Certa vez, estava fazendo um exercício de regressão da memória, e voltei em uma lembrança do jardim de infância. Devia ter entre 3 e 4 anos. Dava pra perceber que eu ainda era muito sem noção. Estava sentado em uma mesa coletiva junto com outros alunos. A professora entregou uma folha em branco pra cada aluno e colocou uma caixa de lápis de cores ao lado.
Com 4 anos de idade, visão perfeita, eu já devia ter visto cores na minha vida, porém, não sei porque, naquele dia, aconteceu algo inusitado. Peguei um lápis e comecei a fazer um risco no papel. Conforme o risco foi se estendendo pela folha branca, fui tendo a experiência da cor vermelha como se fosse a primeira vez na vida.
“Vermeeeeeelho! Vermeeeeelho! É vermelho! Ver-me-lho!”
Eu não sabia o nome da cor ainda, mas sabia que era diferente do branco do papel. E foi incrível ver o vermelho pela primeira vez. Foi tão incrível que meu corpo começou a tremer de emoção.
Depois peguei outro lápis e foi a mesma coisa:
“Veeeeeerde! Verdeeeeeee! É verde! Ver-de!”
Deitado na poltrona, revivendo essa cena de descoberta das cores, eu chorava e balbuciava: “As cores são emocionantes, as cores são emocionanteeeees, emocionaaaaantes!”.
Durante todo o exercício de regressão, meu raciocínio estava quase inoperante, então, quando o exercício terminou e o raciocínio voltou a sua capacidade adulta, levei um choque. Como eu não havia percebido antes a maravilha e o poder emocionante das cores??? Como??? Que venda eu havia colocado em meus olhos que mesmo vendo não enxergava?
Passei uma semana em êxtase colorido. Ficava olhando pra cada cor e sentido a emoção que cada uma evocava em mim. Às vezes tinha vontade de rir e outras de chorar. “Por que você está chorando, rapaz?”, imaginei alguém me perguntando no ônibus. “Estou chorando com o azul do céu!” eu respondia.
Conto isso pra lhe ajudar a perceber quão extraordinário é o ordinário. Não tem nada mais extraordinário do que o ordinário. Só que você se esqueceu disso. Você foi sequestrado pelo extraordinário. E desde então, nada é suficiente. Sua felicidade vem do mais.
Você come mais chocolate, mais chocolate, mais chocolate. E não importa o tanto de chocolate que você mastigue, sua fome de felicidade nunca é saciada, porque você come apenas o chocolate e não se dá conta do quão extraordinário é o paladar.
Se extasiar com a extraordinária experiência do vermelho não é suficiente. Tem que ser a experiência de dirigir uma Ferrari vermelha, que você vai trabalhar a vida inteira, dia e noite, se prostituir, fazer o que não quer, ser capacho do dinheiro, pra no último dia da sua vida, comprar o para-choque da Ferrari.
Não basta pegar uma pedra no chão e se extasiar com a extraordinária experiência do toque e do peso. Tem que colocar a pedra no microscópio, dissecá-la em moléculas e átomos até o big bang, pra no último dia da sua vida, ir parar debaixo de um amontoado delas.
Não basta se extasiar com a extraordinária experiência de ter braços, pernas e se deslocar pelo espaço. Com a extraordinária experiência de nascer, crescer e morrer. Tem que ser espírito, imortal, sopa quântica, nheco-nheco, chique-chique e balancê. Pra no último dia da vida, descobrir que foi o espírito mais adormecido do rolê.
Acabei de tomar um banho quente e fazer xixi no ralo. Não troco nenhum nivana pela experiência de tomar um banho quente e fazer xixi no ralo. Foda-se a espiritualidade! Ou vida espiritual é agora, cagando e sentindo a bunda na privada, ou não é nunca.
“Come chocolates, pequena; Come chocolates! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria. Come, pequena suja, come! Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes! Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho, deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida”. ( Trecho do poema “Tabacaria” de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa.)