OUTROÍSMO SUBMISSO

Vivendo em negação de si

Livro da 1ficina | Marcelo Ferrari

01 | SEM ACORDO

Como você sabe que está mentindo?

Participante: Sei que não aconteceu, que é imaginação.

Vamos deixar isso mais explícito.

Alguém te pede esmola e você diz que não tem dinheiro. Você sabe que está mentindo. Como você sabe que está mentindo?

Participante: Porque sei que estou inventando algo que não é fato.

Isso mesmo! E tem mais…

Participante: Sei que os fatos não correspondem ao que estou falando.

Explique melhor isso.

Participante: O fato é Xis e estou falando Ípsilon. Minha afirmação é diferente do fato.

Exato! O fato é que você tem dinheiro. Mas o que você diz ao pedinte não é descrição do fato, é descrição de uma imaginação. A imaginação não corresponde ao fato. Você sabe disso, então, você sabe que está mentindo. Mas o pedinte não sabe que você está mentindo. Por que não?

Participante: Porque o pedinte não tem acesso ao meu bolso nem a minha imaginação.

Isso mesmo! E como o pedinte pode saber que você está mentindo?

Participante: Desse jeito não pode. Mas o pedinte pode enfiar a mão no meu bolso e constatar que de fato tenho dinheiro no bolso.

Ótimo! Vou resumir antes de prosseguirmos. Você mentindo é você descrevendo uma imaginação como se fosse fato. Você sabe que está mentindo porque tem acesso aos seus fatos e imaginação. Como o outro não tem o mesmo acesso, fica impossibilitado de saber que você está mentindo. Está claro isso?

Participante: Sim, está claro.

Agora vou trocar o termo “fato” por “gabarito”. O dinheiro que você tem no bolso é o gabarito. Você está mentindo porque o que você diz para o pedinte não está EM acordo com o gabarito. Se não está EM acordo, como está?

Participante: Está SEM acordo.

Mentira = sem acordo com o gabarito. Essa é a definição de mentira que vamos usar para entendermos o outroísmo submisso. Sendo assim, pergunto: para você poder mentir, o que é imprescindível existir?

Participante: Existir gabarito.

Exato! Sendo que mentira é quando sua manifestação está SEM acordo com o gabarito, para que você possa mentir, tem que existir gabarito, senão, como sua manifestação pode estar SEM acordo com algo que não existe? Não pode!

É por isso também que você não consegue mentir para si mesmo. Você sabe dos seus gabaritos, sabe do que está acontecendo dentro de você. Por exemplo, quando você diz que está adorando uma festa que está detestando, você sabe que está mentindo porque sabe que está detestando.


02 | ANEL DE GIGES

Outroísmo submisso é fingimento. É quando você nega sua unicidade (gabarito) fingindo ser outro.

Para ilustrar, vou contar uma história mitológica.

Giges era um pastor que morava na cidade de Lídia. Um dia Giges encontrou um anel no dedo de um cadáver. Giges pegou o anel e foi para uma reunião de pastores. Em certo momento da reunião, Giges colocou o anel no dedo e ficou invisível para os pastores. Quando retirou o anel, voltou a ficar visível. Giges decidiu tirar vantagem do poder do anel. Seduziu a rainha, convenceu-a a matar o marido e se tornou rei.

Como o mito de Giges pode nos ajudar no entendimento do outroísmo submisso?

Quando Giges fica invisível, ninguém vê o que ele está fazendo, é como se Giges não existisse para os outros, então, ninguém têm como censurá-lo. Essa é a leitura tradicional do mito de Giges. Mas podemos pensar também que do ponto de vista de Giges, quando ele está invisível, quem deixa de existir não é ele, são os outros. Por isso que Giges se permite fazer o que quer quando está invisível e volta ao normal quando está visível.

Quando Giges está invisível, Giges é Giges, vive EM acordo com seu próprio gabarito, vive do jeito que quer viver. E por quê?

Participante: Porque não existe a possibilidade de censura do outro.

Isso mesmo! E quando Giges está visível, Giges é outro, vive EM acordo com o gabarito dos outros e SEM acordo com o próprio. Por que?

Participante: Porque existe a possibilidade de censura do outro.

O que o mito de Giges nos conta sobre o viver de Giges?

Participante: Que tem dois jeitos de Giges viver.

Isso! Giges pode viver EM acordo com seu gabarito ou SEM acordo.

O mesmo acontece com você. Você também tem essas duas opções. Você pode viver:

A) EM acordo com seu gabarito, sendo você de verdade.
B) SEM acordo com seu gabarito, sendo você de mentira.


03 | SERPENTE

Claro que seu impulso natural é viver sendo você de verdade. Então, para que haja desafio, tem que haver algo que te convença a optar pelo anti-natural. Tem que ter uma serpente no paraíso. Que serpente é essa?

Participante: Medo

Medo do que?

Participante: Do julgamento, da opinião do outro.

É mais convincente do que isso!

Participante: Medo de não ser aceito.

O oposto de aceitação é rejeição, então, você teme a rejeição, a reprovação, a censura. Coloque tudo isso numa palavra só, que palavra é essa?

Participante: Não sei.

Volte na infância e verá como isso tem se repetido desde seu primeiro instante de vida. Pense em Giges visível. Se Giges ficar visível e viver como quer, o que acontecerá com Giges?

Participante: Será punido.

Exatamente. O desafio é a punição. Giges quer viver do seu jeito, mas se faz isso visivelmente, pode ser punido. O anel resolve isso. Quando Giges coloca o anel ele não fica só invisível, fica impune também.

O jeito de viver de Giges representa o viver outroísta submisso. Mas por que viver sendo outro? Qual é o benefício?

Participante: Evitar ser punido.

Exato! Você opta pelo outroísmo submisso para evitar sofrimento. Mas é bom viver sendo outro? Você calça 38, mas opta por usar 32. É bom isso? Você gosta de tocar violão, mas opta por trabalhar de advogado. É bom isso? Você gosta de chinelo e bermuda, mas opta por usar terno, gravata e sapato. É bom isso?

Participante: Não! É ruim!

Percebe o que é o outroísmo submisso? Para não ser punido pelo outro, você tem a brilhante ideia de se punir primeiro. “Ninguém vai pisar em mim, eu mesmo vou me martelar!”. Para não ser punido, você mesmo se pune. Para não sair do paraíso, você mesmo se expulsa. Essa é a genialidade do outroísmo submisso. E o pior é que além de você se punir, o outro vai te punir também.

Participante: Melhor fazer o que quero já que o outro me pune de qualquer jeito.

Exato! Na adolescência isso acontece muito. Você se submete a imposição do grupo para ser aceito no grupo. Só que ainda assim o grupo despreza você, caçoa de você e sacaneia você. Resultado: são dois sofrimentos, duas punições.

Nas relações de pais e filhos isso também acontece muito. Você faz o que seus pais querem para não ser punido ou não ficarem chateados com você. Tem filho que faz faculdade que não gosta para agradar os pais. Daí, a cada dia que passa, o filho vai ficando mais magoado com os pais, porque todos os dias está fazendo algo que não gosta, porque se sente torturado. Só que não. É o filho que está se autotorturando.


04 | AUTOÍSMO

Para concluirmos, pergunto: o que é ficar invisível?

Participante: É mentir.

Sim, mas do ponto de vista de Giges, o que é mentir? Qual é seu objetivo com isso?

Participante: Burlar o jogo.

Exato! Quando Giges coloca o anel e fica invisível, ele está tentando fazer com que a causa não corresponda ao efeito. Giges quer optar, mas não quer experimentar o resultado de sua opção. Giges quer ficar impune. Na história Giges consegue, mas na prática é impossível. E pior! É tiro no pé! Pois além de você ser o primeiro a se punir, ainda assim o outro pode punir você.

Última pergunta: usando o mito de Giges, o que é autoísmo?

Participante: Autoísmo é viver EM acordo com o próprio gabarito sem o anel.

Bingo! Autoísmo é você se bancando. É você se permitindo ser você de verdade apesar da possibilidade de punição dos outros.

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