RENDA-SE AO DESTINO

13/05/2018 by in category Textos with 0 and 0

Tenho um amigo que escuta música de olhos fechados e fica tocando guitarra no ar como se fosse o guitarrista da Janis Joplin no palco do Woodstock. Conhece o tipo, né? Hoje em dia, ele é baterista, mas teve uma jornada até ele aceitar seu destino. Vou contar a história, é ilustrativa e pode ajudar você a aceitar o seu.

Quando meu amigo percebeu que seu coração pulsava feito bumbo toda vez que ele colocava um disco na vitrola, decidiu redirecionar suas finanças. Começou a comprar discos. Passado algum tempo, eram tantos discos na estante, que ele começou a fazer trocas em um sebo. De tanto ir ao sebo, acabou arranjando um emprego de atendente no mesmo. Ganhar para ouvir música, ainda mais com um acervo de raridades a disposição, era melhor do que ganhar na loteria. Mas não adianta o destino lhe entregar um papel com os números do bilhete premiado da loteria quando você acredita que são números perdidos de um telefone qualquer. Meu amigo estava sentado no colo do seu destino, mas ainda não havia percebido isso. Tanto que, passado algum tempo, recebeu uma oferta de salário melhor e aceitou outro emprego.

O novo emprego era de vendedor numa loja de instrumentos musicais na rua Teodoro Sampaio, em São Paulo, atual reduto de lojas do gênero. Só que naquela época era a única da rua. Tinha diversas guitarras e violões pendurados na parede e duas baterias no chão, logo na entrada. Certa tarde, sem movimento de clientes, o destino entrou na loja e foi conversar com meu amigo. O colega de trabalho dele, que era guitarrista, ligou uma guitarra e começou a tocar. Meu amigo sentou na bateria e tentou acompanhar a música. Com a ajuda do colega, conseguiu facilmente, mas com tanta facilidade, que começou a brincar com o ritmo, fazendo variações e viradas. Terminada a brincadeira, o guitarrista elogiou a habilidade do meu amigo e o convidou para tocar bateria na banda dele.

Foi nesse momento que meu amigo entendeu que os números no papel eram os números do seu destino. Ele podia rasgar seu destino, podia colocá-lo na boca e mastigá-lo, podia cagar e limpar a bunda com ele, podia arranjar uma desculpa para não apostar em si mesmo, enfim, podia o caralho a quatro, podia a borra toda, o que ele não podia mais, nuuuunca mais, era alegar ignorância. Meu amigo havia reconhecido seu destino. Estava ali, gritando em suas tripas, estampado em todas as células do seu corpo, suando pela testa e pelas mãos. E mais! Dito em suas próprias palavras ao colega: “Quer dizer que além de escutar música, posso fazer música também?!”

Ou seja, aceita que dói nada.

Na luta contra o destino, perder é ganhar.

© 2018 · 1FICINA · Marcelo Ferrari