AMOR FÁCIL, DIFÍCIL E IMPOSSÍVEL

25/05/2016 by in category Livros with 0 and 0
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01 | QUATRO VEZES DIFERENTE

AMOR FÁCIL 08 1ficina autoconhecimento relacionamento felicidade

Existem três tipos de amores na experiência humana: Amor Fácil, Amor Difícil e Amor Impossível. Para que você possa entender porque são três, e qual é qual, primeiro você deve entender que ser humano é ser quatro ao mesmo tempo. Isto mesmo! Você é um ser em uma experiência que é quaternária. Vou usar o símbolo da 1ficina para explicar isso. Primeiro vou explicar o símbolo original. O círculo representa o ser que você é, o ser que cada um é. O ponto no meio do círculo representa o consciente. Você é um ser consciente. Só que você não é apenas consciente, você é um ser “humano” consciente. A polpa dentro do círculo representa sua humanidade. Ser é nada. Você é nada brincando de tudo. Ou melhor, você é nada brincando de um tipo de tudo. Que tipo de tudo? Tudo humano. É por isto que tudo que você experimenta é humano, porque você é um ser humano. O que estou explicando aqui, é que você existe, que você = existência, e por isto, atualmente, está humano. E também estou dizendo que sua experiência humana está dentro de você e não você dentro da sua experiência humana. O sinal de diferente representa sua singularidade. Cada um é igual e diferente. Você é igualmente diferente. Você é igualmente ser humano, mas você é um ser humano diferente. Aliás, você é um ser humano quatro vezes diferente, pois a experiência humana é quaternária.


02 | AMOR RACIONAL

Uma das quatro dimensões humanas é a racionalidade. Racionalidade é a dimensão do definir. É onde você define o verdadeiro e o falso. A todo instante você está definindo o verdadeiro e o falso. Por exemplo, quando você afirma, “Felicidade é morar na praia”, você está definindo o que é, e o que não é felicidade, ou seja, verdadeiro e falso. Cada um é livre para definir por si, então, verdadeiro e falso é relativo à definição de cada um. Você pode estar se perguntando: o que definir tem a ver com amor? Tem tudo a ver! Você quer o falso? Claro que não! Ninguém quer o falso. E por que não? Porque todo ser humano ama o verdadeiro. A experiência humana é quaternária, isso significa que você tem quatro formas diferentes de amar. Na dimensão racional, você ama o verdadeiro e odeia o falso. Amar o verdadeiro e odiar o falso, é humano. Você não precisa se esforçar para amar o verdadeiro e odiar o falso. Você não precisa aprender a amar o verdadeiro e odiar o falso. Quando você entende que algo é verdadeiro, você ama, naturalmente e inevitavelmente. Quando você entende que algo é falso, você odeia, naturalmente e inevitavelmente. O que é verdadeiro e o que é falso, é relativo, mas todo ser humano ama o verdadeiro e odeia o falso. Amar o verdadeiro é amor fácil, facílimo, inevitável.


03 | AMOR AFETIVO

Outra dimensão da experiência humana é a afetividade. Afetividade é a dimensão do avaliar. É onde você lida com atribuição de valor, com o caro e o nulo. A todo instante você está atribuindo valor. Por exemplo, quando você diz, “Eu te amo”, para uma pessoa, você esta atribuindo valor a pessoa, está dando importância, está apreciando. Cada um é livre para avaliar por si, então, caro e nulo é relativo a avaliação de cada um. O que avaliar tem a ver com amor? Tem tudo a ver! Você quer o nulo? Claro que não! Ninguém quer o nulo. E por que não? Porque todo ser humano ama o caro. A experiência humana é quaternária, isso significa que você tem quatro formas diferentes de amar. Na dimensão afetiva, você ama o caro e odeia o nulo. Amar o caro e odiar o nulo, é humano. Você não precisa se esforçar para amar o caro e odiar o nulo. Você não precisa aprender a amar o caro e odiar o nulo. Quando você entende que algo é caro, você ama, naturalmente e inevitavelmente. Quando você entende que algo é nulo, você odeia, naturalmente e inevitavelmente. O que é caro, e o que é nulo, é relativo, mas todo ser humano ama o caro e odeia o nulo. Amar o caro é amor fácil, facílimo, inevitável.


04 | AMOR SENSORIAL

Outra dimensão da experiência humana é a sensorialidade. Sensorialidade é a dimensão do gostar. É onde você lida com o gosto, com o bom e o ruim. A todo instante você está lidando com o gostar. Por exemplo, quando você diz, “Adoro rock”, é porque ouvir rock é bom, é gostoso. Cada um é livre para gostar por si, então, bom e ruim é relativo ao gosto de cada um. Você pode estar se perguntando o que gostar tem a ver com amor? Tem tudo a ver! Você quer o ruim? Claro que não! Ninguém quer o ruim. E por que não? Porque todo ser humano ama o bom. A experiência humana é quaternária, isso significa que você tem quatro formas diferentes de amar. Na dimensão sensorial, você ama o bom e odeia o ruim. Amar o bom e odiar o ruim, é humano. Você não precisa se esforçar para amar o bom e odiar o ruim. Você não precisa aprender a amar o bom e odiar o ruim. Quando você entende que algo é bom, você ama, naturalmente e inevitavelmente. Quando você entende que algo é ruim, você odeia, naturalmente e inevitavelmente. O que é bom, e o que é ruim, é relativo, mas todo ser humano ama o bom e odeia o ruim. Amar o bom é amor fácil, facílimo, inevitável.


05 | AMOR FÍSICO

Outra dimensão da experiência humana é a fisicalidade. Fisicalidade é a dimensão do ponderar. É onde você lida com o benefício e o malefício, como o bem e o mal. A todo instante você está ponderando o bem e o mal. Por exemplo, quando você diz “O tomate está caro”, você está ponderando o custo benefício do tomate. Cada um é livre para ponderar por si, então, bem e mal é relativo à avaliação de cada um. Você pode estar se perguntando o que ponderar tem a ver com amor? Tem tudo a ver! Você quer o mal? Claro que não! Ninguém quer o mal. E por que não? Porque todo ser humano ama o bem. A experiência humana é quaternária, isso significa que você tem quatro formas diferentes de amar. Na dimensão física, você ama o bem e odeia o mal. Amar o bem e odiar o mal, é humano. Você não precisa se esforçar para amar o bem e odiar o mal. Você não precisa aprender a amar o bem e odiar o mal. Quando você entende que algo é bem, você ama, naturalmente e inevitavelmente. Quando você entende que algo é mal, você odeia, naturalmente e inevitavelmente. O que é bem e o que é mal, é relativo, mas todo ser humano ama o bem e odeia o mal. Amar o bem é amor fácil, facílimo, inevitável.


06 | AMOR FÁCIL

Eis os quatro amores fáceis:

Dimensão Racional – Amor ao vero.
Dimensão Afetiva – Amor ao caro.
Dimensão Sensorial – Amor ao bom.
Dimensão Física – Amor ao bem.

Amar o vero, o caro, o bom e o bem, é amor fácil, facílimo, inevitável.


07 | AMOR IMPOSSÍVEL

Sendo que amar o vero, o caro, o bom e o bem, é amor fácil, facílimo, inevitável, o que é amor difícil? A resposta aparentemente óbvia, é que amor difícil é amar o falso, o nulo, o ruim e o mal. Eis o engano. Amar o falso, o nulo, o ruim e o mal, não é difícil, é impossível. Você ama o verdadeiro porque odeia o falso. Se fosse possível você amar o falso, seria impossível você amar o verdadeiro. Você ama o caro porque odeia o nulo. Se fosse possível você amar o nulo, seria impossível você amar o caro. Você ama o bom porque odeia o ruim. Se fosse possível você amar o ruim, seria impossível você amar o bom. Você ama o bem porque odeia o mal. Se fosse possível você amar o mal, seria impossível você amar o bem. Amar o falso, o nulo, o ruim e o mal, não é difícil, é impossível. Se fosse possível, você já teria obtido êxito neste objetivo. Porém, nunca obtêm, por mais que tente, pois trata-se de um objetivo impossível. É impossível amar o que se odeia, e todo ser humano odeia o falso, o nulo, o ruim e o mal. Quando isso fica absolutamente evidente, você desiste naturalmente do amor impossível, e está pronto para praticar o amor difícil.


08 | AMOR DIFÍCIL

AMOR FÁCIL 15 1ficina autoconhecimento relacionamento felicidade marcelo ferrari

Amor difícil surge naturalmente quando você percebe que o amor impossível é impossível, tanto para você, como para o outro. Amor difícil é respeitar o amor fácil dos outros. Amor difícil é respeitar a universalidade de veros, caros, bons e bens. Cada um é ímpar, singular, único, diferente. Sendo assim, o que é bem para você pode ser mal para o outro, o que é bom para você pode ser ruim para o outro, o que é caro para você pode ser nulo para o outro, o que é vero para você pode ser falso para o outro, e vice versa. Você é diferente do outro e o outro é diferente de você. E não tem nenhum problema nisso. O problema só surge quando você ignora isso. Quando acredita e supõe que o que é vero, caro, bom e bem para você, é para o outro também. É assim que surgem as guerras. E por que o amor difícil é difícil? Porque você não tem prática em perceber a impossibilidade do amor impossível.


09 | AMOR CONSCIENTE

AMOR FÁCIL 16 1ficina autoconhecimento relacionamento felicidade

Amor difícil não é abnegação. Assim como você opta pelo amor fácil por egoísmo, ou seja, porque é a melhor opção, você também opta pelo amor difícil por egoísmo, ou seja, também porque é a melhor opção. Amor difícil é amor consciente. A melhor coisa que você pode fazer por você é dar liberdade ao outro para amar fácil. Quando você dá liberdade ao outro de amar fácil, quem se liberta é você, que não precisa mais persistir no amor impossível. Abnegação é missão impossível, então, abnegação é amor ignorante.

PERGUNTAS E RESPOSTAS

PERGUNTA: No texto AMOR É EGOÍSMO, você diz que ninguém ama ninguém. Pode explicar melhor?

Você ama a experiência do bem, bom, caro e vero que o outro estimula em você e não o outro. Por isso que ninguém ama ninguém. No instante em que o outro para de estimular experiência de bem, bom, caro e vero em você e começa a estimular experiência de mal, ruim, nulo e falso, imediatamente e inevitavelmente, você começa a odiar o outro. Amor fácil não é pelo outro, é pela experiência de bem, bom, caro e vero. Amor difícil sim é pelo outro. Amor difícil é sua opção de dar liberdade ao outro de ser diferente de você apesar dessa diferença lhe estimular experiência de mal, ruim, nulo e falso. Interessante observar que você faz isso com os objetos, plantas e bichos, mas não faz com os outros seres humanos. Manga tem sabor de manga. Se você acha ruim o sabor da manga, você não obriga a manga a ter sabor de morango. Ou seja, não obriga a manga a ser diferente do que é. Vaca dá leite. Se leite te faz mal, você não obriga a vaca a botar ovo. Ou seja, não obriga a vaca a ser diferente do que é. Fogo queima e você não obriga o fogo a fazer cafuné. Ou seja, não obriga o fogo a ser diferente do que é. Enfim, você não obriga os objetos, plantas e bichos a serem diferentes do que são, pois você sabe que isso é impossível e sabe que tentar realizar o impossível é se condenar a fracasso eterno. Porém, você faz isso consigo mesmo e com o outro. Você se obriga a fazer, gostar, valorizar e pensar igual o outro e obriga o outro a fazer, gostar, valorizar e pensar igual você. E ao invés de você chamar isso de insanidade, você chama de amor, abnegação, altruísmo, espiritualidade, religiosidade, nobreza, ética, virtude, educação, etc.


PERGUNTA: Não existe abnegação e tentar ser abnegado é sofrer?

Amor fácil e amor impossível é o mesmo amor. São os dois lados de uma mesma moeda. Amor fácil e amor impossível não são opcionais. Amor fácil é fácil justamente porque não é opcional, é inevitável. Quando você ama algo, você não tem opção de não amar, pois você ama. E por amar, simultaneamente, odeia o oposto, pois o ódio é o outro lado da moeda do amor. Então, amor fácil e impossível não é opcional. Amor difícil, esse sim, é opcional. Amor difícil é você executando seu arbítrio no sentido de dar liberdade para si mesmo e para o outro de amar fácil. Amor difícil é libertação. Dar liberdade é difícil porque você criou o HÁBITO de proibir a si mesmo (outroísmo submisso) e ao outro (outroísmo impositivo) de amar fácil. Abnegação é a crença de que é possível, louvável e saudável amar o que se odeia, ou seja, amar o mal, o ruim, o nulo e o falso. SUA abnegação é outroísmo submisso. É você se obrigando a amar o que é mal, ruim, nulo e falso para você. Esperar abnegação DO OUTRO é outroísmo impositivo. É você obrigando o outro a amar o que é mal, ruim, nulo e falso para ele.


PERGUNTA: Por que amo ou odeio algo?

Você ama fácil ALGO. Vamos chamar esse algo de OBJETO do seu amor fácil. Você ama fácil esse OBJETO e é isso. Por que você ama fácil esse OBJETO? Qual o motivo? Você não sabe. Você sabe que ama fácil porque está amando, então, é obvio que você ama fácil. Só que você não sabe porque está experimentando esse amor. Você ignora o motivo. Nesse livro a 1ficina explica o motivo. Você ama fácil ALGO porque é bem, bom, caro ou vero para você. E mais! QUANDO é bem, bom, caro ou vero para você. Isso é o amor fácil. O oposto do fácil você odeia. O que você odeia é amor impossível.


PERGUNTA: Se amor impossível é impossível, porque acredito que é possível?

Você não reclama com o caixa eletrônico, mas você reclama com o funcionário humano do banco que executa o mesmo serviço do caixa eletrônico. Por que?

INTERLOCUTOR: Até reclamo com o caixa eletrônico, mas sei que não vai dar em nada.

Por que não vai dar em nada?

INTERLOCUTOR: Porque o caixa eletrônico é um robô programado.

O caixa eletrônico se comporta sempre de acordo com o gabarito dele (programação dele). E o ser humano?

INTERLOCUTOR: O ser humano tem autonomia para tomar decisões e mudar de comportamento. Por isso reclamar com o atendente do banco é diferente de reclamar com o caixa eletrônico.

Ao invés do termo “autonomia para tomar decisões” vou usar a palavra “arbítrio”. Você não reclama com o caixa eletrônico porque sabe que o caixa eletrônico não tem arbítrio, logo, é impossível convence-lo a mudar de comportamento. Você sabe que pode chorar, espernear, chantagear e até explodir o caixa eletrônico, ele não vai mudar de comportamento para satisfazer seu desejo. Por isso você nem tenta. Mas você tenta com o outro ser humano, por que?

INTERLOCUTOR: Porque o outro ser humano pode decidir mudar de comportamento e atender minha reclamação.

Exato! Você não consegue convencer o caixa eletrônico a lhe agradar, mas consegue convencer um ser humano. Mesmo que você apontar uma arma para um caixa eletrônico e disser “Me dá todo seu dinheiro ou eu atiro e te mato!”, o caixa eletrônico não vai mudar de comportamento. Você sabe disso. Então, você nem tenta. Porém, na infância, quando sua mãe tirou a teta da sua boca, você chorou. E sua mãe, mesmo cansada, mesmo sem leite, mesmo com o bico do peito doendo, ou seja, mesmo contrariada, deu a teta de volta para lhe agradar. Nesse momento você fez a matricula na faculdade do outroísmo e teve sua primeira lição de como transformar um ser humano em um escravo seu. Basta chorar e reclamar. Muita prática e hoje você é o mestre do mimimi. O problema é que são milhões de seres humanos no mundo e apenas um deles é sua mãe. Então, quando está convivendo com esse outros seres humanos, por mais que você chore, reclame e tente, a teta não vem.

INTERLOCUTOR: Então, acredito que o amor impossível é possível porque o outro ser humano pode optar por me agradar, mesmo que ao fazer isso ele esteja desagradando a si mesmo?

Exato! E vice versa. Você tem arbítrio, então, você pode se obrigar a optar pelo que é mal, ruim, falso e nulo. Você sofre e vive mal quando faz isso. Mas isso é possível. Então, você passa a acreditar que é possível amar o que você odeia. Amar não é possível, por isso você odeia. Mas é possível optar por viver assim. Isso é o outroísmo submisso. No outroísmo impositivo, você tenta obrigar o outro a fazer, gostar, valorizar ou pensar igual você. Você não tem como controlar o arbítrio do outro, mas o outro se deixa ser controlado por você. Isso lhe dá a falsa impressão de que você consegue controlar o arbítrio do outro e por isso você acredita que consegue fazer o outro amar o que odeia.


PERGUNTA: Amor difícil é o mesmo que amar ao próximo como a si mesmo? Se sim, por que não consigo?

Porque você dá à palavra “amor” o significado de afeto (sentimento). Toda doutrina é feita de palavras. O significado que você dá às palavras de uma doutrina, não vem da doutrina, vem da sua cabeça. Quando você entra em contato com uma doutrina que fale do amor, mesmo que você seja criança, você já ouviu pelo menos umas 10 mil vezes sua mãe lhe dizendo “eu te amo”. Sua mãe estava se referindo ao afeto (sentimento) dela por você, estava dizendo que você é muito querido para ela, muito especial, muito importante. Só que sua mãe não te explicou que amor é desejo, que desejo é quaternário e que afeto (sentimento) é um dos quatro desejos humanos. Menos ainda que amor é fácil, difícil e impossível. Então, só lhe resta grudar esse significado afetivo e maternal à palavra amor. Amor = afeto (sentimento) que minha mãe tem por mim.

Daí, quando você entra em contato com uma doutrina que fale do amor e recebe um ensinamento que diz que você deve amar o próximo, o que você entende? Entende que deve amar o outro assim como sua mãe ama você. Ou seja, você deve dar mamadeira para o outro, fazer cafuné, lavar a louça, lavar a cueca, fazer almoço e janta, ficar preocupado, limpar a bunda do outro se ele cagar nas calças, enfim, você deve cuidar do outro assim como sua amorosa mãe cuida de você. E mais! Você deve ter afeto (sentimento) pelo outro, sempre, faça ele o que fizer. Mesmo que o outro abuse de você, lhe violente, lhe desagrade, você deve amar o abuso, a violência e o desagrado, assim como sua mãe ama você.

Isso é amor impossível. Você pode respeitar a violência, o abuso e o desagrado, mas amar é impossível. Só que sua mãe não te explica isso quando diz “eu te amo”, nem as doutrinas religiosas, quando lhe dizem: “ame ao próximo como a si mesmo”. Eis porque você não consegue amar o próximo. Amar o próximo não é afeto, não é sentimento, é dar liberdade ao outro de ser outro, diferente de você. Só isso! E isso é inevitável. O outro é o outro, diferente de você. O outro não precisa da sua permissão para ser outro. Mas você, internamente, proíbe o outro de ser outro. E daí fica vivendo o inferno da proibição. Só você sofre com isso. O outro nem sabe que você está lhe proibindo de ser diferente de você. Só você sabe disso e só você sofre com isso. Então, no final das contas, o ensinamento “ame ao próximo” visa ajudar você a se libertar do inferno da proibição e não fazer com que você seja o salvador da humanidade.


PERGUNTA: Se Amor Difícil é dar liberdade ao outro de ser outro, então, perdoar é praticar o amor difícil?

Sim, exatamente!


PERGUNTA: Se pratico amor difícil não há necessidade de perdão?

Você não pratica o perdão, você pratica engolir sapo. O que você chama de perdão, não é você dando liberdade ao outro de ser outro, diferente de você, é você se obrigando a aceitar o que não aceita. Se você não aceita, como aceitar? Impossível. Mas você acredita que perdoar é aceitar, então, você se obriga a aceitar o que não aceita. Ao fazer isso, você nem perdoa, nem vive bem, pois violenta a si mesmo. Se obrigar a aceitar não funciona, se funcionasse, já tinha funcionado. Sua mágoa continua porque perdão não acontece com você se obrigando a aceitar o que não aceita, pelo contrário, acontece com você se permitindo não aceitar o que não aceita. Quando você considera algo errado, aceite que considera errado. Ao invés de engolir o sapo, saboreie o óbvio. Esse é o primeiro passo para o perdão. Enquanto você não dá o primeiro passo, é impossível você dar o segundo, que é considerar que do ponto de vista do outro, o que você chama de problema o outro considera solução. O terceiro passo é perceber que isso é fato. É claro que do ponto de vista do outro ele considera certo o que faz, por isso opta por fazer. Quando você chega no terceiro passo, você não precisa mais executar o perdão, pois os três passos é o perdão sendo executado.


PERGUNTA: Esse amor que faz mal não seria um amor distorcido? Amor do ego? E o amor que faz bem seria o amor do self?

Amor = desejo = egoísmo. O amor não é distorcido, é usado de forma ignorante. O problema não está no amor em si, está no estado de ignorância do usuário. O amor do self (ser) é exatamente o mesmo que você supõe que não é do self. Self é você. Não existe essa dualidade self versus ego, o que existe é sempre você, ignorante ou consciente de si.


PERGUNTA: Você não parece egoísta, mas afirma que é. Não entendo. Pode explicar?

Amor é desejo. Desejo é egoísmo. Então, amor é egoísmo. Eu sei que dói matar o unicórnio do amor. Por isso usamos estratégias de fuga como amor incondicional, amor verdadeiro, compaixão, abnegação, altruísmo e oscambau. Tudo besteira. Amor é egoísmo. Não tem outro amor, só tem egoísmo mesmo. E para viver bem é imprescindível deixar isso óbvio. Pra mim, é óbvio ululante. Não existe outra MOTIVAÇÃO senão a busca pelo bem, bom, caro e vero. Faço o que faço porque desejo o bem, bom, caro e vero. Não faço nada por abnegação. Não faço nada por amor incondicional. Não faço nada por compaixão. Não faço nada por altruísmo. Faço por egoísmo puro. Faço porque desejo o bem, bom, caro e vero. Simples assim. Sem mistério. Sem segredo. Sem idolatria. E pra mim é óbvio que assim também é com todos os seres, não apenas os seres humanos, mas com todos os seres do universo. Pra mim é óbvio que o egoísmo é a única motivação de todos os seres do universo porque é a motivação do universo. O universo é o egoísmo absoluto. O universo só se interessa por seu próprio bem. Até porque, que outra motivação o universo teria sendo que o universo é tudo. Dito isso, para se realizar um objetivo, não basta desejar realizar, é preciso usar uma estratégia eficiente. Eu uso a melhor estratégia que conheço: viver de forma autoísta. Não existe estratégia melhor do que essa para realizar o egoísmo. Desconheço estratégia melhor. Se um dia eu descobrir que tem uma estratégia melhor para realizar meu egoísmo, mudo de estratégia imediatamente.


PERGUNTA: Você está indo contra uma das obras mais clássicas da filosofia, o banquete, de Platão. 

Que dizer que você foi ao banquete? Ótimo evento! O que digo não vem da filosofia platônica, vem da prática da autociência, mas Platão observou o mesmo que observo. Fome = vontade = desejo = amor. Aliás, por que você acha que Platão foi explicar o amor logo num banquete?


PERGUNTA: A religião diz que deus é amor, então, deus é desejo?

Sim. Só que deus não é outro (deusoutro). Deus é você (deuseu).

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Estar com a faca e o queijo na mão é uma expressão usada para dizer que se tem tudo, ou então, que se tem o principal para fazer algo. Só que não! Tem um pré-requisito muito mais fundamental para sair da inércia e agir. Qual pré-requisito? Estar com fome. Fome é o que dá sentido a faca e o queijo. Fome é o principal. Fome é interesse. É a fome que inventa a faca para comer o queijo. Por isso, quando o outro não tem interesse no seu queijo, não há o que fazer. Seu queijo pode ser lindo, maravilhoso, perfurado e perfumado. Não há o que fazer. Não adianta obrigar o outro a ter fome. Quando você não tem interesse no queijo do outro, idem. Não adianta se obrigar a ter fome. Sem fome não se come. Comer forçado dá ânsia de vômito. A experiência humana é um self-service para todos os tipos de fome. Self sirva-se. Respeite a fome do outro. E boa refeição!

Quando sua mãe diz “eu te amo” ela está se referindo ao afeto dela por você, não está lhe dando o sermão da montanha. Só que ela não te explica isso. Então, quando você recebe o ensinamento “amar ao próximo”, você gruda esse significado afetivo e maternal a palavra amor. Amor = afeto da minha mãe por mim. Isso faz você pensar que deve amar o outro assim como sua mãe amava você. Ou seja, você deve dar mamadeira para o outro, trocar as fraudas, carregar no colo, educa-lo, etc. E mais! Você deve sempre ter afeto pelo outro, faça ele o que fizer. Mesmo que o outro enfio o dedo no seu olho, você deve amá-lo, assim como sua mãe ama você. Você pode respeitar o que não ama, mas amar o que não ama é impossível. Amar ao próximo não é afeto, é dar liberdade ao outro de ser outro, diferente de você. Só isso! Simples assim! O ensinamento amar ao próximo visa salvar você da missão impossível e não fazer de você um salvador.

Você não ama o outro. Narciso win! Sempre!

Você ama a si mesmo. A crença de que você ama o outro é um equívoco. Para sair desse equívoco, a primeira coisa que você deve perceber é que você ama uma característica ou somatória de características que você vê no outro, não o outro. Por exemplo, o humor, a aparência, a afetuosidade, etc. Percebido isso, a segunda coisa que você deve perceber é que você não ama uma característica pela característica, mas pelo bem que essa característica causa em você. Você ama o humor, a aparência e a afetuosidade do outro porque te faz bem. Então, você não ama o outro, nem as características do outro, você ama seu próprio bem.

Amor não é amor, não é santidade, nem conto de fadas. Amor é egoísmo. O outro, o amado, é espelho do seu egoísmo. Por isso quando o outro espelha algo que você considera bem, você ama o outro, pois você deseja o bem. Se o exato mesmo outro espelhar algo que você considera mal, você odeia o outro, pois você não deseja o mal. Ninguém ama ninguém. E não tem problema nenhum nisso. O problema é ignorar isso.

John Lennon errou. All you need is not love. Você deve despertar a consciência. Amor não é solução, amor é o problema. Quer ver? Por que o homem bomba faz kabum? Porque ama deus. Por que os alemães dizimaram os judeus? Porque amavam sua pátria. Por que os adoradores da ideologia A difamam a ideologia B e vice versa? Porque amam suas ideologias. Por que seu pai lhe obriga a usar um sapato 36 sendo que você calça 37? Porque seu pai te ama. Por que você aceita? Porque você ama seu pai. Por que você coloca uma coleira na sua namorada e a proíbe de ter outros namorados? Porque você ama sua namorada. E assim por diante. Percebe? É tudo por amor! Sempre! Inevitavelmente! Essa é a primeira obviedade para qual você deve despertar. A segunda é que você não sabe amar. Você ama em absoluta ignorância do que é, para que serve e como funciona. Mas o sonho não precisa acabar, apenas deve se tornar um sonho lúcido. Ou então, você vai continuar criando o problema e cantando “love, love, love…”.

Eu amo açaí desde que nos encontramos pela primeira vez numa lanchonete fitness, atrás de uma academia de musculação. Me lembro até hoje da primeira vez que vi aquele mingau roxo numa tigela de porcelana. Foi amor a primeira colherada. Mas por que estou lhe contando sobre meu início de relacionamento com o açaí? Para que você possa entender que todo amor é platônico. Como assim, platônico? Usando meu amor pelo açaí, ficará fácil de explicar e entender.

Meu amor pelo açaí é platônico porque começa e termina em mim. Não é um amor recíproco. É um amor solitário. Amor ímpar. Amor sem correspondência. Eu amo o açaí, mas o açaí não me ama. Como sei disso? Simples! O açaí nunca veio me visitar, nunca escreveu uma carta, nunca me telefonou, nunca curtiu um post meu no facebook, nunca sequer trocou uma palavra comigo. Quando nos encontramos, está sempre com aquele comportamento frio. Tenho certeza que o açaí não me ama e você há de concordar comigo.

Porém, contudo, todavia, eu continuo amando esse ingrato. Já pensei em abandoná-lo. Já pensei em traí-lo com polpa de graviola, sorvete da Häagen-Dazs, etc. Pensei até em raspar gelo e comer com xarope de guaraná. Besteira! Eu amo açaí. Amo, amo, amo. E tudo bem que o açaí não me ame. Meu amor pelo açaí me basta. Não precisa ser recíproco.

Achou engraçado meu amor platônico pelo açaí? Pois saiba que todo amor é platônico. Todo amor começa e termina no próprio amante. O amor recebeu o nome de platônico porque Platão foi o primeiro homem da história a observar o real funcionamento do amor. Amor é desejo. Desejo é atração. Você ama coisas, situações e pessoas por conta própria, independente dessas coisas, situações e pessoas se sentirem igualmente atraídas por você.

Se você ama chocolate, por exemplo, observe que o chocolate não te ama, e nem por isso você deixa de amar o chocolate. Amor platônico. Se você ama futebol, observe que o futebol não te ama, e nem por isso você deixa de amar o futebol. Amor platônico. Se você ama música, observe que a música não te ama, e nem por isso você deixa de amar música. Amor platônico. Se você ama fulano, observe que fulano não te ama, e nem por isso você… Ops!

Pois é! Seu amor pelas pessoas também é platônico. E vice versa. Porém, você só se permite amar quem também te ama. O que é absolutamente inútil, pois se você ama alguém, se proibir de ama-lo não faz com que seu amor desapareça, apenas o aprisiona dentro de uma jaula. Obrigar o amado a lhe amar, também não funciona, apenas cria mais repulsa dele por você.

Todo relacionamento entre seres humanos é um inferno porque ninguém percebe que o amor é platônico. Limitados pela própria ignorância, ninguém tem outra opção senão infernizar a vida um do outro. Você, a partir de agora, já sabe, então, continuar vivendo mal é escolha sua.

Faça o seguinte experimento.

Passo (1) Compre um celular e dê para uma pessoa que não saiba como funciona.

Passo (2) Peça para essa pessoa, ignorante do funcionamento do celular, entrar no whatsapp e enviar um emoji de coração para um grupo de whatsapp que você participa.

Passo (3) Se a pessoa lhe disser que não sabe como fazer isso e que não entende como o celular funciona, diga para ela que não precisa saber nada, que basta ela usar o poder mágico do amor, que com amor tudo se resolve. Diga para ela amar profundamente o celular. Diga para ela amar o celular do fundo do seu coração. Diga para ela amar o celular com amor incondicional, assim como jesus amou a humanidade. Diga para ela amar o celular ao ponto de se fundirem em um só, ao ponto dela e do celular serem o próprio amor.

Passo (4) Não faça nada enquanto a pessoa não enviar o emoji de coração.

Passo (5) Morra esperando!

Você é um ser humano. Sua natureza humana é como um celular. É através da sua humanidade que você vive e convive. Então, assim como você precisa saber como o celular funciona para usar bem um celular, você também precisa saber como sua natureza humana funciona para viver bem.

Quando você não sabe usar algo e deseja usar bem, você precisa descobrir como esse algo funciona. Para descobrir como algo funciona, só tem um jeito: observação e analise. Isso é praticar ciência. Quando esse algo é você mesmo, para se descobrir, você deve praticar autoobservação e autoanalise. Isso é praticar autociência.

Amor não serve para praticar autociência. Tentar usar o amor para praticar autociência é como tentar usar o olfato para assistir televisão. São faculdades distintas, tem serventias distintas. Olfato serve para cheirar e não para enxergar. Amor serve para amar e não para saber.

Tudo funciona como funciona, quer você ame ou odeie o funcionamento. E quando você não sabe como algo funciona, não tem choro nem vela, ou você descobre como funciona ou não funciona para você. Não é maldade, não é desamor. É assim que funciona. É impossível você fazer algo funcionar quando não sabe como funciona.

Sua natureza humana tem um jeito de funcionar, então, se você deseja viver bem, o caminho para isso não é o amor, é o saber. Afinal, até para amar bem, é preciso saber amar.

Você tem um dicionário dentro da cabeça. É por causa desse dicionário que você olha para um amontoado de letras e surge um entendimento dentro de você. Por exemplo, limão é só a somatória das letras, l-i-m-ã-o, mas essa somatória de letras faz surgir uma imagem verde e esférica dentro da sua cabeça. Essa imagem não está vindo da somatória de letras, surge por causa do seu dicionário mental. O mesmo acontece quando você lê: e-g-o-í-s-m-o. Seu dicionário mental associa a palavra egoísmo com capeta, demônio, pecado, ruim, proibido, errado, etc. Por isso dói pensar que amor é egoísmo. Você nunca pensou assim. Mas é isso! Egoísmo é desejo, desejo é amor, então, amor é egoísmo. Sendo assim, sugiro que você apague a palavra amor do seu dicionário mental substituindo por desejo, mil por cento dos seus problemas com o amor irão desaparecer.

É impossível amar e odiar uma pessoa ao mesmo tempo. Amar e odiar são dois lados de uma mesma moeda: o afeto. Se a moeda está virada de um lado, não está do outro. Um estado afetivo anula o outro. Afeto é cara ou coroa, preto ou branco, ou você ama ou odeia, não tem tons de cinza. Só que uma pessoa tem vários aspectos e cada aspecto de uma pessoa é como se fosse uma outra pessoa na mesma pessoa.

Por isso você pode amar e odiar uma pessoa ao mesmo tempo. Você ama um aspecto da pessoa e odeia outro aspecto. Os cinquenta tons de amor e ódio que você experimenta ocorrem devido à pluralidade de perspectivas. Quando você observa um aspecto, você ama a pessoa, quando você observa outro aspecto, você odeia a mesma pessoa que ama.

Esse entendimento é básico e fundamental para boa convivência. Você não ama ou odeia as pessoas com quem você convive, o que você ama ou odeia é o aspecto que você está vendo nessas pessoas. Sendo que é você que está vendo, então, é um aspecto que tem correspondência em você. Se você ama esse aspecto, esse amor é indicativo de que esse aspecto é desejado e você deve cultivá-lo em si. Se você odeia esse aspecto, esse ódio é indicativo de que esse aspecto é indesejado e você deve abandoná-lo em si.

Amor e ódio são ferramentas de autoconhecimento.

Ninguém nasce sabendo. Tentativa e erro é inevitável em qualquer processo de aprendizagem, inclusive no processo de adquirir maestria em ser humano. Então, é fundamental você aprender a se perdoar para não ficar empacado na aquisição da sua maestria. O primeiro passo para você se perdoar é simples: admitir que fez merda. É a negação da merda que perpetua o cheiro. Consciência pesada é você tentando pintar a bosta de ouro.

Tem uma frase famosa do escritor José Saramago que diz que é preciso sair da ilha para ver a ilha. No caso de um equívoco, é o oposto, é preciso ver para sair. É o ato consciencial de reconhecer um equívoco como equívoco que retira você do equívoco. Por isso, enquanto você não admite a si mesmo que fez merda, não consegue executar o próximo passo do perdão: dar descarga na merda feita e seguir em frente.

E como dar descarga? Entendendo que optar antecede experimentar. Quando você faz a opção, você ainda não está experimentando o que supõe ser a melhor opção. Se não está experimentando, não tem como saber. Se não tem como saber, como pode saber? Não pode!

Só depois da cagada que você descobre que fez merda. Nunca antes. Assim, só você do futuro sabe da merda que fez no passado. Então, cabe a você do futuro executar o terceiro passo do perdão a si mesmo. Qual? Assumir o seguinte compromisso: da próxima vez não haverá próxima vez.

Você é livre para se apegar ao que quiser. Nada lhe obriga a ficar grudado em nada. Quando você está apegado a algo, a cola que está mantendo você grudado nesse algo é seu desejo e seu arbítrio. Você gruda porque quer e por opção. Para deixar isso evidente, basta você observar que você nunca gruda no que não quer e não opta. É impossível. O que você não quer é repelente. Você só gruda no que quer e opta, esteja você consciente ou inconsciente do seu desejo e opção. E o famoso desapego? É só fama! Não existe desapego, o que existe é re-apego. Você desgruda de uma opção só para poder regrudar em outra. É como assistir televisão. Você desgruda de um canal para regrudar em outro, desgruda de outro para regrudar em outro, e assim por diante. Enfim, você está sempre e inevitavelmente grudado ao que deseja e opta estar. Desapego é marketing! Propaganda mentirosa!

Quando o outro faz algo que você odeia, você odeia o outro. Seja esse outro sua esposa, sua amante, seu marido, sua mãe, Romeu, Julieta, Cinderela, Jesus Cristo, o Buda, o papa, o espírito santo, ou até mesmo deus encarnado. Seja quem for. Quando o outro faz algo que você odeia, você odeia o outro. Odeia imediatamente, profundamente e inevitavelmente. Agora, quando o outro te dá o que quer, a teta, a chupeta, o orgasmo, o afeto, a razão, o bembem, o bombom, etc, daí você ama o outro com devoção eterna, até a próxima dor que ele lhe causar. Eis como funciona a fidelidade: todo ser é fiel ao amor, só e sempre, nunca ao amado.  

Quando você tem que amar, não é amor, é obrigação. Por isso não funciona se obrigar a amar o inimigo, nem o amigo, nem ninguém. Se obrigar a seguir a máxima do amor é a gasolina do ódio. Obrigação resulta em medo. Medo resulta em mentira. Mentira tem perna curta. Como amar, então? É simples: pensando. Ao invés de se obrigar a amar, use essa mesma energia para pensar. Pense assim: Qual é o benefício de aprisionar o outro? Seu amor nascerá da resposta a essa pergunta. Pense, logo, love. Amar não é questão de santidade, nem bondade, nem nobreza, nem ética, nem mesmo de amor. Amar é questão de inteligência. Não existe forma mais inteligente de viver do que viver e deixar viver. Pense nisso e ame!

Você não pratica o perdão, você pratica engolir sapo. O que você chama de perdão, não é você dando liberdade ao outro de ser outro, diferente de você, é você se obrigando a aceitar o que não aceita. Se você não aceita, como aceitar? Impossível. Mas você acredita que perdoar é aceitar, então, você se obriga a aceitar o que não aceita. Ao fazer isso, você nem perdoa, nem vive bem, pois violenta a si mesmo.

Se obrigar a aceitar não funciona, se funcionasse, já tinha funcionado. Sua mágoa continua porque perdão não acontece com você se obrigando a aceitar o que não aceita, pelo contrário, acontece com você se permitindo não aceitar o que não aceita. Quando você considera algo errado, aceite que considera errado. Ao invés de engolir o sapo, saboreie o óbvio. Esse é o primeiro passo para o perdão.

Enquanto você não dá o primeiro passo, é impossível você dar o segundo, que é considerar que do ponto de vista do outro, o que você chama de errado o outro considera certo. O terceiro passo é perceber que isso é fato. É claro que do ponto de vista do outro ele considera certo o que faz, por isso opta por fazer. Quando você chega no terceiro passo, você não precisa mais executar o perdão, pois os três passos é o perdão sendo executado.

Uma pessoa vem conversar comigo durante uma reunião em grupo.

— Eu amo meus pais! — a pessoa me diz.
— Sim e qual é o problema nisso?

A pessoa começa a chorar. Quando finalmente recupera o folego, me diz, com cara de quem cometeu um crime:

— Não consigo me desapegar deles!

A pessoa volta a chorar. Passado um tempo, pergunto:

— E por que você quer se desapegar dos seus pais?
— Por que apego é ruim, gera sofrimento.
— Sofrendo você já está! — eu digo.
— Sofro porque sou apegada aos meus pais, mas não consigo me desapegar.
— A presença dos seus pais te faz feliz? — pergunto.
— Sim, muito.
— Sua presença fazem seus pais felizes?
— Sim, nós nos amamos.
— Então, qual é o problema?
— O problema é que não consigo me desapegar deles. Se você puder me ajudar, eu agradeço.
— Não posso! — eu digo.
— Por que não pode?
— Porque desapego é impossível.
— Como impossível? Todos os mestres falam que é preciso se desapegar.
— Sim e dai?
— Todos os livros falam que é preciso se desapegar.
— Sim e dai?
— Você está dizendo que é impossível se desapegar.
— Sim, estou.
— Com base em que?
— No óbvio.

A pessoa faz cara de quem comeu e não gostou e vai embora. Cinco anos depois, encontro a mesma pessoa, no mesmo grupo, com a mesma angustia, apegada a mesma crença de que o apego é a causa do seu sofrimento.

Se você faz por doação, por altruísmo, pelo benefício do outro, então, por que a cobrança? Simples! Porque é mentira! Você não é santo, você é manipulador. Sua doação não é doação, é armadilha. Claro que você não está consciente desse seu jeito de viver, nem do malefício dele, mas pode ficar se quiser. Basta observar sua cobrança, seja ela externa ou mental, e notar como gera estresse e má convivência. Primeiro você se doa, depois você se dói. Para que viver se doendo tanto? Se lamentando? O que tem de bom em viver assim? Que boa convivência isso gera?

E cadê a doação? Para onde foi? Não foi para lugar nenhum. Era só maquiagem. Doação verdadeira não dói, porque não é doação, é apenas ação. Uma árvore não faz fotossíntese para doar oxigênio, apenas faz fotossíntese. O oxigênio que uma árvore doa, não é doação, é efeito colateral da árvore sendo árvore. Na doação verdadeira não tem doação, você faz um bem porque fazer te faz bem, porque é sua natureza, porque é sua fotossíntese. O beneficio que o outro recebe de você é efeito colateral do seu egoísmo, não é moeda de troca, por isso não há cobrança.

Nada é obrigatório. Assim como você não tem obrigação de fazer nada para o outro, o outro também não tem obrigação de fazer nada para você. Ninguém deve nada a ninguém. Perceba isso! Essa percepção não vai lhe impedir de receber, vai fazer com que receba sem precisar pedir.

Começou um toró. Fui me abrigar debaixo de um quiosque. Outras pessoas fizeram o mesmo. Dois moleques também. Comecei a conversar com um amigo, mas fiquei observando os moleques. Estavam inquietos. A cinquenta metros do quiosque havia um parquinho com escorregadores, gangorras, piscina de areia, etc. Entre o parquinho e eles, havia o toró.

Um moleque começou a conversar com o outro usando a palavra “vamos” em diferentes entonações: Vamo? Vamo Vaaaaamo? Vaaaamo! Vamooooo? Vaaaaaaamo! Foi então que um dos moleques deu um passo para trás, gritou “vida looooooca” e saiu correndo debaixo do toró, rumo ao parquinho. O outro fez o mesmo na sequência.

E você? Quantos passos já deu para trás? Por quanto tempo? Não acha que está na hora de gritar “vida looooca” e se permitir ser feliz? Demorô, né? Viver bem não é esperar a tempestade passar, é brincar na chuva.

Te encontro no parquinho.

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