que se deve cumprir o combinado?

Para não quebrar a confiança que o outro depositou em você. Desconfiança produz má convivência.

Se você fosse meu aluno no ciclo de estudos Eureka, você receberia uma resposta assim: “Você tem o telefone do Max Weber? Liga pra ele e pergunta!”. É isso que respondo aos meus alunos quando me perguntam dos outros. Faço isso para evitar confusão desnecessária. Dá confusão falar pelos outros. Cada autor tem um jeito particular de usar as palavras e só o autor pode responder por suas palavras. Mas aqui não serei tão rigoroso como no ciclo de estudos e, para lhe responder, vou assumir que Max Weber está se referindo ao que a 1ficina chama de outroísmo, mais especificamente, outroísmo impositivo.

Infelizmente nossa convivência é de dominação. Mas não precisa ser obrigatoriamente assim. Pode ser diferente. A qualidade de uma convivência é determinada pelo arbítrio dos conviventes. Sendo assim, para convivermos melhor, sem dominação, bastaria optarmos por uma convivência sem dominação. O que leva a seguinte pergunta: Por que não fazemos isso?

A resposta é a mesma de todo mal viver: ignorância.

Um ser humano lúcido sabe que dominação pode gerar conforto para o dominador, mas jamais vai gerar boa convivência. E sabe também que não tem maior desconforto do que má convivência, uma vez que viver é conviver. Então, um ser humano lúcido, jamais opta por uma convivência de dominação. Só um ser humano em estado de ignorância opta pela dominação.

Atualmente somos uma coletividade de seres ignorantes. Isso é fato e a qualidade da nossa convivência é demonstrativa desse fato. Mas se não bastasse isso! Somos uma coletividade de seres ignorantes que ignoram que são uma coletividade de seres ignorantes. Entende o tamanho do buraco? Ignoramos que ignoramos. O que resulta em acreditar que sabemos. O que resulta em não nos abrirmos para um despertar consciencial, pois somos cegos que acreditam enxergar.

Existem duas opções para o fim da treta humana:

OPÇÃO (A) Todas as pessoas devem ser fisicamente e psicologicamente idênticas. Não deve haver nenhuma desigualdade que sirva de motivo para inveja. OPÇÃO (B) Respeitar e apreciar as diferenças.

OPÇÃO (A) Todas as pessoas devem ser patrões, ninguém deve ser empregado. OPÇÃO (B) Quem quiser ser patrão, seja patrão, quem quiser ser empregado, seja empregado.

OPÇÃO (A) Todas as pessoas devem ser candidatas à presidência da república e todas devem vencer as eleições com 100% dos votos. OPÇÃO (B) Democracia.

OPÇÃO (A) Todas as pessoas devem ganhar no par ou ímpar. Nunca ninguém deve perder. Só deve existir ganhadores, nunca perdedores. Todas as seleções devem ser igualmente campeãs da copa do mundo. OPÇÃO (B) Aprender a perder.

OPÇÃO (A) Ninguém deve jamais frustrar ou decepcionar as expectativas dos outros. Todas as expectativas de todas as pessoas devem ser sempre e completamente satisfeitas. OPÇÃO (B) Aprender com a frustração e a decepção.

OPÇÃO (A) Todas as pessoas devem ser onipotentes. A vontade de cada pessoa deve ser absoluta e deve ser seguida por todos. OPÇÃO (B) Cada um com seu arbítrio.

OPÇÃO (A) Todas as pessoas devem estar certas. A crença de cada pessoa deve ser absoluta e deve ser verdade para todos. OPÇÃO (B) Cada um acredita no que quiser.

OPÇÃO (A) O que é melhor para cada pessoa deve ser absoluto e deve ser melhor para todos. OPÇÃO (B) Cada um faz o que achar melhor.

Escolha sua opção.

Você está condenado a sofrer porque sofrimento é você experimentando insatisfação. Por mais que você esteja satisfeito, o estado de satisfação sempre acaba e você volta a insatisfação, ou seja, volta a sofrer. É assim que funciona. Inevitavelmente. Sua opção frente a isso é lidar bem ou lidar mal com isso. Você lida mal quando transfere ao outro a responsabilidade pela satisfação do seu desejo. Sendo que o outro não tem essa obrigação, tudo que você consegue com isso é perpetuar seu estado de insatisfação, ou seja, perpetuar seu sofrimento.

Você usa duas estratégias: imposição e submissão. Por exemplo, você deseja beber água. Na estratégia impositiva, você ameaça o outro: “Seu filho da puta! Seu desgraçado! Me traz um copo d’água agora mesmo ou te mato”. Você pega um revólver e dá um tiro para cima. Pega uma faca e finca na mesa. “Vai logo!”, você ordena. Só que o outro não nasceu para ser seu garçom e não vai. Você tenta mil torturas para obrigar o outro a pegar o copo d’água para você. Nada funciona. Se você usasse 0,1% da energia que está disparando no outro para levantar a bunda da cadeira e pegar você mesmo o copo d’água, seu desejo já estaria satisfeito faz tempo. Mas não! Você é o sabidão. Tão sabido que sabe que o culpado pelo seu sofrimento é o outro que está te enrolando. Então, já que tempestade por um copo d’água não está funcionando, você decide usar uma sabedoria mais impactante. Você decide apertar o botão vermelho e começar com a terceira guerra mundial.

Na estratégia submissa, você começa a fazer chantagem e vitimização para obrigar o outro a satisfazer seu desejo. Você diz: “Quem me ama pega um copo d’água para mim”. Só que o outro não nasceu para ser sua babá e não vai. Você começa a chorar: “Você não me ama! Eu faço isso por você, faço aquilo, eu te dei a vida e você nem pega um copo d’água para mim! Você é um egoísta ingrato!”. Se você usasse 0,1% da energia do mimimi para levantar a bunda da cadeira e pegar você mesmo o copo d’água, seu desejo já estaria satisfeito faz tempo. Mas não! Você é o sabidão. Tão sabido que sabe que a culpa do seu sofrimento é do ingrato que está te enrolando. Então, já que mimimi por um copo d’água não está funcionando, você decide usar uma sabedoria mais impactante. Você entra em depressão, começa a tomar remédios tarja preta e por fim decide cortar os pulsos.

Resumindo, sofrer é natural, inevitável e saudável. Você precisa experimentar sofrimento para tomar consciência do seu desejo e satisfazê-lo. Só que você pode transferir sua responsabilidade de satisfação ao outro ou pode assumi-la. Assumir é lidar bem com o sofrimento e resolvê-lo. Transferir é lidar mal com o sofrimento e perpetuá-lo. Você decide.

Sua pergunta contém alguns equívocos. Vou explicitá-los para que você possa se libertar deles. Assim como dança e dançarino não são a mesma coisa, religião e religioso também não. Alguma vez você foi na igreja e assistiu a religião rezando a missa? Claro que não! Quem reza a missa é o padre. Alguma vez você foi ao terreiro de umbanda e conversou com a umbanda? Também não! Você conversa com os médiuns e as entidades. Quem se comporta assim ou assado são os religiosos e não a religião. Comportamento é sempre de um corpo. Dança não tem corpo, então, não tem comportamento, quem tem comportamento é o dançarino. Religião também não tem corpo, então, também não tem comportamento, quem tem comportamento é o religioso: o padre, o bispo, o papa, o médium, o monge, o pastor, etc. Estando isso esclarecido, sua pergunta corrigida fica assim:

Como os religiosos deveriam se comportar diante da política?

Suponho que você considere errada a maneira como os religiosos estão se comportando, por isso está perguntando. Se considera errado, é porque vai contra o que considera certo. Sendo assim, lhe pergunto, como os religiosos deveriam se comportar? Como seria o certo? Sugiro que você escreva uma carta para os religiosos expressando o que eles estão fazendo de errado e como eles deveriam se comportar. Não estou brincando, nem sendo irônico, escreve mesmo, coloque no papel o que pensa e sente. Faça uma lista de todos os erros cometidos e outra lista de como eles deveriam se comportar, de como é o jeito certo. Coloque no título da carta: “Gabarito do certo e errado”. Coloque a carta em um envelope. Vá até o correio e envie a carta para si mesmo. Assim que chegar, leia e viva de acordo com o seu gabarito e permita que o outro vida de acordo com o gabarito dele. E não faça isso pelos outros, por benevolência, tolerância ou respeito. Não! Faça por si mesmo, pelo seu próprio bem. Viver censurando e corrigindo a vida dos outros só serve para você perder sua vida.

Primeiro você pensa que justo é certo e injusto é errado. Daí, se você acredita em deus, você conclui que está tudo certo, pois tudo está de acordo com a vontade de deus. Se você não acredita em deus, você conclui que está tudo errado, pois nada está de acordo com a sua vontade. Quando você desperta a consciência e entende que deus não é outro, que deus é você, que deus é cada um, que deus é a coletividade dos seres, fica óbvio que tudo está JUSTAmente de acordo com o arbítrio coletivo. A vontade de deus é o arbítrio coletivo, ou seja, a democracia em curso.

Você sabe o que é amor e ódio? Você sabe para que serve? Sabe como funciona dentro de você? Se você ignora a natureza, a serventia e o funcionamento do amor e do ódio em você, como pode lidar bem com o amor e o ódio nos outros? Não pode! Impossível. Percebe? É sua ignorância de si que lhe impede de lidar bem com o comportamento dos outros.

Quando você é consciente do seu próprio funcionamento, fica simples lidar bem com o comportamento dos outros, porque o outro é outro você, ser humano igual você. Então, o primeiro passo para lidar bem com o amor e o ódio dos outros, é virar o olho do avesso. Ou seja, ao invés de ficar olhando para fora, para o outro, olhe para o seu amor e o seu ódio. Observe do que se trata. Entenda para que serve. Veja como funciona.

Fazer isso é você praticando autoobservação. Autoobservação produz autoconhecimento. Quanto mais autoconhecimento você produz, menos ignorância. Quanto menos ignorância, maior sua competência em lidar com o comportamento dos outros, melhor você vive e convive.

Daí, você pode me perguntar: Como você sabe que me ignoro?

Se você não se ignorasse não estava me perguntando sobre algo que acontece em você.

Daí, você pode pensar: E você precisa jogar minha ignorância na minha cara?

E o que você espera que um professor de autociência faça com sua ignorância? Que a coloque em cima de um altar, acenda velas, se ajoelhe e a idolatre? “Louvada seja essa ignorância para sempre seja louvada!” Eu posso até fazer isso, mas em que isso vai lhe ajudar a viver melhor? Jogar sua ignorância na sua cara é uma ajuda que lhe ofereço para que fique consciente dela e assim possa sair dela. E você não precisa aceitar minha ajuda. Minha oferta é voluntária, gratuita e sem expectativas de aceitação.

Daí, você pode concluir: “Então, não vou perguntar mais nada, vou ficar caladinho, assim escondo minha ignorância e vou parecer sábio”.

Isso é o que você tem feito sua vida inteira. Isso é o que todos os seres humanos têm feito desde sempre. Se funcionasse, já tinha funcionado. Então, porque não experimentar um novo caminho: expor a ignorância. Só de curioso. Só para fazer uma experiência. Só para ver se expor a ignorância é uma opção melhor do que escondê-la. Se não for, sem problemas. Só voltar para o esconderijo.

Você que deve saber, a intenção que está motivando sua manifestação é algo que só você tem acesso.

Então sugerir, influenciar, opinar, a palavra não importa, o que importa é a minha intenção?

Exato! Sua manifestação é desdobramento da sua intenção. Se sua intenção é controlar o outro, seja lá como você nomear seu comportamento, sua manifestação é você jogando o jogo do controle.

Mesmo que eu disfarce dizendo que estou só dando uma sugestão, a intenção é controlar. Eu tinha um amigo que ficava dizendo que eu era livre para pensar do jeito que quisesse, mas ficava toda hora mandando textos, videos, só para mudar minha opinião sobre aquele assunto. Era um saco!

Tipo Fulana me aconselhando a usar o Telegram?

Sim, Fulana é muito boa nisso também. Ai meu Deus, deixa eu correr pro PV me desculpar.

Isso! Agora que já puniu Fulana, dá uma recompensa, senão, vai perder o controle da amizade.

Como eu sou doente! Eu faço isso o tempo todo. Com todo mundo. Eu peço desculpas para controlar. Sempre. Pro outro continuar gostando de mim. Isso é jogo do controle, claro. Como não percebi antes?

Não percebeu antes porque estava dentro da caverna e nem sabia. Mas agora sabe. E o que importa é daqui pra frente. Então, prossigamos…

Não sei nada disso. Já li algumas teorias sobre esse assunto, mas não tenho nenhuma experiência pessoal com isso. Contudo, sua pergunta me dá a oportunidade de fazer uma explicação. Tudo te influencia, você se determina. É muito importante entender isso. Não são apenas os reptilianos que te influenciam, tudo te influencia. Quando digo tudo, quero dizer, tuuuuuudo. A umidade do ar, o preço da gasolina, a velocidade da internet, a temperatura do sol, a quantidade de sal na comida do self service, o ph da água, a estrutura de uma molécula invisível chamada vírus, enfim, tudo, sem exceção, te influencia. Porém, só você pode optar por você. Arbítrio é incorruptível. Então, embora tudo te influencie, você se determina. Ou seja, é você que opta o que fazer com a influência que recebe, é você que opta como conviver com a influência, seja qual for.

Você é culpado pelas suas opções. Os outros são culpados pelas opções deles. Ou seja, todos os culpados são culpados, cada um com sua parcela. Assuma sua parte da culpa e deixe com os outros a parte deles. Por exemplo, uma vez eu estava dirigindo um buggy nas dunas de Fortaleza e o buggy bateu de bico. As duas moças que estavam sentadas atrás, meteram a cabeça no santo antônio (ferro de contenção do buggy). Quase racharam a cabeça e quase morreram. De quem foi a culpa pela má direção? Foi do motorista. Quem era o motorista? Era eu. Então, de quem foi a culpa pela má direção? A culpa pela má direção foi minha. As moças não morreram, mas um delas ficou com uma cicatriz na testa. Eu tenho culpa pela cicatriz dela? Parcialmente sim. E a moça é vítima? Não, pois foi ela que optou passear de buggy. Essa opção é culpa dela. E o dono da empresa que aluga o buggy tem culpa também, pois optou por alugar os buggies. E assim por diante. Cada um tem sua parcela de culpa. Assuma sua parcela de culpa e bola pra frente.

Não! Pelo contrário. Se você se sente abusado, desrespeitado, invadido pelos outros, você deve praticar estabelecer limites. Os outros não tem obrigação de respeitar seus limites. Muitas e muitas vezes irão desrespeitar. Mas se você não estabelecer seus limites de forma clara e explícita, como espera que os outros respeitem uma linha que não foi traçada? Impossível.

Outra coisa que precisa ficar óbvia é que regras é sempre para o futuro, nunca para o passado. Por exemplo, não adianta você estabelecer que o leite derramado volte para panela. O leite já foi derramado. Regrar o passado é regar mágoas. Você pode estabelecer que ninguém deve derramar leite no seu fogão. Isso sim ajuda, pois isso é para atividades futuras.

E o que fazer com o desrespeito passado?

Você escreveu a regra do fogão limpo na parede da cozinha e alguém derramou o leite no fogão. Tanto nesse caso, como sempre, você tem três opções: A) Punir o infrator para tentar controlar seu comportamento através do medo. B) Engolir o sapo (infração) para tentar controlar a percepção do infrator sobre você através da mentira. C) Expressar seu desagrado, reafirmar sua regra, repetir o pedido de colaboração e deixar o infrator livre para optar de acordo com a própria consciência e a si mesmo também.

Você está acreditando que querer é suficiente para realizar. Isso é um equívoco. Não adianta você querer, querer, querer beber água, por exemplo. Querer beber água não mata sua sede. Visualizar você bebendo água também não mata sua sede. Para realizar sua vontade, você precisa pensar em uma estratégia de realização e colocá-la em prática. Para matar sua sede, por exemplo, você pode pensar assim: “vou pegar um copo, abrir a torneira, encher o copo e beber a água”. Essa é a estratégia pensada. Ao colocar essa estratégia em prática, você estará realizando sua vontade (matando a sede). Se ficar só querendo, vai morrer de sede, pois querer não realiza nada, apenas indica o que você quer realizar.

E quando uma estratégia executada não realiza o que quero, ou não é possível realiza-la? No caso da sede, se não tem copo, por exemplo.

Você deve pensar em uma nova estratégia e colocá-la em prática. Se não tem copo, você pode colocar a mão debaixo da torneira, por exemplo. Usar a mão é uma nova estratégia. Se a nova estratégia também não realizar o que quer, pense em outra nova estratégia e a coloque em prática. E assim por diante. É para isso que você tem imaginação e criatividade. Vontade é teimar em conseguir. Criatividade é teimar até conseguir.

Culpa é responsabilidade. Responsabilidade não dói. O que dói é desejo insatisfeito. Vc deseja mudar o passado. Não consegue. Desejo insatisfeito. Dói. E vai doer até desistir da missão impossível.

O que é resolver? Resolver é quando sua vontade prevalece sobre a vontade do outro? Se sim, basta você pegar um revólver e matar o outro. Pronto! Resolvido!

Imagina que você é um ser que quer aprender a jogar o jogo da liberdade. Tem dois planetas que você pode ir:

( ) planeta outroísmo
( ) planeta autoísmo

Para qual planeta você vai?

Vou para o planeta autoísmo.

Resposta errada. É do veneno que se faz o antídoto. No planeta autoísta ninguém joga o jogo do controle, logo, você não tem material de estudo para ficar consciente sobre o que é o jogo do controle e como funciona. Se você não é consciente sobre o funcionamento do jogo do controle, você não tem como optar pelo jogo da liberdade. Então, você se trancou no planeta do outroísmo, onde todos jogam o jogo do controle do nascimento até a morte, 25 horas por dia, porque, ou você aprende a jogar o jogo da liberdade, ou você aprende. Você se trancou no planeta outroísmo porque sabia que iria tentar fugir da escola, e como você quer aprender, retirou de si mesmo a possibilidade de fuga.

Aprendizagem se dá pelo contraste. Preciso saber o que é jogo do controle para optar pelo jogo da liberdade.

Exato! Você aprende a não colocar a mão no fogo colocando a mão no fogo. Você aprende a não fazer merda, fazendo merda. Você aprende a jogar o jogo da liberdade jogando o jogo do controle.

Tem uma história famosa no futebol sobre isso. O técnico da seleção brasileira, num jogo de copa do mundo contra a Rússia, explicou para o jogador Garrincha tudo que ele deveria fazer para seleção brasileira marcar um gol na seleção da Rússia. “Você pega a bola na lateral, dribla os jogadores russos que vierem para marcação, chega até a linha de fundo e cruza a bola para dentro da área para cabecear que é gol”. Garrincha ouviu todas as instruções e perguntou ao técnico: “E você explicou isso para os russos também?”. Você precisa fazer sua parte, senão, nada acontece. Você precisa colocar em prática uma estratégia de realização do seu desejo. Só que os russos também querem ganhar o jogo, ou seja, os outros também estão fazendo opções a favor do seus interesses. Por isso, mesmo fazendo tudo certo, pode dar errado. É a democracia universal. Se Sartre fosse 1ficineiro, o invés de dizer “o inferno são os outros”, teria dito “o inferno é a democracia”.

Viver não é sempre um mar de rosas. Viver é um pacote de viagem completo que contém tudo, tanto as partes boas como as partes ruins. Viver é mar que sobe e desce alternando dores e delícias. A mesma onda que te afunda na dor, assim que muda de fase, te eleva ao pico mais alto da felicidade, depois te afunda novamente e te eleva novamente. E assim por diante, num sobe e desce sem fim. Então, só um jeito de evitar a dor: não vivendo. É isso que você faz. Você se proíbe de viver. É uma delícia passear ao ar livre sentindo a brisa, mas você pode pegar um resfriado. É uma delícia sentir o aroma das rosas, mas você pode se furar com os espinhos. É uma delícia brincar com o mágico, a trapezista, a bailarina, o domador de leões e todos os integrantes do circo humano, mas eles podem te fazer de palhaço. Viver é perigoso. Melhor não viver para não arriscar sentir dor. E como faz para não viver? Você pensa em duas opções. Opção A: sair da brincadeira (suicídio). Opção B: fazer igual os três porquinhos, construir uma casa bem forte, impermeável e morar dentro dela para não ser comido pela dor do infortúnio, da rejeição, da frustração, da decepção, etc. Você se encolhe e vive entocado feito tartaruga. Ao fazer isso, além de não ganhar da dor, você ainda perde a alegria de viver. Por isso volta a pensar na opção A. Mas tem também a opção C, que você nunca considera: se permitir sentir dor. O benefício da opção C é finalmente conseguir realizar o motivo de ter nascido: viver.

Um náufrago estava caminhando por uma ilha deserta quando viu uma pessoa se afogando no mar. O náufrago se jogou na água, salvou a pessoa e a levou para ilha. Chegando na ilha, descobriu que a pessoa era a Sharon Stone. Muito agradecida, Sharon Stone disse ao náufrago para pedir o que quisesse em retribuição ao salvamento. O náufrago não hesitou e disse: “Quero fazer sexo com você!”. Durante dois mês eles transaram todos os dias e o náufrago ficou muito feliz. No terceiro mês o náufrago começou a ficar deprimido. Sharon Stone percebeu e perguntou se podia fazer algo mais para deixá-lo feliz. Sem hesitar, o náufrago pegou um velho baú de roupas e vestiu a Sharon Stone de paletó e gravata. Depois disse: “Faz de conta que essa parte da praia é a empresa em que eu trabalhava e você é meu colega de trabalho. Eu vou ficar parado aqui como se estivesse no elevador lotado. Você chega e me cumprimenta”. Sharon Stone achou estranho, mas concordou. Ela entrou no elevador fictício vestida de homem e disse: “Olá, tudo bem com você?”. E o náufrago respondeu entusiasmado: “Raaaaapaaaaz, você não vai acreditar! Tô comendo a Sharon Stone!”.

Entendeu o fundamento da treta? Por isso você jamais recebeu e jamais receberá uma mensagem no privativo dizendo que tem pinto pequeno ou que é gorda balofa. Glorificação e difamação só funcionam quando tem platéia. Quem joga flores ou tomate é o público. Difamação privada vai direto para privada. Não tem poder nenhum. Difamação só funciona quando é feita na rede globo em horário nobre. Difamação privada não é difamação, é conversa. Você envia uma mensagem descrevendo o desafeto com a intenção de conversar e resolvê-lo, não de piorá-lo.

— Por que você mata seu vizinho no videogame, mas não mata na realidade?
— Porque na realidade tem consequências, no videogame não.
— No videogame tem consequências também.
— É verdade.
—Então, qual é a diferença?
— Nenhuma!
— Se não tem diferença, por que você se comporta diferente?
— No videogame, se coloco a mão no fogo, não dói, na realidade dói.
— Sendo assim, qual é a diferença?
— Minha realidade não é a mesma do meu avatar.
— Por que você diz “meu avatar” se é você que está jogando?
— Meu avatar me representa no videogame, mas não sou eu, meu avatar é outro-eu. Eu estou do lado de fora, controlando meu outro-eu.
— Exato! Seu avatar é outro. Você controla esse outro com o joystick. Você opta pelo outro. Você manda o outro colocar a mão no fogo e ele obedece. Mas quem experimenta a dor é o outro, não é você. Sendo assim, qual é o paralelo entre isso e outroísmo?
— Não sei. Qual é?
— Outroísmo impositivo é jogar vídeo game com o outro ser humano. Outroísmo impositivo é quando o outro é seu avatar. Você controla o outro para que ele faça sua vontade, para que ele opte pelo que você supõe que é melhor para ele. Mas quem experimenta a opção é ele, não você. Então, é fácil ser outroísta impositivo, você obriga o outro a meter a mão no fogo e quem sente a dor é o outro, não é você.
— Nossa, é mesmo!
— Outroísmo submisso é vídeo game ao contrário. Você é avatar do outro. Você deixa o outro te controlar. Você opta pelo que o outro diz que é melhor para você. Mas quem experimenta a opção é você, não é o outro. Ou outro não sente nem uma gota da dor que você está experimentando. Daí, você fica se sentindo vítima, como se não estivesse optando por obedecer.
— Verdade também!
— Viver autoísta é colocar o controle na mão do próprio avatar. Você que experimenta sua opção, então, você que opte pelo que é melhor para você. Eu que experimento minha opção, então, eu que opto pelo que é melhor para mim. Play and let play!

Não, julgar é você raciocinando, avaliando, analisando algo. Sem julgamento você é incapaz de entender as coisas. Outroísmo é quando, após o julgamento, você condena a pessoa a ser igual você, pensar igual você, gostar igual você, valorizar igual você. Jogo do controle é quando você executa punição ou suborno para realizar esse objetivo de fazer o outro igual você.

O outro pode interferir totalmente na sua realidade. E vice-versa. O universo é liberdade absoluta. Todos os seres são absolutamente livres. Seres que estão sendo humanos, seres que estão sendo animais, seres que estão sendo insetos, seres que estão sendo samambaia, seres que estão sendo pedra. Enfim, todos. Essa liberdade absoluta é tanto fonte das dores como das delícias da convivência entre os seres. Dito isso, acrescento que um é absolutamente impotente em determinar a realidade do outro. Interferir não é determinar. Vamos estudar isso em outros livros.

Talvez você e a outra pessoa estejam falando a mesma coisa de jeitos diferentes. Você é 100% culpado pelo que você opta. O outro é 100% culpado que ele opta. Então, quando você e o outro se relacionam, sendo que você é 50% do relacionamento e o outro é 50%, está correto dizer que cada um é 50% culpado pela produção do relacionamento. E assim por diante. Num time de futebol, por exemplo, cada jogador do time tem 9,09% de culpa no resultado do jogo, pois são 11 jogadores. Se somar com os 11 jogadores do outro time, cada um tem 4,5% de culpa, pois foram os 22 jogadores que produziram o resultado do jogo, cada um com 100% de culpa por suas opções.

Culpa é responsabilidade. Você é único culpado pelas suas opções. Fugir da culpa é entrar no vitimismo, talvez por isso a depressão. Não resolve fugir da culpa, só mantém você preso no vitimismo. Eu, por exemplo, fiz muita merda na vida. E tudo culpa minha. Uso as merdas que fiz para adubar o jardim das melhores escolhas. Cagou está cagando. Não adianta chorar o leite derramado, nem a cagada. Limpa o leite, usa merda de adubo para melhores escolhas. Mas isso só é possível se você entender que é culpado por suas escolhas, senão, vai viver fugindo da sua responsabilidade e inventando bodes expiatórios para colocar a culpa.

Parece estranho querer problema, mas é isso que você quer. Você é inteligência. Inteligência gosta de resolver problemas. É entrando na problemática que a inteligência brinca de solucionática. Você está humano porque viver bem, sendo humano, é um problemão, requer muita inteligência.

Um dos desafios da problemática humana é entender que viver bem não é vida boa. Vida boa é a crença de que viver bem é viver sem problemas. Acreditar em vida boa é igual acreditar em andar de bicicleta sem precisar se equilibrar. Como executar uma solução sem problema? Impossível! Vida boa é um equívoco. Você só acredita em vida boa porque acreditar em vida boa faz parte da problemática humana.

Viver bem não é sem mal. Viver bem é lidar bem com o mal, com o ruim, com o desagradável, como o adverso, com o desconforto, com a decepção, com a injustiça, com a mentira. Enfim, viver bem é fruto de maestria em solucionática. Cada ser humano é um ser adquirindo maestria em solucionática humana, por isso, cada um com seus problemas.

Culpa é sinônimo de responsabilidade. São duas palavras diferentes para dizer a mesma coisa. Responsabilidade é sinônimo de arbítrio. Também são duas palavras diferentes para dizer a mesma coisa. Então, culpa é arbítrio. Você é o único culpado por tudo que você opta. Logo, você é 100% culpado por suas opções. Por exemplo, você decide comer feijão. Quem é culpado por você estar comendo feijão? Você. É 100% culpa sua, pois foi você e só você que optou por comer feijão. Você decide se casar. Quem é culpado por você estar casado? Você. É 100% culpa sua, pois foi você e só você que optou por se casar. E assim com tudo. Você é sempre 100% culpado por tudo que você opta. Se não, quem é?

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