PROJETO EU

Destino e arbítrio juntos

Livro da 1ficina | Marcelo Ferrari

01 | BATATA QUENTE

Imagine uma brincadeira em que você brinque com você mesmo. Para brincar desta brincadeira, primeiro você se desdobra em dois. Depois, um desdobramento de você dá uma tarefa para o outro desdobramento. A tarefa que você dá para você mesmo, pode ser qualquer uma. Por exemplo: “Faça uma batata quente”. Uma vez recebida a tarefa, você inicia o processo de realização. Vamos supor que você está no quarto. Para realizar a tarefa, você sai do quarto e vai caminhando até a cozinha. Você não vai para o banheiro porque sabe que no banheiro não tem batata. Quando você chega na cozinha, você abre a geladeira. Você não abre a gaveta de talheres porque você sabe que na gaveta de talheres não tem batata. Você abre a gaveta de legumes na geladeira, pega a batata, pega uma panela, enche a panela com água, põe a batata na panela com água, e põe a panela no fogo. Passado algum tempo a batata está quente. Pronto! Tarefa cumprida.

Imagine a mesma brincadeira com um tipo diferente de tarefa. Você se desdobra em dois, igual na primeira brincadeira, e você se dá uma tarefa, também igual a primeira brincadeira, mas você não conta para você qual é a tarefa a ser cumprida. Isto mesmo! O desdobramento de você que dá a tarefa para você, sabe qual é a tarefa, mas não conta qual é, apenas diz que você deve cumprir uma tarefa. Claro que é estranho receber uma tarefa desconhecida, mas você se diz que a brincadeira é assim, e que basta você começar que vai dar tudo certo.

Vamos supor que você está no quarto, como da outra vez. Para começar, você abre a porta e vai para o banheiro, afinal você não sabe qual é a tarefa. Mas quando você entra no banheiro, você começa a levar choque. Você sai do banheiro e o choque para. Você entra de novo no banheiro e volta a levar choque. Você sai do banheiro e o choque para. De tanto levar choque, você começa a entender que sua tarefa não deve ser no banheiro. Você vai para a sala. Choque! Você sai da sala e o choque para. Você entra de novo na sala e volta a levar choque. Você sai da sala e o choque para. De tanto levar choque, você começa a entender que sua tarefa não deve ser na sala. Você vai para a cozinha. Que maravilha! Você se sente ótimo. Quanta paz! Quanta alegria! A cozinha é o paraíso. Você começa a entender que sua tarefa deve ser na cozinha.

Algumas vezes levando choque, e outras vezes, se sentindo bem, você prossegue. Você abre a gaveta de talheres e leva choque. Você fecha a gaveta e o choque para. Você abre a geladeira e sente bem. Você abre o freezer da geladeira e leva choque. Você abre a gaveta de legumes e sente bem. Você pega o tomate e leva choque. Você pega a batata e sente bem. Você pega uma xícara e leva choque. Você pega uma panela e sente bem. Você enche a panela com água e sente bem. Você põe a batata no bolso e leva choque. Você põe a batata na panela com água e sente bem. Você liga o fogo e sente bem. Você põe a panela no fogo e sente bem. Por fim, a batata fica quente.

Você cumpriu a mesma tarefa da primeira brincadeira, porém, sem saber nada sobre a tarefa. O resultado das duas brincadeiras foi o mesmo, mas o processo de realização foi diferente. No primeiro tipo de brincadeira, você sabia qual era o projeto a ser realizado, então, bastou você executar os passos necessários para realização. No segundo tipo de brincadeira, você não sabia qual era o projeto a ser realizado, então, além de realizar o projeto, você precisou descobrir qual era o projeto, e teve que fazer isso passo a passo. No segundo tipo de brincadeira o projeto existia assim como no primeiro tipo: fazer uma batata quente. Mas no segundo tipo de brincadeira, você ignorava o projeto, ele estava oculto, escondido, encoberto, inconsciente. Então, no segundo tipo de brincadeira, você não brincou apenas de realização, brincou também de descobrir, de despertar, de EUreka.


02 | DESTINO DE CADA UM

Imagine a mesma brincadeira de realização, mas com um novo tipo de projeto. Ao invés do projeto Batata Quente, imagine o Projeto Eu. Você se desdobra em dois, igual no projeto Batata Quente, e se dá a seguinte tarefa: “Seja eu. Esta é sua tarefa. Este é seu projeto. Projeto eu. Seja minha imagem e semelhança. Realize eu.”. Claro que você, enquanto realizador, vai se perguntar: “Quem sou eu para que eu possa me autorealizar?”. Só que a brincadeira é de segundo tipo. Você se desdobra, se dá uma tarefa, o Projeto Eu, o projeto de auto realização, porém, você não se explica quem você é. Ou seja, o desdobramento de você que está dando a tarefa, sabe qual é o projeto, mas não conta nada para o outro você, para o você que vai realizar o projeto.

Se brincar de Projeto Batata Quente já é uma batata quente, brincar de Projeto Eu, é uma batata pegando fogo. Você se pergunta: “Como vou me auto realizar, como vou ser imagem e semelhança de mim mesmo, se eu não me explicar primeiro quem sou eu?”. E o desdobramento de você que está lhe dando a tarefa, responde: “Basta você começar que irá descobrir”.

Pois bem, você tem uma tarefa, o Projeto Eu, mas não sabe como realizar este projeto, não sabe o que fazer, logo, você pode fazer qualquer coisa. Seu fazer é seu viver. Então, você opta por viver assim. Você opta e…. Choque! Você conclui que viver assim é um viver ruim e muda de opção. Ao invés de viver assim você decide viver de outro jeito. Você muda e…. Choque! Você conclui que viver daquele outro jeito também é um viver ruim e muda de opção de novo. Você muda e…. Choque! E assim você vai levando choque, até que você opta por viver de um jeito que… Ah! É o paraíso! É um ótimo jeito de viver! Ao invés de choque, você sente paz, sente feliz, sente pleno. Tudo encaixa. Você sente que está sendo você mesmo. Sente que nasceu para viver do jeito que está vivendo. Sente que encontrou seu jeito de viver. Daí, você muda seu viver e…. Choque! Muda de novo e…. Choque! Muda mais uma vez e… Ah! É o jeito de viver mais maravilhoso que existe! O jeito anterior de viver fica até envergonhado. Isto sim é que é viver bem. Agora sim encaixou de vez. Agora sim estou sendo eu mesmo. Não dá para viver melhor! Ou será que dá? Você muda seu viver e…. Choque! Muda de novo e…. Choque! Muda mais uma vez e… Ah! Nossa! Melhor impossível! Encontrei o jeito de viver melhor do universo!

E assim, cada vez vivendo MENOS mal e MAIS bem, você segue melhorando a qualidade do seu viver, até que, sem saber como, você está vivendo de um jeito singular, único, perfeito para você, ímpar feito. Daí você se dá conta, que o viver que você está vivendo, é você autorealizado, é imagem e semelhança sua, é você sendo você, é seu Projeto Eu realizado. E qual é a evidência inconteste que garante que você realizou seu Projeto Eu? É a própria qualidade do seu viver. Você vivendo plenamente bem, é você se dando a evidência inconteste de que você está sendo plenamente você mesmo. Então, Projeto Eu é você realizando seu destino: ser você.


03 | EU HUMANO

O que é viver para uma laranjeira? É ser laranjeira. A todo instante uma Laranjeira está sendo laranjeira, então, a todo instante a laranjeira está realizando o Projeto Laranjeira. Mas cada laranjeira é uma laranjeira única, singular, diferente. Nenhuma laranjeira é igual a outra. Cada laranjeira tem sua unicidade. Então, quando uma laranjeira está sendo laranjeira, não está apenas realizando o Projeto Laranjeira, está realizando seu próprio Projeto Laranjeira: EU LARANJEIRA. A mesma coisa com você. Você é um ser humano. Quando você está sendo humano, você está realizando o Projeto Humano. Só que cada humano é um humano único, singular, diferente. Nenhum humano é igual ao outro. Cada humano tem sua unicidade. Então, quando você está sendo humano, você não está apenas realizando o Projeto Humano, você está realizando seu próprio Projeto Humano: EU HUMANO.


04 | VIVER SEM EDUCAÇÃO

Laranjeira não vai para escola para aprender a viver como laranjeira. O viver da laranjeira é um viver sem educação. Então, laranjeira não erra. Não existe possibilidade de uma laranjeira errar no seu jeito de viver, porque não existe a possibilidade de aprender errado. Não existe possibilidade de aprender errado, porque não existe aprendizagem. Sendo assim, laranjeira não leva choque. Choque é sofrimento. Sofrimento é para despertar para erros no Projeto Eu.


05 | VIVER COM EDUCAÇÃO

O viver humano é um viver com educação. Você vai para escola para aprender a viver. É a educação que lhe ensina como você deve viver. Até ai tudo bem. O problema é que sua coletividade acredita que todos devem viver do mesmo jeito, em uniformidade, todos iguais, e não em universalidade, cada um de acordo com seu próprio projeto. O motivo de ser assim, é que o Projeto Eu de cada um, não é explícito, pelo contrário, é implícito, oculto, desconhecido. Tão desconhecido que é desconhecido até de cada um. Todos desconhecem seu próprio projeto. Então, todos acreditam que não existe projeto nenhum, pois o que é desconhecido, é como se não existisse. Só que você sofre. E porque sofre? Porque existe um Projeto Eu. É inconsciente, mas existe. O sofrimento é prova disso.


06 | EDUCAÇÃO É IMPOSSÍVEL

Você não sabe sequer qual é seu próprio Projeto Eu, tem que sofrer para descobrir, então, que competência você tem para ensinar como o outro deve viver, e vice versa? A experiência humana é COM educação, mas é fundamental você entender que ensinar o outro a viver bem, é tão ineficiente quanto o outro ensinar você. A própria natureza da experiência humana impossibilita isso, pois impossibilita que um tenha acesso a experiência do outro. Sendo assim, como solucionar a questão? Qual é a educação possível? É a auto-educação. Cada um se ensinando qual é o melhor viver para si. Como? Errando e aprendendo.


07 | PROBLEMA DA LIBERDADE

Qual é o grande problema da experiência humana? Qual é o problema que não existe no viver da laranjeira, mas é constante no viver humano? O grande problema da experiência humana é a liberdade de errar. Laranjeira não tem esse problema. A laranjeira não tem a possibilidade de errar seu jeito de viver. Não existe laranjeira que viva igual abacateiro. Laranjeira nasce, cresce e morre vivendo do mesmo jeito. Só na experiência humana existe a possibilidade do “não ser”. Só na experiência humana existe a possibilidade da mentira, da falsidade, do fingimento, de você viver do jeito errado. Mas por que existe a possibilidade de errar? Não seria muito mais fácil viver se não existisse a possibilidade de errar? Sim, seria. Mas é justamente por isto que existe. Porque brincar de Projeto Eu Humano é brincar de descobrir. Descobrir é aprender. Sem errar não existe aprender. A experiência humana é COM educação. No Projeto Eu Humano, você deve ensinar a si mesmo como viver bem. Porém, uma vez que você desconhece seu próprio projeto, o método de aprendizagem é o método da tentativa e erro. É por isto que no Projeto Eu Humano existe a liberdade de errar. É errando que você melhora seu viver. Funciona assim: Quanto mais você erra, mais sofre. Quanto mais você sofre, mais aprende. Quanto mais você aprende, menos erra. Então, quanto mais você erra, menos você erra. E quanto menos você erra, melhor você vive.


08 | CERTO E ERRADO

Sendo que aprendizagem depende de certo e errado, o que é certo e errado? Como você sabe o que é certo e errado? E mais! O que garante que o certo é certo, e o errado é errado? O que garante é o choque, é o sofrimento. A lógica do certo e errado não é matemática, nem filosófica, nem religiosa, nem científica, a lógica do certo e errado é emocional. Sentir mal = errado. Sentir bem = certo. Simples assim. Direto assim. Nada é certo ou errado em si. Tudo é apenas o que é. Certo e errado é atribuição emocional. Certo, para você, é aquilo que faz você se sentir bem, errado, é aquilo que faz você se sentir mal. Para que você possa realizar seu próprio projeto EU de forma autônoma, é necessário uma bússola particular e infalível. Esta bússola é seu sistema emocional.


09 | MESTRE E DISCÍPULO

Quem mais pode lhe ensinar a viver bem senão o mal viver? Quem mais pode lhe ensinar sobre felicidade senão seu sofrimento? Seu sofrimento é seu mestre. Por isto, não é fugindo do sofrimento que se resolve o sofrimento. Vou contar uma história que ilustra isso.

Um homem morava em um sítio. Certa noite, entrou um ladrão no seu sítio e começou a roubar as frutas do seu pomar. O cachorro do homem percebeu e começou a latir na janela do quarto. O homem acordou, mas como estava com sono, gritou para o cachorro: — Pare de latir! — e voltou para cama. O cachorro foi até o pomar, confirmou a presença do ladrão e voltou a latir debaixo da janela do homem. O homem acordou novamente, mas como continuava com sono, jogou um sapato na cabeça do cachorro: — Pare de latir! — resmungou o homem e voltou para cama. Mas o cachorro, fiel e inteligente, foi até o pomar e começou a latir dentro do pomar, o mais alto que podia, do lado do ladrão. O homem acordou, pegou a espingarda, foi ligeiro até o pomar… pá! Matou o cachorro.

Seu sistema emocional é seu cachorro, as emoções desagradáveis são seu sistema emocional latindo, você é o homem. Toda vez que você ignora seu sofrimento, você está matando os ensinamentos do seu mestre.


10 | PROJETO E PROJETADO

Por que certo e errado não é coletivo? Por que não é absoluto? Por que o que é certo para um é errado para o outro e vice versa. De onde que vem isto? Como pode isto? Qual é a razão de ser da particularidade do certo e do errado ? A razão da particularidade é o Projeto Eu de cada um

Imagine que você decida desenhar um jacaré. Você pega um papel, um lápis e começa a traçar os riscos. Quando você se dá conta, você percebe que está desenhando uma girafa. O que fica evidente? Fica evidente que você errou. Seu projeto era desenhar um jacaré, mas o desenho no papel não é um jacaré, é uma girafa. Qual é o erro? É um erro de realização. O desenho PROJETADO no papel não é imagem e semelhança do seu PROJETO. Você decidiu desenhar (projetar) um jacaré, porém, desenhou (projetou) uma girafa. Ao perceber isto, fica evidente que você não PROJETOU seu PROJETO, e você pensa “errei”.

Quando você decide desenhar um jacaré, você decide realizar um projeto, não tem nada de errado com isto. Você decidiu realizar um projeto, só isto. Quando você desenha uma girafa, também não tem nada de errado, você desenhou uma girafa. A girafa está lá no papel, muito bem desenhada, projetada. O erro não está no PROJETO nem no PROJETADO, o erro está na NÃO CORRESPONDÊNCIA entre um e outro. O PROJETADO não corresponde ao PROJETO, não é IMAGEM E SEMELHANÇA do projeto. E por que não corresponde? Porque houve um erro de realização. Todo erro é erro de realização.

Agora, imagine que você decida desenhar você em um papel chamado EXPERIÊNCIA HUMANA. Imagine que você decida se projetar na experiência humana. Entende porque o certo e o errado de cada um é diferente do outro? Cada ser humano é um Projeto único, ímpar, singular. É por isto que certo e errado é particular, caso a caso. É por isto também que ninguém tem condição de saber o que é certo e errado para o outro. Ninguém tem acesso ao Projeto EU do outro. Cada um só pode saber do próprio projeto.


11 | VOZ DO MESTRE

Converse com seu sofrimento. Sofrimento é a voz do seu mestre te guiando na realização do seu Projeto Eu. É conversando com seu sofrimento que você toma consciência do que está inconsciente. É conversando com seu sofrimento que você descobre o que você está errando no seu projeto. É conversando com seu sofrimento que você resolve seu sofrimento. É conversando com seu sofrimento que você melhora a qualidade do seu viver. É conversando com seu sofrimento que você se autorealiza.

Sucesso no seu Projeto Eu.

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