OUTROÍSMO

Vivendo outra vida

Livro da 1ficina | Marcelo Ferrari

01 | NOME AOS BOIS

A palavra outroísmo é uma invenção da 1ficina. Então, para que você possa entendê-la, preciso explicá-la. Mas antes de explicar o que é outroísmo, primeiro vamos entender algo sobre o processo de nomear e conceituar.

Nomear experiências comuns é fundamental para a comunicação. Quando se nomeia uma experiência abstrata, como calor, por exemplo, cria-se um conceito. Como o conceito dá concretude ao abstrato através da nomeação e da definição, fica parecendo que o conceito cria a experiência. É justamente o oposto. A experiência vem primeiro, depois para fins de comunicação, a experiência é nomeada e conceituada.

Por exemplo, uma pedra erguida e solta no ar sempre caiu no chão, até que um dia Issac Newton foi estudar essa experiência e a nomeou “lei da gravidade”. A experiência da gravidade já existia antes de Newton nomeá-la, mas a partir da nomeação ficou possível e mais fácil conversar sobre a gravidade e outras experiências físicas relacionadas a ela. Ou seja, a nomeação possibilitou a comunicação.

Outro exemplo é pensar na gripe. A experiência da gripe já existia antes de ser nomeada de gripe. Alguém deu o nome de gripe para gripe. A partir daí ficou mais fácil se referir e conversar sobre gripe. E por aí vai.

Nomear e conceituar é muito importante principalmente no campo da ciência. 1ficina é autociência. Então, no primeiro livro que escrevi para 1ficina, era preciso falar sobre um aspecto da experiência humana no qual ainda não havia uma palavra que possibilitasse isso. Sendo que não havia tal palavra, era preciso inventá-la. Foi por isso que inventei a palavra “outroísmo”.

Pensei em várias possibilidades. Primeiramente inventei uma palavra similar: outrocentrismo. Usei essa palavra na primeira edição do livro EUreka. Mas achei que “outroísmo” era uma palavra melhor porque era menor. Daí mudei de opção.

Mas enfim, quando inventei a palavra “outroísmo” foi para dar nome a um boi que já existia. Ou seja, a palavra é invenção minha, mas o outroísmo ao qual a palavra se refere não é invenção minha. Outroísmo é algo que faz parte da experiência humana. Inventei a palavra porque era como se eu precisasse falar do nariz, mas ainda não existisse a palavra nariz.


02 | EGOÍSMO UNIVERSAL

Por que decidi inventar uma palavra ao invés de usar as palavras que já existiam? O que acontece é que tem uma palavra que é muito mal usada e por isso ao invés de ajudar, só atrapalha. Que palavra é essa? É a palavra “egoísmo”.

No entendimento geral, o egoísmo é o culpado, é o problema. Isso é um equívoco. Egoismo não é problema. O problema é acreditar que o egoísmo é o problema. Egoísmo é inevitável. Nem você, que é ser humano, nem qualquer outro ser no universo tem como deixar de ser egoísta. Egoísmo é natural e universal. Todo ser é egoísta por natureza.

Egoísmo é cuidar de si. O sol cuida de si. A samambaia cuida de si. A abelha cuida de si. A célula cuida de si. Todos os seres do universo são egoístas porque o universo só sabe cuidar de si, só se importa consigo. O universo é o egoísmo absoluto. Todos os seres são o universo. Então, o egoísmo de cada ser é o egoísmo universal. Quando um ser tenta não ser egoísta ele está apenas sendo egoísta no sentido de tentar não ser egoísta.

Não tem como deixar de ser egoísta. Esse é um dos problemas da palavra “egoísmo”. Por causa do significado pejorativo associado a palavra, o egoísmo recebe uma culpa que ele não tem. E pior! Ainda transmite o equívoco de que é possível deixar de ser egoísta. Isso não resolve o problema, cria o problema. Quando você tenta fazer uma coisa que é impossível você se condena ao fracasso e essa condenação é você vivendo mal.


03 | NATURAL, UNIVERSAL E INEVITÁVEL

A palavra egoísmo é tão martirizada ao ponto de ser vista como o demônio. No começo da 1ficina, quando ia explicar que egoísmo é natural, o repúdio era imediato. As pessoas não tinham sequer estômago para ouvir. Elas logo diziam: “Você está defendendo o egoísmo! Como pode? Você é louco!”. Era muito difícil aprofundar no autoconhecimento por conta do mal entendimento do egoísmo.

Egoísmo nada mais é do que desejar. Em algumas tradições o demônio é o egoísmo, em outras usa-se a palavra “desejo”, daí o demônio é o desejo. Egoísmo e desejo é como seis e meia dúzia, são sinônimos. É impossível você deixar de desejar porque você é egoísta. Sua natureza é pulsante, desejante, egoísta. Você deseja seu próprio bem. Isso é natural, universal e inevitável.

Egoísmo é benéfico tanto para você como para os outros. Quando você cuida de si é bom para você, porque você fica bem cuidado. E é bom para todos os outros que não precisam cuidar de você, pois você mesmo está cuidando de si. Egoismo é fundamental para viver bem e conviver bem. Só que a palavra “egoísmo” gera repulsa por força da cultura. Esse era metade do meu problema.


04 | PROBLEMA INTEIRO E SOLUÇÃO

Egoísmo é benéfico, mas a palavra egoísmo pode sim apontar para algo danoso e prejudicial. Por exemplo, quando você abusa do outro para seu benefício ou vice-versa. Então, a palavra egoísmo pode apontar tanto para um bem como para um mal. Uma mesma palavra com dois significados opostos. Essa era a outra metade do meu problema. Eu precisava resolver isso para depois poder esclarecer o sofrimento e a causa do mal viver.

Como separar duas coisas distintas coladas numa mesma palavra? A solução foi criar duas novas palavras. “Outroísmo”, para apontar o mal uso do egoísmo, o tipo de uso que gera mal viver. E “autoísmo”, para apontar o bom uso do egoísmo, o tipo de uso que gera bem viver.

Uma vez separados esses dois jeitos de usar o egoísmo, a 1ficina deixou de usar a palavra egoísmo e passou a usar apenas a palavra desejo. É por isso que na literatura da 1ficina você não encontra a palavra egoísmo, só encontra a palavra desejo.


05 | O QUE É OUTROÍSMO?

Tem várias maneiras de definir e entender o outroísmo, pois o outroísmo tem vários aspectos. Vamos começar pela seguinte definição:

Outroísmo é um jeito de viver.

Você está sempre vivendo. É só isso que você faz. Não tem outra coisa para você fazer senão viver. Descreva a si mesmo tudo que você faz e ficará evidente que tudo é você vivendo. Isso passa despercebido porque você nomeia seu viver com vários verbos: acordar, andar, estudar, trabalhar, namorar, almoçar, descansar, ir, voltar, etc. Só que todos esses verbos são um verbo só: viver.

Tudo é você vivendo. É só isso que você faz: viver. Não tem uma segunda coisa para você fazer. Outroísmo é um jeito de você fazer essa única coisa que você tem para fazer: viver. Mas se é “um” jeito de viver, isso significa que não é o único, que deve existir outro jeito de viver.

Sim, existem dois jeitos de você viver.

(A) Você pode viver de um jeito OUTROísta.
(B) Você pode viver de um jeito AUTOísta.

Outroísmo é um jeito de viver que resulta em viver mal.
Autoísmo é um jeito de viver que resulta em viver bem.

Ainda não expliquei que jeitos são autoísmo e outroísmo, mas já estou explicando o resultado de cada opção. Você pode viver de um jeito outroísta ou autoísta. Essas são suas duas opções. Você usa seu arbítrio e decide. Quando você opta viver outroísta, seu viver é de má qualidade, você vive mal. Quando você opta viver autoísta, seu viver é de boa qualidade, você vive bem.

Sendo assim, temos aqui uma ampliação do que é outroísmo: Outroísmo é um jeito de viver que resulta em viver mal. Agora você já tem o começo e o fim da história. Falta o meio. Como é esse jeito de viver chamado outroísmo? E por que viver outroísta é viver mal?


06 | VOCÊ SENDO OUTRO

Outroísmo é o jeito de viver em que você vive sendo outro. Você pode viver sendo você mesmo, único, singular. Mas você pode se proibir de viver sendo você mesmo. Se você não está sendo você, está sendo outra coisa, outro ser, outra pessoa, por isso seu viver é OUTROísta.

Vou citar dois exemplos para ilustrar. Primeiro uma analogia.

Imagine que você é um gato. Você mia, bebe leite, arranha o sofá, pula, etc. Seu viver é o viver de um gato sendo gato. É um viver tranquilo, bom, fácil, prazeroso. Agora imagine que você é um gato tentando latir, roer ossos, cavar buraco, enfim, tentando ser um cachorro. Sua natureza não é de cachorro. Cachorro é outro. Você é gato. Então, você tentando viver como cachorro é viver outroísta, que é viver mal.

Outro exemplo, imagine que você goste de piada, goste de diversão, goste de falar besteira, mas você se obrigue a viver sério. Sério é outro. Você é brincalhão. Então, você tentando viver sério, para você é viver outroísta, que é viver mal.


07 | OUTROÍSMO NÃO FUNCIONA

Outroísmo não funciona porque você não funciona fora da sua natureza. Viver mal não é um castigo por você ter feito uma opção demoníaca ou errada, é apenas o que acontece quando você tenta funcionar de um jeito que não funciona para você. Imagine um cachorro tentando botar um ovo, é dolorido, é sofrido, é viver mal. Outroísmo não funciona. Por isso que viver outroísta é viver mal.


08 | COM EDUCAÇÃO

É natural para o gato viver sendo gato. É natural para o cachorro viver sendo cachorro. É natural para galinha viver sendo galinha. É natural para a samambaia viver sendo samambaia. É natural para a aranha viver sendo aranha. Mas você não vive sendo você. Por que não? Como isso é possível? Como é que você se torna outro? Ou seja, outroísta?

O que possibilita o outroísmo na experiência humana é a educação. A experiência animal e vegetal são experiências sem educação. Passarinho não aprende a ser passarinho, já nasce sabendo. Tartaruga e samambaia também. Ser humano não. O ser humano precisa de educação para viver. Sem aprendizagem você não faz nada. Então, o que tem na experiência humana que possibilita o outroísmo é a educação.

Você é educado pelo outro a viver igual o outro. Por isso você pode ser educado fora da sua natureza, como naquele exemplo de você ter a natureza de ser brincalhão, mas é educado para viver sendo sério. É a educação que possibilita que você viva não sendo você, que você viva sendo o outro, que você viva outroísta. Mas isso não significa que a educação por si só seja a vilã. Depende do tipo de educação. Educação em desacordo com sua natureza influencia você a viver mal. Educação é benéfica quando ajuda você a viver em acordo com a sua natureza.

Então, sua educação pode ser de dois tipos também:

(A) Uniformista – todos iguais.
(B) Universalista – todos igualmente diferentes.

Quando sua educação é do tipo que respeita sua unicidade, singularidade, natureza, é uma educação universalista e te ajuda a viver bem. Quando acontece o oposto. Quando sua educação desrespeita sua unicidade, singularidade, natureza, é uma educação uniformista e te ajuda a viver mal.

Com a prática do autoconhecimento você pode alterar sua educação e realinhá-la a sua unicidade.

Resumindo e finalizando:

O que é outroísmo?
— É um jeito de viver.
Que jeito é esse?
— Quando você vive sendo outro.
Por que você faz isso?
— Porque você foi educado a viver em uniformidade.
Você pode mudar isso?
— Sim, você pode.
Como mudar isso?
— Praticando autoconhecimento.

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