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É comum pessoas de cultura espiritualista virem conversar comigo. É muito comum também, durante estas conversas, me perguntarem se acredito em espírito. Digo que não. Surge um mal estar na conversa. Primeiro deixo o mal estar fazer seu trabalho, depois explico que não acredito em espírito porque, para mim, é evidente, não é crença.

O ânimo espiritualista volta. Daí me perguntam: “O que é espírito?”. Respondo, olhando no olho da pessoa: “Espírito é você!”. A pessoa trava. Impressionante. A pessoa já leu todos os livros, sabe tudo sobre a vida dos espíritos, todas as fofocas, mas não sabe de si por si. “Como assim, espírito sou eu! Explica melhor!”, as pessoas me dizem. Respondo, devolvendo a responsabilidade: “Como eu, que não sou você, posso fazer você ficar consciente de si?”.

Mas entendo a dificuldade. O que somos é mais perto do que perto. Por isso o oráculo aconselha: “Conheça a ti mesmo e conhecerá o universo e os deuses”. Acreditar em espírito não é a solução para o despertar espiritual, é o problema, é o que bloqueia o despertar. Espirito é você e você não é uma crença. Para ter um despertar espiritual, você deve ser um cientista e não um crente.

Você não é uma pessoa, você é um usuário da natureza humana. Você não está vivendo, está descobrindo o que é ser humano. Viver não é viver. Viver é uma atividade autocientífica. O dia que você descobre isso é o dia do seu apocalipse.

Apocalipse não é o fim do mundo, apocalipse é o fim da ignorância. A palavra apocalipse significa descoberta. Apocalipse é você descobrindo o que é ser humano. O apocalipse não destrói o mundo, destrói sua ignorância sobre o que é humano e sobre o que é viver.

Para entender o que é humano você não vai para uma escola, você se transforma na escola, você se transforma em humano. O único jeito para você descobrir o que é humano é sendo humano. Descobrir o que é humano é 100% vivencial e 100% do tempo.

Claro que se transformar em humano sem saber o que é humano é igual entrar em um labirinto de olhos fechados, você só consegue dar cabeçadas nas paredes. Mas se você já soubesse, como poderia brincar de descobrir?

O entendimento que ser humano é atividade autocientífica implica em várias mudanças de entendimento. A principal mudança é que você não é SÓ humano, é um SER humano. Você é um SER que está sendo humano. Assim como é preciso existir a televisão para ter onde o filme acontecer, também é preciso você existir (SER) para poder ser humano. Você é primeiramente um ser, e por isso, pode ser, secundariamente, um ser humano. Se você não fosse ser, como poderia ser humano? Não poderia.

Essa lógica é simples e fácil de entender. O desafio é que você se chama de SER humano, mas se entende como SÓ humano.

Você é um ser humano. Em outras palavras, você é um ser que está usando a natureza humana para se manifestar. A natureza humana é tipo um sistema operacional de computador. Você, enquanto ser, enquanto usuário da natureza humana, está antes da natureza humana, assim como um usuário de computador está antes do programa que ele está usando. O usuário é anterior ao uso. A causa é anterior ao efeito. Sem usuário não tem uso. Sem causa não tem efeito. Você, enquanto ser, enquanto usuário da natureza humana, é a causa da sua experiência humana.

Você está sendo humano porque é um Ser interessado em descobrir o que é ser humano. Seres interessados em descobrir o que é ser animal, estão sendo animais, seres interessados em descobrir o que é ser vegetal, estão sendo vegetais, seres interessados em descobrir o que é ser mineral, estão sendo minerais, e assim por diante. Cada ser está sempre sendo o que deseja experimentar.

Um dos grandes desafios de ser humano é que você não é consciente que está sendo humano por opção. Daí, surge em você a lógica do vitimismo. Surge uma revolta que grita: “Eu não pedi para nascer!”. Dentro dessa lógica, tudo que você experimenta, seja o que for, é injusto por princípio. Faz parte da descoberta do que é ser humano se acreditar vítima e se revoltar. A ignorância é fundamental para descoberta. Você precisa acreditar que é vítima para se descobrir responsável. Você precisa acreditar que é Humano Ser para se descobrir Ser Humano.

Questões que antes eram raras e restritas estão surgindo e surgirão cada vez mais no consciente da coletividade humana. São as trombetas do apocalipse. Chegou a hora de você despertar. E quando você despertar, acontecerá algo muito simples: você irá assumir a responsabilidade por ser humano. Isso é inevitável, pois a lógica do vitimismo só se sustenta por ignorância.

Autoconhecimento é uma jornada do ponto A até o ponto B, mas não é uma jornada de deslocamento. Você não viaja de carro, nem de avião para chegar no autoconhecimento, é uma jornada consciencial. O ponto A da jornada é o estado de ignorância, adormecimento, inconsciência sobre o que é ser humano. O ponto B e o estado desperto, consciente. Eis o problema.

Você já é um ser humano, então, você acredita que já sabe. Mais do que acredita, tem convicção. Tanta convicção que até dá conselhos. Só que você não sabe. Você pensa que sabe. Se você soubesse mesmo, não vivia mal. Viver mal é a prova de que você não sabe o que é ser humano. E pior! Além de não saber, você não sabe que não sabe. Você ignora que ignora. Mas como você pensa que sabe, conclui: “Por que vou me dar ao trabalho de descobrir o que já sei?”. Eis como seu autoconhecimento termina antes de começar.

Você é um aluno que acredita que é professor. Eu chamo isso de ignorância Phd. O problema da ignorância Phd é o mesmo de acreditar que você sabe pilotar um avião quando, de fato, ignora. É por isso que você vive mal. É impossível viver bem em estado de ignorância. E como sair da ignorância Phd? O primeiro passo é admiti-la.

Teve uma época que frequentei um trabalho espiritualista. Eram palestras com grupos pequenos, entre 15 a 20 pessoas, então, podíamos interagir diretamente com o professor. Com o tempo, fiquei íntimo do professor. Então, de repente, ele começou a me chamar de “sábio”. Por um lado, achei o máximo. “Até que enfim alguém me reconheceu!” pensei. Mas quando a esmola é demais o santo desconfia. Desconfiei, mas fiquei na minha.

O professor continuou me chamando de sábio. Sábio pra lá, sábio pra cá. Às vezes, alguém fazia uma pergunta e ele encaminhava para mim: “O que você acha, sábio?”. Eu papagaiava um monte de conceitos filosóficos, psicológicos e espiritualistas.

Muito tempo depois, fui acompanhar esse professor em uma palestra. Nesse dia, tinha uma pessoa participando da palestra que era tipo sabe-tudo. De repente, o professor começou a chamar essa pessoa de sábio. Putz! Lembrei dele fazendo o mesmo comigo e a ficha caiu! Quando o professor me chamava de “sábio”, não estava elogiando minha sabedoria, estava apontando minha ignorância Phd. Eu não sabia, eu pensava que sabia.

Entendeu, sábio?

Como você pode saber se está indo bem ou mal em descobrir o que é ser humano? Eis a função da felicidade e do sofrimento. Felicidade é indicativo que você está consciente e competente em ser humano. Sofrimento é indicativo que você está INconsciente e INcompetente em ser humano.

Assim como tocar bem piano é confirmação de lucidez e competência em tocar piano. Assim como dirigir bem um carro é confirmação de lucidez e competência em dirigir carro. Assim como falar bem um idioma é confirmação de lucidez e competência em falar aquele idioma. Viver bem é confirmação de lucidez e competência em ser humano.

Um homem muito culto precisava atravessar um rio. O único jeito de atravessar o rio era pegando uma balsa. Ele entrou na balsa e começou a conversar com o balseiro:

— Balseiro, você sabe matemática?
— Não sei não! — respondeu o balseiro.
— Ah, balseiro, você perdeu metade da sua vida! — exclamou o homem.
— Você sabe história romana?
— Não sei não! — respondeu o balseiro.
— Ah, balseiro, você perdeu metade da sua vida! — exclamou o homem.
— Balseiro, você sabe química?
— Não sei não! — respondeu o balseiro.
— Ah, balseiro, você perdeu metade da sua vida! — exclamou o homem.
— Balseiro, você sabe literatura portuguesa?
— Não sei não! — respondeu o balseiro.
— Ah, balseiro, você perdeu metade da sua vida! — exclamou o homem.

Então a balsa rachou e começou a encher de água. O balseiro perguntou:

— E o senhor sabe nadar?
— Não sei não! — respondeu o homem.
— Ah, então o senhor perdeu sua vida inteira! — exclamou o balseiro.

O barco afundando é o apocalipse, é o tira teima, é a hora de você avaliar se entendeu o que era fundamental entender com as experiências que teve: o que é ser humano. O homem culto é sua ignorância Phd, que sabe tudo de tudo, menos do que mais importa, saber de si. Por isso, o apocalipse é o fim da vida humana. O apocalipse deixa evidente se você sabe mesmo o que é ser humano, ou se você só tem cultura e teoria.

Imagine que terminou o ano escolar e você resolveu fazer uma avaliação do seu nível de entendimento das matérias. Você conversa consigo mesmo:

— O que entendi de química?
— Não entendi nada.
— O que entendi de geografia?
— Não entendi nada.
— O que entendi de história?
— Não entendi nada.
— O que entendi de matemática?
— Não entendi nada.
— Então, não entendi nenhuma matéria?
— Não, pois você não assistiu às aulas.
— E o que eu fiquei fazendo o tempo todo se só tinha isso para fazer?
— Também não sei.

Vamos transpor essa conversa para você sendo humano.

— O que entendi das emoções?
— Não entendi nada.
— O que entendi do pensamento?
— Não entendi nada.
— O que entendi do desejo?
— Não entendi nada.
— O que entendi de ser humano?
— Não entendi nada.
— Não entendi o que é ser humano?
— Não, pois não assisti às aulas.
— E o que eu fiquei fazendo o tempo todo se só tinha isso para fazer?
— Também não sei.

O que você está fazendo quando mata aula? Você está matando o aluno em você. Que tipo de aluno você é quando mata o aluno em você? Você é um aluno morto. É por isso que no dia do julgamento final são julgados os vivos e os mortos. Julgamento final não é você sendo condenado ao inferno ou sendo abençoado com o paraíso, é você conversando com sua consciência, analisando, avaliando e julgando se você é um aluno vivo ou um aluno morto.

A todo instante você tenta viver a vida. Você fracassa repetidamente, mas persiste obstinadamente. E não entende porque fracassa. O motivo é simples. Você não consegue viver a vida porque não existe vida. O que existe é brincadeira de descobrir o que é ser humano, o que existe é atividade de autociência. Casamento, maternidade, profissão, medo de ladrão, medo da morte, solidão, raiva, decepção amorosa, festa, trabalho, férias, coçar o nariz, fazer xixi, comer pizza, etc. Tudo que você faz e experimenta é você brincando de descobrir o que é ser humano.

Você tem medo de ser um espermatozoide. É por isso que você devora assuntos espiritualistas e está sempre em busca do próximo. Você está em guerra contra Carl Sagan e sua máxima que diz que você é feito de poeira de estrelas. A frase é bonita, mas só serve para ampliar sua angústia em escala astronômica. Esse seu conflito se chama materialismo. Nas palavras de Darwin, é a teoria que você é um espermatozoide em evolução.

O problema nisso é que tudo que evolui, involui, tudo que nasce, morre, e você não quer morrer. Ninguém quer morrer. Mas você não tem outra opção. Você é um espermatozoide que quanto mais corre mais se aproxima do cemitério. Mesmo que você seja um espermatozoide resignado como Jesus, ou um espermatozoide sábio e compassivo como Buda, ou um espermatozoide famoso como Michael Jackson, ou um espermatozoide rico e poderoso como Julio Cesar, você não deixa de ter o mesmo destino de todos os espermatozoides.

Se Carl Sagan e Darwin estão certos, seu fracasso é só questão de tempo. É angustiante isso. Como solução, você busca o extremo oposto, busca teorias espiritualistas, metafísicas, etc. “Poeira de estrelas seu cu, Carl Sagan! Eu sou espírito! Sou sopa quântica! Sou consciência cósmica!”. Você aprende, decora e passa a acreditar com convicção nessas teorias. Só que teoria não resolve! Por mais forte que seja sua crença em uma teoria, você sabe que é teoria. Então, a angustia persiste. E persistirá até você sair do equívoco do materialismo.

Viver não é atividade biológica, é atividade pedagógica. Por isso, para viver bem, desista da pergunta: “Por que isso está acontecendo comigo?”. A resposta para essa pergunta é muito simples: isso está acontecendo com você para que você produza autoconhecimento. Seja unha encravada, coração partido, casamento, promoção, demissão, sinal verde, vermelho ou amarelo. Seja o que for, o motivo disso é sempre o mesmo: produzir autoconhecimento.

O problema é que você ainda não entendeu isso. Você ainda acredita que viver é atividade biológica. Daí, ao invés de produzir autoconhecimento, você produz vitimismo e não avança para a próxima fase do jogo. Para subir de nível você deve mudar de pergunta. Seja lá o que aconteceu ou estiver acontecendo, se pergunte: “O que isso está me ensinando sobre ser humano e sobre minha pessoa?”. Essa pergunta sim direciona sua consciência para o verdadeiro propósito do que você está experimentando: autoconhecimento.

Viagem tem dois sentidos: ida e volta. A experiência humana é semelhante, ou você está subindo no cavalo, ou você está caindo do cavalo. Subir no cavalo é adormecer na ignorância de si e do que é ser humano. Cair do cavalo é cair em si e despertar para o que é ser humano. Subir no cavalo é tão fundamental como cair do cavalo. Não dá para colocar a queda na frente da subida. Primeiro é preciso esconder o tesouro para depois brincar de caça ao tesouro. Atualmente você está despertando para si mesmo e para o que é ser humano, ou seja, você está caindo do cavalo. Entregue, confie, aceite e agradeça. A viagem do despertar é a volta dos que não foram. Caia do cavalo e celebre seu fracasso!

Vida espiritual é exatamente essa vida humana que você nega na busca de outra. Não tem outra. Você é um ser humano. Ser é espírito, humano é seu estado de espírito atual. Você é um espírito humanizado. Quando você nega sua humanidade, você está matando exatamente a vida espiritual que está buscando, por isso nunca a encontra. Não é negando sua vida humana que você amplia sua vida espiritual, pelo contrário, é sendo humano ao máximo. Quanto mais maestria em ser humano, mais espiritual você está humanamente sendo.

Você está na rodoviária do futuro. Momento de decisão. Você está decidindo em que ônibus deseja entrar, que viagem deseja fazer, que realidade quer experimentar ou parar de experimentar.

Muitas pessoas queridas irão entrar em ônibus diferentes do seu. Rodoviária é momento de encontros e despedidas. Não tem ônibus certo nem errado. Cada ônibus faz uma viagem diferente e só cada um pode saber o que é melhor para si.

Tem seres que desejam continuar na ignorância. Tem seres que desejam ampliar seu estado de ignorância. Há um propósito positivo para isto. É uma espécie de estratégia kamikaze e não é diferente da que você esteve usando para chegar até aqui.

Faça sua opção.
Honre a opção do outro.
Cada um no seu processo
e todos no nosso.

Você não tem como ficar de fora! Porque essa revolução não tem fora, nem dentro, nem tempo, nem templo, nem religião. Essa revolução não é teoria. Não é ficção. Não é superôme girando o mundo na contramão. Não é Harry Potter fazendo abracadabra. Não é Luke Skywalker contra Freddy Krueger. Não é mais um besteirol americano.

Essa revolução não tem patrocínio. Não desce redonda. Não vale por um bifinho. Não deixa o branco mais branco. Não é terrível contra os insetos. Não faz tchan, tchum e tchan tchan tchan.

Essa revolução não tem líder. Não é tropa do capitão nascimento. Não é movimento cultural, sindical, racial, extraterrestre, etc e tal.

Essa revolução não é do contra. Não toma partido. Não derruba muros. Não destrói torres. Não tira dos ricos para dar aos pobres. Não prende culpados, nem liberta inocentes.

Essa revolução não toca no rádio. Não faz sala de recepção. Não distrai motorista no trânsito. Não é hip-hop, nem rock and roll. Não tem perfil no Facebook. Não recebe sinal de curti. Não é comentada nos telejornais, nem é capa de revista.

Essa revolução não está acontecendo no que está acontecendo. Os acontecimentos são consequências dessa revolução, que marcha tão perto que você não escuta, que está tão perto que você não vê.

O motivo é um. Só um. Apenas um. Essa revolução é você.

PERGUNTAS

Você existe. Logo, você vem de si mesmo e vai para si mesmo. Essa é a resposta.

Partindo da premissa de que tudo que faz parte das possibilidades da natureza é natural, sim, despertar da consciência é natural, pois é uma possibilidade. Contudo, nenhuma possibilidade se realiza sem que você execute a realização. Sendo assim, para ter um despertar existencial você precisa praticar auto-observação existencial, para ter um despertar psicológico você precisa praticar auto-observação psicológica e para ter um despertar pessoal você precisa praticar auto-observação pessoal.

Sim e não. Esse é o ponto!  Quando você-humano descobre que é ser, quem descobriu não foi você-humano, foi você-ser, pois você-humano não tem consciência. A consciência que você-humano aparenta ter, não pertence a você-humano, pertence a você-ser. Quem está em estado de ignorância não é você-humano, é você-ser, que acredita que é só-humano. Por isso, quando você-humano desperta, na verdade, quem despertou foi você-ser.

Suas necessidades humanas não são humanas, são existenciais, apenas estão humanizadas. Dito isso, a resposta a sua pergunta é não. O despertar existencial altera seu entendimento sobre sua existência e não o modus operandi da natureza humana. Você deixa de se entender como só humano e começa a se entender como ser humano. Essa é a única mudança. Mas claro que essa conscientização lhe possibilita fazer melhores opções e, consequentemente, viver melhor.

Não! Você existe! Existir não é opcional, é existencial. Existir = ser. Nascer e existir não é a mesma coisa. A mentalidade materialista iguala nascer com existir. Existência existe. Existência não tem fim porque não tem começo. A morte é o fim de uma realidade e não da fábrica da realidade.

Se não foi você que escolheu, quem foi? E se foi você, como eu, que não sou você, posso saber o que te motivou a fazer essa escolha?

O que é carne? Ao que você está se referindo quando diz carne? Você está se referindo a uma experiência de carne. Sem a experiência de carne, que carne tem? Nenhuma! Por que não? Porque carne não é objeto físico, não é coisa feita de matéria, é objeto virtual, feito de experiência sensorial (visão, tato, paladar, audição e olfato). Todos os objetos que você supõe físicos, não são físicos, são objetos virtuais.

Carne não existe, acontece. Se carne existisse, nunca deixaria de existir. Existência nunca começa, por isso, nunca termina. O que começa e termina não existe, acontece, igual um filme na tela da televisão. O filme começa e termina. Mas a televisão não começa com o começo do filme, nem termina com o fim do filme. A televisão existe antes do filme começar e depois que o filme termina. O filme acontece, a televisão existe.

Se esses objetos que você supõe físicos, não são físicos, são virtuais: o que é isso que possibilita e dá corpo virtual a esses objetos? E mais! Pode isso que possibilita e dá corpo virtual aos objetos virtuais ser um corpo virtual também? Claro que não! A fábrica dos objetos está além dos objetos produzidos. É de outra natureza. Qual natureza? Existencial. E o que é isso que existe e produz os objetos virtuais? É você (você-ser).

Sim e não. O problema nessa pergunta é o entendimento sobre separação. Na lógica materialista, separação necessita de espaço e tempo. A cadeira está separada da mesa no espaço-tempo. O passado está separado do presente no espaço-tempo. Se você tentar colocar o ser aqui e o humano ali, não irá conseguir, pois não existe essa separação espaço-temporal. Mas tem uma separação, mesmo que não seja espaço-temporal. E como separar o inseparável? Usando o discernimento. Essa é a função do discernimento: separar o inseparável. Por exemplo, olhe para um objeto, qualquer objeto. Você verá que esse objeto tem três dimensões: altura, largura e profundidade. Você consegue separar no espaço-tempo a largura, da altura, da profundidade? Consegue colocar a largura do objeto em cima da mesa, a altura no bolso e segurar a profundidade na mão? Não. São inseparáveis. Contudo, você sabe que são três dimensões distintas (separadas). Isso é óbvio. E como você sabe? Através do discernimento. Analogamente, também é através do discernimento que você separa o serumano em dois: ser e humano.

Imagine que você vai jogar um videogame de realidade virtual. Você coloca o óculos, as luvas, tudo que é necessário. Imagine que nesse jogo você é um sapo. Quando você clica no botão iniciar, você precisa passar por um processo para virar sapo? Não! Sua transformação em sapo é imediata. Não tem processo nenhum, nem envolve aprendizagem. Clicou virou sapo. Metaforicamente, o mesmo acontece quando você-ser decide brincar de ser humano. Você clica na experiência humana e imediatamente você se transforma em ser humano. Também não tem processo nenhum, nem aprendizagem. Clicou virou humano. O que não significa que você já entra no jogo sabendo o que é ser humano. Pelo contrário, você entra no jogo em absoluta ignorância. Viver é você jogando o jogo para descobrir como o jogo funciona. Descobrir como o jogo funciona é produzir autoconhecimento. A produção de autoconhecimento é um processo.

Sim, exatamente! No estado de ignorância existencial você acredita que é SÓ humano, mas você não é SÓ humano, você é um SER humano.

Não! Lucidez é quando você sabe, quando você está consciente. Maestria é quando você tem competência em executar e executa com facilidade. Você pode saber o que é bicicleta, saber o que é equilíbrio e ser incapaz de andar de bicicleta porque não tem maestria em executar o equilíbrio sobre a bicicleta.

Espiritualidade é existencialidade.

Imagine uma pessoa muito culta que está de olhos fechados, mas que acredita que está de olhos abertos. Isso é ignorância PhD.

Ignorância PHD é quando você ignora que ignora. Ou seja, é quando você pensa que sabe.

Idolatria e antipatia.

Autoconhecimento não se aprende, se desperta. Para produzir autoconhecimento, o aluno precisa praticar autociência e colocar a prova as explicações recebidas. Mas quando o aluno recebe uma explicação, ele tem duas reações:

A) AMÉM! — Idolatria — O aluno acredita nas explicações ao invés de colocá-las a prova.
B) ANÉM! — Antipatia — O aluno renega as explicações ao invés de colocá-las a prova.

Tanto a opção A como a opção B impedem o autoconhecimento.

Não, você-ser é o jogador. Autoconhecimento é o jogo de descobrir o que você é, ou seja, o que é ser humano fulano. Descobrir é diferente de aprender. Na atividade de aprender você tem um professor, na atividade de descobrir, não tem professor, tem um descobridor. Você-ser deve descobrir por si. Não tem professor para te ensinar. Mas você pode pedir ajuda para os jogadores que já descobriram, assim como está tendo ajuda da 1ficina.

Porque não se constrói uma casa começando pelo telhado. Começamos pelo alicerce até chegarmos no telhado. Existência, vivência e convivência. A convivência é o telhado. É no telhado que o bicho pega. É no telhado que a coletividade humana está em chamas. Apagar o fogo do telhado humano é urgente para que os seres humanos não se autodestruam. Por isso tem trabalhos que pulam o alicerce e vão direto para o telhado. São trabalhos de pronto socorro. Trabalhos de bombeiro, que visam apagar o fogo da má convivência. Tudo tem prós e contras. Ao meu ver, a opção de pular o existencial, tem mais contras do que prós. Melhor do que ficar curando os feridos, é acabar com a guerra. Por isso não pulo o alicerce existencial, mesmo que ninguém entenda.

Porque a função desse livro é cuspir na sua cara, xingar sua mãe e te chamar pra briga. Ficar irritado é o mínimo que espero de você. Se a leitura do livro Apocalip-se não te deixar revoltado, puto ou entristecido, sugiro que desista da autociência. Vai fazer curso de floral, reiki, física quântica, lei da atração, barra de access, coaching, psicologia transpessoal e o escambau. Vai ler a biblioteca inteira de autoajuda. Vai tomar chá de bambu. Vai fumar folha de bananeira.  Vai rezar. Vai fazer contato com extraterrestre em Machu Picchu. Vai fazer meditação com cobertura de ovomaltine. Vai assistir palestra no Youtube. Vai comprar cristal na feirinha hippie. Tantufaz. Toma a pílula azul e continua pensando que sabe. Autociência não é para você.

Porque julgar é analisar e analisar é você conversando com você. Quando a análise é inicial, é julgamento inicial, quando a análise é final, é julgamento final.

Primeiro, porque não é de entender, é de ficar consciente. Depois, porque quando aparece a palavra VOCÊ nos textos da 1ficina, significa Ser Humano, só que você lê Humano Ser. Até cair essa ficha, demoooora!

Você que me diga, seu interesse é seu.

Porque não nasce. O que não nasce, não morre. Voser (você-ser) não nasce, logo, não morre. Voser existe. Existência existe.

Imagine que você está assistindo um filme e toca o telefone, toca a campainha, sua mãe entra conversando na sala, seu irmão liga a guitarra e começa a tocar heavy metal, e assim por diante. Qual será sua assimilação do filme? Será muito baixa. Esse é um dos motivos da minha recomendação. Quanto mais você se distrai com os ruídos que vem de fora, menos você consegue olhar para dentro. Os ruídos do mundo roubam sua atenção. E atenção é vital para prática da autociência.

A maioria das coisas que a 1ficina aponta, você jamais iria enxergar por conta própria. É muito sutil. Dentro de uma frase da 1ficina tem um livro inteiro compactado, igual arquivo de computador. Se você não presta atenção, se o seu pensamento está na novela, no noticiário, no instagram, na inveja, na fofoca, na política, no trânsito, no trabalho, na escola, etc, você fica só no superficial do que está sendo apontado e não assimila nada. E como o ciclo de estudos tem apontamentos novos toda semana, você perde tudo. Quando chega o fim do ciclo, você fica com a sensação de que não fez nada bem feito, nem o ciclo, nem as outras coisas.

Só que tem o ideal de prática e tem o praticante na prática. É raro o praticante que realmente se entrega ao ciclo de estudos com compromisso e foco. 99% dos alunos faz nas coxas e vem aqui em busca de terapia gratuita. O que eu posso fazer? Se é isso que tem para hoje, se é essa a disposição que os seres humanos tem para o autoconhecimento, então, é isso. Só posso fazer minha parte. Recomendar, alertar e oferecer o ciclo de estudos.

Humano Ser é o que você acredita ser, por estar adormecido na mentalidade materialista. Ser Humano é o que você descobre que é, quando desperta do equívoco do materialismo.

A evidência é o arbítrio. Realidade não é arbitrária, é arbitrada. Sua experiência atual (humana) é como toda e qualquer realidade que você experimenta: produto do seu arbítrio. Entendido isso, você não OPTOU por ser humano (OPTOU – verbo no passado), você ESTÁ OPTANDO por ser humano (OPTANDO – verbo no gerúndio). Esse é o equívoco da gênese materialista. No texto bíblico esse equívoco começa assim: “No princípio era o verbo…. e todas as coisas foram feitas…” Observe: “No princípio”, então criação já foi, já aconteceu, no passado. “Era o verbo”, então criação já era, já foi, no passado. “Foram feitas”, então, já foi feito, no passado. Exatamente o mesmo equívoco ocorre com a teoria do Big-Bang. Teve uma explosão, tudo foi criado no passado e pronto. Percebe? Essa gênese é morta. Essa gênese mora no passado. Gênese é criação. Criação é viva. Gênese é o verbo no presente contínuo (gerúndio). Gênese é agora, agora, agora, agora… Gênese é TIC TAC. Então… você não OPTOU por ser humano (verbo no passado). Isso é um equívoco. Você ESTÁ OPTANDO por ser humano (verbo no gerúndio). A prova disso é que você está sendo humano.

A principal doença humana, não é humana, é existencial. Esse é o problema. A principal doença do ser humano é a ignorância sobre o que é ser humano. Ignorância é uma questão consciencial, ou seja, existencial. O doente é você-ser e não você-humano. Sua doença consciencial é dormir (estado de ignorância). A natureza humana é apenas o programa que você-ser está usando para brincar de ser humano. A natureza humana é como um carro. Você-ser é o motorista. O motorista dorme no volante e o carro cai no abismo. Que culpa tem o carro? Nenhuma! Outroísmo é efeito colateral da ignorância. Nenhum ser humano lúcido vive outroísta.

Essa confusão faz surgir em você uma doença incurável com a qual você irá lutar até a morte. Que doença é essa? A vida. Tá espantado? Fica um minuto sem respirar para você ver o que acontece. Quem tenta te matar todos os dias não é a morte, é a vida. A morte é apenas o momento em que você perde e a vida ganha.

Só tem duas maneiras de viver. Você pode: A) viver BEM ou B) viver MAL. Para viver BEM é preciso despertar para o que é ser humano. Para viver MAL, ignorância serve.

Sentimento de perplexidade. É espantoso ver como o equívoco do materialismo é sutil e por isso muito difícil de despertar.

Não existe criança. Você não é um HUMANO SER, você é um SER HUMANO. O que existe é um ser brincando de ser humano numa fase da brincadeira que chamamos de infância. Você opta por brincar de ser humano, mas você não tem ideia do que irá experimentar nessa brincadeira, assim como quando você compra um disco que você nunca ouviu antes. Você compra para ouvir, para descobrir que música tem ali. Então, sua opção é só essa: sim vou entrar nessa brincadeira. Daí você entra. Logo que entre o médico te lasca um tapa na bunda. No dia seguinte você sente uma puta dor de barriga. Creeeeedo! O que tá acontecendo? É vontade de cagar, mas você nunca cagou antes, não sabe o que está acontecendo. E assim você vai descobrindo o que é ser humano. Pode ser que você ganhe na loteria e pode ser também que você seja estuprada. Tudo faz parte das possibilidades. Seja qual for sua experiência na brincadeira, é sempre efeito da sua opção de estar brincando. Ninguém te obrigou a brincar de ser humano, nem tem esse poder. Você está brincando por opção sua. O mesmo com todos os seres humanos, o que inclui o ser humano que você está chamando de criança.

Schopenhauer está certo dentro da mentalidade materialista. Ele entende o ser humano como um espermatozoide em evolução, logo, não entende a função pedagógica do sofrimento. Ele vê o sofrimento apenas como uma espécie de maldição da vida.

Aqui é espaço e agora é tempo. Você-ser é a fábrica do tempo e do espaço, logo, você-ser existe além do aqui e agora. Vou criar uma imagem para ajudar no entendimento. Você-ser é como uma televisão. O filme passando na televisão é o aqui e agora. Quando você muda de canal, muda o filme, muda o aqui e agora, mas não muda a televisão. A televisão continua sendo o que sempre é: a fábrica dos filmes. Metaforicamente, o mesmo acontece com você-ser. A realidade que você experimenta aqui e agora é um filme passando dentro de você-ser e não do lado de fora. Você-ser é a televisão e não o personagem no filme. Acreditar que você é só o personagem no filme, só humano, ignorando a televisão, é se ver como humano ser. Despertar a consciência para a televisão, para você-ser, é se ver como ser humano. Então, na verdade, você-ser, nunca esteve e nunca estará aqui e agora. Você-ser está sempre em si, na unidade existencial que você é, quer você esteja consciente disso ou não.

Sim, você vai morrer. Tudo que nasce morre. Você nasceu, então, vai morrer. O que acontece quando você desperta a consciência existencial, é que você fica consciente de que você existe e que sua existência não nasce nem morre, existe.

Ser é feito de existência.

Tudo que nasce, evolui, involui e morre. Você, enquanto pessoa humana, nasceu e irá morrer. O destino de tudo que nasce é morrer. Sua experiência humana nasce e evolui até chegar ao fim. O que não nasce, não evolui, não involui e não morre. Você, enquanto ser, não nasce, não evoluiu e não morre. Você, enquanto ser, existe.

Você-ser não precisa fazer nada para existir. Nem tem como você deixar de existir. Você-ser simplesmente existe. Só que até falar “ser existe” é errado e induz ao equívoco da dualidade. Não tem duas coisas: você-ser e existência. Você-ser é existência. Falar “ser existe” é pleonasmo, igual falar subir para cima. Mas toda linguagem é dualista, então, dizer “ser existe” é pedagógico e pode ajudar no entendimento.

Pior do que isso! Desmaterializei toda a matéria do universo. O despertar da consciência não faz você perceber além da matéria. Isso é impossível. O despertar da consciência deixa óbvio que matéria é apenas uma perspectiva perceptiva. Depois que você desperta a consciência, a matéria continua lá do lado de fora, dura e tridimensional, exatamente como antes. Nada muda. A única coisa que muda, é que antes de despertar, você ignorava que matéria é perspectiva perceptiva, depois isso fica óbvio.

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© 2023 • 1FICINA • Marcelo Ferrari