07 | O QUE DEUS QUISER

27/08/2022 by in category Mayasang with 0 and 0

Demorei para entender que Magáli era Magali com acento no lugar errado. Eles estavam em um grupo de quatro pessoas do Rio Grande Do Sul. Ficamos amigos porque nossas barracas eram vizinhas. A fim de conhecer as dunas, Murilo, o namorado da Magáli, veio conversar comigo.

— Então, paulista, tu não quer dividir o aluguel de um bugue com a gente?

— Quando? Amanhã? — perguntei.

— Sim! E precisa de um motorista também. Você pode dirigir?

— Nunca dirigi um bugue antes!

— Me disseram que é igual dirigir carro.

— Então, beleza, eu dirijo.

No dia seguinte, éramos seis dentro de um bugue, andando pelas dunas de Natal. Eu, Murilo, Magáli, Margô (amiga da Magáli), Júlia (sobrinha da Magáli) e o Miguelito (moleque local que pegamos para nos guiar). A lotação era máxima. Magáli, Margô e Júlia estavam sentadas na parte traseira do bugue, pegando vento e apreciando o passeio com visão 360 graus. Murilo estava dividindo o banco do passageiro com o Miguelito. Eu estava no banco do motorista.

Nas dunas não tem regras de trânsito, mas tem duas maneiras de fazer o mesmo caminho: com emoção ou sem emoção. Desde o começo do passeio, estávamos viajando lentamente, sem emoção. Mas decidimos ir mais rápido, aumentando a emoção. Apertei o pé e o bugue começou a pular algumas ondulações de areia. Todos gritavam a cada pulo como numa montanha russa.

Numa dessas ondulações, o pulo foi gigante. O bugue voou uns 4 metros e aterrissou de bico na areia. Murilo deu um grito de euforia. Mas quando olhei para trás, vi que Magáli, Margô e Júlia não estavam mais no bugue. Saí para ver o que havia acontecido. As três estavam esticadas na areia. Júlia se levantou rapidamente. Porém, Magáli e Margô estavam desacordadas. E pior! Haviam poças de sangue ao lado da cabeça delas.

Murilo desceu do carro e, ao ver a cena, seu semblante mudou completamente. O sol estava a pino e as dunas estavam desertas. Se Magáli e Margô ainda estivessem vivas, precisavam ser urgentemente retiradas dalí e levadas para um hospital. Só que não existia telefone celular naquela época e estávamos no meio do nada, rodeados apenas por areia escaldante.

No livro hindu, Bhagavad Gita, Arjuna e Krishna tem uma longa conversa, cheia de reflexões, que acontece numa fração de segundos. Vendo Magáli e Margô supostamente mortas na areia, aconteceu algo semelhante comigo. Revivi o sentido da vida numa fração de segundos. Percebi que eu não tinha nenhum. Eu tinha apenas uma guitarra e me achava o máximo por isso.

Minha arrogância juvenil deu lugar a um profundo sentimento de arrependimento. Minhas pernas fraquejaram e, sem perceber, caí de joelhos na areia. Ao notar minha posição, lembrei do tempo de catecismo e fiz uma promessa para Deus: “Salve a vida das duas moças que te entrego a minha. Abandono as drogas, o álcool, a putaria, a marginalidade, a arrogância, a vaidade, a consciência adormecida, a porra toda. Faço o que você quiser, seja lá o que for”.

Quando terminei a promessa, dois bugues se aproximaram.

Anos depois, compus essa música:

Eu quero ser
o que deus quiser
e o que vier
já está de bom tamanho
só quero ter
o que deus me der
mesmo que até
pareça muito estranho

Quero poder
se um dia eu puder
beijar seu pé
eu não me acanho
quero aprender
quero andar com fé
quem sabe até
entrar no seu rebanho

Eu quero nada
pra mim eu nada quero
tornar-me um zero
sem nenhum valor
Eu quero nada
por isto eu nada espero
pra ser sincero
estou a seu dispor

Trecho do filme A Origem

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