SIM PRA MIM

Sobre autoísmo

Livro da 1ficina | Marcelo Ferrari

Imagine que você ainda não é um ser humano. Você é um ser, mas não é humano. E você decide brincar de ser humano. Mas antes de entrar na brincadeira, você investiga um pouquinho para saber do que se trata. Você pergunta para quem já conhece a brincadeira e possa te contar.

— Como funciona essa brincadeira de ser humano? É muito difícil?

— Não. É muito simples. É uma brincadeira de sim ou não.

— Só isso!? Sim ou não!?

— Exato! É muito simples! Só responder sim ou não.

— Responder sim ou não para qual pergunta?

— Você está sendo você: sim ou não?

— É só isso mesmo?

— Sim, só isso. A todo instante essa brincadeira vai te perguntar se você está sendo você. Toda vez que você responde “sim” você obtem êxito na brincadeira.

— É só isso mesmo? Não tem nenhum truque?

— Só isso! Sem truques.

— Pô, que coisa ridícula de simples!

— Sim, é muito simples, basta você viver sendo você.

— E como a pergunta é feita?

— A pergunta é feita através de acontecimentos. Na hora que você entra na brincadeira, você experimenta circunstâncias e situações. Cada uma dessas experiências é a mesma pergunta de sempre. Sua opção é a resposta. Quando você opta por viver não sendo você, você está respondendo não. Quando você opta por viver sendo você, você está respondendo sim.

— Nossa! É muito simples essa brincadeira! Vou entrar nela.

Então, você entra na brincadeira e começa a ter uma experiência humana. Aliás, não entra, já está dentro. Sendo assim, eu te pergunto: ser humano é tão simples como você pensou que era?

PARTICIPANTE: De jeito nenhum, me enganaram! Quando voltar vou dar um pau em quem falou que era simples.

Qual é a complexidade, se basta responder sim ou não?

PARTICIPANTE: Se eu soubesse o que é sim e não, era simples, só que não sei.

Exatamente! A brincadeira é simples, mas não é fácil. É simples porque basta responder sim ou não. Mas é difícil, pois para responder sim ou não é preciso autoconhecimento, e você chega na brincadeira sem nenhum autoconhecimento, zero, ignorante de tudo, até de que existe. Com autoconhecimento vai ficando mais fácil. A simplicidade de ser humano não muda nunca. O funcionamento da brincadeira é sempre o mesmo: responder sim ou não. Difícil é saber responder sim. Vamos entender melhor isso.

Você quer um morango?

PARTICIPANTE: Sim.

Você respondeu sim para o que?

PARTICIPANTE: Para sua oferta. Aceitei o morango.

Ótimo! Quando te ofereço morango e você diz sim, você está dizendo sim para minha oferta de morango. Quando você aceita viver sendo você, você está dizendo sim para o que?

PARTICIPANTE: Sim para mim, para o meu gabarito.

Exatamente. Viver autoísta é SIM PRA MIM. É quando você se permite viver sendo você. Sim pra mim: eu me permito ser eu, eu me permito viver sendo eu, eu me permito viver de acordo comigo.

Ficou claro o que é o sim?

PARTICIPANTE: Ficou.

Responder “sim ou não” não é questão de pronunciar a palavra. Se não é uma questão de você falar verbalmente, de pronunciar, então, como é que você responde sim ou não?

PARTICIPANTE: Com o arbítrio.

Isso mesmo! Então, o que é o arbítrio?

PARTICIPANTE: Arbítrio é o jeito como respondo sim ou não.

Exato! Tem dois jeitos de você viver. E só dois:

SIM PRA MIM – Viver Autoísta – Quando você se permite ser você.
NÃO PRA MIM – Viver Outroísta – Quando você se obriga ser outro.

PARTICIPANTE: Sim é quando opto pelo que é melhor para mim?

Quase. Tem uma sutileza ai. Vamos voltar na intenção. Sua intenção é sempre optar pelo que é melhor para você. Você sempre quer o bem. Você nunca intenciona optar pelo mal. Ninguém tem essa intenção. Então, a intenção é sempre pelo bem. Isso é natural. Todos os seres querem o bem. Uma planta, por exemplo, busca sol e água, ou seja, busca o que faz bem para ela. Mas se todo ser sempre opta pelo bem, então, tem algo errado ai. Pois na prática não é isso que acontece com você. Então, o que que está errado?

PARTICIPANTE: Eu acredito que é melhor, mas me engano.

Exatamente. O que está faltando é a palavra acreditar. Você não opta pelo que é melhor, você opta pelo que ACREDITA que é o melhor. Se você optasse pelo que é melhor, não tinha a experiência humana, não tinha brincadeira de ser humano, porque não tinha essa coisa no meio, que se chama crença. Você opta pelo que você acredita que é melhor, e experimenta sua opção, para colocar a prova sua crença. Se você optasse pelo que era melhor diretamente, não precisava confirmar nada, você já tinha ido direto.

PARTICIPANTE: E o que muda entender isso? Ajuda em que?

Ajuda você a viver melhor. Ajuda você a lidar melhor com sua experiência. Quando você estiver experimentando uma opção que não é a melhor, você sabe que o problema não é a opção.

PARTICIPANTE: O problema é a crença.

Isso! Daí você vai no lugar certo. Ao invés de ficar tentando mudar a opção, você muda de ideia.

Está claro isso?

PARTICIPANTE: Sim, está.

Vamos dar mais um passo.

Quando você responde SIM, você está ao mesmo tempo respondendo NÃO. Por exemplo, quando eu lhe ofereci o morango, você respondeu sim para o morango. Você comendo o morango é você respondendo sim para o morango. Só que você comendo o morando também é você respondendo não. Você comendo o morango é você respondendo não para a goiaba, para a banana, para o tomate, para a uva, etc.

PARTICIPANTE: Eu não sabia que estava respondendo não para goiaba. Nem tinha intenção.

Não precisa saber. Basta saber que na hora que você responde sim para uma opção, você está respondendo não para as outras. Inevitavelmente. Sim e não são os dois lados de uma mesma moeda. Então, quando você responde SIM PRA MIM, você está respondendo NÃO para o outroísmo. SIM PRA MIM é você se permitindo viver em acordo com seu gabarito, logo, você está respondendo não para o gabarito dos outros.

Está claro isso?

PARTICIPANTE: Sim, está.

Vamos dar mais um passo.

Para responder sim ou não, tem que existir a possibilidade de negação de si. O universo é afirmação de si. O viver universal é SIM. Cada um sendo cada um. Isso é o natural. Então, precisa ter algo que faça resistência ao natural para existir a possibilidade de responder sim ou não. Que algo é esse?

PARTICIPANTE: É a cultura, é o gabarito do outro em mim.

Exato! O desafio do SIM é o gabarito dos outros dentro de você, e a pressão constante da convivência para você viver de acordo com esses gabaritos alheios.

PARTICIPANTE: É uma pressão enorme!

Sim! É Davi contra Golias! Por isso escolhi o filme “Inquebrável” para essa conversa. O rapaz do filme sofre tudo quanto é tipo de pressão para negar a si mesmo. Tem duas cenas que vou relembrar, pois são muito ilustrativas disso. O rapaz estava num campo de concentração, só apanhando. Apanhava todo dia, e o dia inteiro. Levava porrada de tudo quanto é lado. Só que ele era um atleta olímpico. Por conta disso, surgiu um interesse político dos japoneses em usá-lo. Então, os japoneses tiraram ele do campo de concentração, deram banho, comida, roupas limpas, e depois levaram ele para um programa de radio para ele ler uma carta.

“Eu não posso falar isso,” ele disse.
“Porque não?”
“Porque o que vocês estão falando é mentira, não acredito nisso.”
“Se você não falar você volta para o campo de concentração.”

O rapaz havia saído de um buraco sujo, fedido, onde a cama era uma tábua, e estava no restaurante de um hotel chique, comendo ovos mexidos, tomando um suco, tudo bonito, sentado numa cadeira confortável. Contudo, próxima cena: o cara volta para o campo de concentração

O rapaz disse: SIM PRA MIM.

Ou seja, o desdobramento da sua opção pelo SIM pode não ser flores. Pode resultar em desconforto. Pode resultar em violência do outro contra você. Mas você se banca. SIM PRA MIM é autoísmo. Você responde SIM e sabe que o resto não é com você. As circunstâncias podem até se desdobrarem em desconforto, mas você fica no desconforto em paz com você, você experimenta o desconforto com a consciência tranquila. Se você fala NÃO para você, pode ser que você consiga a aceitação do outro, mas você não vai viver em paz com você mesmo.

A outra cena é a cena do final. O rapaz leva uma porrada na perna e fica mancando. Vem o sargento e fala para ele levantar uma viga de madeira. O rapaz está todo quebrado, mas tem que levantar aquela viga. E mais! Tem que segurar acima da cabeça. Se ele deixar a viga cair, é baleado. Ele olha para o sargento e o sargento lhe diz: “Não olhe para mim!” O que ele faz? Problema seu! Sim pra mim. Ele olha bem no olho do sargento, com convicção. Você quer me balear? Baleia! Você quer me dar mais porrada? Dá! Então, vem a cena fantástica. Ele levanta a viga de madeira e dá um puta grito! Que grito é aquele? É SIM PRA MIM.

O sargento não sabe o que fazer. O que você pode fazer contra uma pessoa autoísta? Nada. Você não tem o que fazer. Quando a pessoa é autoísta, você bate, você chicoteia, você tritura, mas a pessoa continua autoísta. A pessoa responde SIM PRA MIM e você perde todo o controle sobre a pessoa. Sim pra mim é abrir mão de tudo que não é você. Você não está mais preocupado com o que, com o quá, com o qui, com o quó, etc. Você decidiu viver seu sim, seu gabarito, e o resto é consequência, e você se banca.

PARTICIPANTE: Eu achava que SIM PRA MIM tinha que agradar o outro também.

Isso é um equívoco muito recorrente. Você quer se permitir viver de acordo com seu gabarito, mas não quer permitir que o outro fique chateado com você sendo você. Assim você continua preso no outroísmo, pois para evitar isso, ou você volta atrás e veste o gabarito do outro, ou então, fica brigando com o outro para aceitar você sendo você. Dois tiros no pé. Pois o outro tem liberdade de não aceitar sua liberdade. E você não precisa da aceitação do outro para se permitir viver de acordo com seu gabarito.

PARTICIPANTE: Mas o outro faz pressão, faz chantagem, etc.

Isso! A tentação do outroísmo não é pouca. Se fosse pouca todo mundo vivia autoísta. Se fosse pouca essa brincadeira era fácil e a sociedade não estava do jeito que está. Você vive de forma outroísta porque a pressão é tremenda. Castigo, punição, etc. Toda vez que você diz SIM, o outroísmo chicoteia você, dá porrada, põe você de castigo, te prende, difama, faz o diabo. E o desafio fica maior porque são as pessoas mais queridas que colocam seu SIM a prova. Sua família, seu pai, sua mãe, seu marido, seus filhos, etc.

PARTICIPANTE: Por isso a tendência é viver outroísta?

Exatamente. E quando o outro é autoísta, você dá porrada nele também. Você coloca ele de castigo, faz bico, fica de mal, deleta ele do seu facebook, etc.

PARTICIPANTE: É o jogo do controle?

Isso! Estamos estudando cada aspecto dele.

Ficou claro o que é SIM PRA MIM?

PARTICIPANTE: Sim.

Ótimo!

FIM

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