08 | APAGA A CICATRIZ

27/08/2022 by in category Mayasang with 0 and 0

Aconteceram muitos eventos emocionantes, curiosos e transformadores nessa viagem de São Paulo a Natal. Mas a intenção neste livro não é contar sobre essa viagem, nem contar minha história. A intenção deste livro é contar a história da criação da 1ficina. Por isso, só vou contar o que for relevante para isso. O que contei até aqui sobre essa viagem, era relevante, o resto não é. Então, assim como pulei de Trancoso para Natal, vou dar outro pulo e voltar para São Paulo. Mas para que você não morra de curiosidade, nem me mate, vou contar o que aconteceu com Margô e Magáli.

— Vamos lá? — Murilo me chamou na barraca.

Depois de dois dias na UTI, Margô e Magáli foram transferidas para um quarto normal. Alguns dias depois, receberam alta. Magáli tinha um tio que morava em Recife e decidiu ir para lá antes de voltar para o Rio Grande Do Sul. Eu me ofereci a levá-los de carro até Recife, sem emoção.

Ambas receberam pontos do topo da cabeça até a testa. Os pontos de Margô eram mais na cabeça, estavam expostos porque os médicos haviam raspado seu cabelo, mas assim que seu cabelo voltasse a crescer, encobriria. Os pontos de Magáli eram mais na testa e, provavelmente, ela ficaria como uma cicatriz bem visível. O que era uma pena, pois Magáli tinha um rosto lindo.

Durante a viagem, toda vez que olhava no retrovisor e via o curativo na testa da Magáli, sentia uma culpa enorme por ter estragado aquele rosto lindo. Era como se eu tivesse rabiscado a Mona Lisa. “Será que Murilo iria continuar namorando com ela? Será que ela iria arranjar outros namorados? Como ela iria se sentir quando se olhasse no espelho”, eu pensava.

Chegamos na casa do tio da Magáli no começo da noite. Era uma casa com visual hippie. Durante a viagem, pensei que o tio da Magáli iria me bater, mas ele não era desse tipo de pessoa, era super calmo, parecia um integrante dos Novos Baianos e me tratou muito bem. Fizemos um lanche, tomamos banho e fomos dormir. Minha cama foi um tapete em um quarto cheio de quadros e objetos esotéricos.

— Está dormindo? — Magáli me perguntou parada na porta do quarto.

Bem que eu tentei, mas não iria conseguir dormir de jeito nenhum. Minha cabeça ficava revivendo tudo que havia acontecido nas dunas e tentando mudar os fatos. Como era impossível, revivia tudo novamente e tentava mudar os fatos novamente. E assim por diante.

— Acho que não vou conseguir dormir nunca mais — eu respondi.

Magáli deu uma risada e entrou no quarto.

— Amanhã, quando for voltar para São Paulo, — disse Magáli — Deixa essa culpa aqui nesse quarto e leva apenas a aprendizagem. Você é uma boa pessoa. Foi um acidente e você era o motorista, só isso. Não vou guardar mágoa de você por causa da cicatriz.

Antes do acidente eu havia conversado com Magáli no camping e havia percebido que ela não era apenas uma moça bonita. Ela tinha paz de espírito e clareza de pensamento. Ao ouvir suas palavras, comecei a chorar. Ela me deu um abraço caloroso. Eu jamais conseguiria apagar a cicatriz no rosto da Magáli, mas ela havia acabado de apagar a cicatriz na minha alma com seu perdão.

Aos meus olhos, Magáli saiu do quarto flutuando, envolta em luz fluorescente e exalando alfazema. Minha mente e meus nervos se acalmaram como se eu tivesse tomado chá de maracujá. Dormi logo em seguida e muito bem. No dia seguinte, acordei cedo e me despedi de todos. Deixei a culpa no quarto e levei apenas a aprendizagem de volta para São Paulo.

Não Aprendi Dizer Adeus – Alexandre Nero

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