OUTROÍSMO IMPOSITIVO

Prisão disfarçada de liberdade

Livro da 1ficina | Marcelo Ferrari

01 | VIOLÊNCIA INEVITÁVEL

Outroísmo impositivo é quando você tenta impor ao outro o que você considera melhor, é quando você tenta impor seu jeito de viver ao outro, é quando você tenta fazer o outro viver de acordo com seu quatrix. Ao fazer isso, você está violando a individualidade do outro.

Lembrando que violência pode ser física, sensorial, afetiva e racional, afirmo que violentar o outro é inevitável. E pergunto: por que?

INTERLOCUTOR: Porque não sou o outro e vice versa.

Exato! Outroísmo impositivo é inevitável pelo simples fato de que você não é o outro. A própria alteridade faz com que a violência seja inevitável.

Agora, vamos aprofundar nisso. Por que a alteridade torna a violência inevitável?

INTERLOCUTOR: Porque eu não sei o que é melhor para o outro e vice versa.

Tem certeza disso?

INTERLOCUTOR: Sim, tenho.

De onde vem sua certeza?

INTERLOCUTOR: Só sei de mim. Não sei o que o outro pensa, sente, gosta, quer, etc.

Exatamente! Você sabe o que você pensa, sente, gosta, quer, mas não sabe nada disso do outro. Usando os termos da 1ficina, você experimenta seu quatrix, mas não experimenta o quatrix do outro. Certo?

INTERLOCUTOR: Certo.

Sendo que você está constantemente e inevitavelmente convivendo com o outro, mas não experimenta o quatrix do outro, o que você faz?

INTERLOCUTOR: Eu violento o outro.

Sim, mas tem uma coisa que você faz antes disso que resulta nisso.

INTERLOCUTOR: Eu penso saber pelo outro.

Quase isso.

INTERLOCUTOR: Eu imagino.

Quase isso.

INTERLOCUTOR: Eu adivinho.

Se você pudesse adivinhar o quatrix do outro, estava tudo resolvido. A violência só existe porque é impossível um adivinhar o quatrix do outro.

INTERLOCUTOR: Eu suponho.

Isso mesmo! Você supõe. Você não pode experimentar o quatrix do outro, mas como está constantemente e inevitavelmente convivendo com o outro, só lhe resta supor o que o outro pensa, sente, quer, gosta, etc. Só que para supor, você deve se basear em algo. No que você se baseia?

INTERLOCUTOR: Me baseio em mim.

Exato! Você se baseia no seu quatrix. Você só pode experimentar seu quatrix, então, você só tem seu quatrix para se basear. Está claro isso?

INTERLOCUTOR: Sim, está!


02 | PENSA QUE SABE

Ótimo! E qual é o problema com sua suposição?

INTERLOCUTOR: O problema é que eu sou diferente do outro e vice versa.

Exatamente! O problema é que você é diferente do outro e vice versa.

Só que você não tem outra opção senão supor. Você é um indivíduo. Você só pode supor seu quatrix para o outro. E é isso que você faz. Você se baseia em si e supõe o que é melhor para o outro. Mas você é diferente do outro e vice versa, então, sua suposição é sempre equivocada.

INTERLOCUTOR: Estou a 33 anos batendo na mesma tecla. Finalmente entendi.

Outroísmo impositivo é uma opção QUASE inevitável. Sua própria natureza de individuo lhe induz a viver de forma outroísta impositiva.

Outroísmo submisso é fácil de você perceber. Você sente na pele que determinada opção não está em acordo com seu quatrix. Você sente sua dor, sente seu sofrimento. Mas quando você está sendo outroísta impositivo, você não sente a dor que está causando no outro. A bala que está saindo do seu revólver não está ferindo você, então, você não sabe que está violentando o outro. E vice versa. O outro também não sabe que está violentando você.


03 | ONISCIÊNCIA

INTERLOCUTOR: Não tem como saber do quatrix do outro de jeito nenhum?

Sim, tem um jeito. Só um. Mas para que você possa colocar esse único jeito em prática, antes você precisa estar consciente de algo, senão, é impossível. Que algo é esse?

INTERLOCUTOR: Estar consciente de que é impossível saber do quatrix do outro.

Exatamente! Enquanto você estiver convicto de que é possível saber do quatrix do outro, não tem como você sair do outroísmo impositivo. Só quando você está consciente de que é impossível, você pode optar por outra estratégia de saber que não a suposição.

INTERLOCUTOR: Qual estratégia?

A estratégia do diálogo. Simples assim! A estratégia que torna você onisciente é a comunicação. É através do diálogo, e só através do diálogo, que você consegue saber do outro e assim minimizar a violência (outroísmo impositivo).

A matemática da convivência funciona assim:

Quanto menos diálogo,
mais outroísmo impositivo,
quanto mais outroísmo impositivo,
mais violência,
quanto mais violência,
pior a qualidade da convivência.

Quanto mais diálogo,
menos outroísmo impositivo,
quanto menos outroísmo impositivo,
menos violência,
quanto menos violência,
melhor a qualidade da convivência.


04 | EQUÍVOCO SINCERO

O filme Energia Pura simula uma pessoa que consegue experimentar o quatrix do outro, que consegue saber o que o outro pensa, sente, quer, gosta, etc. Então, esse filme ajuda a entender porque você é inevitavelmente violento. Você violenta o outro sem saber que o está violentando. Você supõe que está lhe fazendo um bem. Tem convicção de que está lhe fazendo um bem.

Está claro isso?

INTERLOCUTOR: Sim, está.

Então, vamos dar mais um passo no entendimento do outroísmo impositivo.


05 | COISIFICAÇÃO

Quando você desconsidera o quatrix do outro, o que você está fazendo com o outro?

INTERLOCUTOR: Violentando o outro.

Nessa pergunta, não me refiro ao seu comportamento, mas sim ao seu estado mental. Quando você desconsidera o quatrix do outro, o que você está fazendo com o outro dentro da sua cabeça?

INTERLOCUTOR: Supondo que o outro é igual a mim.

Também. Mas é outro aspecto que quero deixar explícito.

INTERLOCUTOR: Desconsiderando a unicidade do outro.

Também. O que quero apontar é que você está coisificando o outro. Na mentalidade outroísta impositiva, você não vê o outro como um indivíduo, vê com uma coisa, um objeto. Por isso você chuta o outro como se fosse bola e lhe dá ordens como se fosse robô. Coisas não tem vontade própria, você é a vontade das coisas. Só que indivíduos tem vontade própria. E indivíduos não são coisas. Esse é o equívoco.

Só que esse é um equívoco construído na infância, então, é muito arraigado.

Vamos entender melhor isso.

Assim que você nasceu você sentiu fome. O que você fez?

INTERLOCUTOR: Eu chorei.

E o que aconteceu?

INTERLOCUTOR: Minha mãe me deu comida.

Sua mãe te deu leite no peito, ou então, lhe trouxe fruta, manga, por exemplo. Ok?

INTERLOCUTOR: Ok.

Você perguntou para manga se ela queria ser comida?

INTERLOCUTOR: Não.

Você perguntou para o leite se ele queria ser bebido?

INTERLOCUTOR: Não.

Você perguntou para sua mãe se ela queria ter o peito sugado?

INTERLOCUTOR: Não.

Por que não? O que era sua mãe, a manga e o leite para você?

INTERLOCUTOR: Eram coisas.

E o que você fez com essas coisas?

INTERLOCUTOR: Eu usei.

Usou para que?

INTERLOCUTOR: Para satisfazer minha fome.

Sendo assim, para que servem as coisas?

INTERLOCUTOR: Coisas servem para me satisfazer.

Eis a mentalidade outroísta impositiva: o outro é uma coisa que serve para me satisfazer.

Ninguém te ensina a viver de forma outroísta impositiva, você aprende com a fome. Se você não comer a manga, se não beber o leite, você morre de fome.

INTERLOCUTOR: Ou aprendo ou morro!

Exato! Quando você era neném e sentia fome, você olhava para sua mãe e perguntava assim: “Querida mamãe, estaria você disposta a colaborar com minha alimentação e colocar seu peito na minha boca?”. Era assim sua interação com sua mãe?

INTERLOCUTOR: Não! Eu grudava no peito e mamava!

Que nome podemos dar para esse tipo de interação?

INTERLOCUTOR: Usar.

Sim, mas tem uma palavra melhor.

INTERLOCUTOR: Manusear.

Tem uma palavra melhor ainda.

INTERLOCUTOR: Controle.

Isso!


06 | CONTROLE OU MORTE

Logo que você nasce você aprende sozinho que precisa controlar as coisas ao seu redor ou vai morrer. Controle ou morte! Isso é fato até hoje! Você precisa controlar o garfo e a faca para comer. Você precisa controlar a temperatura da água para cozinhar. Você precisa controlar o sabonete para se lavar. Você precisa controlar o carro para se deslocar. Observe sua rotina. Você passa o dia inteiro controlando as coisas. Não é só na infância. Na infância você começa a entender que deve controlar as coisas. E isso continua para sempre.

E você não controla apenas para não morrer de fome. Comer não é seu único desejo. Você também quer ter prazer, por exemplo. E para ter prazer, você pode, por exemplo, controlar a televisão e colocar no filme que você gosta. Você também quer afeto, apreço, amor. Você também quer verdade. E para satisfazer tudo isso: controle.


07 | COOPERAÇÃO

Você descobre na infância que precisa controlar as coisas e cresce fazendo isso. Daí você vai descobrindo que você mesmo não é uma coisa, que você é um ser humano, um indivíduo, com vontade própria. Então, você começa a considerar que o mesmo deve ser com os outros seres humanos. Você começa a considerar que sua mãe não é uma coisa. Você pensa assim: “Se dói quando me tratam como coisa, então, deve doer no outro também”.

Daí surge uma nova possibilidade de convivência. Qual?

INTERLOCUTOR: Convivência humana.

Vou usar outra palavra para expressar o oposto de imposição. Daí surge a possibilidade de cooperação. Daí surge a possibilidade de você conviver com o outro de fato, outro você, outro ser humano, outro indivíduo e não uma coisa que só existe para te satisfazer.

INTERLOCUTOR: Muda tudo, né?

Muda tudo sem mudar nada. Eis o poder do despertar da consciência.


08 | DEUS DOS OUTROS

Vou contar uma história para explicar porque você acredita que outroísmo impositivo é bom e porque não é.

Era uma vez um cara que acreditava ser dono dos outros, mais especificamente dos moradores do vigésimo andar de um prédio. Ele morava no corredor do prédio e decidia a vida de todos naquele andar. Era ele quem determinava quem entrava e quem saía, o que podia e o que era proibido. Então, um dia, um morador do sétimo andar, desceu por engano no vigésimo andar. O cara foi imediatamente reclamar com ele.

— Você não pode ficar aqui!
— Que andar é esse? — perguntou o intruso.
— Esse é o vigésimo andar!
— Acho que desci no andar errado.
— Pois é! Pode ir embora!

O intruso estranhou o comportamento do cara e perguntou:

— Quem é você para me mandar embora?
— Meu nome é Deus. Sou o dono desse andar. Aqui mando eu. Todos me obedecem. Só entra aqui quem eu permito entrar. Só sai daqui quem eu permito sair. Só acontece o que eu permito acontecer. Eu decido a vida de tudo e de todos.
— Faz tempo que você manda aqui?
— Eu mando aqui a 30 anos.
— Deve ser trabalhoso decidir a vida de tudo e de todos?
— É muito trabalhoso! Eu trabalho 24 horas por dia, sete dias por semana.
— E isso a 30 anos!
— Exato! 30 anos sem férias.

O intruso andou pelo vigésimo andar e foi até a janela no final do corredor. Da janela dava para ver uma cidade imensa. Ele chamou Deus até a janela, apontou para fora e começou a perguntar:

— Você já comeu naquele restaurante ali?
— Não — disse Deus.
— Já andou por aquela rua?
— Também não — disse Deus.
— Já atravessou aquela ponte?
— Não — disse Deus.
— Já entrou naquele supermercado.
— Não — disse Deus.
— Já foi naquela padaria?
— Não — disse Deus.
— Você conhece algum outro lugar além do vigésimo andar?
— Não — disse Deus.
— E por que não?
— Porque não é fácil cuidar da vida dos outros! São muitos detalhes e muitas ordens para dar para cada um. São 24 horas de trabalho, sem parar, não sobra tempo para fazer mais nada — disse Deus.
— Ué, você é dono do outros ou escravo deles? — perguntou o intruso.

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