ARMADILHA DA ILUMINAÇÃO

10/03/2017 by in category Textos with 0 and 0

Primeiro você lê o livro. O que está sendo explicado é óbvio, mas você nunca havia pensado em não pensar. A leitura coloca seus neurônios em ebulição. Você fica pensando, pensando sobre não pensar. E para não pensar sozinho, você coloca todos seus amigos para pensar junto com você. Você começa com aquela ladainha de viver no agora, agora, agora, como se fosse possível ser diferente. E assim você segue pensando.

Quando não aguenta mais pensar sobre não pensar, finalmente, você se dá conta que seus pensamentos apenas surgem. Puf! Do nada! Feito coceira na orelha. EUreka! Você atingiu a iluminação. Agora você não é mais um pensador, agora você é consciência. “Sei logo existo”, você pensa. E lá se vai Sócrates, Aristóteles, Platão, Kant, Descartes, Freud e Jung pelo cano. Aliás, você nem sabe que está dando descarga em pessoas que dedicaram a vida deles a te ajudarem no autoconhecimento. Nem está interessado em saber. Agora você é observador da ilusão. Você não precisa mais dar ouvidos a tanta gente ignorante.

De fato você despertou e saiu de um equívoco: confundir saber com pensar. Mas caiu em outro muito pior: acreditar que pensar e pensamento é a mesma coisa. Não é! Pensar é a fábrica dos pensamentos. Pensamento é o produto do pensar. É por isso que parece que seus pensamentos surgem do nada. Quando você, consciência, está observando seus pensamentos, você não está observando seu pensar, não está observando a fábrica, você está observando o produto do seu pensar.

É impossível observar o pensar. Observação é sempre do produto. Sente-se em frente um piano para tocar uma musica e tente escutar (observar) a nota da música que você ainda não produziu. Impossível. Observação é sempre do criado e nunca da criação. Seu pensar é o criador dos seus pensamentos, mas como é impossível você observar seu pensar, você começa a acreditar no equívoco de que seus pensamentos são produtos do acaso e não do seu próprio pensar. Esse equívoco, somado a doutrina de que você é SÓ CONSCIÊNCIA e deve ignorar seus pensamentos, aprisiona você num ciclo de mal viver e sofrimento muito pior do que estava metido antes da iluminação.

Para sair desse equívoco você deve reconhecer que você não é SÓ CONSCIÊNCIA, que também é VONTADE e TRANSFORMADOR dessa vontade em FORMAS HUMANAS, o que inclui o pensamento. Só que para você reconhecer isso, você precisa pensar sobre isso, assim como pensou sobre não pensar. Mas como você confunde pensar com pensamento, você não se permite PENSAR O PENSAMENTO. Então, o equívoco permanece, assim como permanece seu sofrimento.

Eis a armadilha da iluminação.

© 2018 · 1FICINA · Marcelo Ferrari