Antes do depois

12/10/2025 by in category Capitulos, Kinder Eu, Textos with 0 and 0

Gastava todo meu tempo, o pouco dinheiro, e o povo me malhando feito Judas na quaresma.

Culpa do Ferrari! Culpa do Ferrari!
Tudo era culpa do Ferrari.

Se a Torre de Pisa era torta, culpa do Ferrari.
Se o avião dos Mamonas caiu, culpa do Ferrari.
A Primeira Guerra, a Segunda, o dilúvio, a queda do homem — culpa do Ferrari.
Até calado, eu estava errado.

(Risos.) Rindo agora. Naquele tempo, não. Naquele tempo estava no fundo do poço — e no fundo tinha um alçapão para ir mais fundo.

Procurei um amigo psicólogo — que também fazia parte do grupo, mas era da ala dos aliados.
Consultório pequeno, travessa da Paulista, tarde anônima.
Contei minha história, como quem despeja entulho na calçada.
Ele ouviu tudo com atenção sacerdotal.
Como além de psicólogo, era médium, incorporou o capeta.
O rosto mudou.

— Tá reclamando por quê? — disse a voz de dragão, falando pela boca do meu amigo — Até que tá bom! Você ainda está de pé! Vai quebrar as duas pernas, andar de joelhos pelo asfalto quente, sangrando nos grãos de milho, arrastando-se sobre cacos de vidro!
Pensei: puta que pariu.

Pra quê chutar cachorro morto?
Vim pedir cólo e me entregam o armagedom.
Mas a voz não parava.
Repetia, como uma reza hipnótica:

— De joelhos no asfalto, no milho, no caco de vidro… De joelhos… no asfalto… no milho… no caco de vidro… De joelhos… no asfalto… no milho… no caco de vidro…

E eu, que já estava por um fio, comecei a ceder.
Me curvei.
Me curvei mais.
Até que os joelhos tocaram o chão.
E, no chão, continuei me curvando, como quem se rende à gravidade do mundo.
Caí. Arriado. Sem força vital, sem força psíquica, sem força nenhuma.
Estirado no chão, como se o pé de um gigante estivesse me esmagando.

— Entendeu agora? — disse a voz do gigante sem o mínimo tom de piedade — É aí que você está! No chão do vitimismo. Caído, derrotado, fracassado, vencido. E você tem duas opções: continuar se vitimizando… ou se levantar e lutar. O que vai ser?

Tuft! A ficha caiu.
Entendi tudo que estava acontecendo e a pedagogia da reza brava.
Estava passando pela dor do segundo parto.
E tinha duas opções:
Morrer desistindo (de mim, dos meus valores, das minhas verdades, dos meus desejos)
Ou morrer lutando (por mim, meus valores, minhas verdades, meus desejos).

Peeera aí — caiu um cisco no olho. Pronto, voltando…

Dentro de mim, uma voz gritou, furiosa: já que vai morrer, que morra lutando, pooooorraaa!
Coloquei as mãos no chão e empurrei o corpo pra cima. E, embora não houvesse pé de gigante nenhum me pisando de verdade, parecia que havia — e era pesado pra caraaaalhooo.
Mas eu não ia morrer sem lutar. Nem fodendo!
Coloquei mais força.
Uma força que eu não tinha — ou que não sabia que tinha.

E de repente, estava de pé. Chorando aos prantos.
Meu amigo saiu do transe mediúnico, me viu chorando e não entendeu nada.
Não expliquei. Não dava.
Só chorava.

E quanto mais chorava, mais entendia.
E quanto mais entendia, mais agradecia — à dor, à humilhação, àquilo que chamei de injustiça.

Então, meu amigo…
A vida é assim mesmo!
Antes desse depois, a vida parece injusta e sem sentido.
Só que não!

A vida tem uma missão: te colocar de joelhos.
E depois, te colocar debaixo do pé do gigante.
Até que você grite: não mais!
Até que você urre: bastaaaa!

Até que: foooooda-se que são trezentos contra um milhão.
Você berra: “Espaaaarta!”
E vai pra guerra.
Capota, mas não breca.
Vencer ou morrer lutando.

E a partir dessa decisão, tudo muda.
Tudo faz sentido.
Gratidão pelo capeta e pelo gigante.
Eles foram seus parteiros.

Crucificado pela vida, você morre.
E renasce.
Aleluia!

© 2025 • 1FICINA • Marcelo Ferrari