CIÊNCIA DO ÓBVIO

25/05/2016 by in category Livros with 0 and 0
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01 | EXPLICAÇÃO DO ÓBVIO

Meu trabalho, tanto nesse livro, como em todos os livros da 1ficina, é deixar você óbvio para si mesmo. Mas a explicação do óbvio não é o óbvio. Aliás, óbvio é inexplicável. A coloração de uma cor é óbvia e inexplicável. Amarelo é obviamente e inexplicavelmente amarelo. Como explicar a amarelidade do amarelo? Impossível e desnecessário. Para explicar a amarelidade do amarelo basta apontar para o amarelo. O olhar olha e vê. Pronto! A amarelidade do amarelo está explicada sem explicação, está óbvia. Explicar o óbvio é como explicar cor para cego. É inútil e impossível. Então, por que me disponho a fazer isso? Porque você, leitor, não é cego para o autoconhecimento, apenas está dormindo, apenas está de olhos fechados, apenas está em estado de autoignorância. Você pode abrir os olhos e sair da autoignorância. Você pode praticar ciência do óbvio e despertar para si mesmo. Meu trabalho não é lhe despertar, pois despertar o outro é impossível, mas posso lhe ajudar. Para tanto, meu primeiro conselho, é que não leia esse livro, nem qualquer outro livro da 1ficina, tentando aprender o que você é, leia buscando despertar para o que você é. Explicações sobre o que você é são placas que apontam para você, mas você não é uma explicação. Você é obviamente você. Boa leitura!


02 | AUTOCIÊNCIA E OUTROCIÊNCIA

Ciência não é disciplina escolar. Ciência é consciência. Ciência é saber. Praticar ciência do óbvio é praticar autociência, ou seja, praticar saber de si. A metodologia da autociência é similar à tradicioinal metodologia científica, a diferença é o objeto de estudo. Quando você direciona sua consciência para estudar o outro, por exemplo, a matéria, a luz, as células, as estrelas, as plantas, a sociedade, os bichos, etc, você está praticando outrociência. Física, por exemplo, é outrociência pois é você estudando a matéria (outro), astronomia é outrociência, pois é você estudando os astros (outro), química é outrociência, pois é você estudando as moléculas (outro), sociologia é outrociência, pois é você estudando a sociedade (outro). Tudo que você tradicionalmente chama de ciência é outrociência, pois é você estudando o outro. Quando você direciona sua consciência para estudar a si mesmo, sua existência, sua cognição, seu desejo, suas crenças, suas emoções, seus valores, etc, você está praticando autociência. Outrociência produz conhecimento. Autociência produz autoconhecimento.


03 | O QUE É ÓBVIO?

Óbvio é um estado consciencial. Óbvio é você consciente (sabendo). O estado consciencial oposto ao óbvio é ignorância, INconsciência. Por exemplo, é óbvio que você está lendo esse texto, pois você está consciente da leitura. É óbvio que esse texto está escrito em português, pois você está consciente do idioma em que está escrito. É óbvio que você está pensando sobre essa explicação, pois você está consciente do seu pensamento. E assim por diante. Consciente e INconsciente são seus dois possíveis estados de consciência. Aplicando isso ao autoconhecimento, você pode estar consciente ou INconsciente de aspectos de si mesmo. Quando você ESTÁ consciente = óbvio. Quando você ESTÁ INconsciente = não óbvio (ignorante).


04 | OBJETO VOCÊ

Tem uma coisa da qual você está sempre ciente e não tem como deixar de estar. Que coisa é essa? Essa coisa é você! Não importa aonde você vai, você sempre vai junto. Não importa se é ontem, hoje ou amanhã, você sempre está presente. Não importa a velocidade que você se desloca, você nunca fica para trás. Ciência do óbvio é fazer o que você está sempre fazendo: saber de si. “Mas se eu já sei de mim e não tenho como deixar de saber, por que praticar ciência do óbvio?”. Porque você está sempre sabendo de si, mas ignora o que é isso que você está sabendo. Você sabe que é um ser humano. Isso é óbvio! É inegável. Mas o que é ser humano? Do que se trata? Como funciona? Você não sabe! Para ficar óbvio, você deve praticar ciência do óbvio.


05 | PROBLEMÁTICA

— Como viver bem?
Por que você vive mal?
— Eu não sei.
Perfeito! É exatamente por isso que você vive mal.
— Como assim? Não entendi.
Eu não sei = eu ignoro. Entendeu agora?
— Ainda não.
A causa de você viver mal é sua ignorância.
— Ignorância do que?
Ignorância de si.
— Não saber quem sou?
Ao invés de “quem”, melhor trocar por “o que”.
— Não saber o que sou?
Exatamente!
— Mas eu sei.
Então, me diga: o que você é?
— Sou um ser humano.
E o que é ser humano?
— Não sei.
Pois é!
— Mas porque ignorar o que é ser humano me faz viver mal?
Faça o seguinte experimento. Desligue o monitor do seu computador e tente navegar na internet.
— Impossível fazer isto com o monitor desligado.
Exato! Assim como sua ignorância da tela do computador lhe impossibilita de lidar bem com computador, sua ignorância do que é ser humano lhe impossibilita de lidar bem consigo mesmo, ou seja, lhe impossibilita viver bem.
— Ignorância não me impede de viver!
Exato! Não te impede de viver, te impede de viver bem. Você vive, mas vive mal.


06 | SER HUMANO FULANO

Você vive mal porque ignora o que é ser humano. Então, a solução para você viver bem, é praticar autociência (ciência do óbvio) e sair da ignorância. Só que ser humano é três em um. 1) Você existencial (ser), 2) você psicológico (humano) e 3) você pessoal (fulano). Para viver bem você deve ficar consciente dos três: ser humano fulano.

EU EXISTENCIAL (SER) = Sua existência.
EU PSICOLÓGICO (HUMANO) = Seu sistema operacional humano.
EU PESSOAL (FULANO) = Conteúdo pessoal do seu eu psicológico.


07 | SEXTO SENTIDO

Como se pratica autociência? Através da prática da autoobservação. O que é autoobservação? É seu sexto sentido. Você já viu o amor? Já pegou uma ideia? Já cheirou um desejo? Não! Contudo, é óbvio que tudo isso existe. Mas como você sabe que existe se você não observa nada disso com os cinco sentidos? Você sabe que existe porque você tem um sexto sentido chamado AUTOOBSERVAÇÃO. É através da autoobservação que você vê, cheira e toca em si mesmo. É através da autoobservação que você vê, cheira e toca no ser humano que você é.


08 | AUTOOBSERVAÇÃO EXISTENCIAL

O que é existir? Essa é a pergunta a ser respondida na prática da autoobservação existencial. Você deve observar sua experiência até descobrir o que é experimentar. Quando você descobre, você tem um despertar existencial. Despertar existencial é instantâneo. Você desperta para sua existência e pronto! Fim. Acabou. O grande obstáculo para o despertar existencial é a crença de que despertar existencial é uma experiência. Algo como transar com deus dentro de um buraco negro e depois explodir num orgasmo cósmico. Isso até pode acontecer, mas isso não é despertar existencial. Despertar existencial não é uma experiência, é ficar consciente sobre o que é experimentar. Não tem nada mais sem graça do que o despertar existencial. Você fica consciente que existe. Só isso! Qual a graça? Nenhuma! Por que tanto blablabla sobre um treco absolutamente sem graça? Porque, obviamente, quem fala não sabe do que está falando.


09 | AUTOOBSERVAÇÃO PSICOLÓGICA

Para produzir despertar psicológico você deve praticar autoobservação psicológica. A pergunta a ser respondida na prática da autoobservação psicológica é: como funciona a natureza humana? O que você descobre é seu funcionamento humano. Despertar psicológico é gradual e lento, mas você pode acelerar seu despertar psicológico estudando as explicações que os praticantes anteriores a você deixaram como resultado da prática deles.


10 | AUTOOBSERVAÇÃO PESSOAL

Para produzir despertar pessoal você deve praticar autoobservação pessoal. A pergunta a ser respondida na prática da autoobservação pessoal é: como eu funciono? O que você descobre é seu conteúdo pessoal. Despertar pessoal é gradual, extremamente lento, e não adianta estudar as explicações que os praticantes anteriores deixaram como resultado da prática deles, pois é pessoal. Você pode até contar com a ajuda de psicólogos e terapêutas para prática da autoobservação pessoal, mas ainda assim, ninguém é capaz de acessar seu conteúdo pessoal, só você pode fazer isso, então, pouca ajuda pode ser fornecida nesse caso.


11 | ATRAVESSE SUA PONTE

A explicação do óbvio é uma ponte até o óbvio. Para comprovar a explicação, você deve atravessar a ponte. Pratique autoobservação e atravesse sua ponte. Boa travessia!

PERGUNTAS E RESPOSTAS

PERGUNTA: Despertar existencial é consequência do despertar psicológico e pessoal?

Não! Despertar existencial é consequência da prática de autoobservação existencial. Por isso que você pode ter um despertar existencial e continuar vivendo mal. Seu despertar existencial não lhe faz consciente de como sua natureza humana funciona e como você funciona dentro dela. Você pode despertar para sua existência, mas continuar ignorante do óbvio psicológico e assim continuar vivendo mal.


PERGUNTA: Nunca ouvi falar em autociência. De onde você tirou isso?

A palavra autociência não existe no dicionário. Quando comecei a explicar a prática da autociência, usava a palavra “autoconhecimento” para me referir ao conteúdo das explicações. Só que autoconhecimento é produto da prática da autociência, não é a prática. Então, para fazer essa distinção, criei a palavra autociência. As disciplinas acadêmicas mais próximas da autociência são a filosofia e a psicologia.


PERGUNTA: Como resistimos ao óbvio?

Resistência, psicologicamente falando, é preguiça. Para sair de um nível de consciência, é preciso vencer a resistência mental, ou seja, é preciso vencer a preguiça de pensar. O ser humano é um ser atolado na resistência mental. O ser humano se orgulha de ser racional, se diz pensante, mas fica só no orgulho mesmo. O ser humano não pensa. Até para fazer as quatro operações matemáticas básicas o ser humano usa a calculadora, tamanha é a resistência mental em que está atolado. O que o ser humano faz é decorar nomes, discursos alheios, explicações acadêmicas, preconceitos culturais e repetir isso até babar. O que o ser humano faz é copy paste do copy paste do copy paste. E o ser humano chama isso de pensar. E ainda briga de faca, metralhadora e bomba atômica com quem discorda do que ele pensa que pensa. O ser humano é um ser com profunda preguiça mental. Observe, por exemplo, o tanto de cursos e livros que prometem resolver seus problemas por você. A pessoa paga os tubos para resolver algo que basta pensar 5 minutos e já está resolvido. Mas e a preguiça de pensar? Paga 10 mil reais e até mais se for preciso, mas… Pensar não! Pensar nunca! Pensar jamais! Por isso não faço terapia com ninguém. Fazer terapia é empurrar pedra. Você já empurrou uma pedra? O que acontece quando você pára de empurrar? A pedra volta a ficar parada. Fazer terapia é empurrar preguiçoso. A pessoa tem preguiça de pensar e paga o terapeuta para pensar para ela. Quando uma pessoa assim me procura, digo que não sou terapeuta e aconselho entrar no ciclo de estudos. A pessoa sai correndo. Tem que pensar! Pensar não! Pensar nunca! Pensar jamais! E vai tomar antidepressivo, ayahuasca, fazer curso de unicórnio quântico, qualquer coisa, menos pensar. Então tá! Continua sofrendo sem entender porque!


PERGUNTA: Você diz que o ser humano tem preguiça de pensar, mas não pensar é impossível, pois o pensamento é involuntário. Como fica então a questão da preguiça?

Tem dois tipos de pensar. Tem o pensar subconsciente, que é automático, tal como você está apontando. E tem o pensar consciente, que é pensar o pensamento. Pensar o pensamento = autoanálise. O ser humano tem preguiça e incompetência para fazer autoanálise, ou seja, pensar o pensamento.


PERGUNTA: A qualidade da observação do céu depende da ferramenta mais apropriada. No caso da autociência, qual é a ferramenta mais apropriada?

No caso da autociência, não se trata de ferramenta mais APROPRIADA, se trata de ferramenta menos ATROFIADA. A qualidade da autoobservação depende do grau de discernimento. Só que ninguém nunca te incentivou a desenvolver o discernimento. Muito pelo contrário, todos os seus educadores lhe ensinam a decorar e acreditar. Até porque, seus educadores também foram ensinados a decorar e acreditar. Você aceita esse tipo de educação porque é mais fácil acreditar do que discernir. E é assim que seu discernimento se atrofia ao invés de se desenvolver.


PERGUNTA: Onde está a ciência pura (saber puro)?

A ciência (saber) não está em lugar nenhum: é voser (você-ser). “Onde” é a mentalidade materialista tentando construir a casa começando pelo telhado. A mentalidade materialista precisa objetivar tudo, coisificar, dar dimensão, localidade, duração, etc, senão ela não tem onde se segurar. Como que a mão vai pegar nada? O problema da mentalidade materialista é o no_thing (não_coisa). Pior do que não ter coisa nenhuma para pegar, é perceber que até a mão que pega também é uma coisa, logo, voser não é coisa nenhuma.


PERGUNTA: Ciência do óbvio é investigar meu estado consciente e inconsciente?

Praticar ciência do óbvio é praticar ficar consciente de si, do ser humano que você é. O estado consciencial oposto ao estado consciente é o estado de ignorância, que é sinônimo de inconsciente. Então, na prática da autociência, você não investiga seu ESTADO de consciência, você observa o ser humano que você é, para que através da autoobservação, você saia do estado de ignorância (inconsciente) e passe para o estado de lucidez (consciente).


PERGUNTA: Você vai me ensinar a viver bem?

Autociência não ensina como você deve viver, apenas revela como você já está vivendo. Você já vive. E já vive mal. Mas ignora o que é viver e porque vive mal. A prática da autociência deixa óbvio o que é isso que você já faz: viver. E porque faz isso mal (vive mal). Se você não quer descobrir o que é isso que você já faz, viver, tudo bem, não é obrigatório, é opcional. Se você prefere continuar vivendo mal, tudo bem. Viver lúcido é melhor do que viver ignorante. Viver bem é melhor do que viver mal. Mas a função de um instrutor de autociência não é te convencer disso. É apenas te explicar isso.


PERGUNTA: Eu sou meu observador, mas minha observação é doentia. E agora?

Autoobservação doentia é um jeito de descrever o problema, entendo. Porém, mais correto é dizer autoanálise doentia. Para curar seu mal viver não basta só você se observar sem discernimento do que está observando. Fazer isso é igual você mostrar um celular para um neném. O neném vai ver tudo, mas não vai entender nada. Por isso não vai conseguir lidar bem com o celular. Então, você precisa aprimorar seu discernimento e entendimento do que está observando para poder curar seu mal viver. E para isso, claro, você precisa de um mestre absolutamente infalível que lhe ajude nesse trabalho. Esse mestre se chama sofrimento. Estudaremos isso com profundidade em outros livros: o sofrimento é o mestre.


PERGUNTA: Quando preciso ficar consciente? O tempo todo?

Você não PRECISA ficar consciente nunca. Não é uma obrigação. E nem consegue ficar por muito tempo. Tente ficar consciente da sua respiração por cinco minutos, por exemplo. Se você conseguir um minuto, é recordista mundial. E consciente de si você sempre está em algum nível. Então, você DEVE ficar MAIS consciente de si quando é necessário. Quando não é necessário, necessário não é. E quando é necessário? É necessário quando você está vivendo mal. Por que é necessário quando você está vivendo mal? Porque você só vive mal quando está ignorante, quando você está consciente, você vive bem. Então, para sair do mal viver e entrar no bem viver, você deve ficar consciente do que está sendo ignorado e que, por estar sendo ignorado, está resultando em viver mal. Para fazer isso você deve praticar autoobservação e autoanálise tendo como objeto de estudo o mal viver que está experimentando. Eis quando é fundamental ficar super consciente, no nível mais alto possível.


PERGUNTA: Fato e óbvio são sinônimos?

Não! Fato = observado. Óbvio é quando você (observador) está consciente do observado. Só que os dois (observado e consciência do observado) acontecem ao mesmo tempo em você. Quando você não está consciente do observado, não existe observado para você. Então, é por isso que tudo que é fato para você, é óbvio para você, mas óbvio e fato não são a mesma coisa.


PERGUNTA: Quando você diz que não temos acesso ao outro, você está se referindo ao eu pessoal?

Me refiro ao outro em todos seus três aspectos: existencial, humano e pessoal. Você nunca tem, nunca teve e nunca terá acesso ao outro de forma alguma. Você é você porque não é o outro, porque não tem acesso ao outro. Só cada um sabe de si, tanto existencialmente, como humanamente e pessoalmente. Porém, quando eu desperto para minha existência, o que fica óbvio para mim é o mesmo que fica óbvio para qualquer outro ser do universo: que eu existo. Então, é como se eu tivesse acesso a você (outro). Por isso posso lhe falar sobre o que você irá descobrir quando despertar existencialmente. E quando desperto para minha humanidade, o que fica óbvio para mim é o mesmo que fica óbvio para qualquer ser humano: que sou humano. Então, é como se eu tivesse acesso a você também. Por isso também posso lhe falar sobre o que você irá descobrir quando despertar psicologicamente. Mas quando desperto pessoalmente, o que fica óbvio para mim é justamente meu diferencial, por isso só serve pra mim.


PERGUNTA: Eu posso ser acessado pelo outro de alguma maneira?

Não, é Impossível. Cada um só tem acesso a si, tanto existencialmente, como psicologicamente e pessoalmente. Porém, na brincadeira de ser humano existe a possibilidade da comunicação conceitual. Então, através de palavras, mesmo sem termos acesso uns aos outros, mesmo sendo impossível, podemos usar as palavras para simular uma espécie de acesso ao outro. Não é acesso de fato, é uma estratégia muito falha e ruidosa, mas é melhor que nada.


PERGUNTA: Estou instigada a buscar o óbvio na vida. Estou no caminho certo?

Infelizmente não! O problema é que você acredita que pensar é saber e por isso acredita também que autociência é aprendizagem. Autociência não é aprendizagem, autociência é a prática de investigar a ignorância para sair dela. Quando você investiga sua ignorância, você não está aprendendo nada, você está DEScobrindo o que está ENcoberto. Encoberto = ignorado. Descoberto = óbvio. O que está encoberto? O ser humano que você é. Para praticar autociência você deve se debruçar sobre si e não sobre a vida. Vida é mentalidade materialista. Não existe vida. Só existe viver. Para praticar ciência do óbvio você deve investigar o que é viver e como você vive, não a vida.


PERGUNTA:  Autociência é desaprender tudo o que foi construído?

Vamos supor que na infância você queria ter uma bicicleta e aprendeu que devia escrever uma carta para o papai noel, enviar sua carta para o polo norte e esperar o gordinho descer pela chaminé com sua bicicleta. Sua casa sequer tinha chaminé, você morava em um apartamento, mas ainda assim acreditou no que aprendeu e por isso vivia assim. Agora que você é adulta, está óbvio que papai noel não existe, que é uma fantasia para entreter as crianças e que a bicicleta que você ganhou de natal foi comprada de fato pelo seu pai. Ao descobrir isso, você DESAPRENDEU a história do Papai Noel? Não! Apenas colocou a aprendizagem no seu devido lugar: fantasia para entreter as crianças. Para viver bem, você não precisa desaprender nada, você precisa se desequivocar. Imagine se até hoje você acreditasse que para obter algo desejado você tivesse que escrever cartas para o Papai Noel? Você iria viver bem assim? Não! O que impede você de viver bem é que você acredita em equívocos. Só que você PENSA QUE SABE. Então, o problema não é nem que você ignora seus equívocos, você ignora que ignora. É passo a passo para sair dessa cebola de equívocos. Mas não precisa desaprender nada, basta despertar. Desaprender é outra arapuca do equívoco da aprendizagem, é apenas trocar uma aprendizagem por outra.


PERGUNTA: Óbvio é absoluto ou tem variações?

São três tipos de óbvios: óbvio existencial (ser), óbvio psicológico (humano) e óbvio pessoal (fulano). Então, são três tipos de absolutos: absoluto existencial (ser), absoluto psicológico (humano) e absoluto pessoal (fulano). Ou seja, todos os seres que despertam existencialmente ficam conscientes da mesma coisa: o que é ser (existir). Todos os seres humanos que despertam psicologicamente ficam conscientes da mesma coisa: o que é ser humano. Cada um, ao despertar pessoalmente, fica consciente de algo singular: o que é ser humano eu.


PERGUNTA: As pessoas brigam pela verdade e por fim dizem “eu tenho a minha verdade e você tem a sua”. Óbvio é verdade?

Verdade é correlação. “Tomate é fruta” é uma verdade. As pessoas tem correlações diferentes e por isso tem verdades diferentes. “Tomate é legume” é uma correlação diferente de “tomate é fruta”. Só briga pela verdade quem ignora que verdade é correlação, logo, pessoal. Quem sabe que verdade é correlação não é tonto de ficar perdendo energia para brigar sobre correlação. “Eu tenho a minha verdade e você tem a sua”, ou seja, “eu tenho a minha correlação e você tem a sua”. Sim, isso mesmo! Óbvio!


PERGUNTA: Porque aprender o que é ser humano se um dia vou morrer e esse aprendizado se dissipará?

A finalidade da prática da autociência não é APRENDER o que é ser humano, é DESPERTAR para o ser humano que você é. O benefício de despertar para o que é ser humano é o mesmo benefício de descobrir como funciona o whatsapp, como funciona um liquidificador ou como funciona uma escova de dentes.


PERGUNTA: Existe alguma prática que me ajude a sair da mentalidade materialista além de autoobservação?

Não! Porém, para ter um despertar existencial, você deve praticar autoobservação existencial. Autoobservação psicológica não produz despertar existencial, produz despertar psicológico.

PERGUNTA: Existe uma forma específica de autoobservação existencial?

Sim! A prática da autoobservação existencial é feita através da observação da observação. Você deve observar o observar. Você deve ficar ciente sobre a ciência. Você deve saber da sua cognição. O objeto da sua observação deve ser sua própria observação.

PERGUNTA: Devo observar pura e simplesmente ou analisar a observação?

Raciocínios (pensamentos) surgem na autoobservação porque são objetos psicológicos observados. Basta perceber isso. Só perceber. Observe os pensamentos superficialmente. Seu trabalho na autoobservação existencial não é entrar na lógica dos raciocínios, é apenas constatá-los como realidade (experiência). Raciocínios são experiência. Só isso. Mas se você entrar em processo de analise, se entrar na lógica de um raciocínio, tudo bem, você nem irá perceber que entrou e tão logo perceber, é porque já saiu. Entenda que se você está praticando autoobservação existencial para sair da mentalidade materialista, é porque você está dentro dela. Então, faça igual Renê Descartes, vai saindo passo a passo. Tudo que você observar, perceba que é apenas um observado, uma experiência. Só isso! Você vai fazendo isso e daí se dá conta que, por mais que você observe, você não consegue observar a observação. E é assim que você se dá conta da “observação pura”. Fica óbvio. E fica óbvio também que o que existe é observação e não observado. Como quem está observando é você… EUreka! Eu existo! Despertar existencial! Essa é a explicação do óbvio. Mas a explicação do óbvio não é o óbvio. Então, boa prática!


PERGUNTA: Você diz que aluno não gosta de praticar autociência. Por que não gosta?

Aluno é preguiçoso. Aluno tem preguiça de pensar. Aluno que gosta de praticar autociência não precisa de professor, pratica autoobservação, pensa e descobre sozinho.

PERGUNTA: Autoconhecimento é sempre fruto do raciocínio? Ou pode acontecer sem raciocínio?

Conhecimento de causa é através do efeito. É muito importante entender a sutileza disso. Não tem como conhecer a causa pela causa, conhecimento é sempre pelo efeito. Por exemplo, você não conhece a gravidade em si, você conhece pelo efeito. Você não conhece a luz em si, você conhece pelo efeito. O mesmo acontece com o autoconhecimento. Você é a causa da sua experiência. Sua experiência é efeito. Praticar autociência é se conhecer como criador através da sua criação, ou seja, através do efeito, e não diretamente como causa, como criador. E para descobrir a causa é preciso observar e pensar o efeito. Não tem outro jeito. Por isso, sem pensar, esquece autoconhecimento, é impossível.


PERGUNTA: Faz um tempo, me dei conta que eu não era só minha mente. Notei que conseguia observá-la. Até então acreditava que era 100% meus pensamentos e total escravo deles. Depois de estudos e pesquisas, percebi que havia um observador dos pensamentos. E até hoje sou ciente disso, se tornou óbvio. Isso mudou minha vida, pois vi que poderia mudar de pensamento e não me apegar como antes. No início foi tudo muito novo, mas depois foi ficando normal. Isso é despertar existencial?

Sim. O esperto pensa que sabe, o desperto sabe que pensa. Quando comecei a falar sobre iluminação, despertar da consciência, usava o termo “sei que sei”. Você estava no “sei”, então, se deu conta: “Peraí, eu sei, mas como eu sei que sei?”. E daí despertou para o óbvio. Você sabe que sabe porque você é saber (consciência). Consciência é uma das suas três naturezas existenciais. Tem mais duas. Estudaremos todas as três durante o ciclo de estudos.

PERGUNTA: Existem correntes filosóficas que falam que temos duas mentes (superior e inferior) seria por aí?

Você tem o telefone das correntes filosóficas? hehehe… Não conheço essa terminologia. Nem uso o termo “mente” na 1ficina, acho que é uma palavra que mais atrapalha do que ajuda, é muito ligada a mal entendidos. Mas suponho que sejam terminologias diferentes para falar do mesmo que estamos falando aqui.


PERGUNTA: Na sua convivência com pessoas que não estão conscientes nos três níveis de autoconhecimento, que estão ignorantes de si mesmas, e que diferente dos seus alunos, não tem interesse nenhum em saber disso, você: (A) Finge que não sabe o que sabe para poder conviver sem desgaste e só mantém o social, ou (B) Fala tudo que sabe e não se importa se vão te chamar de louco?

Toda vez que vocês me perguntarem sobre meu comportamento, vão me ouvir respondendo a mesma coisa: Tudo é circunstancial. Não tenho um comportamento padrão para nada. Não vivo de forma engessada, vivo com inteligência. Analiso as circunstâncias e uso minha inteligência para interagir com aquela circunstância naquele instante. Assim que faço isso, já são outras circunstâncias e outro instante. Analiso a nova circunstância naquele novo instante e uso minha inteligência novamente. E assim por diante. Então, meu comportamento depende das minhas circunstâncias. Se minha inteligência, após análise das minhas circunstâncias num dado momento, me disser que devo me comportar assim, me comporto assim, se disser que devo me comportar assado, me comporto assado. Não sigo regras de ouro, mandamentos, receitas de bolo de caixinha, nem sabedoria dos outros, nem sabedorias engessadas minhas: sigo minha inteligência viva.

Dito isso, posso dar o testemunho que, na maioria das vezes, opto por falar como o outro no idioma mental do outro (sistema de crenças do outro). Em Roma falo como os romanos. Na Grécia falo como os gregos. No materialismo falo como os materialistas. Na religião falo como os religiosos. Ou seja, ao invés de impor meu 1ficinês aos outros, eu traduzo o idioma do outro para o 1ficinês e entendo em mim o que estão me dizendo, depois devolvo a interação no idioma do meu interlocutor (idioma do outro). Não me proíbo de falar o que quero, penso e sinto, mas adapto isso ao idioma mental do meu interlocutor (sistema de crenças do outro). Se eu for falar 1ficinês, ninguém entende nada. Vou passar esse ano ensinando vocês a falarem 1ficinês aqui e nem assim vocês vão me entender. Então, muitas vezes interajo com vocês aqui na 1ficina usando o idioma de vocês. Por isso não trato vocês todos iguais, trato vocês todos diferentes. Sei que vocês são diferentes, o que inclui usarem diferentes idiomas mentais (terem diferentes sistemas de crenças). Só que aqui faço bem menos, puxo vocês para o 1ficinês, pois vocês vieram aqui para aprender a praticar autociencia e o 1ficinês é o melhor idioma para isso. Então, passo a passo, estou ensinando vocês a falarem 1ficinês.


PERGUNTA: Eu quero viver bem, mas não consigo, por que?

Porque não adianta QUERER viver bem e não SABER viver bem. Sua própria ignorância lhe condena a viver mal. Isso é para tudo. Feche os olhos e tente ir da sua casa até a padaria de olhos fechados. Se você sobreviver, já está ótimo. Abra os olhos e veja como é fácil comprar o pão nosso de cada dia. A ignorância não permite que você faça nada bem. Absolutamente nada. Para você lidar bem consigo mesmo é preciso que você saia da ignorância de si. E não tem outro caminho para sair da ignorância de si senão praticar autociência. Mais praticar muito muito muito mesmo! E praticar não é ler e estudar explicações. Isso é o básico do básico. Praticar é viver praticando, viver em eurekatividade. O resultado disso produz lucidez e maestria em ser humano fulano. O resultado da lucidez e maestria em ser humano fulano, é viver bem.


PERGUNTA: Esse jogo de ser humano vem com um manual de como viver bem?

Não. Você entra no jogo em ABSOLUTA ignorância de si e do funcionamento do jogo. Tem um jeito de jogar bem, mas você precisa descobrir. Eu descobri e explico o que descobri para quem tem interesse em cortar um atalho.


PERGUNTA: Fiz um curso sobre criação de realidade e achei a teoria linda, mas não consegui vivenciar no meu dia a dia. Eu quero colocar consciência nas minhas questões mais ordinárias, é possível?

Basta perceber que já está, não precisa colocar. Quanto aos estudos, qualquer trabalho de despertar da consciência que não explique que o caminho para o autoconhecimento é a PRÁTICA da autoobservação, não serve pra nada, só serve para produzir unicórnios espiritualistas.


PERGUNTA: Ontem peguei um pensamento doido que não é meu. Foi um pensamento ruim e estava me puxando para baixo. Autociencia ajuda a lidar bem com isso?

A prática sim, a teoria não. Isso que você descreveu é o pensamento subconsciente. Funciona por associação, por isso parece doido. Praticando autociência você fica competente em lidar bem com tudo que você experimenta, o que inclui seus pensamentos.


PERGUNTA: Meditação ajuda na autociência? Ou é besteira?

A palavra meditação está mais adulterada do que gasolina de posto barato. Atualmente a palavra meditação é usada para tudo. Meditação para ficar rico, meditação para aumentar o tamanho do pênis, meditação para trazer marido de volta, meditação do empoderamento, meditação da família, etc. Um show de horrores. Algumas pessoas fazem dinâmicas de imaginação e chamam de meditação, deveriam chamar de imaginação, uma vez que é imaginação. Tem pessoas que dão exercícios de relaxamento e concentração e chamam de meditação. Deviam chamar de relaxamento e concentração, uma vez que é relaxamento e concentração. Meditação mesmo é a prática da autoobservação. Sendo que a prática da autociência é executada através de três tipos de autoobservação: existencial, psicológica e pessoal. Então, meditação pode ser existencial, psicológica e pessoal.


PERGUNTA: Estar consciente é estar em estado meditativo?

Sim, você pode usar essa terminologia se quiser. Na prática, pouco importa a terminologia.


PERGUNTA: Como identificar se estou praticando autociência?

Seres conscientes vivem bem. Se você está vivendo mal, está na ignorância.


PERGUNTA: O medo acaba comigo. Como ganhar esse jogo?

Como lidar bem com o medo se você ignora o que é e pra que serve? Impossível. Sua luta CONTRA o medo só serve para você continuar sofrendo. Para começar a lidar bem com o medo, pare IMEDIATAMENTE de lutar CONTRA o medo e faça do seu medo um objeto de estudo. Coloque seu medo no microscópio do consciente e o investigue. Não lute CONTRA seu medo, ESTUDE seu medo. Seja um cientista e não um lutador de boxe.


PERGUNTA: Porque você se refere a 1ficina na terceira pessoa? 

É para colocar a obra na frente do autor. Se uso meu nome, o foco fica em mim, na minha pessoa, se digo 1ficina, o foco fica na explicação e não no explicador. O importante na 1ficina é prestar o serviço, ajudar no despertar da consciência e não idolatrar o funcionário que está prestando o serviço. Além disso, é um trabalho coletivo, todos que participam estão produzindo o trabalho, você inclusive.

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Através da ciência buscamos entender a realidade que experimentamos. Só que experimentar não está na realidade, cria a realidade. Sem experimentar sequer tem realidade. É por isso que a ciência nunca encontra o que procura, apenas pula de um buraco negro para o próximo. A ciência ignora a ciência, ou seja, a consciência. É impressionante!!! Pessoas tão inteligentes, supostamente as mais inteligentes entre nós, acreditando que a realidade que estão experimentando independe da experimentação. Ululante equívoco. Para entendermos criação da realidade não adianta tentarmos entrar cada vez mais dentro do fora, devemos virar a ciência do avesso e entrar dentro do dentro, dentro da fábrica da realidade.

Por que você busca autoconhecimento nos outros, nos mestres, nos livros, nas doutrinas, ao invés de buscar em si e por si? O que você quer com isso? Você quer saber com a consciência dos outros. “Buda disse isso, Jesus disse aquilo, Einstein disse que é relativo, Freud explicou, Sócrates sabe que nada sabe, etc”. E assim você segue copiando e colando sabedoria, porém, jamais sabendo. Não adianta acreditar que fogo queima, você precisa colocar a mão no fogo para saber. O mesmo com o autoconhecimento. Você deve caminhar pela autociência para saber de si e por si, não pela crença. Acreditar não é saber, é copiar e colar. Só autociência produz autoconhecimento.

Pergunta: Por que é tão difícil praticar autociência?

A coletividade humana, quase sem exceção, é constituída por aleijados científicos. Não me refiro a ciência como conhecimento, mas a prática para chegar ao conhecimento, a prática de descobrir. A habilidade da maioria das pessoas em praticar ciência é quase zero. Muito provavelmente esse é seu caso também.

Sua deficiência em praticar ciência vem da sua educação. Nem sua escola, nem seus pais, nem ninguém, lhe ensinou a praticar ciência (observação, investigação e descobrimento). Você foi educado para aprender (acreditar, imitar e repetir).

Num olhar superficial, sua deficiência científica parece irrelevante para viver bem. Você não é médico, nem biólogo, nem químico. Você não precisa praticar ciência para ganhar dinheiro, pagar as contas e viver sua vida. Só que você é um ser humano. E você sofre. E a causa do seu sofrimento é sua ignorância sobre o que é ser humano. E o caminho para descobrir não é decorar, acreditar e repetir. O caminho é praticar ciência de si, ou seja, autociência.

Então, sendo que você não tem prática em praticar ciência (observação, investigação e descobrimento), tem menos prática ainda em praticar autociência (autoobservação, autoinvestigação e autodescobrimento). Eis o motivo da dificuldade.

Você só pode caminhar com os próprios pés, mas você pode caminhar com os próprios pés em grupo. Participar de um grupo comprometido com a pratica de autociência é de grande ajuda. Caminhar sozinho é muito difícil. Você perde o fôlego e o foco. A chama da sua vela apaga com o vento da rotina. Você fica sozinho no escuro. Quando você está caminhando em grupo, o companheiro do lado empresta a chama da vela dele para acender a sua e vice versa. Esse é um grande benefício. Tem outros.

Existem dois tipos de autoconhecimento: teórico e prático. Teórico é aquele que vende em banca de revista, livraria, internet e você compra com dinheiro. Esse tipo de autoconhecimento é para quem tem interesse em participar. Autoconhecimento prático é para quem está disposto a ir além do dinheiro e do interesse, é para quem firmou compromisso consigo mesmo. A metáfora Ovos Com Bacon ilustra bem a diferença entre interesse e compromisso. Americanos comem ovos com bacon no café da manhã, então, as galinhas participam do café da manhã dos americanos, pois fornecem os ovos, os porcos estão comprometidos, pois dão a pele.

Autoconhecimento prático não é para galinhas, pois requer compromisso com a prática de autoobservação e autoanálise. E mais! Requer coragem também. Autoanálise serve para trazer a tona conteúdos psicológicos que você nega e esconde. Trazer esses conteúdos a tona é saudável e curador, mas não é nada agradável. Claro que teoria e interesse são bem vindos e tem seu lugar no autoconhecimento, pois são a porta de entrada para a prática. O problema é você ficar batendo na porta e nunca entrar. Nada se resolve na teoria. Permita-se entrar na prática e você descobrirá que dói menos se queimar feito bacon do que ficar tapando o sol com a peneira.

Verdade é o que você acredita ser verdadeiro. Só que crença não é demonstrável, então, não é comprovável. Por isso você não consegue convencer o outro de verdade alguma. Vamos supor que você acredite que Elvis Presley é lindo. Como você pode demonstrar isso? Como o outro pode comprovar? Impossível. “Elvis Presley é lindo” mora dentro da sua crença, ninguém tem como comprovar isso.

Só o óbvio é demonstrável e comprovável. E dispensa argumentos. Quando alguém não sabe que fogo queima, por exemplo, você não precisa argumentar, basta riscar um fósforo e pedir para pessoa colocar a mão no fogo. Pronto! Óbvio não precisa de advogado. Só verdade precisa convencer o juízo. Porém, não sendo óbvia, jamais convence. Por isso briga é sempre de verdade contra verdade, nunca do óbvio.

Unicórnio é uma metáfora que uso para me referir às crenças equivocadas que você tem sobre si mesmo, sobre o ser humano que você é. Você vive carregando um saco de mil toneladas de unicórnios nas costas. Ninguém merece! Nem aguenta! Autociência é cemitério de unicórnios. Conforme você vai praticando autociência, você vai matando e enterrando todos seus unicórnios, um a um. Cada passo é um unicórnio a menos para carregar nas costas. Ufa! Que alívio!

Só que não adianta enterrar unicórnio vivo. Não adianta você fazer de conta que matou seus unicórnios só para posar de iluminado. Unicórnio enterrado vivo é mais eficiente que Jesus, ressuscita no primeiro dia. Para matar e enterrar um unicórnio você precisa esclarecer seus equívocos sobre si mesmo, em si mesmo, para si mesmo e por si mesmo. Equívoco não se enterra com terra, se enterra tirando a terra.

A nova moda do imperador se chama mindfullnes. Quiquéisso? É um nome dissociado da terminologia budista, criado para levar pessoas a praticarem budismo, sem perceberem que estão praticando budismo. Em outras palavras, mindfullnes é meditação para alérgicos a religião.

E o que mindfuness tem a dizer ao mundo? E porque está se tornando popular? Vou explicar: preste atenção, preste muita atenção! Entendeu? Não? Vou explicar novamente: preste atenção, preste muita atenção! Entendeu agora? Ainda não? Vou contar uma história, talvez lhe ajude a entender.

Fiz faculdade de comunicação. Fazia parte desse curso ter aulas de propaganda e marketing. Logo na primeira aula dessa matéria, um professor com cara de integrante do clube da luta (ops! quebrei a primeira regra) perguntou para classe cheia: “Qual é a coisa mais cara do mundo?”.

O povo começou a listar produtos de grifes famosas. O professor foi balançando a cabeça em sinal de negativo para cada um deles. Depois de 10 minutos de fracasso coletivo, o professor respondeu: “A coisa mais cara do mundo é sua atenção!”.

Ninguém entendeu a resposta. Ele explicou: “10 segundos da sua atenção na rede globo, no horário nobre, custa 100 mil reais. Então, sua atenção custa 10 mil reais por segundo”. Não lembro bem o valor exato, mas era algo assim, de fazer cair o cu da bunda.

Ele completou: “Uma empresa de televisão ganha 100 mil reais em 10 segundos. E por que? Porque você não consome produtos (coisas), você consome propaganda (ideias). Quando você vai ao supermercado e compra uma bolacha nova, aquela bolacha não é nova, você já comprou aquela bolacha umas trinta vezes enquanto estava assistindo a propaganda do jornal nacional”.

Os alunos ficaram de pau duro sonhando com o poder da profissão. Eu lembrei da música dos Engenheiros do Hawaii: “Um dia me disseram / que as nuvens não eram de algodão / sem querer eles me deram / as chaves que abrem essa prisão”.

Entendeu porque mindfullnes está se tornando popular? Ainda não? Preste atenção, preste muita atenção!

A coisa mais cara do mundo não é uma coisa.

Crenças são explicações que nascem da ignorância e só sobrevivem na ignorância. Você só acredita quando ignora. Quando é óbvio, acreditar é impossível, pois a própria evidenciação é a explicação. Quando você é criança, por exemplo, você ignora como nasceu. Então, você vai perguntar sobre seu nascimento a alguém que, segundo sua memória, já existia antes de você existir. Você pergunta aos seus pais: “Como eu nasci?”. Seus pais decidem que não é apropriado lhe apresentar ao óbvio ainda e respondem: “Uma cegonha trouxe você”. Para reforçar essa crença, eles lhe mostram uma linda ilustração. Você acredita, pois ignora o óbvio. Passado algum tempo, se você é homem, você introduz o óbvio em sua parceira, ou então, se você é mulher, o óbvio é introduzido em você. Nove meses de gestação. Nasce seu filho. Morre a crença na cegonha.

A explicação do óbvio não é o óbvio. Então, para que serve? Serve para incomodar, para deixar você indignado, revoltado e com raiva. A explicação do óbvio não lhe dá nada. Nem há nada para ser dado. Você já é você. Sempre é. Nunca deixa de ser. A explicação do óbvio explica o que você é, mas não está percebendo. Isso incomoda. Causa revolta. É uma afronta a sua inteligência. “Como óbvio! Se fosse óbvio eu saberia!”, você pensa. Saber é da sua natureza, então, quando você fica sabendo que não sabe, que ignora a si mesmo, sua inteligência se revolta. Um dos propósitos da explicação do óbvio é esse: incomodar sua inteligência para retirá-la da inércia.

Uma metáfora para ilustrar isso é a produção da pérola. A ostra produz a pérola para solucionar um incômodo. O processo de produção começa quando um grão de areia consegue entrar dentro da ostra. O grão de areia irrita a mucosa da ostra. Para solucionar o incômodo, a ostra começa a envolver o grão de areia com camadas concêntricas de madrepérola. Essa substância cristaliza-se formando uma esfera ao redor do problema: a pérola. Analogamente, o mesmo acontece com você. Sua inteligência é a ostra e as explicações do óbvio são grãos de areia que irritam sua inteligência. Para resolver a irritação, você precisa sair da inércia consciencial (ignorância) e investigar o assunto. Como o assunto é você mesmo, o resultado é autoconhecimento: eurekolas.

Eu tinha muita curiosidade de provar caviar na infância, mas só servia em festa de adulto rico. Eu não era adulto nem rico, então, só me restava ficar fantasiando o sabor. Certo dia, um tio viajou para Rússia e trouxe um pote de caviar de presente para minha mãe. Fiquei doido para experimentar. Minha mãe disse que caviar era iguaria e só seria aberto numa ocasião especial. Pqp! Fazer o que? Continuei fantasiando. Quando chegou o natal, abriram o tal do caviar. Creeeeeeeedo! Foi o sabor mais horrível que jamais experimentei. Caviar tem gosto de barraca de peixe em fim de feira. Não era nada do que imaginava. Fiquei muito decepcionado.

Iluminação é o caviar dos buscadores espirituais. Só busca iluminação quem vive no mundo da fantasia e acredita que é algum tipo de transcendência. Só que é o oposto disso. É o fim do mundo da fantasia e do equívoco da transcendência. Não é sequer uma experiência, logo, nem gosto tem. Quando você desperta a consciência, você se dá conta do óbvio: eu existo. Nada além disso. Mas não adianta explicar isso para um buscador espiritual, assim como não adiantaria me dizer que caviar é horrível. Tive que me decepcionar por mim mesmo, tanto com o caviar como com a iluminação. Então, se você é um buscador espiritual, boa viagem rumo a decepção. Quando atingir a iluminação, comemore com caviar.

Qual é a graça de uma piada? Onde está a graça? De onde vem? Como acontece? Graça é um estado psicológico que surge com o entendimento de um equívoco óbvio. Contar uma piada é narrar um equívoco óbvio. Uma piada é uma história onde a moral é sempre a mesma: “Que burrice!”. Rimos porque entendemos como óbvio o equívoco. Se não entendemos como óbvio, não atingimos o estado de graça. Não rimos. Analogamente, o mesmo acontece quando você está despertando a consciência, você também atinge o estado de graça, só que a burrice da qual você ri é a sua. Você é a graça da sua iluminação.

Uma coisa é somar coisas, como uma laranja e um abacate, por exemplo. Outra coisa é somar fantasmas, como xis mais ípsilon. O resultado da soma de xis mais ípsilon é tão fantasmagórico como xis e ípsilon.

Esse é o problema de equacionar conceitos sem ter ciência do que se está equacionando. Saber a explicação não é saber, é saber que não se sabe. Quando você precisa de explicação é porque você ignora. Que explicação você precisa para saber que fogo queima? Que explicação você precisa para saber que azul é azul?

Explicações são meu bem meu mal na prática do autoconhecimento. Explicações são mapas para lhe ajudar no despertar da consciência. Só que o mapa não é o território. Por isso, quanto mais você soma, divide e multiplica conceitos, mais você afunda na matemática de fantasmas e menos entende. Saber a explicação não é estar ciente do que está sendo explicado, é apenas saber a explicação.

Quer sair da teoria? Livre-se dos livros e leia-se!

Conta a história que Newton cochilava debaixo de uma macieira quando uma maçã caiu e atingiu sua cabeça. Um acontecimento trivial, mas que, justamente pela trivialidade, acabou levando o cientista a despertar para a força da gravidade. Despertar é sempre assim, obra do susto, coisa que acontece pela benção do espirro do santo. Num momento estamos dormindo, empanturrados pela rotina e, de súbito, a mesma rotina cai feito maçã sobre nossas cabeças mudando tudo sem mudar nada.

— Quem gostaria de compartilhar? — ele perguntou.

Uma tonelada de palavras não seria suficiente para expressar o que tinha para dizer. Uma estranha consciência havia nascido dentro de mim, cristalina, lúcida, trivial, mas profundamente incomunicável. — A maçã caiu! — Eu declarei — Não chacoalhei o galho. Simplesmente caiu como um quadro que cai da parede depois de ter permanecido no mesmo lugar durante anos. Não sei porquê caiu. Sei que caiu. Sei! É óbvio.

— Alguém mais quer compartilhar? — ele disse.

Olhei ao redor. Ninguém parecia interessado em minha descoberta. Meu espanto era só meu. Minha declaração era apenas uma rotina de palavras, igual esse texto. Foi então que tive outra eureka: comunicação só é possível quando não é mais necessária.

Tanto falar como acreditar são atividades que você executa de forma automática (subconsciente). Mas você sempre pode se tornar consciente sobre uma execução subconsciente. Como? Através da autoobservação. É através da autoobservação, e só através da autoobservação, que você sai da ignorância e se torna consciente do que estava inconsciente.

Eis porque iluminação não é crença. Assim como observar o processo de falar não é você falando, é você consciente do falar que está executando, observar o processo de acreditar também não é você acreditando, é você consciente do acreditar que está executando.

Iluminação não é crença porque não é você acreditando saber, é você sabendo o que é acreditar. Só que você não sabe o que é acreditar. Você acredita que sabe. Por isso, para você, iluminação é crença.

O ditado popular diz que ninguém nasce sabendo. Isso é um equívoco. Todo ser nasce sabendo. Não apenas seres humanos, mas todos, vegetais, minerais e animais. Claro que você não nasce sabendo andar, falar português, nem nada do que aprende depois que nasce, mas se não nascesse sabendo, como saberia que não nasceu sabendo?

O que você aprende depois que nasce, não é saber, é sabedoria. Andar é sabedoria, falar português é sabedoria. Você pode aprender infinitas sabedoria, desde fazer tricô a dar um salto duplo mortal carpado, mas é impossível aprender a saber. Se fosse possível, bastaria matricular um cego em um curso de ótica e ele começaria a enxergar.

Saber é senciência, capacidade perceptiva inata de todo ser. Saber é anterior ao que você está sabendo. Por isso que toda experiência passa e o saber permanece. Saber pré-existe. Saber é sua própria natureza existencial. Você é saber. Só que você não sabe que você é saber. Você ignora sua natureza existencial. Por que?

Imagine que fosse impossível para você fechar os olhos, o que aconteceria? (1) Você confundiria o que você está enxergando (o visto) com a visão, (2) você não saberia o que é enxergar porque não saberia o que é não enxergar. Analogamente, é impossível para você não saber. Por isso, (1) você confunde o que está sabendo (sabedoria) com o saber, (2) você não sabe o que é saber porque não sabe o que é não saber. Ou seja, você ignora que nasce sabendo porque nasce sabendo.

Praticar autociência é como jogar xadrez contra a ignorância. Por isso que o mestre sempre ganha de você. O mestre é mestre porque aprendeu a jogar do lado do óbvio. O óbvio sempre ganha da ignorância. Então, o mestre não ganha de você, ganha da sua ignorância. O mestre joga a seu favor, mas faz isso dando xeque mate em seus equívocos, trazendo-os à tona para que você os evidencie e se liberte deles. O mestre ganha porque joga para perder a ignorância. Se você deseja autoconhecimento, faça como o mestre, não defenda sua ignorância, jogue para perdê-la.

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