CIÊNCIA DO ÓBVIO

25/05/2016 by in category Livros with 0 and 0

01 | EXPLICAÇÃO DO ÓBVIO

Meu trabalho, tanto nesse livro, como em todos os livros da 1ficina, é explicar para você o que você é, deixar você óbvio para si mesmo. Mas a explicação do óbvio não é o óbvio. Aliás, óbvio é inexplicável. A coloração de uma cor é óbvia e inexplicável. Amarelo é obviamente e inexplicavelmente amarelo. Como explicar a amarelidade do amarelo? Impossível e desnecessário. Para explicar a amarelidade do amarelo basta apontar para o amarelo. O olhar olha e vê. Pronto! A amarelidade do amarelo está explicada sem explicação, está óbvia. Explicar o óbvio é como explicar cor para cego. É inútil e impossível. Então, por que me disponho a fazer isso? Porque você, leitor, não é cego para o autoconhecimento, apenas está dormindo, apenas está de olhos fechados, apenas está em estado de autoignorância. Você pode abrir os olhos e sair da autoignorância. Você pode praticar ciência do óbvio e despertar para si mesmo. Meu trabalho não é lhe despertar, pois despertar o outro é impossível, mas posso lhe ajudar. Para tanto, meu primeiro conselho, é que não leia esse livro, nem qualquer outro livro da 1ficina, tentando aprender o que você é, leia buscando despertar para o que você é. Explicações sobre o que você é são placas que apontam para você, mas você não é uma explicação. Você é obviamente você. Boa leitura!


02 | AUTOCIÊNCIA E OUTROCIÊNCIA

Ciência não é disciplina escolar. Ciência é consciência. Ciência é saber. Praticar ciência do óbvio é praticar autociência, ou seja, praticar saber de si. A metodologia da autociência é similar a tradicioinal metodologia científica, a diferença é o objeto de estudo. Quando você direciona sua consciência para estudar o outro, por exemplo, a matéria, a luz, as células, as estrelas, as plantas, a sociedade, os bichos, etc, você está praticando outrociência. Física, por exemplo, é outrociência pois é você estudando a matéria (outro), astronomia é outrociência, pois é você estudando os astros (outro), química é outrociência, pois é você estudando as moléculas (outro), sociologia é outrociência, pois é você estudando a sociedade (outro). Tudo que você tradicionalmente chama de ciência é outrociência, pois é você estudando o outro. Quando você direciona sua consciência para estudar a si mesmo, sua existência, sua cognição, seu desejo, suas crenças, suas emoções, seus valores, etc, você está praticando autociência. Outrociência produz conhecimento. Autociência produz autoconhecimento.


03 | O QUE É ÓBVIO?

Óbvio é um estado consciencial. Óbvio é você consciente (sabendo). O estado consciencial oposto ao óbvio é ignorância, INconsciência. Por exemplo, é óbvio que você está lendo esse texto, pois você está consciente da leitura. É óbvio que esse texto está escrito em português, pois você está consciente do idioma em que está escrito. É óbvio que você está pensando sobre essa explicação, pois você está consciente do seu pensamento. E assim por diante. Consciente e INconsciente são seus dois possíveis estados de consciência. Aplicando isso ao autoconhecimento, você pode estar consciente ou INconsciente de aspectos de em si mesmo. Quando você ESTÁ consciente = óbvio. Quando você ESTÁ INconsciente = não óbvio (ignorante).


04 | OBJETO VOCÊ

Tem uma coisa da qual você está sempre ciente e não tem como deixar de estar. Que coisa é essa? Essa coisa é você! Não importa aonde você vai, você sempre vai junto. Não importa se é ontem, hoje ou amanhã, você sempre está presente. Não importa a velocidade que você se desloca, você nunca fica para trás. Ciência do óbvio é fazer o que você está sempre fazendo: saber de si. “Mas se eu já sei de mim e não tenho como deixar de saber, por que praticar ciência do óbvio?”. Porque você está sempre sabendo de si, mas ignora o que é isso que você está sabendo. Você sabe que é um ser humano. Isso é óbvio! É inegável. Mas o que é ser humano? Do que se trata? Como funciona? Você não sabe! Para ficar óbvio, você deve praticar ciência do óbvio.


05 | PROBLEMÁTICA

— Como viver bem?
Por que você vive mal?
— Eu não sei.
Perfeito! É exatamente por isso que você vive mal.
— Como assim? Não entendi.
Eu não sei = eu ignoro. Entendeu agora?
— Ainda não.
A causa de você viver mal é sua ignorância.
— Ignorância do que?
Ignorância de si.
— Não saber quem sou?
Ao invés de “quem”, melhor trocar por “o que”.
— Não saber o que sou?
Exatamente!
— Mas eu sei.
Então, me diga: o que você é?
— Sou um ser humano.
E o que é ser humano?
— Não sei.
Pois é!
— Mas porque ignorar o que é ser humano me faz viver mal?
Faça o seguinte experimento. Desligue o monitor do seu computador e tente navegar na internet.
— Impossível fazer isto com o monitor desligado.
Exato! Assim como sua ignorância da tela do computador lhe impossibilita de lidar bem com computador, sua ignorância do que é ser humano lhe impossibilita de lidar bem consigo mesmo, ou seja, lhe impossibilita de viver bem.
— Ignorância não me impede de viver!
Te impede de viver bem. Você vive, mas vive mal.


06 | SER HUMANO FULANO

Você vive mal porque ignora o que é ser humano. Então, a solução para você viver bem, é praticar autociência (ciência do óbvio) e sair da ignorância. Só que ser humano é três em um. 1) Você existencial (ser), 2) você psicológico (humano) e 3) você pessoal (fulano). Para viver bem você deve ficar consciente dos três: ser humano fulano.

EU EXISTENCIAL (SER) = Sua existência.
EU PSICOLÓGICO (HUMANO) = Seu sistema operacional humano.
EU PESSOAL (FULANO) = Conteúdo pessoal do seu eu psicológico.


07 | SEXTO SENTIDO

Como se pratica autociência? Através da prática da autoobservação. O que é autoobservação? É seu sexto sentido. Você já viu o amor? Já pegou uma ideia? Já cheirou um desejo? Não! Contudo, é óbvio que tudo isso existe. Mas como você sabe que existe se você não observa nada disso com os cinco sentidos? Você sabe que existe porque você tem um sexto sentido chamado AUTOOBSERVAÇÃO. É através da autoobservação que você vê, cheira e toca em si mesmo. É através da autoobservação que você vê, cheira e toca no ser humano que você é.


08 | AUTOOBSERVAÇÃO EXISTENCIAL

O que é existir? Essa é a pergunta a ser respondida na prática da autoobservação existencial. Você deve observar sua experiência até descobrir o que é experimentar. Quando você descobre, você tem um despertar existencial. Despertar existencial é instantâneo. Você desperta para sua existência e pronto! Fim. Acabou. O grande obstáculo para o despertar existencial é a crença de que despertar existencial é uma experiência. Algo como transar com deus dentro de um buraco negro e depois explodir num orgasmo cósmico. Isso até pode acontecer, mas isso não é despertar existencial. Despertar existencial não é uma experiência, é ficar consciente sobre o que é experimentar. Não tem nada mais sem graça do que o despertar existencial. Você fica consciente que existe. Só isso! Qual a graça? Nenhuma! Por que tanto blablabla sobre um treco absolutamente sem graça? Porque, obviamente, quem fala não sabe do que está falando.


09 | AUTOOBSERVAÇÃO PSICOLÓGICA

Para produzir despertar psicológico você deve praticar autoobservação psicológica. A pergunta a ser respondida na prática da autoobservação psicológica é: como funciona a natureza humana? O que você descobre é seu funcionamento humano. Despertar psicológico é gradual e lento, mas você pode acelerar seu despertar psicológico estudando as explicações que os praticantes anteriores a você deixaram como resultado da prática deles.


10 | AUTOOBSERVAÇÃO PESSOAL

Para produzir despertar pessoal você deve praticar autoobservação pessoal. A pergunta a ser respondida na prática da autoobservação pessoal é: como eu funciono? O que você descobre é seu conteúdo pessoal. Despertar pessoal é gradual, extremamente lento, e não adianta estudar as explicações que os praticantes anteriores deixaram como resultado da prática deles, pois é pessoal. Você pode até contar com a ajuda de psicólogos e terapêutas para prática da autoobservação pessoal, mas ainda assim, ninguém é capaz de acessar seu conteúdo pessoal, só você pode fazer isso, então, pouca ajuda pode ser fornecida nesse caso.


11 | ATRAVESSE SUA PONTE

A explicação do óbvio é uma ponte até o óbvio. Para comprovar a explicação, você deve atravessar a ponte. Pratique autoobservação e atravesse sua ponte. Boa travessia!

PERGUNTAS E RESPOSTAS

PERGUNTA: Despertar existencial é consequência do despertar psicológico e pessoal?

Não! Despertar existencial é consequência da prática de autoobservação existencial. Por isso que você pode ter um despertar existencial e continuar vivendo mal. Seu despertar existencial não lhe faz consciente de como sua natureza humana funciona e como você funciona dentro dela. Você pode despertar para sua existência, mas continuar ignorante do óbvio psicológico e assim continuar vivendo mal.


PERGUNTA: Nunca ouvi falar em autociência. De onde você tirou isso?

A palavra autociência não existe no dicionário. Quando comecei a explicar a prática da autociência, usava a palavra “autoconhecimento” para me referir ao conteúdo das explicações. Só que autoconhecimento é produto da prática da autociência, não é a prática. Então, para fazer essa distinção, inventei a palavra autociência. As disciplinas acadêmicas mais próximas da autociência são a filosofia e a psicologia.


PERGUNTA: Como resistimos ao óbvio?

Resistência, psicologicamente falando, é preguiça. Para sair de um nível de consciência, é preciso vencer a resistência mental, ou seja, é preciso vencer a preguiça de pensar. O ser humano é um ser atolado na resistência mental. O ser humano se orgulha de ser racional, se diz pensante, mas fica só no orgulho mesmo. O ser humano não pensa. Até para fazer as quatro operações matemáticas básicas o ser humano usa a calculadora, tamanha é a resistência mental em que o ser humano está atolado. O que o ser humano faz é decorar nomes, discursos alheios, explicações acadêmicas, preconceitos culturais e repetir isso até babar. O que o ser humano faz é copy paste do copy paste do copy paste. E o ser humano chama isso de pensar. E ainda briga de faca, metralhadora e bomba atômica com quem discorda do que ele pensa que pensa. O ser humano é um ser com profunda preguiça mental. Observe, por exemplo, o tanto de curso e livro que promete resolver seus problemas por você. A pessoa paga os tubos para resolver algo que basta pensar 5 minutos e já está resolvido. Mas e a preguiça de pensar? Paga 10 mil reais e até mais se for preciso, mas #pensar_não! #pensar_nunca! #pensar_jamais! Por isso não faço terapia com ninguém. Fazer terapia é empurrar pedra. Você já empurrou uma pedra? O que acontece quando você pára de empurrar? A pedra volta a ficar parada. Fazer terapia é empurrar preguiçoso. A pessoa tem preguiça de pensar e paga o terapeuta para pensar para ela. Quando uma pessoa assim me procura, digo que não sou terapeuta e aconselho entrar no ciclo de estudos. A pessoa sai correndo. Tem que pensar! #pensar_não! #pensar_nunca! #pensar_jamais! E vai tomar antidepressivo, ayahuasca, fazer curso de unicórnio quântico, qualquer coisa, menos pensar. Então tá! Continua sofrendo sem entender porque!


PERGUNTA: Você diz que o ser humano tem preguiça de pensar, mas não pensar é impossível, pois o pensamento é involuntário. Como fica então a questão da preguiça?

Tem dois tipos de pensar. Tem o pensar subconsciente, que é automático, tal como você está apontando. E tem o pensar consciente, que é pensar o pensamento. Pensar o pensamento = autoanalise. O ser humano tem preguiça e incompetência para fazer autoanalise, ou seja, pensar o pensamento.


PERGUNTA: A qualidade da observação do céu depende da ferramenta mais apropriada. No caso da autociência, qual é a ferramenta mais apropriada?

No caso da autociência, não se trata de ferramenta mais APROPRIADO, se trata de ferramenta menos ATROFIADA. A qualidade da autoobservação depende do grau de discernimento. Só que ninguém nunca te incentivou a desenvolver o discernimento. Muito pelo contrário, todos seus educadores lhe ensinam a decorar e acreditar. Até porque, seus educadores também foram ensinados a decorar e acreditar. Você aceita esse tipo de educação porque é mais fácil acreditar do que discernir. E é assim que seu discernimento se atrofia ao invés de se desenvolver.


PERGUNTA: Onde está a ciência pura (saber puro)?

A ciência (saber) não está em lugar nenhum: é voser (você-ser). “Onde” é a mentalidade materialista tentando construir a casa começando pelo telhado. A mentalidade materialista precisa objetivar tudo, coisificar, dar dimensão, localidade, duração, etc, senão ela não tem onde se segurar. Como que a mão vai pegar nada? O problema da mentalidade materialista é o no_thing (não_coisa). Pior do que não ter coisa nenhuma para pegar, é perceber que até a mão que pega também é uma coisa, logo, voser não é coisa nenhuma.


PERGUNTA: Ciência do óbvio é investigar meu estado consciente e inconsciente?

Praticar ciência do óbvio é praticar ficar consciente de si, do ser humano que você é. O estado consciencial oposto ao estado consciente é o estado de ignorância, que é sinônimo de inconsciente. Então, na prática da autociência, você não investiga seu ESTADO de consciência, você observa o ser humano que você é, para que através da autoobservação, você saia do estado de ignorância (inconsciente) e passe para o estado de lucidez (consciente).


PERGUNTA: Você vai me ensinar a viver bem?

Autociência não ensina como você deve viver, apenas revela como você já está vivendo. Você já vive. E já vive mal. Mas ignora o que é viver e porque vive mal. A prática da autociência deixa óbvio o que é isso que você já faz, viver, e porque faz isso mal (vive mal). Se você não quer descobrir o que é isso que você já faz, viver, tudo bem, não é obrigatório, é opcional. Se você prefere continuar vivendo mal, tudo bem. Viver lúcido é melhor do que viver ignorante. Viver bem é melhor do que viver mal. Mas a função de um instrutor de autociência não é lhe convencer disso. É apenas lhe explicar isso.


PERGUNTA: Eu sou meu observador, mas minha observação é doentia. E agora?

Autoobservação doentia é um jeito de descrever o problema, entendo. Porém, mais correto é dizer autoanalise doentia. Para curar seu mal viver não basta você só se observar, sem discernimento do que está observando. Fazer isso é igual você mostrar um celular para um neném, o neném vai ver tudo, mas não vai entender nada, por isso o neném não vai conseguir lidar bem com o celular. Então, você precisa aprimorar seu discernimento e entendimento do que está observando para poder curar seu mal viver. E para isso, claro, você precisa de um mestre absolutamente infalível que lhe ajude nesse trabalho. Esse mestre se chama sofrimento. Estudaremos isso com profundidade em outros livros: o sofrimento é o mestre.


PERGUNTA: Quando preciso ficar consciente? O tempo todo?

Você não PRECISA ficar consciente nunca. Não é uma obrigação. E nem consegue ficar por muito tempo. Tente ficar consciente da sua respiração por cinco minutos, por exemplo, se você conseguir um minuto, é recordista mundial. E consciente de si você sempre está em algum nível. Então, você DEVE ficar MAIS consciente de si quando é necessário. Quando não é necessário, necessário não é. E quando é necessário? É necessário quando você está vivendo mal. Por que é necessário quando você está vivendo mal? Porque você só vive mal quando está ignorante, quando você está consciente, você vive bem. Então, para sair do mal viver e entrar no bem viver, você deve ficar consciente do que está sendo ignorado e que, por estar sendo ignorando, está resultando em viver mal. Para fazer isso você deve praticar autoobservação e autoanalise tendo como objeto de estudo o mal viver que está experimentando. Eis quando é fundamental ficar super consciente, no nível mais alto possível.


PERGUNTA: Fato e óbvio são sinônimos?

Não! Fato = observado. Óbvio é quando você (observador) está consciente do observado. Só que os dois (observado e consciência do observado) acontecem ao mesmo tempo em você. Quando você não está consciente do observado, não existe observado para você. Então, é por isso que tudo que é fato para você, é óbvio para você, mas óbvio e fato não são a mesma coisa.


PERGUNTA: Quando você diz que não temos acesso ao outro, você está se referindo ao eu pessoal?

Não, me refiro ao outro em todos seus três aspectos: existencial, humano e pessoal. Você nunca tem, nunca teve e nunca terá acesso ao outro de forma alguma. Você é você porque não é o outro, porque não tem acesso ao outro. Só cada um sabe si, tanto existencialmente, como humanamente, como pessoalmente. Porém, quando eu desperto para minha existência, o que fica óbvio para mim é o mesmo que fica óbvio para qualquer outro ser do universo: que eu existo. Então, é como se eu tivesse acesso ao você (ao outro). Por isso posso lhe falar sobre o que você irá descobrir quando despertar existencialmente. E quando desperto para minha humanidade, o que fica óbvio para mim é o mesmo que fica óbvio para qualquer ser humano: que sou humano. Então, é como se eu tivesse acesso a você também. Por isso também posso lhe falar sobre o que você irá descobrir quando despertar psicologicamente. Mas quando desperto pessoalmente, o que fica óbvio para mim é justamente meu diferencial, por isso só serve pra mim.


PERGUNTA: Eu posso ser acessado pelo outro de alguma maneira?

Não, é Impossível. Cada um só tem acesso a si, tanto existencialmente, como psicologicamente, como pessoalmente. Porém, na brincadeira de ser humano existe a possibilidade da comunicação conceitual. Então, através de palavras, mesmo sem termos acesso uns aos outros, mesmo sendo impossível, podemos usar as palavras para simular uma espécie de acesso ao outro. Não é acesso de fato, é uma estratégia muito falha e ruidosa, mas é melhor que nada.


PERGUNTA: Estou instigada a buscar o óbvio na vida. Estou no caminho certo?

Infelizmente não! O problema é que você acredita que pensar é saber e por isso acredita também que autociência é aprendizagem. Autociência não é aprendizagem, autociência é a prática de investigar a ignorância para sair da ignorância. Quando você investiga sua ignorância, você não está aprendendo nada, você está DEScobrindo o que está ENcoberto. Encoberto = ignorado. Descoberto = óbvio. E o que está encoberto? O ser humano que você é. Para praticar autociência você deve se debruçar sobre si e não sobre a vida. Vida é mentalidade materialista. Não existe vida. Só existe viver. Para praticar ciência do óbvio você deve investigar o que é viver e como você vive, não a vida.


PERGUNTA:  Autociência é desaprender tudo o que foi construído?

Vamos supor que na infância você queria ter uma bicicleta e aprendeu que devia escrever uma carta para o papai noel, enviar sua carta para o polo norte e esperar o gordinho descer pela chaminé com sua bicicleta. Sua casa sequer tinha chaminé, você morava em um apartamento, mas ainda assim acreditou no que aprendeu e por isso vivia assim. Agora que você é adulta, está óbvio que papai noel não existe, que é uma fantasia para entreter as crianças e que a bicicleta que você ganhou de natal foi comprada de fato pelo seu pai. Ao descobrir isso, você DESAPRENDEU a história do Papai Noel? Não! Apenas colocou a aprendizagem no seu devido lugar: fantasia para entreter as crianças. Para viver bem, você não precisa desaprender nada, você precisa se desequivocar. Imagine se até hoje você acreditasse que para obter algo desejado você tivesse que escrever cartas para o Papai Noel? Você iria viver bem assim? Não! O que impede você de viver bem é que você acredita em equívocos. Só que você PENSA QUE SABE. Então, o problema não é nem que você ignora seus equívocos, você ignora que ignora. É passo a passo para sair dessa cebola de equívocos. Mas não precisa desaprender nada, basta despertar. Desaprender é outra arapuca do equívoco da aprendizagem, é apenas trocar uma aprendizagem por outra.


PERGUNTA: Óbvio é absoluto ou tem variações?

São três tipos de óbvios: óbvio existencial (ser), óbvio psicológico (humano) e óbvio pessoal (fulano). Então, são três tipos de absolutos: absoluto existencial (ser), absoluto psicológico (humano) e absoluto pessoal (fulano). Ou seja, todos os seres que despertam existencialmente ficam conscientes da mesma coisa: o que é ser (existir). Todos os seres humanos que despertam psicologicamente ficam conscientes da mesma coisa: o que é ser humano. Cada um, ao despertar pessoalmente, fica consciente de algo singular: o que é ser humano eu.


PERGUNTA: As pessoas brigam pela verdade e por fim dizem “eu tenho a minha verdade e você tem a sua”. Óbvio é verdade?

Verdade é correlação. “Tomate é fruta” é uma verdade. As pessoas tem correlações diferentes e por isso tem verdades diferentes. “Tomate é legume” é uma correlação diferente de “tomate é fruta”. Só briga pela verdade quem ignora que verdade é correlação, logo, pessoal. Quem sabe que verdade é correlação não é tonto de ficar perdendo energia para brigar sobre correlação. “Eu tenho a minha verdade e você tem a sua”, ou seja, “eu tenho a minha correlação e você tem a sua”. Sim, isso mesmo! Óbvio!


PERGUNTA: Porque apreender o que é ser humano se um dia vou morrer e esse aprendizado se dissipará?

A finalidade da prática da autociência não é APRENDER o que é ser humano, é DESPERTAR para o ser humano que você é. O benefício de se você praticar autociência e despertar para o que é ser humano, é o mesmo benefício de você descobrir como funciona o whatsapp, um liquidificador e uma escova de dentes.


PERGUNTA: Existe alguma prática que me ajude a sair da mentalidade materialista além de autoobservação?

Não! Porém, para ter um despertar existencial, você deve praticar autoobservação existencial. Autoobservação psicológica não produz despertar existencial, produz despertar psicológico.

PERGUNTA: Existe uma forma específica de autoobservação existencial?

Sim! A prática da autoobservação existencial é feita através da observação da observação. Você deve observar o observar. Você deve ficar ciente sobre a ciência. Você deve saber da sua cognição. Ou seja, o objeto da sua observação deve ser sua própria observação.

PERGUNTA: Devo observar pura e simplesmente ou analisar a observação?

Raciocínios (pensamentos) surgem na autoobservação porque são objetos psicológicos observados. Basta perceber isso. Só perceber. Observe os pensamentos superficialmente. Seu trabalho na autoobservação existencial não é entrar na lógica dos raciocínios, é apenas constatá-los como realidade (experiência). Raciocínios são experiência. Só isso. Mas se você entrar em processo de analise, se entrar na lógica de um raciocínio, tudo bem, você nem irá perceber que entrou e tão logo perceber, é porque já saiu. Entenda que se você está praticando autoobservação existencial para sair da mentalidade materialista, é porque você está dentro dela. Então, faça igual Renê Descartes, vai saindo passo a passo. Tudo que você observar, perceba que é apenas um observado, uma experiência. Só isso! Você vai fazendo isso e daí se dá conta que, por mais que você observe, você não consegue observar a observação. E é assim que você se dá conta da “observação pura”. Fica óbvio. E fica óbvio também que o que existe é observação e não observado. Como quem está observando é você… EUreka! Eu existo! Despertar existencial! Essa é a explicação do óbvio. Mas a explicação do óbvio não é o óbvio. Então, boa prática!

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