VIOLÊNCIA

A prática do desrespeito

Livro da 1ficina | Marcelo Ferrari

PRIMEIRA PARTE

A palavra violência vem do verbo violar. Quando você está executando um ato de violência, você está violando o outro. Quando o outro está executando um ato de violência, o outro está violando você. Violência é violar, desrespeitar, invadir, infringir, transgredir. A partir dessa definição, vamos aprofundar no entendimento do que é violência.

Existe uma forma de falar de violência que é assim: “Fulano violou a integridade física de ciclano”. No estupro, por exemplo, uma pessoa viola a integridade física da outra. Quando uma pessoa esfaqueia a outra pessoa também está violando a integridade física do outro. Agora vamos deixar explícito o que está implícito no termo “violar a integridade física”.

Vamos supor que você queira violar a integridade física de uma pessoa. O que essa pessoa precisa ter para que seja possível você executar a violência?

Participante: Um corpo.

Exatamente! Como você pode violar o corpo de uma pessoa sem corpo? Você não consegue. Óbvio que sem corpo não tem pessoa, mas estamos aqui para entender o óbvio mesmo. Você só consegue violar o corpo de uma pessoa porque a pessoa tem um corpo. Caso contrário, você vai esfaquear o quê na pessoa? Mas corpo é um jeito bem superficial de entrarmos no assunto. Tem outra palavra bem melhor e similar a corpo que ajuda muito mais a entender o que é violência. Que palavra é essa?

Participante: Individualidade.

Exato! Para você poder violar a integridade física de uma pessoa é preciso que essa pessoa seja uma integridade física. Integridade = individualidade = unicidade. Uma pessoa é uma integridade, é uma individualidade, é uma unicidade. É a palavra “unicidade” que vai esclarecer e ampliar nosso entendimento do que é violência.

Só existe violência porque existe unicidade. Unicidade física é entendida por corpo. Violência física é você violando o corpo do outro e vice-versa. Só que a unicidade de uma pessoa não é apenas física. Então, violência não é só física.

Ser humano não é só corpo (fisicalidade). Ser humano é um quaternário, tem unicidade física, sensorial, afetiva e racional. Então, assim como existe violência física, também existe violência sensorial, afetiva e racional. Só que a violência física é considerada violência, mas as outras três não são.

Quando uma pessoa viola sua unicidade sensorial, ou afetiva ou racional, essa pessoa não considera que executou um ato de violência. E o contrário também. Quando você viola a unicidade sensorial, ou afetiva ou racional do outro, você também não considera que executou um ato de violência.

Por exemplo, quando você tenta enfiar seu critério de certo e errado goela abaixo no outro, você não considera que está executando um ato de violência, muito pelo contrário, você acha que está fazendo um bem para a pessoa, que está ajudando a pessoa.

Dentro da visão de que violência é só física, a violência sensorial, afetiva e racional não são consideradas como violência. Se não cortou o pescoço, não furou os olhos, não tem hematoma e sangue na testa, então, não é violência. Mas é! Violência é violar. Quando você viola a unicidade do outro, seja fisicamente, sensorialmente, afetivamente ou racionalmente, você está executando um ato de violência com o outro. Quando o outro viola sua unicidade, seja fisicamente, sensorialmente, afetivamente ou racionalmente, o outro está executando um ato de violência com você.

Quando você quer obrigar alguém a gostar de um estilo de música, por exemplo. Você gosta, mas o outro não gosta. Você enche o saco da pessoa, faz ironia, guerra de nervos, mas não considera isso um ato de violência. Afinal, ironia não arranca pedaço, guerra de nervos não faz jorrar sangue, e se não tem sangue jorrando, não é violência. Mas quando você viola a unicidade sensorial do outro, é violência também. Quando o outro não gosta de algo, forçar a barra é desrespeitar a unicidade sensorial dele. É violência sensorial.

Afetividade é o que você ama, aprecia, dá valor. Vamos supor que você se ache uma boa mãe. Só que seu filho não acha. O critério de valor dele é diferente do seu. Então, você começa a brigar e obrigar seu filho a te reconhecer como uma boa mãe. Ao fazer isso, você não vai considerar que está cometendo um ato de violência com seu filho, mas está. Violência afetiva.

Resumindo. A primeira coisa a observar na questão da violência é a unicidade. Só existe violência porque existe unicidade. Não existindo unicidade, a violência seria impossível, porque não haveria o que ser violado. Então, é a violência que denuncia que a unicidade existe.

A segunda coisa a ser observada é que violência não é só física, é quaternária: física, sensorial, afetiva e racional. Então, você viola e é violado de quatro maneiras. Só que apenas a violência física é considerada violência, as outras três não são. Mas isso é um equívoco. O que expliquei até aqui foi para desfazer esse equívoco. Ficou claro? Alguma pergunta?


SEGUNDA PARTE

Participante: Como um pai pode ser violento com um filho que ama?

O filme Sociedade dos Poetas Mortos dá um exemplo disso. O pai queria que o filho fosse médico. Colocou todo o amor dele naquele ato de obrigar o filho a ser médico. Os pais violentam os filhos por amor. Eles acreditam que estão fazendo bem aos filhos. É um equívoco sincero. Nenhum pai acha que está violentando o filho. Os pais acreditam que estão fazendo o melhor, que estão educando os filhos. Mas educação sem diálogo, na base da imposição, sem entender que o filho é outro, que tem unicidade própria, não é bom para o filho nem para os pais, pois gera má convivência.

Não adianta você educar um gato para botar ovo. Por mais amor que você coloque nessa tentativa, você vai estar violentando o gato, pois gato não bota ovo, não é da natureza dele. A unicidade de cada um é a natureza de cada um. Se o seu filho tem natureza de gato, seu filho jamais irá botar ovo. Ele só vai fingir que bota e ainda vai ficar magoado com você.

Participante: Mal sabemos da nossa unicidade, muito menos da unicidade dos outros.

Exato! Violamos a unicidade dos outros porque ignoramos que nós mesmos temos uma. “Unicidade! Que tolice! Onde já se viu uma besteira dessas!” pensamos. Mas se não existisse unicidade, não existiria violência. Sendo que existe violência, então, é óbvio que existe unicidade.

Percebe a sutileza? Violência nem é o assunto. É só auxílio ao assunto. O assunto mesmo é a ignorância. É aí que tudo começa. Se ignoramos nossa própria unicidade, como lidar bem com a unicidade do outro?

Participante: A violência é uma bola de neve. Eu violento você, você me violenta de volta. E a bola de neve vai aumentando. É a história da humanidade.

Exato! Nós não sabemos viver de outro jeito. Só sabemos jogar o jogo da violência que é oscilar entre violentado e violentador. Nossa mentalidade coletiva diz que liberdade é estar na posição de opressor, violentador, controlador, etc. Escravidão é estar na posição de oprimido, controlado, violentado. Dentro dessa mentalidade, se você está sendo violentado, você é prisioneiro, o outro está te dominando, então, você deve tentar buscar a liberdade se tornando o violentador. Quando você chega no topo da pirâmide, daí você pode violentar todo mundo, então, você é absolutamente livre, porque ninguém pode violentar você. É muito difícil sair dessa mentalidade. Para sair, só com lucidez de que está dentro dela.

Participante: A solução é o respeito?

Não! A solução é lucidez. Respeito é desdobramento da lucidez. Mas é ótimo você trazer a palavra respeito para a conversa. Já observou que todo mundo pede respeito? Respeito não se pede, respeito se dá. A palavra respeito só serve de gasolina para violência, porque todo mundo quer ser respeitado, mas ninguém respeita ninguém. Quando você pede respeito, na verdade, o que você está pedindo é que o outro viva de acordo com sua cartilha. Isso não é respeito, isso é outroísmo. Quando você realmente respeita, você respeita inclusive o desrespeito. Mas ninguém respeita o desrespeito. Respeitar o desrespeito é a história de oferecer a outra face. Quem oferece a outra face?

Participante: Como inibir a violência do outro?

Olha o problema pintado de solução! Inibir a violência do outro é usar a violência para acabar com a violência. É tentar apagar o fogo jogando gasolina. É não respeitar o desrespeito. É impossível inibir a violência do outro. Você pode tentar. E essa tentativa é você violentando o outro.

Participante: Por que o outro viola minha unicidade?

Porque o outro ignora a unicidade dele e o malefício da violência para a convivência.

Participante: A violência está por todo lado.

Vivemos no planeta da violência. Mas não somos violentos por maldade. Somos equivocados sinceros. Todo pai e toda mãe, ao violar a unicidade do filho, acredita que está executando um ato de amor.

Participante: Acreditamos que estamos fazendo o melhor.

Por isso que o problema não está na violência, mas no que vem antes, na ignorância de si. Quando você entende que você é uma unicidade, diferente do outro, automaticamente você entende que o outro também é uma unicidade, diferente de você. Entende também, que por serem diferentes, o que é melhor para você é diferente do que é melhor para o outro e vice versa.

Participante: No filme do super-homem ele fica em dúvida se deve interferir ou não na vida dos humanos. Eu acho que esse é o problema: interferência. Quando você quer que o outro faça o que você quer, você interfere na vida dele. A gente acha que é o super-homem. Daí, interfere na vida do outro, impõe para os filhos o nosso modo, e assim segue uma geração após a outra.

O problema não é a interferência. É muito pior! Não consideramos o outro como sendo outro. Falamos em “outro”, mas é só uma palavra vazia. Consideramos o outro como extensão de nós mesmos, feito um sapato, um garfo, uma mochila, um chaveiro, ou seja, uma coisa sem vontade e sem unicidade. Pensamos no outro como um robô que só existe para satisfazer nossos desejos. Então, o problema não é a interferência. O problema é a ignorância da unicidade. Se entendêssemos o outro como sendo outro, não haveria como existir violência.

Ainda sobre a questão da interferência, vamos supor que você vai almoçar com seus colegas de trabalho. Você come feijoada. No caminho de volta a feijoada começa a borbulhar no seu estômago e vai formando gases. Sua barriga vai ficando inchada. Você entra no elevador com a turma e tem duas opções, ou você morre, ou solta aquele gás dentro do elevador. Para não morrer, você decide soltar o gás. Seus companheiros de trabalho não têm para onde fugir. Elevador não tem janela. Pergunto: você interferiu na experiência dos seus companheiros de trabalho?

Participante: Sim, interferi.

Você acha que interferiu pouco ou muito?

Participante: Bastante.

Você acha que eles prefeririam a interferência do super homem ou a sua?

Participante: Do super homem.

Criei essa imagem para deixar bem explícito que interferir é inevitável. Não é opcional. A qualidade da sua interferência que é opcional. Foi exatamente o que o super-homem entendeu. Não fazer nada é um tipo de interferência. Fazer alguma coisa é outro tipo de interferência. Autoísmo é um jeito de você interferir na convivência. Outroísmo é outro jeito. Interferir é inevitável. Se sua interferência é outroísta ou autoísta, isso sim é opcional.

Participante: Quando sou humilhado tenho que aceitar a humilhação. Isso que é respeitar?

Respeito é desdobramento da lucidez, não pode ser estabelecido. Você só é capaz de executar o respeito quando está consciente do ciclo vicioso da violência. Uma vez consciente, para não perpetuá-lo, você executa o respeito. Quando uma pessoa te humilha, não adianta você pensar assim: “Como aprendi que respeitar é a opção que quebra o ciclo vicioso da violência, vou aceitar essa humilhação”. Não funciona. Você continua no ciclo vicioso da violência. Você está se obrigando a fazer uma coisa que não quer e não entende. Você está se violentando e se desrespeitando. Você está em negação de si. Para aceitar a humilhação você não está aceitando a si mesmo em seu atual estado de consciência. Esse é o problema do ensinamento da aceitação.

Lembra da conversa sobre medicina preventiva e medicina curativa? É isso! Como não temos lucidez ainda, vamos para gangorra do outroísmo quase sempre. 99% das vezes. Daí o jeito é praticar medicina curativa para sair da gangorra. Saímos. A lucidez aumenta 1%. Ótimo! Agora vamos para gangorra 98% das vezes. Melhoramos. Mas ainda caímos na gangorra. O jeito é praticar medicina curativa de novo. Saímos de novo. A lucidez aumenta para 2%. Ótimo! Agora vamos para gangorra 97% das vezes. Melhoramos mais um pouco. Porém, ainda caímos na gangorra. O jeito é praticar medicina curativa de novo. E assim por diante. Até ficarmos mestres em viver bem. Daí, ao invés de medicina curativa, passamos a praticar medicina preventiva.

Participante: Qual é a ligação da violência com o outroísmo?

A ligação é direta. Violência é outroísmo em execução. Atenção! Não é que outroísmo gera violência. Outroísmo é violência em execução. Outroísmo é tentar uniformizar o outro, fazer o outro igual a você e vice-versa. Um tentando uniformizar o outro é violência em execução.

Tem uma fala famosa do Morpheus, personagem do filme Matrix, que é assim: “Você precisa entender, a maioria dessas pessoas não está preparada para despertar. E muitas delas estão tão inertes, tão desesperadamente dependentes do sistema, que irão lutar para protegê-lo”. Ou seja, estamos a todo instante sendo estimulados e estimulando nossa coletividade a perpetuar o outroísmo. Sendo que outroísmo é violência em execução, então, embora não tenhamos consciência disso, estamos a todo instante sendo estimulados e estimulando nossa coletividade a perpetuar a violência. E pior! Fazemos isso falando de amor, não-violência, respeito, educação, policiamento, e infinitas outras coisas que são apenas violência contra violência.

Participante: Sair da uniformidade lembra sair da Caverna de Platão.

Lembra a vida de Sócrates também, mestre de Platão. Sócrates buscou libertar as pessoas da uniformidade e foi condenado a morte pela própria sociedade que buscou libertar. A história do professor no filme Sociedade dos Poetas Mortos é similar a história de Sócrates, que é similar a historia de Jesus, que veio trazer a boa nova e acabou crucificado.

Participante: E se estivesse aqui hoje, mataríamos de novo.

Ótima observação. Vou aproveitá-la para esclarecer mais um ponto. Quando pensamos em violência, pensamos sempre em ataque. Ataque físico, ataque psicológico. O mais comum é pensarmos em ataque. Só que violência não é ataque. Mas se violência não é ataque, o que é?

Participante: É defesa.

Exato! Violência é defesa. Violência parece ataque porque a melhor defesa é o ataque. Você ataca o outro para se defender. O outro ataca você para se defender. A melhor defesa é o ataque. Entender isso possibilita você se investigar e sair do ciclo vicioso da violência. Você pode se perguntar: “Por que estou atacando isso ou aquilo? O que estou tentando defender? E por que estou defendendo isso?”. Conforme você vai se investigando e se descobrindo, esse despertar vai retirando você do ciclo vicioso da violência.

Para finalizar, destaco os pontos fundamentais dessa conversa:

> Violência é violar a unicidade do outro.
> Violência pode ser física, sensorial, afetiva e racional.
> Você viola a unicidade do outro porque ignora sua própria.
> Violência é outroísmo em execução.
> Violência não é ataque, é defesa.
> Violência parece ataque porque o ataque é a melhor defesa.
> Você sai do ciclo da violência se tornando consciente de que está dentro dele.

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