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Trauma sem traumas

Livro da 1ficina | Marcelo Ferrari

01 | VIVER É TRAUMATIZANTE

Tudo gera trauma. Trauma é marca, registro, memória. Tudo que você experimenta gera marcas, registros, memórias. Viver é traumatizante. Viver gera constante traumatização mental (memórias). O que acontece, é que você usa a palavra trauma só para as memórias de experiências desagradáveis. Mas tanto experiências desagradáveis como agradáveis geram traumas (memórias). Tudo que você experimenta gera trauma (memória). Para as memórias de experiências desagradáveis, você usa a palavra trauma, para as memórias de experiências agradáveis, você usa outra palavra. E além de você considerar trauma apenas as memórias desagradáveis, você também só considera trauma as memórias extremamente desagradáveis, as memórias medianamente desagradáveis, ou só um pouquinho desagradáveis, você não considera trauma.

Sem causa é impossível ter efeito.

VIVER É CAUSA.
Viver causa traumas mentais.
Viver é mentalmente traumatizante.
Viver é fábrica de traumas (memórias).
Viver produz traumas (memórias).

TRAUMA É EFEITO.
Trauma é produzido pelo viver.
Trauma é produto do viver.
Trauma é memória do viver.
Trauma é o vivido.


02 | SEM SABER É IMPOSSÍVEL VIVER

Uma vez entendido que viver é traumatizante, que trauma é memória, já podemos começar a entender outro ingrediente do trauma: o saber. Memória só é relevante para qualidade do seu viver, porque você sabe do vivido, e precisa dele para viver. Você é um ser humano, então, seu viver se dá através do seu saber. O que você faz é o que você sabe fazer. A forma como você se comporta é a forma como você sabe se comportar. Você é incapaz de fazer o que não sabe fazer. Você é incapaz de se comportar de um jeito que não sabe se comportar. Você pode aprender novos comportamentos, mas antes de aprender, você é incapaz de realizá-los, pois você não sabe como realizá-los. Ou seja, sem saber é impossível viver. Você ignora essa obviedade porque você já sabe viver. Mas quando você observa um bebê recém-nascido novamente fica evidente que sem saber é impossível viver. Um bebê é incapaz sequer de SOBREviver devido seu estado de ignorância (não saber).


03 | SABER É LEMBRAR

Tudo que você sabe é tudo que você lembra. Esta é outra obviedade que passa desapercebida quando você se torna adulto. Um ser humano recém-nascido, ou seja, um bebê, não sabe nada porque não tem nada para lembrar. Saber é lembrar. Saber o próprio nome, é lembrar o próprio nome. Saber que galinha bota ovo, é lembrar que galinha bota ovo. Saber que fogo queima, é lembrar que fogo queima. Saber que o chuveiro fica no banheiro, é lembrar que o chuveiro fica no banheiro. Saber como se amarra o cadarço, é lembrar como se amarra o cadarço. Enfim, saber é lembrar. E sendo que trauma e memória são palavras diferentes para dizer a mesma coisa, então, saber é reviver traumas, reviver o vivido, lembrar.


04 | INGREDIENTES DO TRAUMA

Quais são os ingredientes que compõem o trauma? São dois: significante e significado. Trauma é associação mental entre significante e significado. Atenção para sutiliza de entendimento. Trauma não é a somatória de significante e significado. Trauma é a associação, a correspondência, a equivalência ente significante é significado.


05 | SIGNIFICANTE E SIGNIFICADO

Significante e significado são palavras que vem da semiótica, uma ciência que estuda a natureza da linguagem humana. Significante e significado foram palavras cunhadas para tratar da linguagem verbal, escrita e pictórica. Neste livro, vamos extrapolar este limite da semiótica para toda realidade humana. Sendo assim, nossa definição de significante e significado para este estudo, é a seguinte:

Significante é realidade (concreta ou abstrata).
Significado é qualificação mental associada ao significante.

Por exemplo, quando você olha para as coisas, as coisas que você está olhando, são significantes concretos. O sentido que as coisas têm para você, o que você pensa e sente em relação as coisas, são os significados. É por isto que uma maçã, por exemplo, é um significante que pode significar comida para uma pessoa, telefone celular para outra, e Isac Newton para outra. Significado é qualificação mental associada ao significante. Coisa é um jeito de dizer significante concreto. Mas um significante pode ser abstrato também. Saúde, primavera, vida, férias, emprego, casamento, esporte, namoro, amor, tudo isto são significantes também, porém abstratos. É por isto, por exemplo, que ninguém entra em acordo sobre o sentido da vida. Vida é significante, sentido da vida, é significado. Significado é qualificação mental associada ao significante. Cada um tem associações mentais diferentes, por isto o desacordo.


06 | EXPLICITO E IMPLÍCITO

Significante é explícito (consciente). Significado é implícito (inconsciente). Quando alguém lhe diz que tem trauma de andar de bicicleta, o que essa pessoa está lhe contando é apenas o significante, que é a parte consciente do trauma. Mas o que faz com que a pessoa se sinta mal em relação a esse significante, não está sendo dito, está implícito (inconsciente). O que faz com que a pessoa se sinta mal, é o significado que ela tem associado ao significante. É por isto que o significante andar de bicicleta, pode fazer uma pessoa se sentir muito bem, e outra se sentir mal, cada um tem um significado diferente para significantes iguais.


07 | ESTRUTURA DO TRAUMA

Para que o significado inconsciente de um trauma se torne consciente, é necessário investigar ao que o significante está associado. Você pode fazer isto se perguntando o que o significante significa para você. Vamos supor que você seja a pessoa que tem trauma de andar de bicicleta e decidiu investigar seu trauma. Você se pergunta: “O que andar de bicicleta significa para mim?”. Vamos supor que você descubra que “andar de bicicleta” significa “Campinas”. Pronto! Você começou a descobrir como é a estrutura do seu trauma. Você descobriu que “Andar de bicicleta = Campinas”. Mas essa descoberta não explica porque você se sente mal com o significante “Andar de bicicleta”. Deve haver algo mais para ser descoberto. Sim, há muito mais. Veremos a seguir.


08 | FIM DA VIAGEM

Investigar um significado é similar a navegar na internet. Cada significado é como um link que leva a outro significado, que também é um link que leva a outro significado, que também é um link, e assim por diante. Só que a navegação pela internet não tem fim, a navegação pelo significado tem. Seja uma navegação longa ou curta, a navegação pelos significados sempre termina em uma das oito qualidades explicados no livro Quatrix. No capítulo 06 definimos significado como “Qualificação mental associada ao significante”, não foi? Pois então, todas as diversas qualificações que associamos aos diversos significantes, se resumem a apenas oito: verdadeiro e falso, caro e nulo, bom e ruim, bem e mal. Este é o fim de toda viagem. O primeiro, o segundo, o terceiro, o quarto, o milésimo, o enésimo significado associado pode ser qualquer um, mas o último sempre é um desses oito.

No caso do trauma de andar de bicicleta, supondo que seja seu caso, o primeiro significado que você encontrou foi “Campinas”. Se você continua na navegação se perguntando “O que Campinas significa para mim?”. Você pode descobrir que Campinas = Férias escolar. Se você continua na navegação, você pode descobrir que Férias escolar = Casa do seu primo. Se você continua na navegação, você pode descobrir que Casa do seu primo = Bicicleta. Se você continua na navegação, você pode descobrir que Bicicleta = Primo com perna quebrada. Se você continua na navegação, você pode descobrir que Perna quebrada = Mal (malefício).

Pronto! Fim da viagem. Sua estrutura traumática é:

Andar de bicicleta = Campinas = Férias escolar = Casa do seu primo = Bicicleta = Primo com perna quebrada = Mal (malefício)

Eis porque você se sente mal com o significante “andar de bicicleta”.

Para você: Andar de bicicleta = Mal (malefício)


09 | PRODUTORES DE TRAUMAS

Quando alguém lhe diz que jiló é bom, que é gostoso, você pode até não concordar, mas entende perfeitamente o que a pessoa está lhe dizendo. Quando alguém lhe diz que rock é melhor do que samba, você pode até não concordar, mas entende perfeitamente o que a pessoa está lhe dizendo. Ou seja, verdadeiro e falso, caro e nulo, bom e ruim, bem e mal, é igual para todo ser humano. O que muda de um ser humano para outro não são os significantes nem os significados que cada um tem na cabeça. O que muda não são os ingredientes do trauma. O que muda é a forma como os mesmos ingredientes estão associados dentro da cabeça, ou seja, o que muda é a estrutura traumática que cada um constrói durante seu viver.

Para ilustrar e entender isto, você pode pensar em música. Todas as diferentes músicas são feitas das mesmas sete notas musicais, dó, ré, mi, fá, sol, lá, si, dó. Então, por que todas as músicas não são a mesma música? Porque a forma como as notas estão associadas umas às outras é diferente. Analogamente, o mesmo acontece com os traumas. Tocar um instrumento é associar sete notas para produzir música, viver é associar significantes a oito significados para produzir traumas. Ou seja, assim como ser músico é ser um produtor de música, ser humano é ser um produtor de traumas.


10 | ATRAÇÃO E REPULSÃO

Assim como imãs de polaridades opostas se atraem, você também é atraído pelo verdadeiro, pelo caro, pelo bom e pelo bem. Esta atração é inevitável porque esse é o DESEJO humano. Todo ser humano quer o verdadeiro, o caro, o bom e o bem. Assim como imãs de polaridades iguais se repelem, você também é repelido pelo falso, pelo nulo, pelo ruim e pelo mal. Esta repulsão é inevitável porque esse é o MEDO humano. Ninguém quer o falso, o nulo, o ruim e o mal. É por isto que você é atraído ou repelido para um significante. Quando um significante está associado a algum dos seus quatro desejos, você deseja o significante, sente atração por ele. Quando um significante está associado a algum dos seus quatro medos, você tem medo do significante, sente repulsa por ele. É por isto também que um mesmo significante é atraente para um e repelente para outro. O que torna um significante atraente ou repelente, não é o significante, mas o significado que cada um tem associado a ele.


11 | ESPELHO DO TRAUMA

Você vive sob a convicção de que os significados saem dos significantes e entram em você, assim como a luz sai da lâmpada e entra em seus olhos. Por exemplo, quando você diz que andar de bicicleta é perigoso. Andar de bicicleta é significante. Perigoso é significado. Mas como o significado é inconsciente, você iguala andar de bicicleta com perigoso. Por isto surge em você a convicção de que o “perigo” sai da bicicleta e entra em você, assim como a luz sai da lâmpada e entra em seus olhos.

Com auto-observação este equivoco se torna evidente. Você percebe que os significados não estão nos significantes, mas em você mesmo. Quando você percebe isto, fica fácil de entender também que um significante funciona como um espelho, refletindo seus quatro desejos humanos. E que, até quando um significante está associado a um significado repelente, também está refletindo o que você quer, pois o que você não quer só existe, para que você possa entender o que você quer.

Sendo assim, todo trauma tem uma história significativa para te contar. No caso do trauma de andar de bicicleta, por exemplo, a história significativa era: Andar de bicicleta = Campinas = Férias escolar = Casa do seu primo = Bicicleta = Primo com perna quebrada = Mal (malefício). E a moral dessa história era: Você quer o bem e não quer o mal.

A moral de toda história traumática é sempre:

Quero o bem e não quero o mal.
Quero o bom e não quero o ruim.
Quero o caro e não quero o nulo.
Quero o vero e não quero o falso.

Sempre essas quatro. Nenhuma a mais.


12 | MAPA PARA VIVER BEM

Toda vez que você toma consciência de uma estrutura traumática, essa estrutura deixa de ser piloto do seu viver, e é recolocada na função natural dela: mapa. Esta é a função de toda estrutura traumática, servir de mapa para você viver bem. Por exemplo, o trauma que diz que colocar a mão no fogo = queimadura = dor, é um mapa para você não mais se queimar. Acontece que muitos mapas que você tem, são mapas que não lhe servem para viver bem, são desatualizados, ou então, são emprestados, são mapas que você copiou dos outros, dos seus pais, dos amigos, da sociedade, das religiões, etc, e como cada um é diferente do outro, quando você usa o mapa dos outros, você vive mal. Mas quando você traz seus mapas ao nível consciente, fica evidente se são bons ou maus mapas. Você tem uma Eureka, e a própria EUreka que você tem, tira o mapa do volante e o recoloca na função de mapa. E também altera o mapa no que estiver equivocado. Então, quanto mais EUreka, melhor. E como ter EUrekas? Praticando auto-observação.


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