Amor difícil é o mesmo que amar ao próximo como a si mesmo? Se sim, por que não consigo?

25/05/2020 by in category Perguntas tagged as with 0 and 0

Porque você dá à palavra “amor” o significado de afeto (sentimento). Toda doutrina é feita de palavras. O significado que você dá às palavras de uma doutrina, não vem da doutrina, vem da sua cabeça. Quando você entra em contato com uma doutrina que fale do amor, mesmo que você seja criança, você já ouviu pelo menos umas 10 mil vezes sua mãe lhe dizendo “eu te amo”. Sua mãe estava se referindo ao afeto (sentimento) dela por você, estava dizendo que você é muito querido para ela, muito especial, muito importante. Só que sua mãe não te explicou que amor é desejo, que desejo é quaternário e que afeto (sentimento) é um dos quatro desejos humanos. Menos ainda que amor é fácil, difícil e impossível. Então, só lhe resta grudar esse significado afetivo e maternal à palavra amor. Amor = afeto (sentimento) que minha mãe tem por mim.

Daí, quando você entra em contato com uma doutrina que fale do amor e recebe um ensinamento que diz que você deve amar o próximo, o que você entende? Entende que deve amar o outro assim como sua mãe ama você. Ou seja, você deve dar mamadeira para o outro, fazer cafuné, lavar a louça, lavar a cueca, fazer almoço e janta, ficar preocupado, limpar a bunda do outro se ele cagar nas calças, enfim, você deve cuidar do outro assim como sua amorosa mãe cuida de você. E mais! Você deve ter afeto (sentimento) pelo outro, sempre, faça ele o que fizer. Mesmo que o outro abuse de você, lhe violente, lhe desagrade, você deve amar o abuso, a violência e o desagrado, assim como sua mãe ama você.

Isso é amor impossível. Você pode respeitar a violência, o abuso e o desagrado, mas amar é impossível. Só que sua mãe não te explica isso quando diz “eu te amo”, nem as doutrinas religiosas, quando lhe dizem: “ame ao próximo como a si mesmo”. Eis porque você não consegue amar o próximo. Amar o próximo não é afeto, não é sentimento, é dar liberdade ao outro de ser outro, diferente de você. Só isso! E isso é inevitável. O outro é o outro, diferente de você. O outro não precisa da sua permissão para ser outro. Mas você, internamente, proíbe o outro de ser outro. E daí fica vivendo o inferno da proibição. Só você sofre com isso. O outro nem sabe que você está lhe proibindo de ser diferente de você. Só você sabe disso e só você sofre com isso. Então, no final das contas, o ensinamento “ame ao próximo” visa ajudar você a se libertar do inferno da proibição e não fazer com que você seja o salvador da humanidade.

© 2020 · 1FICINA · Marcelo Ferrari