Pensaê | Porque parei de dar flores para minha mãe

06/08/2020 by in category Podcasts tagged as with 0 and 0

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Minha mãe costuma dizer que na infância eu era um amor de criança e na juventude eu virei um saco. É fácil de entender porque ela diz isso. Na infância, voltando da escola, eu tinha o costume de pegar flores no caminho, fazer um buquê improvisado e dar para ela quando chegava em casa. Ela adorava.

Na adolescência, acabou o mar de rosas. Começaram os espinhos. Era como se eu fosse outra pessoa. Minha mãe se perguntava onde estava aquela criança que ela amava e que amava ela. Continuava ali, claro! Só que aquela criança não era mais só uma criança. Não era mais um pau mandado. Aquela criança estava desenvolvendo competência em pensar por conta própria.

Eeeee… com isso…

Desenvolvendo seu próprio critério de valores.
Seu próprio critério de bom e ruim.
Seu próprio critério de certo e errado.
E assim por diante.

Na infância, não havia espinhos entre minha rosa e eu, porque eu era o pequeno príncipe (aliás, esse era o nome da escola em que estudava) e usava os critérios dela para viver minha vida. Ou seja, a minha vida era a vida que minha mãe traçava para mim, determinava para mim. E não tem nada de espantoso nisso! Assim também foi com você. E assim é com toda criança.

Mas conforme fui crescendo, tendo minhas próprias experiências, e pensando sobre essas experiências, comecei a produzir meu próprio critério de bem e mal, certo e errado. E pior ainda, para desespero da minha mãe, comecei a optar e viver minha vida de acordo com meu próprio critério.

Coisas que minha mãe considerava de extrema importância, passaram a ser irrelevantes para mim. O que minha mãe considerava certo, pensei e concluí que era errado.

Comecei a discordar da minha mãe. Eu já não era mais um vagão-filho engatado em uma locomotiva chamada mãe, e que seguia o mesmo trilho da locomotiva. Comecei a virar locomotiva de mim mesmo. Comecei a seguir meu próprio trilho, meu próprio juízo, minha própria vontade e consciência. Mesmo que, ao olhos de minha mãe, eu estava indo pelo trilho errado.

Minha mãe não gostou da minha autonomia, que era vista por ela como malcriação, e tentou me manter nos trilhos dela, pois ela acreditava que estava fazendo o que era melhor para mim.

Só que não! O que é de um não funciona para o outro, pelo simples fato de que o outro é outro. Somos diferentes uns dos outros. Minha mãe e eu somos indivíduos únicos, singulares, logo, diferentes. O que funcionava para minha mãe não funcionava para mim. Como canta Raul Seixas, eu calçava 37 e minha mãe me dava 36, doía e no dia seguinte, apertava meu pé outra vez.

Minha mãe não entendeu que éramos diferentes e tentou me manter no trilho do critério dela. As tentativas dela buscando a realização desse objetivo, embora bem intencionadas, me violentavam. Causavam dor. Passei a ver minha mãe como um algoz. Ninguém dá flores para seu algoz.

Eis porque eu parei de dar flores para minha mãe: porque comecei a pensar.

Pensar é subversivo. Pensar desestrutura o status quo. Pensar explode o padrão. Pensar incita o motim contra o capitão da tradição família e ancestralidade. Pensar faz o trem da normalidade descarrilar. Pensar é criminoso, porque além de desafiar a lei, desafia a razão de ser da lei, a lógica da lei.

Por isso, meu amigo e minha amiga, ninguém jamais irá lhe dizer: pensaê! Tudo que você irá ouvir no mundo e do mundo, é: – Vai por mim, acredita em mim, faz assim!

Ninguém, ninguém, ninguém, absolutamente ninguém, tem interesse que você se torne competente em pensar por si mesmo.

Nem mesmos seus pais!

Ao contrário do que você acredita, viver não é uma atividade biológica, viver é uma atividade mental. Sem pensar você não consegue viver. Sem pensar você não consegue sequer sobreviver.

Um bebê não pensa. Deixa um bebê sem alguém para pensar para ele. O que acontece? O bebê morre em menos de um dia.

Entende o que isso significa?

Pensar com competência é questão de sobrevivência!

Então, se você quer viver bem, sugiro que você invista menos tempo em lamúrias, reclamações, vitimismos, fofocas, fugas, mecanismos de defesa, crendices, decorebas, e outras atividades de atrofiamento do pensamento e passe a investir mais tempo exercitando e desenvolvendo a competência em pensar.

Pensamento é igual um carro, se você não sentar no banco do motorista e assumir o controle do seu pensamento e dirigir sua vida, o primeiro que ver o banco vazio vai se sentar e dirigir sua vida por você.

É isso que você quer?

Pensa nisso!

Pensâe!

© 2020 · 1FICINA · Marcelo Ferrari