*Os livros estão na ordem de leitura recomendada.

Bússola da autorrealização

07/08/2021 by in category Textos tagged as , , with 0 and 0

Se fosse possível desligar as emoções, você desligaria?

Essa é a pergunta que o filme Quando Te Conheci projeta na tela e deixa para você responder.

Se a pergunta fosse feita em um momento de depressão, ou pânico, ou angústia, ou raiva, provavelmente sua resposta seria sim, você desligaria as emoções para dar fim ao sofrimento.

Se fosse feita em um momento de alegria, ou amor, ou plenitude, ou satisfação, provavelmente sua resposta seria não, você manteria as emoções funcionando para perpetuar a felicidade.

Porém, ao desligar seu sistema emocional, você desligaria tudo, tanto as dores como as delícias. Sendo assim, você desligaria ou não?

Muitas pessoas da nossa sociedade atual tentam desligar as emoções através do consumo de medicamentos, consumo de entorpecentes e negação dos sentimentos.

Na sociedade do filme o sistema emocional é desligado de forma mais efetiva, através de uma cirurgia no momento do nascimento.

Não sabemos o que é viver sem emoções. Podemos tentar imaginar isso com a ajuda do filme, mas nunca deixamos de sentir emoções. Apatia, tédio e desânimo são formas de imaginar um viver sem emoções, mas, de fato, também são emoções.

Viver sem emoções seria como se você fosse surdo.

Se você explicar para um surdo auditivo que uma sirene tem um som estridente, o surdo não irá entender nada, não fará sentido nenhum a explicação. O mesmo seria se você fosse um surdo emocional. Quando alguém lhe explicasse que está com raiva do patrão, ou que está apaixonado pela colega de escola, ou que está ansioso com o resultado do exame, ou que está feliz com o emprego novo, ou que está triste com o isolamento da pandemia, etc, você não entenderia nada.

Sendo assim, volta então a pergunta: se fosse possível desligar as emoções, você desligaria?

Outra forma de pensar no assunto é que sem emoções você seria como um robô, você não faria algo pelo prazer de fazer, nem deixaria de fazer pelo desprazer, faria e deixaria de fazer apenas porque foi ensinado a fazer e não fazer.

Um robô pode jogar basquete, mas não sente alegria ao fazer uma cesta, nem fica triste quando erra. Um robô pode jogar xadrez, mas não fica ansioso enquanto espera a próxima jogada, nem fica aliviado ao comer a torre do adversário. Enfim, um robô não faz ou deixa de fazer nada por conta de emoções, mas por mera programação.

É aí que o filme Quando Te Conheci alcança o motivo de estar relacionado ao livro Mestre da Felicidade.

Sem emoções você é incapaz de ficar consciente do seu desejo.

Você sabe que quer comer chocolate porque você sente uma emoção chamada “prazer” ao pensar em chocolate. Quando você sente uma emoção chamada “desprazer”, você sabe que não quer. Você sabe que você quer se casar com uma pessoa quando você sente uma emoção chamada “amor”, quando você sente uma emoção chamada “repulsa”, você sabe que não quer ver a pessoa nem pintada de ouro.

Você não percebe, mas a todo instante você está optando pelo que você quer é não quer baseado nas emoções e não no desejo. Então, sem emoções, você se tornaria incapaz de saber o que você quer.

Entende o problema de desligar as emoções? Vou explicar.

Você é o que você quer.
Você não tem vontade, você é vontade.
Sua vontade primordial é ser você (autorrealização).
Para você se autorrealizar,
você deve optar em acordo com sua vontade.
Para optar em acordo com sua vontade,
você precisa ficar consciente da sua vontade.
Para ficar consciente da sua vontade,
você precisa experimentar emoções.
Você experimenta emoções agradáveis (felicidade)
para ficar consciente do que quer.
Você experimenta emoções desagradáveis (sofrimento)
para ficar consciente do que não quer.

Sendo assim, como se autorrealizar sem emoções? É impossível. Entendeu o problema agora?

Desligar as emoções é desligar a única bússola capaz de te conduzir a autorrealização. Seu sistema emocional é seu GPS da autorrealização, sem ele você não consegue viver em acordo com sua vontade, logo, não consegue viver bem.

O filme Quando Te Conheci ilustra isso retirando a individualidade dos habitantes. As pessoas na sociedade do filme não fazem o que querem, fazem o que são ensinadas e designadas a fazer, quase como se fossem robôs.

A primeira lição no livro Mestre da Felicidade diz que o sofrimento é o mestre e você é o aluno. E nunca o contrário. O filme Quando Te Conheci ilustra exatamente esse equívoco. Desligar as emoções ilustra essa tentativa equivocada em tentar ser mestre do sofrimento, controlador do sofrimento.

Freud tem uma frase famosa e ilustrativa que diz que o ego não é senhor em sua própria casa. Se não é, quem é então? Simples, é a vontade. Só que a vontade se faz consciente através das emoções, por isso o sofrimento é o mestre.

É duro para o consciente (ego) aceitar que o sofrimento é o mestre porque o sofrimento é irracional. O consciente não consegue entender como o irracional (inconsciente) pode ser o mestre do racional (consciente). Por isso, só praticando autociência e comprovando tudo que expliquei acima para se entender e aceitar que o sofrimento é o mestre e você é o aluno.

No final das contas, racional e irracional, mestre e aluno, consciente e vontade, devem trabalhar juntos. Essa é a solução, é assim que se vive bem.

Vontade não faz café, vontade quer beber café, quem faz o café é o consciente. Vontade não se autorrealiza, vontade quer se autorrealizar, quem deve se autorrealizar é o consciente.

Aluno no lugar de aluno, fazendo a função de aluno, mestre no lugar de mestre fazendo a função de mestre. Cada um no seu devido lugar e a casa é nossa.

© 2021 • 1FICINA • Marcelo Ferrari