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Cafarnaum

30/06/2021 by in category Filmes with 0 and 0

A CULPA É NOSSA
(Análise autocientífica do filme Cafarnaum / sobre interdependência)

Nasci em um grupo chamado família. Tive vários grupos de amigos. Estudei em grupos escolares. Participei de grupos musicais (bandas), grupos de teatro, grupos de internet, times de futebol, equipes de trabalho, etc. Não bastasse isso, há 15 anos venho coordenando grupos de autoconhecimento.

Enfim, minha experiência com grupos não é pequena, é vasta. E sendo estudioso do comportamento humano, depois de sofrer muito com a convivência humana, um dia descobri qual é a origem da má convivência em grupos.

O motivo é tão óbvio, mas tão óbvio, que não acreditei que demorei tanto tempo para percebê-lo. A causa da má convivência nos grupos é que grupos não são grupos.

Junte um grupo de 10 pessoas dentro de uma sala, por exemplo. Você formou um grupo? Tem um grupo dentro da sala? Não! Tem 10 pessoas dentro de uma sala. Só isso!

Um grupo de pessoas não são um grupo, são apenas um amontoado de pessoas. Esse é o problema de todo grupo, só tem nome de grupo, não tem comportamento de grupo.

Para deixar o problema dos grupos mais visível ainda, vamos aumentar o número de pessoas e a sala.

Junte 7 bilhões de seres humanos dentro de um planeta. Você formou um grupo? Temos uma coletividade? Não! Temos 7 bilhões de seres famintos, individualistas, ignorantes sobre quem são, de onde vem e para onde vão, lutando a guerra do todos contra todos.

Ou seja, temos Cafarnaum (caos).

Para viver mal, basta ignorância. Para viver bem, só com consciência. Não somos um amontoado de pessoas. Somos um grupo. Somos os seres humanos, uma coletividade de seres inteligentes, entusiasmados, criativos, realizadores, empáticos e solidários.

Precisamos sair urgentemente do pesadelo do individualismo e despertar para nossa coletividade e interdependência.

A culpa não é dos pais do Zain, não é do capitalismo, não é da esquerda, nem da direita, nem deste, nem daquele. A culpa pela qualidade da nossa convivência é nossa.

Ou vivemos como Cafarnaum ou morremos como Cafarnauns. Ou vivemos como um grupo ou morremos como indivíduos.

 


 

MESMO QUE CAFARNAUM?
(Análise autocientífica do filme Cafarnaum / sobre arbítrio)

Se você fosse processar seu maior malfeitor, quem você processaria? E por qual crime? O filme Cafarnaum começa com um filho processando os pais pelo seu nascimento. O desenrolar do filme são as provas de acusação, mostra a vida subjugada, insalubre e miserável do filho.

Certa vez, perguntaram ao filósofo Arthur Schopenhauer qual era a decisão mais inteligente que um homem podia fazer. Ele respondeu que a decisão mais inteligente que um homem podia fazer ele já não fez. Schopenhauer estava se referindo à decisão de não nascer.

Viver dói. Implica em insatisfação, frustração, decepção, conflito de interesses, etc. Por isso, a decisão mais inteligente que um homem pode fazer é não nascer.

Outro filósofo, Albert Camus, diz que só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Decidir se a vida vale ou não vale a pena ser vivida.

Zain, protagonista do filme Cafarnaum, entende que não vale a pena, pelo menos não aquela vida subjugada e miserável em que foi jogado, por isso decide processar seus pais.

Tem muitas pessoas que concordam com Zain e também passam a vida inteira processando seus pais, não juridicamente, mas psicologicamente. Tem também quem passa a vida processando a vida, através da lamúria, do ressentimento, da má vontade, etc.

Sidharta Gautama, o Buda, um dos seres humanos mais sábios que já viveu, tem seus ensinamentos alicerçados em quatro nobres verdades. A primeira nobre verdade diz o que Zain, eu, você, Schopenhauer e todo ser humano descobre após o nascimento: viver dói.

Uma vez nascidos, não adianta tentar evitar a dor. Também não adianta processar os pais, nem a vida, nem deus, nem ninguém. Só nos resta responder, instante após instante, a pergunta de Albert Camus: Vale a pena viver? Mesmo uma vida dolorosa? Fedida? Amarga? Subjugada? Insalubre? Miserável? Mesmo essa? Mesmo que Cafarnaum?

© 2021 · 1FICINA · Marcelo Ferrari