Um amigo me enviou a foto de um coreto. Tá vendo a foto, caro leitor? É essa foto ae! “Ora! É um coreto! E daí?”, você me diz. Calma, Bete, Calma! Esse coreto fica em Belo Horizonte, dentro de um famoso parque da cidade. “E daí?”, você repete com descaso dobrado. Afff!
Caro leitor, o dito cujo coreto é um osso de dinossauro na pré-história da 1ficina. Sim, a 1ficina era um embriãozinho — ou, para ser exato, nem isso, apenas uma fumaça na minha cabeça — quando a história deste coreto aconteceu. Vou contar a história.
No início de minhas incursões no autoconhecimento, eu tinha o hábito de reunir pessoas para conversar sobre o sentido da vida. Um amigo lá de BH, com aquele entusiasmo de quem descobriu a pólvora, juntou um grupo e me intimou a ir lá riscar um fósforo.
O lugar tinha que ser democrático, ou seja, de graça. Foi no parque. E o ponto de encontro, para evitar a fadiga, o coreto. Óbvio. A turma chegou. Éramos oito, se não me falha a memória. Numa espécie de ‘movimento sem-terra’, ocupamos o coreto, que estava vazio.
Comecei a falar. E o universo, com aquele timing que só ele tem, decidiu que era hora de dar um banho na cidade. Abriu-se a torneira. Caiu um toró!
Ocorre que, num raio de duzentos metros, o único telhado que existia era o que estava sobre nossas cabeças. Num piscar de olhos, o coreto virou a Arca de Noé. Maratonistas, o pipoqueiro, casais namorando — toda a fauna urbana subiu no coreto para se salvar do dilúvio.
A cena ficou assim, meio surreal: oito pessoas sentadas no chão, mergulhadas num papo cabeça, e oitenta em volta, espremidas, ouvindo, à contra gosto, falas sem pé nem cabeça.
Fiquei num impasse: Continuo falando, mesmo com essa plateia imensa que não vai entender bulhufas? Ou pauso, espero a chuva passar e a galera se dispersar?
A chuva não parecia ter pressa. Decidi aplicar uma máxima do autoconhecimento: foda-se! E segui falando. Até porque, ironicamente, estava falando justamente sobre ligar o foda-se.
Eu falava. E a plateia ria. Riso alto, de anomalia, de quem vê um ET. “Que diabo diz este maluco?”, o riso dizia, incrédulo. Mas, aos poucos, o contexto foi se impondo. A plateia inesperada, pasmem, começou a interagir. Sim, com comentários, risadas de concordância e até olhares de quem estava finalmente entendendo.
Meia hora depois, o céu sossegou. A chuva desapareceu, o povo desceu do coreto e voltou a caminhar pelo parque, como se nada, absolutamente nada, tivesse acontecido. Como quem assiste a um vídeo engraçado na internet, dá uma gargalhada genuína, e depois esquece.